CIÊNCIA

O azar do Távora

O senhor João Távora brindou-nos há dias com uma linda história de encantar. O era-uma-vez tem lugar num país abençoado por um clima idílico e habitado por gentes simples que vivem alegremente ao ritmo das quatro estações. A primavera florida prepara o lânguido verão em que os corpos se desnudam enchendo praias e esplanadas, e o outono melancólico promove o recolhimento necessário para a chegada do inverno em que os corpos se tapam para enfrentar a batalha da produção. Mas não há bela sem senão e no país de sonho as gentes são atormentadas por um maléfico bando de profetas da desgraça que espalham notícias aterradoras de desastres e intempéries iminentes. A história tem um final feliz porque o tempo, que tem “a audácia de ser imprevisível”, troca as voltas aos “especialistas de serviço” tornando-os alvo de troça por parte dos virtuosos habitantes.
Se o país abençoado não fosse Portugal e se o bando de gente malévola não incluísse a classe dos meteorologistas e dos climatologistas, o texto a roçar o piroso do senhor João Távora teria ido diretamente para os lugares mais recônditos do meu inconsciente onde ficaria para sempre alojado no arquivo morto. Acontece que o facto de ser português, climatologista e professor de climatologia me impele triplamente a reagir, pese embora a elevada probabilidade de a minha reação vir a cair em saco roto.Comecemos então pela qualidade das previsões meteorológicas acerca das quais o senhor João Távora tem a bondade de recordar que “a meteorologia era a arte de prever o tempo depois de ele ter acontecido”, acrescentando que, nos tempos que correm, se transformou numa “filial do drama grego”. Ora, a qualidade de uma previsão pode ser aferida de uma forma objetiva recorrendo à matemática, verificando-se atualmente que as previsões até 48 horas têm uma taxa de acerto de 95 a 97 por cento, as previsões de três a cinco dias uma taxa da ordem de 90 por cento e as previsões a uma semana uma taxa à volta de 80 por cento. Esta informação, bem como a documentação (séria) que a suporta pode ser facilmente obtida recorrendo, por exemplo, ao Gemini AI do telemóvel, mas, ao que tudo indica, o senhor João Távora terá falta de inteligência (artificial), ou, para ser mais preciso, falta de meios (ou de vontade) para dela se socorrer.Debrucemo-nos agora sobre as quatro estações poeticamente descritas pelo senhor João Távora. Do ponto de vista menos poético da climatologia, as estações não são mais do que o reflexo da variação ao longo do ano da energia solar recebida pelo planeta Terra numa dada latitude devido à inclinação do eixo de rotação sobre o plano da órbita em torno do Sol. A variação de energia afeta a dinâmica da atmosfera, refletindo-se, em particular, nos ciclos anuais da temperatura e da precipitação. Ora, estes ciclos não são estáticos e analisando séries longas de temperatura e de precipitação observam-se mudanças sistemáticas ao longo do tempo que, na Europa, se traduzem, por exemplo, num avanço da primavera com o início do pólen a ter presentemente lugar 10 dias em média mais cedo do que nos anos sessenta do século passado. Estas alterações, que afetam tanto a média como a variabilidade da temperatura e da precipitação, ficam sobretudo a dever-se a mudanças progressivas no balanço radiativo do planeta induzidas pelo aumento da concentração de gases com efeito de estufa em resultado das emissões associadas às atividades humanas. Esta informação também se encontra disponível na net mas, para poupar trabalho e recursos ao senhor João Távora, sugiro-lhe a leitura de um artigo publicado na Gazeta de Física e destinado ao público não especializado.
Infelizmente, a perturbação dos ciclos de temperatura e da precipitação são apenas o menor dos problemas. Com efeito, e tal como ilustrado na figura abaixo, um pequeno aumento da média e da variabilidade da temperatura tem um impacto profundo na frequência com que ocorrem fenómenos extremos como as ondas de calor. E o mesmo sucede no caso da precipitação.

Um clima novo com uma média de temperatura mais alta e com maior variabilidade do que o clima antigo torna muito mais provável a ocorrência de eventos muito quentes como as ondas de calor.Ao contrário do que o senhor João Távora sugere na sua história de encantar, os efeitos da onda de calor que afetou a França não se reduzem à bonomia “dos parisienses, imunes aos relatórios de salubridade, a refrescarem-se alegremente nas águas do Sena e nos fontanários públicos”. As duas ondas de calor que em maio e em junho afetaram a Europa mataram milhares de habitantes e, entre muitos outros males e prejuízos, levaram a cortes no fornecimento de eletricidade, à suspensão de transportes e à interrupção de atividades escolares por os edifícios não estarem preparados para temperaturas tão elevadas como as que se verificaram. Tudo isto poderia o senhor João Távora ter constatado, por exemplo, através da leitura do artigo publicado no site (credível) do World Weather Attribution. Bastaria ter querido fazê-lo.
Importa sublinhar três aspetos importantes. Em primeiro lugar, um fenómeno meteorológico extremo não tem, por si só, um interesse relevante do ponto de vista climatológico. O climatologista estuda as características de um conjunto de fenómenos extremos durante um determinado período, preocupando-se com a frequência com que ocorrem, a intensidade que apresentam e a extensão do território que ocupam e, em seguida, compara essas características com as de outros períodos. No caso das ondas de calor que têm vindo a afetar o continente europeu, diversos estudos científicos mostram que a sua tendência, em termos de frequência, intensidade e extensão, tem vindo a aumentar de forma significativa, sobretudo a partir do início dos anos noventa do século passado. Em segundo lugar, essa tendência positiva, que, sublinhe-se, está presente nas observações, não só se explica em termos teóricos a partir dos princípios da Física que norteiam o comportamento da atmosfera como pode ser simulada em modelos físico-matemáticos do clima baseados nos princípios da Física. Finalmente, e em terceiro lugar, quer a explicação teórica, quer a modelação da tendência positiva requerem que se tenha em consideração os efeitos decorrentes das emissões antropogénicas de gases com efeito de estufa.Só mesmo a gente simplória que habita o tal país de sonho concordará com o senhor João Távora quando sugere que a onda de calor que atingiu a Europa se ficou a dever apenas ao facto de que “o termómetro decidiu lembrar-nos de que estamos no Verão”.Quanto às previsões meteorológicas, que tanto divertiram o senhor João Távora, de que Portugal iria ser dramaticamente afetado pela onda de calor de junho, o que não veio a acontecer, lamento informar que nenhuma emanou de um centro de previsão meteorológica credível como, por exemplo, o Centro Europeu de Previsão a Médio Prazo (ECMWF) ou os serviços meteorológicos francês (Météo-France), inglês (Met Office), espanhol (AEMET) ou português (IPMA), tendo este último emitido um comunicado a alertar para a circulação nos media de previsões sensacionalistas e totalmente desprovidas de crédito.Já agora, importa mencionar que a cúpula de calor (sim, senhor João Távora!, o conceito existe em meteorologia) que originou a onda de calor que afetou o continente europeu tem uma extensão de milhares de quilómetros pelo que devemos agradecer à Providência o termos sido poupados aos seus efeitos, ao contrário, por exemplo, do que sucedeu com a vizinha Espanha.
Tudo visto e ponderado, seria bom que o senhor João Távora “caísse no real” e procurasse entender o que está efetivamente em jogo com as alterações climáticas e os seus impactos socioeconómicos, ecológicos e ambientais. O senhor João Távora é Presidente da Direção da Real Associação de Lisboa e, ao abordar de forma tão leviana os eventos climáticos extremos, que são bem reais, não está certamente a prestar um bom serviço à “causa real” que, imagino, pretende promover.E se, ao que as previsões em tudo indicam, Portugal vier a ser afetado por uma onda de calor extremo a partir da próxima quinta-feira, então espero ardentemente que o senhor João Távora faça jus à bonomia parisiense, que tanto admira, e vá candidamente chapinhar no lago do Campo Grande, trajando apenas uma tanga, sem chapéu ou creme protetores, para que o seu corpo possa receber integral e condignamente todo o calor benéfico proveniente do astro-rei. E se do seu gesto resultar um golpe de sol, o senhor João Távora poderá sempre dizer que foi um grande azar. Um azar dos Távoras, como soía dizer-se.

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