CIÊNCIA

Portugal vive de fundos, o Brasil vive de juros

Há uma experiência que poucas pessoas no mundo têm, e que eu tenho a sorte, ou o azar, de viver todos os meses. Preencho obrigações fiscais nos dois lados do Atlântico. Conheço por dentro a máquina de impostos brasileira e a portuguesa. E posso garantir-vos uma coisa: por mais diferentes que pareçam, são irmãs. Partilham o mesmo defeito de fundo, a mesma lógica e, no final, a mesma vítima. O contribuinte que trabalha.
Escrevi aqui, há semanas, que Portugal vive viciado nos fundos europeus, dinheiro que vem de fora, e que o Brasil vive viciado nos juros da sua dívida, dinheiro que extrai de dentro. Mas há um terceiro vício, mais profundo, que os une de forma ainda mais íntima. Ambos os Estados tratam quem produz como uma fonte inesgotável de receita. E ambos, ano após ano, governo após governo, tiram um pouco mais.A armadilha dos números absolutosSejamos rigorosos, porque o rigor é a única forma de tornar este argumento incontestável. Se olharmos apenas para a carga fiscal total, a soma de todos os impostos e contribuições em percentagem da riqueza produzida, nem Portugal nem o Brasil são campeões mundiais. Portugal ronda os 36 a 38% do produto interno bruto, ligeiramente abaixo da média da União Europeia. O Brasil atingiu 32,4% em 2025, abaixo da média dos países ricos da OCDE.
Quem quiser defender os dois Estados ficará por aqui, dirá que afinal não se paga assim tanto, e mudará de assunto. Mas essa leitura é uma armadilha. Porque a percentagem do PIB mede quanto o Estado tira, e não quanto isso dói a quem paga. E é aí que a história muda por completo.O que dói não é a fatia, é a fome de quem a cortaExiste um indicador mais honesto, chamado esforço fiscal, que cruza o peso dos impostos com o rendimento real das pessoas. Tirar 35% a um país rico não é a mesma coisa que tirar 35% a um país de rendimentos médios. A fatia é igual, mas a dor não.E aqui Portugal salta para o topo. É o quarto país da União Europeia onde o esforço fiscal dos contribuintes é mais elevado, ultrapassado apenas pela Grécia, pela França e pela Croácia. Por outras palavras, os portugueses não pagam a carga mais alta da Europa em abstracto, mas estão entre os que mais sentem cada euro entregue ao Estado, porque ganham menos do que os vizinhos a quem se comparam.
No imposto sobre o trabalho, o retrato é igualmente cru. Em 2025, de cada euro que custa empregar um trabalhador português com salário médio, cerca de quarenta cêntimos foram para o Estado, em impostos e contribuições, acima da média dos países desenvolvidos. Quem trabalha vê quase metade do custo do seu trabalho desaparecer antes sequer de chegar à conta.Do lado brasileiro, o fenómeno tem outra face, ainda mais brutal. A carga sufoca não só pelo valor, mas pela selva de regras em que se esconde.Duas mil horas a servir o fiscoAqui chego ao número que, como contabilista, mais me impressiona, e que devia envergonhar qualquer governo. Uma empresa brasileira gasta, em média, cerca de duas mil horas por ano apenas para calcular e pagar os seus impostos. Duas mil horas. A média dos países desenvolvidos é inferior a duzentas. O Brasil obriga as suas empresas a um esforço dez vezes maior do que o mundo civilizado, não para pagar mais, mas para perceber como pagar.
Isto é um imposto invisível, que não aparece em nenhuma estatística de receita, mas que destrói produtividade todos os dias. Cada uma dessas horas é uma hora que não se dedicou a produzir, a inovar, a contratar. É riqueza que morre no preenchimento de formulários. Portugal não chega a este extremo, mas quem já lutou com as obrigações declarativas, os anexos, os regimes e as exceções do sistema português sabe que a complexidade também aqui é um custo, e dos pesados.A diferença entre os dois países é apenas de grau. A natureza é idêntica. Em ambos, o Estado construiu um labirinto e depois cobra ao cidadão o tempo que ele perde lá dentro.Impostos de primeiro mundo, serviços de terceiroE o que recebe o contribuinte em troca de tudo isto? Aqui mora a indignação que une um português a um brasileiro como poucas coisas conseguem.No Brasil cunhou-se uma expressão exacta: pagam-se impostos de primeiro mundo e recebem-se serviços de terceiro. O cidadão entrega ao Estado uma fatia de país rico e recebe escolas, hospitais e segurança de país pobre. Em Portugal, a frase encaixa com um desconforto familiar. Quem espera meses por uma consulta no Serviço Nacional de Saúde, ou vê a escola pública e a justiça a ranger, faz a mesma conta amarga: tanto se paga, para receber tão pouco.
O problema, nos dois países, nunca foi falta de receita. É exactamente o contrário. Ambos batem recordes de arrecadação. O Brasil registou em 2025 a maior carga tributária da sua série histórica. E Portugal, num pormenor revelador, viu a carga fiscal aumentar mesmo nos anos em que o governo anunciava cortes no imposto sobre o rendimento, porque o que o Estado promete devolver com uma mão, recupera silenciosamente com a outra. O alívio fiscal é, demasiadas vezes, um exercício de comunicação. A conta final raramente desce.A mesma doença, dois sotaquesJunte-se tudo e o diagnóstico é claro. Brasil e Portugal são dois países irmãos que construíram Estados maiores do que a riqueza capaz de os sustentar. Para alimentar essa máquina, recorrem ao mesmo expediente: tributar quem produz, cada vez um pouco mais, com cada vez mais complexidade, e devolver cada vez menos em qualidade.O brasileiro olha para a Europa e imagina um paraíso fiscal que não existe. O português olha para fora à procura de uma saída e raramente repara que, do outro lado do Atlântico, há um país que se queixa exactamente do mesmo. Os dois têm razão. E os dois vivem na mesma armadilha, com sotaques diferentes.Escrevi que Portugal vive de fundos e o Brasil vive de juros. Mas a verdade mais funda é esta: ambos vivem, antes de tudo, do seu próprio contribuinte. Aquele que se levanta cedo, que produz, que cumpre, e que entrega ao Estado quase metade do que vale o seu trabalho, na esperança de receber em troca um país à altura do esforço. Nos dois lados do oceano, essa esperança continua, ano após ano, por cumprir.A língua que nos une é a mesma. A factura que pagamos, também. E talvez seja altura de, dos dois lados, começarmos a fazer a mesma pergunta. Não quanto mais pode o Estado tirar. Mas quando, finalmente, vai aprender a devolver.

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