A Gaiola Ideológica lusa nos 250 Anos da América
Enquanto a América é vasta, colhendo excelentes resultados, certas cabeças fora dela são limitadas, gerando maus resultados. Ouvir falar da América em Portugal é como julgar um divórcio litigioso ouvindo apenas uma das partes. O debate e a troca de ideias diferentes das importadas da esquerda americana simplesmente não chegam aos portugueses. Existe um claro desequilíbrio: aceitamos tudo o que vem da esquerda americana sem questionar, enquanto a direita não tem direito a defesa. O comentariado luso canta em coro que ela é cruel e ignóbil, e vai tudo atrás da mesma cantiga. Pensar e analisar seriamente a totalidade das ideias que fazem da América bem sucedida não é connosco. Este seguidismo — com imitação cega de metade dos EUA e pouca reflexão — é improdutivo e nocivo para Portugal.
A 4 de julho, a América celebra 250 anos de independência. É admirável, como um todo, esta filha da Europa, herdeira de Roma, enriquecida com contribuições dos nativos e do mundo inteiro, onde é possível ver, por exemplo, paradas de descendentes de imigrantes misturando gaitas escocesas, danças de ranchos minhotos e tambores de dragões chineses. Esta maravilhosa diversidade de pessoas e ideias levam a que os EUA sejam o país mais poderoso do mundo.Infelizmente, essa diversidade não chega até nós. O uniformizado debate público português sobre os EUA converteu-se numa câmara de eco da propaganda da esquerda americana contra a direita. Em Lisboa, quase todos se limitam a traduzir invectivas vindas de jornais e televisões da esquerda americana. A complexidade das ideias políticas americanas é reduzida a uma caricatura infantil do Partido Republicano da direita, pintado como um papão. Fechados nesta creche monótona, os portugueses perdem o energético debate adulto americano entre a esquerda e a direita. Não aprendemos que, para haver distribuição de riqueza como a esquerda deseja, é preciso primeiro criá-la como a direita estimula. Ambas se complementam; uma sem a outra não gera uma sociedade próspera e justa.Assim somos incapazes de adaptar o que vem de fora à nossa realidade concreta. Nos EUA, quase 10% da população é milionária e o país concentra 40% dos milionários do mundo (cerca de 30 milhões), além de mil bilionários e até um trilionário. Só a cidade de Boston tem 10 bilionários; Portugal inteiro não tem nenhum (e milionários são apenas 1%). No entanto, cá, onde há muitíssimo menos riqueza, já se taxa mais do que a esquerda americana propõe, e ainda nos deixamos embalar para taxar mais. Devemos focar-nos tanto na distribuição de riqueza — como a esquerda americana faz porque pode no meio da abundância deles — no nosso país que produz tão pouca riqueza? Ao importar ideias desajustadas da nossa realidade, queremos arrasar ainda mais a riqueza e descer para 0% de milionários?
Nos EUA, há uma feliz combinação de progresso social e económico devido ao pêndulo eleitoral entre esquerda e direita (que não é uma falsa direita igual à esquerda como em Portugal). Na saúde, existem o Medicaid para os pobres e o Medicare para idosos, além de boas reformas da seguranca social a partir dos 62 anos. Simultaneamente, a economia desenvolve-se com revoluções tecnológicas para pagar esse sistema. Ou seja, a direita cria riqueza e a esquerda redistribui-a.Em Portugal, a população encontra-se maioritariamente dependente do Estado ou na classe média mais pobre da UE, já muito fortemente tributada. Isto apesar dos nossos maus serviços públicos, incluindo difícil acesso na saúde, parcas reformas e poucas infraestruturas gratuitas (enquanto nos EUA é raro pagar autoestradas por exemplo). Não seria melhor aprender algo com a direita americana sobre eficiência do estado e criar riqueza, antes de agirmos “nobremente” como se já fôssemos um país eficiente e rico? Infelizmente, na política portuguesa, em vez de serem eficientes, todos querem é parecer nobres e ficar bem na foto a falar de redistribuir uma riqueza inexistente que ninguém pensa em fazer crescer. No entanto tirar a pobres onde não existem ricos não tem nenhuma nobreza de “robin dos bosques.”Portanto, no depauperado Portugal, não seria de considerar algumas ideias da direita americana em vez de todos (incluindo a falsa direita lusa) ecoarem e aplicarem só as obsessões ideológicas da esquerda americana que já vive num país rico que as pode pagar? Podemos dar-nos ao luxo de desprezar propostas republicanas como vindas de “ignorantes” sobre alívio fiscal em vez de despesa estatal, inovação em vez de regulação, energia competitiva em vez de caminhos que levem a preços insuportáveis e destruidores das empresas, indústria local (incluindo de defesa) em vez de dependência externa?Por exemplo, os republicanos propõem selecionar imigração qualificada, produtiva, sem registo criminal e integrável em vez de massificada e sem adaptabilidade. Costa e a “comissariocracia” nacional deveriam ter ignorado tais considerações e encantarem-se só com Kamala sobre abolir serviços de fronteiras, convidar, abrigar e subsídiar milhões de imigrantes com baixas qualificações e suas famílias? Estavam conscientes que a esquerda americana fez isso porque pode acomodar tal generosidade devido à imensa riqueza dos EUA? Aqui, será este nivelamento por baixo, com mais pobreza espalhada por mais gente de fora, “justiça social”?
Dar prioridade a ideias de esquerda na América opulenta pode fazer sentido; mas em Portugal, o Estado limita-se a confiscar o pouco que a empobrecida classe média gera, consumindo e desperdiçando os parcos recursos nacionais. Se o Estado português fosse um indivíduo, passaria o dia a acumular gordura e elogiar isso sem nunca pensar em fazer exercício. Pior, fecharia os ouvidos e proibiria que se falasse dos benefícios do desporto.O fenómeno português assemelha-se a uma bolha de isolamento informativo. Excetuando a ausência de violência, a censura televisiva lembra o controlo da antiga Stasi alemã do leste, que impedia a difusão das vantagens do capitalismo, bloqueando as opiniões e factos vindos de uma comunidade luso-americana bem-sucedida que vota maioritariamente à direita nas eleições americanas.Em contrapartida, analistas e académicos sem qualquer vivência real em solo americano têm ecrã garantido para replicar chavões contra a direita americana. Desconhecem a América profunda e os efeitos do facilitismo socialista na decadência — em termos de segurança e serviços — de cidades geridas pela esquerda, como Los Angeles ou São Francisco. Os socialistas de Nova Iorque pregam nacionalizações, abolir fronteiras, destruir a polícia, antissemitismo e ódio ao país. Nacionalmente, os eleitores americanos afastam se desse extremismo.Nos EUA, os eleitores são devidamente informados sobre a necessidade centrista de compromisso entre distribuir e criar riqueza. Até a CNN americana, de esquerda, tem um comentador de direita por programa para garantir o contraditório, algo que raramente acontece em Portugal, onde a pluralidade de canais e jornais de centro-direita é quase inexistente. Os eleitores americanos são bastante mais sofisticados do que o comentariado português nos mente. Sendo informados sobre os dois lados, exigem resultados e alternam os votos entre a direita e esquerda em vez de ficarem reféns por decadas do socialismo/social democracia despesista como os portugueses. Em Lisboa, quase todos propõem mais Estado como solução para tudo, apesar de este ser gerido por políticos pouco competentes e pouco qualificados, cuja experiência se resume a más decisões sucessivas e amiguismo.
Os eleitores americanos são pragmáticos, alternando entre esquerda e direita, escolhendo o mal menor se for preciso. Pelo contrário, os portugueses, privados de metade da informação e fechados numa gaiola mediática, escolhem sempre a esquerda focada em redistribuir a riqueza que não deixam produzir. Ninguém lhes diz que a direita americana se foca em criar riqueza recompensando quem a gera.Vivemos sob uma censura invisível, mas asfixiante, que bloqueia qualquer perspetiva de centro ou direita vinda dos EUA que traria ar fresco para sairmos da cauda económica da Europa. Devíamos emular em vez de insultar, em algumas áreas, o atual governo americano, bem acima da Europa em termos de produção de riqueza para os seus cidadãos e incetivar a inovação tecnológica para o mundo.A esquerda portuguesa detém o monopólio da opinião sobre a América. Analistas de direita sentem-se intimidados (ou põem o conforto pessoal acima de contribuirem para a sociedade com ideias diferentes), a denegrir governantes republicanos formados nas melhores universidades e com carreiras de topo no setor privado ou fundadores de companhias. Esta pressão para maldizer o atual governo pró-empresarial dos EUA é prejudicial para Portugal. O poderio económico americano explica-se pelas ideias de direita, que por cá são conhecimento proibido. A culpa, portanto, não é só da esquerda que faz o seu papel de traduzir os seus camaradas americanos, mas também da autocensura e tibieza da direita lusa, que há 50 anos que vive com receio do PREC e não apresenta nenhuma alternativa.Estamos fechados numa gaiola ideológica que nos deixa pobres. No espaço público português, comentadores supostamente de quadrantes diferentes recitam, invariavelmente, o mesmo mantra importado da esquerda americana no que toca aos ataques constantes ao governo de direita dos EUA. Por exemplo, há três políticos e/ou comentadores lusos: um de extrema-esquerda, outro alegadamente independente e outro supostamente de direita. Se lermos os seus textos contra o governo da direita americana, são todos tão iguais e indistinguíveis como o sobrenome comum deles.
É penoso também ouvir certos “senadores” da direita lusa repetirem as banalidades da esquerda sobre a suposta ignorância dos dirigentes republicanos, ignorando figuras altamente qualificadas e intelectuais de Stanford (especialistas na Pérsia por exemplo), que explicam essas posições. As vozes cultas da direita americana nunca chegam a Portugal, pois a nossa amedrontada direita prefere ecoar a esquerda. Há portas de falsa direita que se abrem sempre à esquerda.É necessário evoluir. Em 1974, mudámos de uma gaiola ideológica de extrema-direita para outra dominada pela esquerda extremada na imprensa. O lápis azul apenas mudou de mão. Passámos da visão única da Mocidade Portuguesa para a visão única das televisões atuais, herdeiras dos Pioneiros Comunistas. Nunca houve verdadeiramente uma gaiola aberta. Nunca alcançámos a verdadeira liberdade de opinião e maturidade politica. Toda a vida só ouvimos flautistas de Hamelin sempre a levarem os portugueses, mantidos petizes ideologicamente, só para a esquerda.É angustiante como a lavagem cerebral esquerdista nas novas gerações continua há décadas, formatando até os jovens que emigram para fugir à pobreza por ela causada. Tal como nós, no passado, fomos formatados pelo socialismo e levámos décadas para nos desformatarmos e abrirmos os olhos para as vantagens e desvantagens da esquerda e da direita. Nos EUA, temos visto com tristeza jovens portugueses aceites em universidades de prestígio que, sem quaisquer planos ou hipóteses para voltar a Portugal devido aos baixos salários, defendem as mesmas ideias fechadas de esquerda que causaram a miséria portuguesa — e que causariam o mesmo nos EUA, se fossem aplicadas sem um contraponto à direita. Para travar a nossa deterioração economica urge uma rutura com o modelo puramente estatista. Em vez de formatar tudo e todos revelando apenas metade da versão das guerras politicas dos EUA, precisamos de importar o contraditório institucional americano que equilibra a criação e a distribuição de riqueza.Continuamos semiadormecidos, fechados em metade da realidade. Urge voar e atingir a verdadeira liberdade prometida no 25 de Abril, quebrando o monopólio de uma narrativa empobrecedora. Com a esquerda sozinha há destruição de riqueza; com a direita sozinha há concentração. O progresso real exige um diálogo equilibrado entre ambas. Precisamos de pensar nisso, não de ter todos a traduzirem apenas a esquerda dos EUA.Abram-se novas e corajosas portas capazes de difundir as ideias de direita, escondidas dos portugueses, que tanto contribuíram e contribuem para fazer da América o portento que ela é. Já agora, parabéns aos EUA pelos 250 anos de grande sucesso, obtido com muito esforço e debate combativo de ideias opostas!
Receba um alerta sempre que Pedro Caetano publique um novo artigo.
Seguir








