O MAL português
Em Portugal, a violência política à esquerda não se discute. Até porque não existe nem nunca existiu. Embora a extrema paranoia e a extrema agressividade possam estar bem distribuídas, a única violência que ressalta, que arrepia, que preocupa, que urge denunciar, noticiar e estancar é “a violência de extrema-direita”. Na prática ou nas intenções. A violência de extrema-direita não conhece casos isolados, é sempre fruto de uma grande conspiração e tem sempre a cumplicidade de toda a Direita – que, ao contrário da Esquerda, é intrinsecamente má, canalha e violenta; e, ainda que grunha, estranhamente sofisticada quando toca à prática do mal.
Não quero com isto dizer que o Movimento Armilar Lusitano (MAL) não exista, que não tenha extensas e criativas listas de vítimas a eliminar, que não pratique paint-ball ao fim-de-semana, que não tenha sinistros propósitos, nem que não deva ser investigado, travado e combatido. A paranoia anda por aí à solta e todos sabemos que o mal existe.As origens do MalDe qualquer forma, vou seguir o conselho de Marc Bloch em Apologie de l’Histoire, e recuar um pouco no tempo.Lenine começou logo por dar o devido crédito ao terror jacobino de 1793-1794, pioneiro do “genocídio de classe” em nome do povo, dos grandes princípios e das melhores intenções: a aristocracia teria de perder a cabeça bem como os aldeões da Vendeia, adeptos do “obscurantismo católico” e inimigos da Liberdade, da Igualdade e da Fraternidade. Era a tábua rasa e a razia. Grande fonte de inspiração para os bolcheviques, dizia Vladimir Ilyich.
De resto, os pais do marxismo, Marx e Engels, tinham sido claros na legitimação da violência e na justificação da revolução como “parteira da História.” Isto quando ainda não havia fascismo nem nazismo, só capitalismo selvagem, burguesia e “reacção”.Embora se possa identificar um proto-fascismo na França do final do século XIX, com Barrès, Maurras, Drummont e o general Boulanger, ou melhor, um nacionalismo popular, desencadeado por escândalos da oligarquia financeira, como o “affaire de Panama”, o verdadeiro fascismo, o italiano, só nasceu nos anos 20 do século XX. E é indissociável do socialismo e do comunismo. Os desmandos dos comunistas, instalados na Rússia a partir de Outubro de 1917, durante e depois da guerra civil, foram também decisivos para criar o anti-comunismo militante, reactivo e defensivo que esteve na base do sucesso do fascismo, do nazismo e de regimes iliberais autoritários nacional-conservadores, como o Estado Novo.Não quero com isto dizer que os comunistas comessem criancinhas – mas as fomes que causaram, na Ucrânia dos anos trinta e na China maoista do Grande Salto em Frente, levaram a que alguns dos esfaimados, em desespero, comessem as crianças já mortas pela fome, muitas vezes os próprios filhos. Também, no tempo das grandes purgas, o Estado Socialista não hesitou em pegar nos “filhos dos inimigos do povo” para os corrigir, lhes mudar o nome e os alojar em lugares remotos da Rússia, longe do rasto dos familiares “desaparecidos” ou internados nos campos do Gulag. Depois dos 15 anos, eram condenados a trabalhos forçados. Há muita literatura sobre isto, mas vale a pena ler um ensaio de Elaine Mac Kinnon, The Forgotten Victims, Childhood and the Soviet Gulag – 1929-1953 (disponível online)Isto para dizer que muitos dos excessos violentos à direita, que os houve – incluindo os do nazismo, cujo eugenismo identitário levaria a um sistema concentracionário muito semelhante ao soviético –, não podendo ser desculpados, não podem também ser desligados da radicalidade e da violência da ameaça à esquerda a que reagiam.
O mal portuguêsEm Portugal a esquerda radical ou extrema também soube matar quando foi preciso, e com pontaria política ao inimigo principal: João Franco Castelo Branco, que tentou criar uma direita nacional moderna com as classes médias das cidades, foi neutralizado pelos carbonários Buíça e Costa, que mataram o rei Dom Carlos e o príncipe herdeiro Dom Luís Filipe, causando a queda de Franco e preparando o advento da Primeira República.Essa primeira República, dominada pelo Dr. Afonso Costa, reprimiu à direita e à esquerda os seus inimigos, monárquicos, católicos e sindicalistas.Como bom jacobino, Costa tratou bastante mal os católicos (embora não se saiba aos certo se pronunciou a famosa frase sobre “acabar com o catolicismo em duas gerações”): logo no 5 de Outubro, o “povo republicano” assassinou dois padres; veio depois a Lei da Separação do Estado das Igrejas (20 de Abril, 1911), foram expulsas as ordens religiosas, muitas das quais desempenhavam funções assistenciais importantes, e os padres e religiosos foram proibidos de usar as vestes da sua condição em público.
Perante esta acção persecutória, o papa Pio X emitiu uma encíclica, Jamdudum in Lusitania, a denunciar “o ódio implacável para com a religião católica” da nova República portuguesa.Padres assassinados, ordens religiosas expulsas, bispos exilados, jornais católicos assaltados, foi assim que a esquerda “democrática” tratou, em democracia, os católicos. E fez o mesmo aos monárquicos e, à sua esquerda, aos sindicalistas.Em Dezembro de 1917, no ano em que as aparições de Fátima vieram renovar a fé do povo, Sidónio Pais tomou o poder, reatou as relações com a Santa Sé e parou as perseguições religiosas. Em Dezembro do ano seguinte, a Esquerda assassinou Sidónio, através de um doente mental a quem convenceram que estava a salvar o país de um tirano.E no 19 de Outubro de 1921 foi outra vez a Esquerda – aí “a rua”, os guardas republicanos e os marinheiros descomandados – que assassinou os políticos republicanos que tinham colaborado com Sidónio, entre eles o próprio fundador da República, Machado Santos. Alfredo da Silva, símbolo do capitalismo industrial português, chegou a ser dado como morto, mas acabou por escapar à purga.
O 28 de Maio teve o apoio da grande maioria do povo, farto de um regime em que os governos – que duravam, em média quatro meses – faziam ou permitiam que se fizessem semelhantes brutalidades. Depois, contra a repressão autoritária do Estado Novo, houve também várias tentativas de assassinar Salazar.Com a revolução de Abril e as “redes bombistas” atribuídas ao ELP e ao MDLP, morreram meia dúzia de pessoas, entre bombistas e vítimas das bombas. Mas terrorismo a sério, que materializasse a frio os fuzilamentos simulados de “fascistas” nas prisões do PREC, só, anos depois e já longe do calor revolucionário, o das Forças Populares 25 de Abril, que mataram mais de dezena e meia de pessoas, entre inimigos políticos, agentes de autoridade e até crianças. Porém, acabaram amnistiados – afinal, eram antifascistas e a intenção era boa –, e agora até tiveram direito a fita celebrativa.Hoje, por essa Europa fora e na América, o que se vê são assassinatos praticados ou tentados pela Esquerda e distúrbios violentos dos Antifa. Sempre acontecimentos isolados e “inconsequentes”.A banalidade do malAcontecimentos esses que empalidecem, deixando mesmo de existir, perante a lista de vítimas e as intenções de um grupo conspiratório de extrema-direita – os neo-nazis do Movimento Armilar Lusitano (MAL).
Desmantelado em 2025 (segundo as autoridades), o Movimento dedicava-se a recolher informações sobre políticos de todas as facções, dos professores Cavaco Silva e Marcelo Rebelo de Sousa, às irmãs Mortágua, bem como personalidades das artes e do espectáculo, algumas já falecidas, como o cantor Marco Paulo, tendo já listado mais de centena e meia de alvos. Reunindo dados, traçando itinerários, vigiando, o MAL preparava morosa e meticulosamente os atentados. Operações cuidadosamente planeadas desde 2018. Entretanto, nem um único cocktail Molotov numa qualquer manifestação. Nada. Um dos seus alvos colectivos seria o Parlamento, que o Movimento ocuparia, talvez para matar todos os deputados; um dos seus alvos individuais, o primeiro-ministro, para quem o MAL tinha já uma granada reservada.Na posse de armas fabricadas por tecnologia 3D, os nazis armilares projectavam “golpes de Estado e tomadas de poder”. Claramente não ambicionavam apenas perturbar a democracia em Portugal, mas também noutros países. De onde lhes viria o financiamento?Os neo-nazis do Movimento Armilar Lusitano podem emitir e disseminar ódio e ser agentes do MAL, podem até planear matar e atentar, mas têm pelo menos uma vantagem: reunindo até à caricatura os requisitos necessários para constituírem a prova cabal de que toda a maldade, toda a violência, toda a canalhice e toda a ameaça nos chegam pela direita e só pela direita, prestam um inestimável serviço à pátria e à “democracia”.
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