Vaga de Calor. ULS estarão preparadas para dar resposta?
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Explicador das manhãs 360, hoje sobre a resposta sanitária à onda de calor. Para este explicador convidamos o Xavier Barreto, presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares, e ainda João Paulo Magalhães, vice-presidente da Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública.
O governo vai anunciar daqui a pouco um plano para a saúde, para as ondas de calor. A partir de hoje, espera-se uma subida gradual das temperaturas, que deve manter-se nos próximos dias. Bom dia, bem-vindos. João Paulo Magalhães, comecemos por si. Quando estamos nesta altura a falar de riscos para a saúde perante uma nova vaga de calor, estamos a falar exatamente de quê? Quais são os riscos concretos que podemos estar perante?
Bom dia e obrigado pelo convite. Cumprimentamos a todos, e ao Xavier também, e a quem nos ouve. Os riscos têm a ver com o que é a exposição ao calor e depende das pessoas também que estamos a falar. Ou seja, há um grupo sempre mais vulnerável, que são as pessoas mais idosas, as crianças, as pessoas grávidas, que têm um risco maior, não só de desidratação, de descompensação das suas doenças crônicas de base, nomeadamente a população mais idosa, e que isso aumenta o risco para a qualidade de vida e até a mortalidade, que é algo que sempre nos preocupa neste sentido e que tem sido referido ao longo do tempo. Mas também há outros riscos para outras populações e uma delas é a população trabalhadora, que trabalha no exterior, ou seja, que estão expostas diretamente a essas temperaturas elevadas. Estou a falar aqui de pessoas que trabalham na área da construção civil e que esse tipo de trabalhadores muitas vezes têm que estar a trabalhar nos períodos de maior intensidade do calor e que, por vezes, nós tendemos a esquecer. Existe outra população, que é a população sem abrigo, que infelizmente também não tendo um local onde possa se refrescar. Depois podemos falar, e provavelmente abordarão, porque as ondas de calor que nós aí vamos ter não é só uma questão da temperatura máxima, é também as temperaturas mínimas muito elevadas, o que complica a nossa capacidade até de refrigerar as nossas casas e portanto, temos esta questão deste conjunto de populações e que ameaça o risco para a saúde das pessoas, não só em termos do que é, como disse, a descompensação das suas doenças, mas também da mortalidade. E por isso é que é muito importante nós pensarmos na capacidade de nos protegermos e prevenir estas situações. Nunca é demais referir e destacar que devemos evitar as alturas de maior calor, ingerir grandes quantidades de água, termos também um papel muito solidário com aqueles que nos são próximos. E esta questão eu destaco logo aqui de início, que é a questão realmente de forçar ou reforçar a mensagem de que nós temos que ingerir muita água, nomeadamente as pessoas mais idosas e as crianças, mesmo quando não têm sede. Porque realmente é a melhor forma que nós temos de manter o nosso corpo com os níveis de hidratação melhores nesta altura.
João Paulo Magalhães.
Sim.
Além desses comportamentos, devíamos também, quando possível, evitar estar no exterior, por exemplo, nas horas de maior calor? Ou alterar até horários de algumas atividades profissionais?
Exato. Por um lado, sempre indo à matéria, que é para toda a gente que nos está a ouvir, para a população em geral, que é: nós devemos evitar fazer grandes esforços, estar expostos nas alturas de maior calor, seja agora no período de mais férias, em que as pessoas estão de férias, estão na praia, portanto, isso já é habitual, mas devemos nesse período de mais calor, estamos a falar entre as 11h e as 16h, mais ou menos, devemos evitar estar expostos nessa altura e evitar qualquer esforço físico, ou seja, atividades físicas no exterior, etc. É muito importante que nessas alturas estejamos mais protegidos em locais mais refrescados. E o mesmo se aplica, como referiu, a esta população trabalhadora. Ou seja, uma das recomendações que a Direção-Geral de Saúde emitiu, penso que foi ontem, que é realmente importante, que é dirigida a estes trabalhadores que estão expostos a temperaturas elevadas e que refere precisamente o ajustamento dos horários de trabalho para que não estejam a trabalhar nestas alturas de maior calor. Isso é claramente importante em termos de exposição e é também importante a questão de usarmos roupas sempre que sejam mais leves e mais frescas, evitar refeições pesadas, até o consumo de álcool, portanto, tudo isso aumenta a nossa desidratação. E depois, já agora, dar aqui uma nota que eu acho que é importante, porque neste período que nós vamos enfrentar, não só temos essas medidas que são importantes, mas também é importante nós reconhecermos sinais de alarme e saber o que fazer nessa situação. E esses sinais de alarme, ou seja, que têm a ver com as questões do golpe de calor ou das insolações. Quando nós nos sentimos ou vemos alguém com quem estamos a sentir uma transpiração excessiva, até começa a ter dores de cabeça, vômitos, começa a sentir-se desorientada, isso tudo são sinais de alarme, que deve motivar ou ligar para a linha do SNS 24 ou mesmo o 112 se a situação for grave. E, portanto, eu penso que isso é relevante.
Sobretudo se estivermos a falar, lá está, em idosos ou em grávidas.
Exatamente.
Ou em doentes crônicos. Muito bem. E vamos já continuar a conversar, João Paulo Magalhães, e é nessa altura que pensamos nos hospitais. Xavier Barreto, bom dia, presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares. A ministra já explicou que os hospitais ativaram o nível um do plano de contingência. Significa isto que o que é que está a acontecer nesta altura nos hospitais?
Bom, muito bom dia, muito obrigado pelo convite. Os hospitais, de facto, ativaram o nível um do plano de contingência e basicamente é um reforço dos quadros do pessoal, dos quadros dos serviços de urgência E, portanto, virão escalar medidas subsequentes do plano de contingência à medida que isso for sendo necessário. É muito provável que seja necessário. Os riscos são muito claros, o João Paulo já os enunciou. Há uma série de grupos de risco que tendem a descompensar, tendem a procurar cuidados de saúde e, em concreto, hospitais, mas não só, também os centros de saúde. Nós sabemos, até por ondas de calor anteriores, nós tivemos uma onda grave, eu diria, em 2003, com graves consequências em termos de mortalidade, em termos de procura de serviços de urgência. Temos agora, muito recentemente, na França e na Alemanha, no centro da Europa, uma onda de calor muito prolongada, com temperaturas mínimas muito elevadas e que levou a um aumento dramático da procura de serviços de urgência. Em alguns hospitais, em algumas regiões, esse aumento foi de 50% de procura e, portanto, obviamente que os hospitais têm que se preparar e vão escalar os seus planos de contingência para fazer face a esta procura.
Xavier Barreto, deixe-me só interrompê-lo nisso, porque quando fala nos hospitais a procurar um reforço ou prepararem-se reforçando os seus quadros, já não é assim que os hospitais estão sempre a trabalhar, devido à falta de profissionais. Como é que isto se reforça?
Geralmente, reforça-se com as pessoas que já temos a fazerem mais horas e, portanto, estamos a reforçar as horas extraordinárias, com a prestação de serviço nos casos em que seja necessário. E existe também, eu diria, uma maior disponibilidade até dos próprios profissionais para responder a estas crises. Nós temos essa experiência, até, em crises anteriores. E, portanto, os hospitais vão fazer aquilo que lhes é possível. Eu diria que a prioridade tem que ser antecipar, prevenir estas agudizações. João Paulo já referiu os cuidados que têm que ser seguidos. Eu acho que é muito importante que as pessoas percebam que este é um risco real, que o calor e estas ondas de calor matam mesmo. E, portanto, nós temos que evitar que as pessoas venham aos hospitais. A criação até de medidas de saúde pública, a criação de refúgios climáticos, como parece que vai ser anunciado hoje pela senhora ministra, é importante. Portanto, eu acho que a prioridade das medidas por parte do governo tem que ser colocada aí. Os hospitais vão fazer o seu trabalho, mas se temos uma procura avassaladora, obviamente vamos ter esperas, obviamente vamos ter serviços de urgência sobrelotados, como tivemos na França. A França tem muitos dos problemas que nós também temos, com recursos humanos e também com internamentos sociais. Eles têm muitas camas ocupadas com doentes que não deviam estar nos hospitais, como nós temos. Nós não vamos conseguir retirar 3500 doentes de um dia para o outro dos hospitais. E, portanto, nós temos poucas camas neste momento disponíveis e se temos um grande aumento de procura, vamos ter de circularem lidar com essa procura. E, portanto, eu diria que os hospitais vão ter que fazer aqui o seu trabalho, vão reforçar as equipes, vão tentar agilizar as altas, vão tentar libertar camas para acudir a estes doentes quando for necessário. Mas antes disso, eu acho que é muito importante que se faça tudo para prevenir as crises, as agudizações, e portanto, que se olhe para os grupos de risco em cada município, em cada comunidade, que se identifiquem as pessoas, que se sinalizem essas pessoas e que se tente prevenir essas agudizações. Eu acho que nesta altura isso é o mais importante.
Muito bem. João Paulo Magalhães, esta ideia de ter em cada concelho e em todos os concelhos do país, locais de abrigo devidamente climatizados, faz sentido esta rede? E outra questão é saber se vamos conseguir ter essa rede disponível.
Sim, faz todo sentido e aqui, ou seja, o que se pretende, o que parece que se pretende, agora realmente com a conferência que vai ocorrer, é tornar mais claro como é que se operacionaliza isto em todo o território nacional. Estes refúgios, como eu chamei aqueles locais de abrigo temporários, penso que será o senhorão que ficará, não são novidade, ou seja, já era algo que no âmbito dos planos de contingência e da relação da estrutura de saúde pública e municípios já acontecia em alguns locais, mas aqui pretende-se que essa expressão realmente esteja muito mais homogênea em todas as unidades locais de saúde. E faz sentido porque é precisamente para acomodar estas pessoas e para prevenir, ou seja, para que pessoas que não tenham as condições estruturais, até do ponto de vista de habitação, e realmente nós temos uma fragilidade da parte da infraestrutura habitacional, das questões relacionadas com o acontecimento interno, com a questão do ar condicionado, e por isso, ou seja, para esse tipo de populações, para populações como referi, que é a questão da população sem abrigo, ter esses espaços que permitem que durante estes períodos e durante estes dias, as pessoas tenham esses abrigos e por isso estejamos a reduzir esses riscos de compensação e fazer com que as pessoas tenham que recorrer aos cuidados de saúde, ou seja, os cuidados de saúde primários ou aos hospitais. Mas há também aqui um ponto importante. Isto reflete muito bem aquilo que nós até temos vindo a destacar, que é a necessidade de articular cada vez melhor com os municípios, por via das unidades locais de saúde também. E esta articulação é também a capacidade de nós conseguirmos fazer esta comunicação de risco, muito mais flexível e adaptada aos contextos locais. E há vários exemplos que estão a ocorrer, em diversas unidades locais de saúde, que, por exemplo, é a capacidade de promover e comunicar esta informação quase ao detalhe e quase em tempo real, por via do que está a acontecer ao nível dos serviços de saúde, do que está a acontecer em termos da necessidade destes riscos, que vêm não só da prestação de cuidados, mas também da saúde pública, para os gabinetes de comunicação, por exemplo, dos municípios, que depois farão a articulação e a devida divulgação junto da população. Este é um ponto muito importante.
Ou seja, está a dizer que há boas práticas. Não quer destacar duas ou três?
Sim, ou seja, a mais recente que tive conhecimento e que estava a ocorrer era numa unidade local de saúde da região centro, em que esta articulação já estava a acontecer entre os gabinetes de comunicação das ULS e os gabinetes de comunicação dos municípios. E o que está a acontecer é que há um envio de informação quase em tempo real, ou seja, diariamente, pelo menos com essa frequência, do que está a ser a pressão nos serviços de saúde, do que é a previsão em termos da temperatura e dessa procura, e quais os grupos de risco que estão identificados e as populações que estão identificadas, e que depois se reflete, através desses municípios Por via de redes sociais, por exemplo, e de outros órgãos de comunicação social até mais local, há essa comunicação. Mas esse é um ponto comunicacional importante, mais alargado, mas depois também há estas questões dirigidas. E portanto, aí volta à sua questão inicial, que é a questão destes locais de abrigo temporário, estes refúgios para locais mais frescos, em que tem que haver aqui uma articulação mais próxima e mais minuciosa para que nós consigamos identificar estas populações. E, na prática, estas populações muitas delas já estão bem mapeadas e depois têm aqui uma relação muito próxima, porque as populações sem abrigo são muito mais móveis. Mas as populações de pessoas idosas são bem mapeadas, não só em termos de pessoas.
Estão muito identificadas.
Exatamente. E, portanto, é uma questão de agilização, de ver quais são essas necessidades e comunicar. E eu apelo àquilo que o Xavier disse, que é: realmente, nós temos um risco que é real e que nós quanto mais consigamos fazer estas articulações, aqui é onde se reflete muito bem este espaço e esta maturidade, que eu acho que todo o nosso, não só a componente do Serviço Nacional de Saúde, mas a relação com as câmaras tem que existir de uma forma muito mais eficaz.
Tem que funcionar e ser mesmo apertado. Xavier Barreto, ótimo, portanto, esta ideia e a aplicação prática dos locais de abrigo climatizados. Os hospitais e as unidades locais de saúde estão apetrechadas para estas condições? Às vezes temos notícias de que há também algumas dificuldades nas próprias estruturas hospitalares. Estamos preparados para isto?
Na grande maioria, sim. Nós tínhamos há alguns anos mais problemas, eles foram sendo resolvidos, foi sendo feito algum investimento e, portanto, hoje em dia, grande parte das unidades de internamento, grande parte das enfermarias estão climatizadas. Existem exceções, portanto, ainda existem enfermarias que não estão climatizadas e isso é um problema.
E estão identificadas, Xavier Barreto, sabe-se quais são as unidades?
Eu sei quais são, não acho que deva ser o ministério a dizer. Sei algumas, não tenho um mapeamento claro e preciso de todas. Eu acho que era importante que esse mapeamento existisse, mas que era importante que o ministério tivesse uma relação clara de quais são as unidades, as enfermarias que não têm ar-condicionados, que não estão climatizadas e que fizesse o investimento necessário. Portanto, essa pergunta tem que ser feita ao Ministério da Saúde e eu acho que devem ser eles a responder.
Sim, mas tem ideia se estamos a falar de uma percentagem ainda significativa ou se já é residual?
Não, acho que é uma percentagem pequena, mas mesmo sendo pequena, continua a ser um problema. Repare, nós depois da onda de calor de 2003, houve um estudo do INSA, do Instituto Nacional de Saúde Ricardo Jorge, que mostrou de forma clara o impacto que pode ter a climatização numa unidade de internamento. Esse estudo dizia-nos que, por exemplo, a probabilidade de morrer numa unidade de internamento que não tem ar-condicionado é bastante mais elevada do que numa outra que está climatizada. Portanto, é uma questão importante e ela tem que ser obviamente resolvida pelo Ministério da Saúde. Estamos muito melhor do que há alguns anos, eu volto a dizer, muito melhor. Temos alguns problemas ainda nos centros de saúde. Nós temos um inquérito no ano passado, um inquérito que é feito anualmente pelas USFs, que é um inquérito respondido pelos coordenadores, também a propósito das condições de trabalho, e os coordenadores das USF diziam-nos que cerca de metade das suas unidades tinham problemas de climatização. Portanto, às vezes não é só o facto de não ter ar-condicionado. Repare, às vezes estamos perante edifícios que têm décadas, às vezes até mais do que isso, que têm problemas de isolamento nas janelas, na forma como estão construídos, na forma como estão orientados. Há uma série de problemas de construção que às vezes são muito difíceis de ultrapassar. Portanto, não é um problema simples, eu não quero simplificá-lo. Agora, de facto, tem que ser o Ministério da Saúde a resolver os problemas que ainda subsistem, ainda que poucos, ainda temos alguns, portanto, têm que ser resolvidos.
Muito bem, certamente será um dos temas a falar agora por estes dias. Isto no dia em que se espera, de facto, a apresentação do plano do ministério. João Paulo Magalhães, Xavier Barreto, obrigado a ambos pela presença neste explicador.
Obrigada, bom dia.
Obrigada.
Muito obrigado, bom dia. Obrigado.










