CIÊNCIA

Uma versão enganadora da História: impérios e o fim de Roma

[Este é o terceiro de seis artigos sobre ‘A Maldição de Golias’. Os anteriores podem ser lidos aqui:]De acordo com Luke Kemp, apesar de a humanidade viver mais feliz e saudável antes da emergência da agricultura, das cidades e dos Estados, estes últimos acabaram por impor-se, devido à superioridade da sua organização e do seu poderio bélico. Pouco a pouco, os Estados, apoiados em mecanismos extractivistas de eficácia crescente e em “ideologias de dominação” como “o mito da meritocracia” (que persuade as pessoas a aceitarem a desigualdade como natural) e a religião (que robustece a hierarquia, impõe um comportamento moral e instaura uma atmosfera de vigilância e controlo), foram ocupando territórios cada vez mais vastos e submetendo ou expulsando para as periferias os grupos que rejeitavam fazer parte dessas entidades totalitárias, hierárquicas e patriarcais. Porém, a dinâmica que fez os Estados prevalecerem sobre as formas anteriores de organização social traz sem si mesma as sementes da sua própria destruição: “Uma cidade-Estado belicosa podia facilmente fazer com que outras começassem a gastar mais recursos em muralhas e lanças, e menos na produção de alimentos e na construção de estradas. Aquelas que não o faziam eram conquistadas. […] As corridas ao armamento, a competição destrutiva que empurra todos para padrões cada vez piores e a procura de status através de consumo ostensivo […] tornaram-se armadilhas competitivas” (pg. 200). Sob o efeito perverso deste três factores, que Kemp designa por “armadilhas para Golias”, os Estados acabam, na visão do autor, por ser conduzidos para o abismo.
A história faz-se de ascensões e colapsos de impérios, que dão, por sua vez, espaço a que se ergam novos impérios. Nesta sucessão de altos e baixos, Kemp dedica particular atenção ao fenómeno generalizado de colapso ocorrido no final da Idade do Bronze, na viragem dos séculos XIII-XII a.C., afectando simultaneamente vários Estados da região do Mediterrâneo e Levante. Este megacolapso é usualmente associado às invasões pelos enigmáticos “Povos do Mar”, mas Kemp rejeita a ideia de uma “força invasora unificada” em favor de movimentações espontâneas de “refugiados, imigrantes e povos sabiamente itinerantes do Egeu e do Mediterrâneo oriental, que se deslocavam por causa da seca, guerra, opressão e dificuldades económicas” (pg. 215), no que é acompanhado por historiadores respeitáveis, e acaba por concluir, mais polemicamente, que “o colapso do Bronze Tardio não foi apocalipse nenhum” (pg. 218).

Na perspectiva de Kemp, foi mesmo um exemplo paradigmático do “colapso como uma bênção”, pois o que se seguiu não foi a “idade da trevas” pintada pela historiografia tradicional: “O colapso […] acabaria por abrir espaço para o surgimento de formas de organização mais democráticas. O colapso de Micenas nivelou a desigualdade económica. […] Os primeiros códigos legislativos criados pelos gregos (mais ou menos a partir de 620 a.C.) visavam limitar a capacidade de um dado indivíduo dominar os demais [e instaurou-se o uso de] tomar decisões colectivas através de assembleias em massa. Estas práticas e normas formaram as bases da posterior democracia ateniense” (pg. 220-21).
A fim de legitimar as suas teses descabeladas, Kemp adopta, quando lhe convém, o princípio de que, se o evento B ocorre depois do evento A, o evento A é a causa do evento B – uma falácia usualmente designada como “post hoc ergo propter hoc” (“depois disto, logo, por causa disto”). Esta falácia é ainda mais evidente quando, como é o caso, medeiam seis séculos entre o evento A (colapso de Micenas) e o evento B (implementação da governação democrática pelos atenienses).Mas Kemp tem uma agenda para promover e não permite que a lógica atrapalhe o seu louvor do colapso civilizacional e logo volta a usar o estulto argumento “post hoc ergo propter hoc”: “Homero, autor da Odisseia e da Ilíada, foi um poeta desta idade das trevas grega. Outro foi Hesíodo, o poeta que compôs Teogonia e Os trabalhos e os dias. […] Sem o colapso, o mundo teria ficado privado de Homero e de outras tantas pilhas de literatura épica” (pg. 220).

“Homero e o seu guia” (1874), por William-Adolphe BouguereauPara começar, não só a existência histórica de Homero tem vindo a ser posta em causa, como é provável que a Odisseia e a Ilíada não sejam obras nascidas, num momento definido, da imaginação de um indivíduo, mas sim da fixação em texto, por um ou mais compiladores, de diversas tradições orais da Grécia e Ásia Menor, amalgamando elementos de diferentes épocas, num processo incremental que terá decorrido nos séculos VIII-VII a.C. Acontece que muitos objectos e costumes descritos na Odisseia e na Ilíada remontam à Idade do Bronze tardia e, a ter existido efectivamente, uma Tróia e um cerco de Tróia (ainda que não nos moldes precisos descritos nos poemas), é possível que tenha tido lugar no século XII a.C. (na hipótese de a Tróia literária corresponder ao nível conhecido como “Tróia VIIa” no sítio arqueológico perto de Çanakkale, na Turquia). Independentemente de a Odisseia e a Ilíada terem sido obra de Homero ou de outro poeta ou um processo colectivo de fixação, homogeneização e refinamento de tradições orais mais antigas, voltamos a ter um hiato temporal de quatro ou cinco séculos entre o colapso da Idade do Bronze tardia e os eventos benéficos que esta, supostamente, desencadeou.
De qualquer forma, Kemp parece não se dar conta da ironia que é a Ilíada, por que nutre (justamente) grande apreço, ter por assunto as guerras sangrentas travadas pelos “Golias” micénicos, cujo colapso Kemp considera ter sido uma bênção para a humanidade.

Picasa

“Aquiles derrotando Heitor” (1630), por Peter Paul RubensQuanto a Hesíodo, a informação disponível é escassa e está envolta nas brumas do mito, mas a maioria dos peritos admite que teve existência real e que foi ele o autor da Teogonia e de Os trabalhos e os dias (e de outros textos que nos chegaram apenas em forma fragmentária). Supõe-se que terá vivido nos séculos VIII ou VII a.C., o que, mais uma vez, compromete a tese de que Hesíodo foi fruto do colapso do “Golias” micénico.O nexo causal que Kemp estabelece entre o colapso de Micenas e a aparição de “Homero” e Hesíodo é tão disparatado como afirmar que sem a perda de independência de Portugal em 1580, o mundo teria ficado privado de Eça de Queiroz e Fernando Pessoa”, ou que “sem a dissolução do Império Austro-Húngaro após a I Guerra Mundial, o mundo teria ficado privado de Thomas Bernhard, Peter Handke e Elfriede Jelinek”.
Na verdade, nem sequer se percebe que Kemp classifique Micenas como um “Golias”: a civilização micénica não era um império hegemónico e uniforme, era uma constelação de pequenas cidades-Estado independentes, cada uma com o seu rei, ligadas por uma teia de alianças e rivalidades e que podem ter assumido, em alguns períodos, a forma de uma confederação. Ainda que não existam certezas quanto à organização política de Micenas, dada a escassez de registos, parece pouco provável que alguma vez tenha existido um poder centralizado.

A manta de retalhos da Grécia Micénica (c.1400-1250 a.C.): as áreas coloridas correspondem a Estados com existência confirmadaPara mais, Kemp parece não compreender que o génio literário e artístico irrompe aleatoriamente, sendo independente dos indicadores de bem-estar, democracia e igualdade: uma sociedade estável, pacífica e igualitária pode produzir apenas artistas e escritores medíocres e olvidáveis e os génios podem brotar numa sociedade turbulenta, violenta e desigual.A ideia de que os “Golias” inibem o surgimento de criadores de génio e a produção de obras-primas e que estas são favorecidas pelo seu colapso é constantemente desmentida pela história. Considere-se o exemplo da Atenas do século V a.C.: Kemp vê esta como consequência benéfica do colapso do (suposto) “Golias” micénico e elogia a sua governação inclusiva e a sua efervescente vida intelectual, mas omite que a cidade-estado foi, no seu período de maior esplendor, num verdadeiro “Golias”. Atenas tornou-se na potência marítima n.º 1 do Mediterrâneo; praticou uma política de expansão agressiva; converteu os seus aliados na Liga de Delos em Estados-vassalos, obrigados a pagar-lhe tributo e a financiar a sua política (a troco de “protecção”); envolveu-se numa sucessão de guerras, na Grécia e no Mediterrâneo Oriental; assentava no trabalho dos escravos (que representavam, no século V a.C., 25%-30% da sua população); e cultivou a misoginia e a segregação por género (as mulheres serviam essencialmente para parir crianças e cuidar delas).

O estadista e general Péricles (c.495-429 a.C.) ficou associado à era de ouro de Atenas, também conhecida como “Era de Péricles”. Cópia romana de original grego de c.430 a.C.Kemp defende que “os antigos atenienses teriam entendido os nossos sistemas [políticos] actuais, não como democráticos mas como hierarquias” – e quando desvaloriza as democracias do nosso tempo, Kemp não está a referir-se a “democracias eleitorais” como a Rússia de Putin ou a Bielo-Rússia de Lukashenko, mas às “democracias liberais da Escandinávia” que, no seu ver, não passam de “hierarquias democráticas” (pg. 94).Kemp aplica-se a denegrir as democracias liberais de hoje, mesmo estando consciente de que Atenas era uma democracia restrita a homens atenienses adultos que tivessem concluído a instrução militar e vedada a mulheres, escravos, escravos libertos e estrangeiros (metecos) e que não era uma democracia electiva, pois a assembleia legislativa era escolhido por sorteio. A democracia ateniense tinha aspectos cruéis e sombrios: se, por um lado, ela nos legou o teatro de Aristófanes, Ésquilo, Eurípides e Sófocles, a escultura de Fídias, Míron e Policleto, a filosofia de Anaxágoras, Górgias, Platão, Protágoras e Sócrates, os escritos de Heródoto, Tucídides e Xenofonte e ainda o Partenon, o Erecteion e o templo de Atena Vitoriosa, também foi ela que levou Aristófanes a tribunal (oficialmente por calúnia contra os governantes da cidade, na verdade por satirizar as suas condutas pouco éticas), condenou Anaxágoras ao exílio (oficialmente por impiedade, na verdade por levantar questões pertinentes sobre a natureza dos céus e da Terra) e Sócrates à morte (oficialmente por corromper a juventude, na verdade por levantar questões pertinentes sobre a natureza humana).A Atenas clássica serve também para invalidar o argumento recorrente de Kemp de que as sociedades igualitárias são menos propensas a empregar a violência. Em War in human civilization, Azar Gat lembra que, nesta cidade-estado, “onde o demos efectivamente governava, num grau poucas vezes alcançado na história, ele era também o mais belicoso elemento da sociedade, inteiramente empenhado na preservação e expansão do império pela força” (pg. 667). A história e a realidade são complexas e contraditórias e não se compadecem com as teorias simplistas, “one-size-fits-all” e superficialmente fundamentadas de Kemp.

A Acrópole no apogeu de Atenas, reimaginada por Leo van Kleeze, 1846● Na pg. 221, discorrendo sobre a invenção do alfabeto fenício, precursor do alfabeto grego (que, por sua vez, deu origem aos alfabetos latino, arménio, georgiano e cirílico), Kemp volta a incorrer na falácia “post hoc ergo propter hoc” (“depois disto, logo, por causa disto”): como o alfabeto fenício surgiu no século XI a.C., vê-o como uma das consequências positivas do colapso dos “Golias” da Idade do Bronze tardia. A “agenda” de Kemp molda toda a sua visão da história e leva-o a encontrar causalidades e processos determinísticos onde há apenas o jogo do caaso. É impossível provar que o alfabeto fenício – ou qualquer outro alfabeto similar – não teria acabado por emergir, difundir-se e gerar descendência, mesmo que não tivesse ocorrido o colapso civilizacional generalizado no final da Idade do Bronze. De igual modo, é impossível provar que, sem a invenção do alfabeto fenício, os actuais utilizadores dos alfabeto grego, latino, arménio, georgiano e cirílico estariam, ainda hoje, a empregar a escrita cuneiforme, os hieróglifos egípcios, o Linear A minóico ou o Linear B micénico.Porém, não é o único raciocínio estulto de Kemp no que toca aos sistemas de escrita: na sua visão doentiamente sectária, regozija-se com a extinção dos “sistemas de escrita elitistas, com centenas de símbolos de aprendizagem difícil”, que associa a impérios centralizados e sociedades hierárquicas, e a sua substituição pelo sistema de escrita fenício “curto, simples, fácil de dominar”. Nesta posição, está implícita a ideia que os sistemas de escrita complexos e com muitos caracteres são inerentemente “maus” e que os sistemas de de escrita simples e com poucos caracteres são inerentemente “bons”. Ora, a China e o Japão continuam, hoje, a usar sistemas de escrita extremamente complexos, com milhares de caracteres (muitos deles indistinguíveis a um olho não treinado), sem que isso cause dificuldades aos respectivos povos, gere elevadas taxas de iliteracia, estorve o florescimento da literatura, ou predisponha para a autocracia e para a desigualdade social. Por outro lado, há numerosos países que adoptaram o alfabeto latino e continuam atolados em pobreza, autocracia e desigualdade. A Coreia usa, desde o século XV, aquele que muitos linguistas consideram ser o sistema de escrita mais económico e racional do mundo, o hangul, sem que isso tenha feito dela o país mais democrático e igualitário da história – a simplicidade e elegância do hangul parece ter sido incapaz de impedir a Coreia do Norte de se tornar numa das mais opressivas e brutais ditaduras do mundo.

O alfabeto fenício● Na pg. 258, lê-se que “Roma adoptou e adaptou a cultura de quem conquistava. O panteão grego tornou-se no panteão romano, e Ares, deus da guerra, tornou-se Marte”. A atitude romana de absorver elementos dos povos que conquistava é, essencialmente, verdadeira, mas, no caso da mitologia grega, é inexacta. Roma começou a assimilar o panteão grego logo nos séculos VIII-VI a.C., directamente – através do contacto com as colónias gregas na Sicília e sul da Península Itálica – e indirectamente – através dos etruscos, cuja religião já tinha absorvido elementos gregos pelo contacto com essas mesmas colónias gregas. Uma concludente prova disto é o Templo de Jupiter Optimus Maximus (também conhecido como Templo de Júpiter Capitolino), que foi o mais importante templo dos primórdios de Roma e foi terminado em 509 a.C. (sendo Júpiter o equivalente, no panteão romano, do deus grego Zeus). É certo que a conquista da Grécia pelos romanos, que ocorreu no século II a.C. (entre 200 e 146 a.C.), propiciou um afluxo de literatura e arte gregas a Roma, mas este apenas complementou o processo de assimilação da mitologia grega iniciado séculos antes.

Reconstrução especulativa da versão original do Templo de Jupiter Optimus Maximus, que foi destruída pelo fogo em 83 a.C.Na pg. 261, Kemp dá mais uma prova flagrante da sua falta de escrúpulo em reescrever a história da humanidade de forma a conformá-la às suas peculiares “narrativas”, quando afirma que “a desigualdade em Roma era causa recorrente de problemas. Entre 66 e 135 d.C. houve três insurreições judaicas” (pg. 261).É indiscutível que o Império Romano foi marcado por uma profunda desigualdade económica (ver capítulo “A massificação do consumo conspícuo” em O que a Roma de Séneca nos ensina sobre o nosso tempo), mas esta não se conta entre as causas principais das Guerras Romano-Judaicas de 66-135 d.C. Estas foram motivadas, antes de mais, pela aspiração dos judeus a recuperar a sua independência e tiveram na sua origem desaguisados do foro religioso. O império romano tinha uma natureza prática e materialista: desde que o aparelho extractivista funcionasse sem atrito (ou seja, desde que os impostos fossem arrecadados e não houvesse perturbação da ordem pública), pouco importava a Roma que deuses adoravam os povos subjugados. Porém, os judeus eram extremamente ciosos das suas práticas religiosas e não eram necessários grandes pretextos para que fervesse a indignação e fossem rasgadas vestes. Na verdade, os judeus tinham uma posição de princípio de rejeição do domínio de Roma que tinha base religiosa: aceitar este era uma afronta ao mandamento de servir um único rei, Jeová.Ainda antes da I Guerra Romano-Judaica registaram-se vários atritos espoletados por agravos de pequena monta: os romanos usaram fundos adstritos ao Templo para construir um aqueduto; organizaram uma parada por Jerusalém com estandartes romanos exibindo o busto do imperador; e um legionário romano que estava de sentinela junto ao Templo mostrou as nádegas a um grupo de devotos judeus. Em 40 d.C., agastado pelos recorrentes protestos e tumultos em torno de minudências de cariz religioso, o imperador Calígula ordenou ao governador da Síria a erecção de uma colossal estátua dourada de si mesmo no Templo, em Jerusalém, o que suscitou, como seria previsível, mais uma onda de indignação. Se a provocação de Calígula tivesse sido concretizada, teria, provavelmente, desencadeado a rebelião em massa dos judeus – mas Calígula foi assassinado no ano seguinte e o projecto foi cancelado.Mas o clima de tensão resultante de pequenos desaguisados envolvendo práticas religiosas manteve-se e a rebelião acabou por explodir em 66. Teve origem num incidente em que um grego, possivelmente abespinhado pelo zelo religioso dos judeus, decidiu, por pirraça, sacrificar aves junto a uma sinagoga. Os tumultos estalaram e o procurador romano na Judeia, em vez de os acalmar, saqueou o Templo e ordenou uma repressão sem misericórdia nas ruas de Jerusalém, que terá feito milhares de vítimas. A insurreição alastrou a toda a Judeia, prolongou-se por oito anos e resultou na destruição metódica do Templo e de toda a cidade de Jerusalém pelos romanos. Apesar desta punição brutal, os grupos rebeldes mais determinados continuaram a resistir nalguns pontos e a guerra só terminou em 74, quando os derradeiros revoltosos, cercados na fortaleza de Masada e encarando a derrota iminente, optaram pelo suicídio colectivo.

Ruínas de MasadaAs causas das insurreições judaicas de 115-117 e de 132-136 não foram muito diferentes: a pesada tributação imposta pelos romanos e as tensões étnicas entre judeus e outros povos desempenharam nelas um papel, mas os motivos de ordem religiosa foram preponderantes. Os judeus nunca aceitaram qualquer interferência nas suas práticas religiosas e os romanos, com escasso tacto e tremenda sobranceria, entenderam que a melhor forma de quebrar a resistência judaica seria tomar medidas que evidenciassem o seu completo desprezo por essas práticas. Por exemplo, a III Guerra (132-136), também conhecida como Revolta de Bar Kokhba, teve como rastilho o plano do imperador romano Adriano para construir uma colónia romana, designada por Aelia Capitolina, sobre os escombros de Jerusalém (que tinha sido parcialmente arrasada na I Guerra) e a interdição da prática da circuncisão. O anúncio destas medidas levou, previsivelmente, a um levantamento judeu, que foi implacavelmente reprimido: 2/3 da população judia terão perecido no conflito, parte dos sobreviventes foram escravizados ou expulsos da Judeia (Jerusalém foi completamente esvaziada de judeus) e os romanos demoliram metodicamente a maioria das povoações dignas desse nome (cerca de um milhar de cidades e vilas, segundo o historiador Cássio Dio); não contente com a destruição material e o despovoamento da Judeia, Roma também declarou extinta a sua ideia, ao rebaptizar a província como Síria Palestina.

Ruínas de Horvat Ehtri, uma povoação na Judeia: após ter sofrido danos na I Guerra Romano-Judaica, foi arrasada na III GuerraO território judaico até poderia ser o campeão da igualdade de rendimentos e ter a tributação mais leve entre todas as províncias romanas, mas tal não impediria as insurreições judaicas, pois estas foram espoletadas por matérias de fé, não por um antepassado remoto de Karl Marx (um judeu, note-se) que redigiu um manifesto apelando aos proletários judeus para se revoltarem contra a exploração pelo capitalismo romano.
Na pg. 265, lê-se: “No seu auge, Roma tinha cerca de 34.000 funcionários públicos. Para pôr este termo na devida perspectiva, a Comissão Europeia emprega apenas 32.000”. Não se percebe que “perspectiva” pretende Kemp providenciar com esta comparação. Quererá sugerir que o Império possuía um corpo de funcionários muito vasto?Se assim é, falha completamente o alvo. A União Europeia cobre uma área similar à do Império Romano na sua máxima extensão – 4.5 milhões de km2 – mas a sua população é de 450 milhões, enquanto a do Império Romano foi estimada em 60-70 milhões, o que não está longe da actual população de Itália (59 milhões). Por outro lado, há que ter em conta que 1) a Comissão Europeia é apenas uma das instituições da União Europeia, que emprega também 7000-8000 pessoas no Parlamento Europeu, 3000 no Conselho da UE e 13.000 em cerca de 40 agências e entidades várias, perfazendo a sua soma quase 60.000 funcionários; e 2) as instituições da UE ocupam-se apenas dos assuntos supranacionais – o grosso do trabalho recai sobre as administrações públicas dos 27 países-membros, que empregam um total de 35 milhões de funcionários, ou seja, metade da população total do Império Romano; só a Itália emprega cerca de 3.5 milhões de funcionários públicos.Seja como for, a ideia de comparar a dimensão da administração pública de um império da Antiguidade com a de um Estado do mundo desenvolvido é absurda: os Estados da Antiguidade ocupavam-se apenas de uma pequena fracção dos papéis que são vistos como inerentes aos Estados modernos, como sejam a educação, a saúde ou a segurança social.É um dos gags mais célebres da história do cinema: em A Vida de Brian (1979), do colectivo Monty Python, numa reunião da Frente Popular da Judeia, um movimento independentista que aspira a libertar a Judeia do domínio de Roma, o seu líder, Reg, lança a pergunta retórica “O que é que os romanos alguma vez fizeram por nós?” e, inesperadamente, obtém dos seus seguidores uma longa lista de benefícios palpáveis e inquestionáveis trazidos pelo conquistador, esvaziando o discurso de Reg e, quiçá, a razão de ser da Frente Popular da Judeia.Kemp está certamente a par deste gag, mas tal não o impede de se empenhar na demolição sistemática de qualquer aspecto positivo associado à civilização romana. Na pg. 278, Kemp vai ao ponto de a ideia de tentar convencer o leitor de que a civilização romana não era… civilizada: “Roma não era apenas profundamente desequilibrada e oligárquica, como não era má apenas para a saúde e altura da maior parte da sua população. Era também espectacularmente selvagem”, o que se materializava em “bandos armados de homens jovens a vender mulheres como escravas e a execução pública de milhares de pessoas”, atrocidades que, segundo Kemp, foram replicadas no século XXI pelo “Estado Islâmico no Iraque e na Síria. Porém, graças à névoa que envolve o passado histórico e ao enfoque que damos à perspectiva dos 1%, a forma como vemos Roma é muito distinta da forma como vemos o Estado Islâmico”.

“A última prece do mártires cristãos” (1863-83), por Jean-Léon GérômeQuem parece estar toldado pela névoa é Kemp, que é incapaz de perceber que, se, aos olhos do presente, Roma é vista de forma muito distinta daquela com que vemos o Estado Islâmico, é porque os padrões éticos consensualmente aceites pelas sociedades sofreram mudanças profundas nos últimos 2000 anos. Roma foi “espectacularmente selvagem” pelos padrões presentes, mas essa selvajaria estava em linha com os padrões de outros Estados e tribos do seu tempo, em que a escravatura e as execuções públicas em massa estavam tão entranhadas no quotidiano, que só um ou outro filósofo mais sofisticado ousaria questionar a sua justeza e adequação. Já as acções do Estado Islâmico destoam do que é a prática corrente no mundo de hoje, em que a escravatura é ilegal em todos os países (ainda que continue a ser praticada nalgumas regiões e tolerada por alguns Estados) e apenas alguns países subjugados ao fundamentalismo islâmico (como o Irão, a Arábia Saudita ou o Afeganistão), ainda que precedidas por um processo legal (por viciado e injusto que seja). Em 2025, a pena de morte vigorava em 54 países (num total de quase 200) e foi aplicada pelos tribunais de 48, mas apenas 17 a executaram. As 2700 execuções registadas em 2025 são um facto lamentável, mas são um progresso em relação às práticas dos séculos precedentes. De qualquer forma, a comparação entre Roma, uma entidade política com uma relação tão desprendida e aberta com a religião que assimilava facilmente deuses e práticas das culturas que subjugava, e o Estado Islâmico, uma entidade completamente centrada no dogmatismo religioso e que pretende converter todo o mundo a esse dogmatismo, é completamente disparatada.Na sua sanha obtusa contra a civilização romana, Kemp também 1) rejeita que “as suas estradas, aquedutos, banhos, anfiteatros e monumentos imponentes [sejam] reflexo de uma sociedade mais rica e tecnologicamente avançada”; 2) rejeita que “esta capacidade tecnológica [se repercutia] no bem-estar e sustento do povo”; e 3) defende que Roma deu escassos contributos na inovação tecnológica e “limitou-se a disseminar e modificar” inovações produzidas noutros lugares e noutras épocas (pg. 282).

O aqueduto de Segóvia, contruído no século I d.C. e estendendo-se por 17 km, funcionou até 1973Ao contrário do que Kemp pensa, a inovação tecnológica como lampejo fugaz e isolado e desligado da aplicação prática tem valor modesto. Este facto é um dos eixos da argumentação de Abundância (2025, recentemente editado em Portugal pela Talento), de Ezra Klein & Derek Thompson, mas já tinha sido defendido pelo segundo no artigo “The Eureka Theory of history is wrong” publicado na revista Atlantic de Janeiro de 2023: “É frequente que, ao isolarmos os célebres ‘momentos eureka’, deixemos de fora os capítulos mais importantes da história – os que se seguem ao relâmpago inicial da descoberta. […] O progresso tem muito mais a ver com implementação do que com invenção. A forma como os indivíduos e as instituições elevam uma ideia de um a mil milhões é que é a história de como o mundo muda”. Realce-se que esta perspectiva não é nova e já tinha sido defendida, uma década antes, no livro The Eureka Myth: Creators, innovators and everyday intellectual property (2014), de Jessica Silbey, a quem é creditada a cunhagem do termo “mito eureka”.Entre muitos exemplos históricos que atestam a preponderância da implementação sobre a invenção, está o facto de, no século I d.C., Heron de Alexandria ter concebido uma precursora da turbina a vapor, a que deu o nome de a eolípila, mas o invento nunca passou da fase de protótipo – ou melhor, de brinquedo ou curiosidade mecânica – e o uso do vapor para realizar trabalho só foi concretizado, ainda que de forma incipiente, em 1712, por Thomas Newcome. Seria preciso esperar mais meio século até que James Watt aperfeiçoasse o conceito de Newcome e só em 1776 entraram em uso comercial as primeiras máquinas a vapor, cujo uso só se generalizaria no início do século seguinte. Quanto à turbina a vapor, de que a eolipília é a antepassada, só seria inventada por Charles Parsons em 1884 e a primeira embarcação movida por turbina a vapor surgiria em 1894, não tardando a revolucionar o transporte marítimo.Os romanos tiveram o mérito de terem tomado inovações de outras proveniências e de as terem produzido em massa e colocado ao serviço do bem-estar colectivo (ou de quem tivesse meios para as pagar) e tão bem o fizeram que ainda hoje subsistem, em razoável estado de conservação, algumas das estruturas, imponentes ou humildes, que ergueram para benefício dos cidadãos do império.Uma das poucas inovações que Kemp credita a Roma é o “cimento romano” (opus caementicium), “uma mistura única que fora usada na arquitectura romana desde o tempo da República” e cuja fórmula se perdeu após a queda de Roma. Kemp explica a perda do seu “segredo” com o argumento de que “deixou de ter grande utilidade porque os monumentos grandiosos em que era empregado deixaram de ser construídos” (pg. 284), o que deixa a sugestão de que o “cimento romano” apenas servia para obras de fachada (contradizendo o que escrevera duas páginas antes). Ora, aquele era amplamente usado em todo o tipo de edifícios e estruturas, nomeadamente pontes, aquedutos, reservatórios de água, molhes, cais e paredões, algumas das quais ainda se mantêm de pé nos nossos dias, atestando a robustez do opus caementicium e a excelência da engenharia romana.

Ruínas do porto romano de Cesareia (Caesarea Maritima), na Judeia, construído por volta de 22-10 a.C.: uma demonstração cabal da durabilidade do opus caementicium sob condições extremamente adversasO capítulo “O que as crises podem fazer por nós” é um trabalho de prestidigitação em que Kemp se esforça por provar que o nível de vida nos antigos territórios do Império Romano melhorou apreciavelmente após o colapso deste: “Do ponto de vista da saúde humana, o Império Romano é que foi a ‘idade das trevas’ e o período medieval uma idade de ouro” (pg. 275). Entre os estudos citados por Kemp não está, claro, The fall of Rome and the end of civilization (2005), de Bryan Ward-Perkins, uma obra de referência sobre o período em apreço, que demonstra terem ocorrido regressões em todos os domínios da vida humana: esperança de vida, saúde, nutrição, conforto, segurança, literacia e cultura. Kemp, sempre disponível para increpar os “Golias” e exaltar o “estado de natureza”, encontra correspondência entre os benefícios da queda do Império Romano e “a recessão de 2008, na Europa: as regiões em que a economia mais desacelerou também tiveram os maiores aumentos na esperança de vida. Embora as recessões económicas possam piorar a saúde em outros aspectos – como a saúde mental e as taxas de suicídio – também podem salvar vidas” (pg. 276).

“Paisagem com o Arco de Tito”, por Giovanni Paolo Panini (1691-1765): Após a queda de Roma, o bulício da capital imperial dá lugar a modos de vida simples e bucólicosPerante este fulgurante raciocínio, somos forçados a concluir que o mundo deve desculpas e um tardio agradecimento aos legisladores americanos que, em 1999, desfizeram a separação entre banca comercial e banca de investimento, e, em 2000, afrouxaram a regulação de instrumentos como os “credit default swaps” (CDS), bem como aos génios financeiros que inventaram e promoveram os conceitos de “crédito subprime” e de “securitização” (em particular o extinto Lehman Brothers) e, deste modo, infectaram o sistema financeiro mundial com uma colossal quantidade de activos tóxicos, circunstâncias que propiciaram a Crise Financeira de 2008, a Grande Recessão de 2008-2009 e a Crise das Dívidas Soberanas da Europa de 2009-14.
Olhando para as aflições que então passámos, podemos agora, com a vantagem do conhecimento retrospectivo, reciclar uma expressão celebrizada por um ex-Comentador-Geral da República: “éramos felizes e não sabíamos”. Do que o mundo precisa, afinal, é de crises, recessões e colapsos regulares, pelo menos uma vez por década. Há uma minoria que, não sendo capaz de compreender os benefícios de perder o emprego, de se ver despejado da casa por não poder pagar o aluguer ou o empréstimo do banco, de ver as poupanças de uma vida evaporadas no colapso do sistema financeiro, ou de não ter que dar de comer aos filhos, põe termo à vida ou fica deprimida ou perde a razão, mas os outros ganham uma saúde de ferro, anos de vida suplementares e incrementos substanciais na estatura.A seguir: Da queda de Roma ao colonialismo europeu

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