CIÊNCIA

A água – espaço e tempo do sagrado


Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Olá e sejam muito bem-vindos à História das Histórias. Já sabe, eu sou o João Paulo Sacadura e esta semana cumprimos a 80.ª semana em que está connosco Alberto Correia, com as suas memórias, as suas crónicas, com um grande sentimento de gratidão por todos estes 400 textos que nos acompanharam ao longo de todas estas semanas. Ficamos aqui a agradecer-lhe esta colaboração que teve connosco. Continuamos a falar das suas recordações e das suas memórias. Hoje falamos da água, espaço e tempo do sagrado. Vamos a isso. Bem-vindo, Alberto.
Na linguagem poética do Génesis, Javé ordenou, no segundo dia da criação, que as águas se separassem do caos original e assim surgiu o firmamento ou céu para dividir as águas que ficavam acima do céu ou debaixo do céu. Na voz do povo, mantêm-se receios desta dicotomia e a atitude científica vive de par com o discurso cosmogónico, que olha o céu como o lugar de onde cai a chuva, água que é o fundamento de toda a vida sobre a Terra. E esta separação de águas amplia-se ainda ao quadro daquelas que se ordenam à conservação da vida dos homens e dessas outras que voltam a partilhar do sagrado e se tornam, através do ritual, instrumento de ligação do homem à divindade. O ato maior onde se revela de forma exemplar a simbologia natural da água como fonte de vida e fonte de purificação é o batismo, assumindo a água, através de Cristo, uma significação e uma eficácia nova. É a água lustral onde, nas cerimónias de Quinta-feira Santa, se mergulhavam os neófitos que um segundo nascimento trazia ao grémio da verdadeira Igreja. Na Eucaristia, a água assume outra vez a função purificatória enquanto utilizada pelo sacerdote para lavar as mãos. A água benta, abundantemente oferecida em pias de pedra às portas das igrejas, cumpria um ritual de purificação com eficácia segura para os pecados veniais e as palavras que devia pronunciar quem a utilizava, “água bendita, seja para nós saúde e vida,” revelavam a sua força simbólica, vivencial e salvífica. A água benta era utilizada em várias cerimónias litúrgicas, transportada numa caldeirinha, e aspergia com o hissopo homens, coisas e animais, cumprindo sempre o rito, funções purificatórias. Outro momento em que a água benta ficava presente, sacralizando por um tempo um lugar, é esse tempo de velar o cadáver que permanecia antes em casa, hoje, no geral, em capela mortuária. Com o hissopo ou raminho postados à beira de uma urna ou do caixão, o visitante aspergirá com um gesto o corpo do defunto, como acontecia no mundo greco-romano. Se a desgraça acontecia na aldeia em forma de incêndio, fogo, dizia-se na aldeia, gerado na noite ou mesmo durante o dia, e uma habitação ficava ameaçada, o sino tocava a rebate e o povo inteiro acorria num gesto gratuito de solidariedade e carreado em cântaros a água das fontes e dos poços. A água está presente noutro espaço em que o sagrado e o mágico se cruzam, mas agora é a interdição do uso da água que está em jogo, como se o uso da água nesse determinado momento fosse responsável pela desordem que instauraria. Assim acontece com a proibição de ir à fonte durante a noite ou de despejar águas para a rua ou para os pátios mal anoiteça, tomando-se como justificação total o receio de que caia sobre as alminhas que vagueiam pedindo orações para seu repouso. Outro registo de uma manifestação do sagrado neste extenso universo da água prende-se com as próprias nascentes, que às vezes se tornam possuidoras de virtudes raras, se tornam águas-santas, verdadeiros instrumentos de potenciais milagres. E assim temos aqui e além a fontinha da saúde, a fonte santa, a fonte de São Pedro, águas santas e até as águas do mar utilizadas para banhos cerimoniais, banhos santos, onde o sagrado está presente. “Água bendita, seja para nós salvação e vida,” clama muitas vezes a Igreja em seus ofícios.
Muito bonito este levantamento que faz sobre a importância da água, todo o tipo de águas. Alberto, de facto é sempre bom ouvir estas histórias e ter estas crenças que eu não fazia ideia, que não se despejava águas à noite, com medo de molhar as alminhas que podiam vaguear pelas ruas em orações. É extraordinário. Estas crenças populares também. Muito curioso, como sempre. Aprendemos muito, é sempre um grande prazer ouvi-lo e seguir o seu pensamento e as suas palavras. Muito bem, Alberto. Então marcamos encontro para amanhã, portanto, nesta última crónica, a 400ª crónica que nos vai presentear. Bem-haja. Até amanhã, Alberto.
Então, até amanhã.

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