De livros e outros dons da água
O verbo latino legere costuma traduzir-se por “ler”, mas durante muito tempo significou antes colher, reunir, escolher cuidadosamente tudo quanto de disperso se encontra sobre a terra. O leitor é, antes de tudo, um respigador, alguém que caminha devagar, alguém que se curva e recolhe. Talvez seja essa a razão pela qual nenhuma leitura comece verdadeiramente diante de um livro. Começa muito antes, quando alguma coisa do mundo, quase imperceptivelmente, reclama a nossa atenção: a sombra de uma árvore sobre uma parede caiada, o rumor de uma fonte, o voo oblíquo de uma ave ao fim da tarde, o odor da chuva sobre o pó. Só depois surgem as palavras. Ler é descobrir que o universo inteiro deseja, desde sempre, ser recolhido. Os livros não acrescentam um segundo mundo ao primeiro; tornam visível a secreta costura que une todas as coisas.
A Antiguidade desconfiava dos textos que apenas transmitem informação. Procurava neles qualquer coisa mais difícil de nomear: uma respiração. πνεῦμα (pneuma), chamavam-lhe os gregos; רוּחַ (ruah), os judeus; ambos significam simultaneamente hálito, sopro e espírito. Talvez por isso um livro nunca permaneça imóvel quando é aberto. Ainda que o papiro ou o pergaminho permaneçam silenciosos, algo começa a mover-se entre as suas fibras. As letras deixam de ser sinais e tornam-se correntes de ar. As imagens desprendem-se da página como o perfume da resina aquecida pelo sol. E o leitor, sem abandonar o banco onde se encontra sentado, aprende lentamente a deslocar-se para lugares onde o corpo nunca esteve. Há viagens que pertencem aos pés; outras apenas ao olhar. A leitura conhece ambas e, por isso, faz do repouso uma das formas mais discretas da peregrinação.Na Casa da Vida de Bubastis, no antigo Egipto, perto de Alexandria, a biblioteca ocupava uma ala separada com vista para uma fonte maravilhosa, sobre a qual, a intervalos regulares, se espargia pó de açafrão da Índia, limalhas de lápis-lazúli e cera de abelha misturada com raspa de limão, tudo em rituais que se repetiam ano após ano com uma minúcia assombrosa. Essa fonte inspirava os escribas e permitia-lhes orientar-se na coloração dos papiros sagrados. Os rolos mais antigos dormitavam nas prateleiras mais altas, por respeito para com o seu conteúdo e para estarem mais próximos do céu, que era o que representava o tecto da biblioteca, na qual também se encontravam imagens estelares a rodear a figura de Rá, o Sol.Um pouco afastado, mas não muito longe da biblioteca, existia um pequeno jardim zoológico com todas as aves e mamíferos do país, instrumentos astronómicos esculpidos em pedra e canteiros de flores com papiros verdes a partir dos quais se produzia o papel que viria a ter a cor do âmbar pálido. Os escribas aprendiam a ler ao longo de anos – primeiro a escrita demótica ou popular, quase alfabética, depois a escrita hierática e, por fim, os sinais hieroglíficos.
Cada vez que um leitor abria um papiro ou o retirava de um cântaro de granito polido, os presentes maravilhavam-se com os prodígios escritos sobre a trama cruzada do documento. Que uma planta palustre desse origem a este suporte que, como as asas secas de uma enorme libélula, estalava quando se desenrolava e voltava a enrolar, era um grato dom da botânica, mas ainda mais um dom da água. Havia todo o tipo de livros na biblioteca: tratados sobre gatos e crocodilos, sobre as cheias do Nilo e a sua fidelidade ao ritmo lunar. Alguns eram livros proibidos que apenas podiam ser lidos por um ou dois sacerdotes e, mesmo assim, apenas a determinadas horas e dias, após as quais bebiam um pouco da maravilhosa fonte, depois de purificarem a água com filtros de linho que eram mudados uma vez por semana. Nesse acto de purificação e depois de sorverem alguns goles, esqueciam o que tinham lido. Era uma condição importante que todo o escriba tinha de respeitar: fora da Casa da Vida era necessário permanecer em silêncio ou, melhor ainda, tentar esquecer o que se tinha aprendido; isto é, afastar tudo quanto fosse possível da existência exterior à biblioteca. A vantagem deste costume era que sempre que liam algo, parecia-lhes novo e desconhecido. Acreditavam que o demótico era mais instável do que o hierático, e este ainda mais do que o que estava escrito em hieróglifos.Em frente à estátua do íbis-negro que recordava a origem da escrita, ocasionalmente queimavam os nomes próprios dos seus mortos, primeiro para os recordar e depois para que ninguém lhes pudesse seguir o rasto. Isto era feito em pequenos pedaços de papiro que cada qual devia custear. De modo que, por vezes, a biblioteca cheirava a papiro queimado. Um revisor, que era também o zelador da biblioteca, tratava dos insectos, fossem traças cinzentas ou grilos pretos. Os bancos dos leitores não eram muito confortáveis, pois embora os textos fossem sonhos do passado, mensagens do além, crónicas de viagens ao submundo ilustradas a vermelho cádmio e amarelo calêndula, a verdade é que adormecer naquele lugar era interpretado como uma ofensa aos sinais escritos, sempre despertos e prontos a serem lidos. Em geral, as pessoas evitavam importunar os que adormeciam para não lhes provocar taquicardias ou medos, o que não impedia que o vizinho de banqueta pudesse recorrer ao som de um chocalho de prata para abrir os olhos do adormecido.A palavra papiro provém de uma antiga voz egípcia que significa “flor do rei”, uma vez que a planta e todos os seus derivados pertenciam à casa dos faraós. Cada folha utilizada, depois de prensada e seca, recebia o nome de plagula, e os volumes ou rolos à disposição do leitor tinham um comprimento máximo de vinte peças e um mínimo de cinco. O negro da escrita provinha do caulino, o verde da malaquite, o laranja do pólen e o vermelho do quermes.A palavra grega ἀλήθεια (aletheia), que traduzimos por verdade, significa literalmente o que deixa de estar oculto, aquilo que emerge do esquecimento. Cada leitura autêntica participa desse movimento. Não confirma apenas o que sabíamos; remove delicadamente uma camada de hábito que se depositou sobre as coisas. De súbito, um rio torna a ser um nascimento, uma árvore reaprende a erguer os ramos, uma estrela deixa de ser apenas um ponto luminoso para voltar a parecer uma pergunta. Ler não consiste em acumular mundos, mas em permitir que o nosso regresse, por instantes, ao primeiro dia da criação.
Toda a leitura é, no fundo, uma navegação sem cartografia. Parte-se sempre do lugar onde se está, mas regressa-se inevitavelmente diferente. Não é o livro que muda; muda o coração que o transporta fechado debaixo do braço quando chega a hora de regressar à luz. E talvez todas as bibliotecas, das margens do Nilo às salas silenciosas dos nossos dias, tenham guardado um único segredo, repetido de século em século: que o mundo é sempre maior depois de ter sido lido, porque cada página acrescenta à realidade não mais uma história, mas uma nova possibilidade de a amar.Na biblioteca de Bubastis, certa vez, um escriba que tinha lido quase todos os papiros armazenados pensou que, dado que os barcos dos deuses eram também feitos dessa planta, depois de seca e impermeabilizada, ler era, muitas vezes, navegar ao longo do rio dos séculos até à mais lúcida das praias do nosso repouso.
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