Os 250 anos de "A Riqueza da Nações" (e dos EUA)
Para os que não acreditam em coincidências, os feitos da publicação do livro de Adam Smith, A Riqueza das Nações, e da Declaração de Independência dos EUA, são mais do que simbólicas, aqueles acreditando haver uma relação causal entre ambos os fenómenos. A partir desta premissa, há apenas um caminho a seguir: descobrir o fio condutor da causalidade, ou seja, qual o motivo ou motivos, que fazem deste feliz acerto cronológico datado de 1766 um marco decisivo no panorama da História Universal.
Os mais crentes diriam que terá sido por ação de uma mão invisível que se deu a ocorrência; os mais modestos, porém, apontarão processos económicos e políticos, cada um exercendo a sua ação separadamente, mas que no final da contenda conseguiriam o resultado de estabelecer uma democracia competitiva e uma economia aberta e livre, as primeiras de face moderna e republicana, que dariam o tom para as democracias capitalistas vindouras. Existiria uma relação direta entre o estabelecimento de uma economia de mercado e o regime político democrático. Conforme afirma Milton Friedman, o capitalismo é a condição necessária (contudo, não suficiente) para se alcançar a democracia. Dito de outra forma, não haverá espaço para uma democracia sem implementar primeiramente um sistema económico baseado na livre-iniciativa e no mercado. Sem capital, não existe democracia.Pois somente o aparecimento e fortalecimento de uma classe média pode reivindicar junto do poder melhores condições de vida, mais altos padrões de conforto e de liberdade. Uma vez alcançada a liberdade económica, os cidadãos são livres para procurar a contraparte política.Deveria parecer estranho ainda sublinhar, nos dias coevos, semelhante paralelo; todavia, os detratores do mercado livre parecem não descansar na suas manifestações e ativismos, mesmo quando os resultados do sistema resultam e resultaram de forma satisfatória, tendo também em conta, por outro lado, as consequências e o impacto que as alternativas económicas tiveram no passado e têm no presente. Estes atavismos, todavia, não nos devem impressionar nem nos distrair do fundamental: não havendo lugar neste mundo para a perfeição, temos de escolher – nas palavras de Churchill – o mal menor, quer em termos políticos quer em termos económicos.
A obra de Smith ainda hoje é devedora aos seus inimigos da enorme carga de ódio e preconceito que suscita. Inaugurando do ponto de vista teórico uma nova via – natural e livre – para os afazeres humanos, ressentiu o lado contrário, onde o Estado detinha – e detém – o monopólio das decisões económicas. Curiosamente, nesses Estados totalitários, onde o poder político é dono e senhor da economia, onde os indivíduos e a sua privacidade não têm lugar, é de onde surgem os apontares de dedo mais disparatados e hipócritas: acusam as democracias liberais e representativas de subjugar o poder político ao económico. Contudo, basta uma análise séria para verificar que apenas e só nestes regimes de liberdade, além de acautelarem a liberdade individual e de propriedade, garantem uma dissociação entre os dois mundos, cada um dos polos evitando a interferência direta do outro. Cada um no seu egoísmo natural, tal como cada indivíduo, busca o lugar ao sol, contribuindo assim para a felicidade do todo social.E por falar em egoísmo: Milton, Capitalismo e Liberdade – Ninguém que vai comprar pão sabe se o trigo com o qual o alimento foi fabricado foi cultivado por um comunista ou um republicano, por um constitucionalista ou um fascista, ou, por um negro ou um branco, no caso em questão. Este exemplo demonstra como um mercado impessoal separa as atividades e decisões económicas de pontos de vista políticos e ideológicos.Claramente, esse é o caminho.
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