CIÊNCIA

Uma versão enganadora da história: de Roma ao colonialismo

[Este é o quarto de seis artigos sobre o livro “A Maldição de Golias”. Os anteriores podem ser lidos aqui:]É fácil depreender que Luke Kemp não tem uma ideia favorável do conceito de Estado, quando se lê a definição que dele dá na pg. 14: “um conjunto de instituições centralizadas que impõe regras e extrai recursos de uma população num dado território”. É uma visão cínica e lúgubre do Estado: impõe (é tirânico), extrai (é ganancioso) e, nalguns casos, pouco ou nada dá em troca (é parasitário). Todavia, Kemp concede que “os Estados também podem fornecer bens públicos, quer sejam estradas, pontes ou (em casos mais tardios) educação e serviços de saúde” (pg. 506).
O que nos vale, nesta peculiar óptica, é que os Estados não duram para sempre: mais tarde ou mais cedo, colapsam (em média, ao fim de 326 anos, segundo as contas de Kemp). Kemp define “colapso” como “contracção e fragmentação relativamente rápida de diferentes sistemas de poder. Isto resulta em grandes perdas em termos de hierarquia, densidade populacional e captação energética” (pg. 505).A maioria das pessoas habituou-se a pensar que os Estados são, globalmente, benéficos (mesmo que não tratem muito bem os cidadãos comuns) e que os colapsos são sempre indesejáveis. Porém, Kemp escreveu A Maldição de Golias para defender a ideia oposta e explica que o apreço (injustificado) pelos Estados resulta de “a maior parte de nós não se [sentir] confortável em reconhecer o elemento mais comum da civilização: governar por dominação” (pg. 15). Para Kemp, um Estado é, antes de mais, “um sistema de violência”, a que dá o nome de “Golias”, inspirado no nome do brutamontes bíblico abatido pelo jovem David. Os “Golias” nasceram de um “movimento no sentido de organizar as sociedades humanas, à semelhança de muitos dos nossos primos chimpanzés, sob a forma de hierarquias de dominação, ou seja um sistema de estratificação social no qual um grupo ou indivíduo se situa acima dos outros graças à sua capacidade de impor sanções, incluindo por meio da violência” (pg. 16).Postas as coisas nestes termos, compreende-se que Kemp tenha, genericamente, uma perspectiva benigna dos colapsos: podem ser angustiantes, aterradores mesmo, para quem está a vivê-los, mas, quando vistos de forma retrospectiva, o seu saldo pode ser francamente positivo para a sociedade como um todo – ainda que seja sempre péssimo para quem estava no topo da hierarquia do “Golias”. Assim, como se viu no final do artigo anterior, Kemp esfalfa-se por mostrar que, ao contrário do que sói pensar-se, a queda do Império Romano traduziu-se na melhoria das condições de vida do europeu médio. Se não é fácil aceitar os argumentos (falaciosos, deturpados ou francamente falsos) com que Kemp vende esta tese, mais difícil é engolir o que nos propõe na pg. 276: “ao longo do último século, recessões e depressões económicas têm, por vezes, e de forma inesperada, contribuído para um aumento da esperança de vida devido à redução da poluição atmosférica […], à redução do consumo de álcool e tabaco […], à redução do número de acidentes fatais no local de trabalho e nas estradas e no aumento do tempo de lazer e sociabilização”. E dá como exemplo desta crise “virtuosa”, a Crise Financeira Mundial de 2008, que, com as suas ramificações (nomeadamente a Crise das Dívidas Soberanas da Europa de 2009-14), deixou gratas memórias por todo o mundo e, em particular nos chamados “PIGS”.
Mesmo o leitor que, munindo-se de imensa boa vontade e abertura de espírito, tenha aceitado a possibilidade de algumas crises económicas poderem ter, a longo prazo, um balanço positivo, dificilmente estará preparado para um capítulo intitulado “Abençoados com a Peste Negra”, em que Kemp explica que a pandemia de peste bubónica que varreu a Eurásia e o Norte de África em meados do século XIV foi um evento “incrivelmente traumático, mas foi também uma benesse para os que tiveram a sorte de lhe sobreviver. Cortar a população em metade quis dizer que, em média, todos tinham o dobro de tudo, desde navios a terras e cereais” (pg. 288). Aplicando esta impecável lógica ao ambiente doméstico, eis uma hipótese que se deixa à consideração de quem nos lê: já lhe ocorreu que se assassinar o seu cônjuge e der os seus dois filhos para adopção é como se a sua casa ficasse com o quádruplo da área? (escusa de agradecer a sugestão; mas se a puser em prática, por favor não revele que a obteve aqui).

A Morte visita uma vítima da peste: iluminura no manuscrito “Le trésor de sapience”, atribuído ao teólogo Jean Gerson (1363-1429)Prossegue Kemp: “Os salários duplicaram ou até triplicaram em muitas regiões, e a disparidade salarial entre homens e mulheres reduziu-se. As pessoas ficaram mais altas e mais saudáveis. A esperança de vida aumentou e a estatura cresceu de um mínimo de 168 centímetros, durante a Peste Negra, para um pico de 174 centímetros” (pg. 288). Percebemos agora como foram insensatas as medidas tomadas para conter a covid-19 – os antivaxxers e os que rejeitavam usar máscaras e acatar normas de “distanciamento social” e confinamento, estavam, afinal, certos (ainda que invocassem razões diversas). Se se tivesse deixado a pandemia seguir livremente o seu curso, estaríamos hoje a atravessar um período de prosperidade inaudita.
Os casos pontuais de hantavírus no navio de cruzeiro MV Hondius causaram frisson nos canais de televisão, mas foram rapidamente esquecidos, dado que a baixa probabilidade de transmissão do vírus entre humanos torna o controlo deste vírus relativamente fácil. Em contrapartida, há alguma esperança no surto de ébola na República Democrática do Congo e no Uganda, que a OMS classificou, a 16 de Maio passado, como “uma emergência de saúde pública mundial”. É certo que, entretanto, também o ébola desapareceu dos noticiários, escorraçado pelos terramotos na Venezuela, o campeonato do mundo de futebol, as vagas de calor na Europa Ocidental e a abertura da temporada dos incêndios florestais. Todavia, o ébola, com a sua taxa de mortalidade média de 50%, deve ser visto como uma oportunidade de incrementar substancialmente os salários, a riqueza per capita e a estatura média e de diminuir a disparidade salarial entre homens e mulheres – e, no caso português, também de resolver uma crise da habitação que tem resistido a todas as medidas do governo para a debelar.

A peste numa cidade da Antiguidade, por Michiel Sweerts (c.1652-54)A obsessão de Kemp em retratar favoravelmente a Peste Negra leva-o a postular que “o grande número de copistas que morreram durante a peste acelerou a produção de livros em massa” (pg. 291). A afirmação, enigmática, surge sem contexto, mas Kemp explica, em nota, o que não explicou no corpo do texto: “A produção de livros entrou em colapso com a peste, devido à morte de demasiados [sic] escritores e letrados […] Isto promoveu o desenvolvimento e adopção da imprensa de Gutenberg, em 1440”.A tese é triplamente disparatada: 1) Não há razão para que os copistas fossem mais susceptíveis à peste do que qualquer outro grupo da sociedade, pelo que terão perecido na mesma proporção que os escritores, os leitores e os coleccionadores de livros – não há, pois, motivo para que o equilíbrio entre a procura e a oferta de livros fosse alterado pela peste; 2) Gutenberg imprimiu o seu primeiro livro em 1452-54, um século após o fim da Peste Negra, tempo mais do que suficiente para formar novos copistas para substituir os que (supostamente) teriam perecido em excesso na pandemia; 3) O que desencadeou a produção em massa de livros foi o facto de a prensa de tipos móveis ser muito mais rápida do que os copistas e, assim, permitir que o preço dos livros baixasse, estimulando a procura por livros e extinguindo a profissão de copista num ápice. A prensa de tipos móveis ter-se-ia imposto, tivesse ou não ocorrido uma pandemia de peste um século antes.
● Na pg. 272, analisando a história do Império Bizantino, Kemp refere que este atingiu a sua máxima extensão por volta de 541, altura em que foi “atingido pela peste bubónica e pela Pequena Idade do Gelo da Antiguidade Tardia”, sofrido invasões de avaros e eslavos e travado uma guerra com o Império Sassânida. Porém, na página seguinte, quando fornece explicações para a longevidade do Império Bizantino (que duraria até 1453), a Pequena Idade do Gelo da Antiguidade Tardia passa de infortúnio a bênção: “criou condições mais frias e húmidas que favoreciam a criação de gado e o cultivo de cereais. Isto significava mais comida, uma população mais saudável e menores probabilidades de fome”. É tentador ficar a matutar no que levará um autor a sentir-se obrigado a explicitar que “mais comida” implica “menos fome”, mas o que é realmente revelador da integridade intelectual de Kemp é o à-vontade com que extrai leituras opostas do mesmo facto em páginas adjacentes.

Foi durante o reinado de Justiniano I (527-65) que o Império Bizantino atingiu a sua máxima extensão. Detalhe de mosaico na Basílica de San Vitale, Ravena, 547● Em A Maldição de Golias, as incongruências surgem, por vezes, com apenas uma ou duas linhas de intervalo. Por exemplo, na pg. 287 lê-se: “A maior parte do excedente criado pela tecnologia e pelo crescimento económico foi absorvido pelas elites. Uma estimativa relativa à França medieval (1100-1250) sugere que 20% da produção era destinada à construção de igrejas e catedrais. Essencialmente, tudo o que não era utilizado para alimentar pessoas foi para a construção de igrejas e para a expansão de mosteiros”.

A construção da catedral de Santiago de Compostela, segundo iluminura nas Grandes chroniques de France (c.1515-25), de Guillaume CrétinÉ verdade que, numa sociedade autocrática, rigidamente hierarquizada e desigual, as elites absorvem boa parte do que é gerado pelo labor dos súbditos, independentemente do estádio de desenvolvimento tecnológico. No Antigo Egipto, parte substancial da riqueza gerada pelos férteis campos agrícolas do Nilo foi convertida em imponentes monumentos funerários, cuja única finalidade era assegurar a (suposta) eternidade de uma minúscula elite, e em nada contribuía para o melhoramento do miserável quotidiano do típico camponês egípcio. O povo da Europa medieval foi vítima de um ludíbrio análogo, ainda que, neste caso, as promessas de vida eterna a troco de gigantescas construções em pedra beneficiassem (supostamente) todos, não apenas o faraó e a elite administrativa e sacerdotal. Porém, afirmar que as igrejas e mosteiros absorviam “tudo o que não era utilizado para alimentar pessoas” é um rematado disparate, e mais disparatado é a equiparação entre esse “tudo” e 20%.Na verdade, os belicosos Estados medievais da Europa gastavam a maior parte do orçamento em despesas militares: equipar e alimentar soldados e mercenários e pagar-lhes o soldo, erguer e reparar fortificações, construir e manter frotas. Além destas gastos, a imagem de poderio e prestígio que reis e grandes senhores precisavam de projectar requeria palácios sumptuosos e roupas e adereços a condizer, bem como coroações, casamentos, baptizados, entradas triunfais, banquetes, caçadas, torneios e outros divertimentos e extravagâncias; era também preciso garantir o apoio da nobreza e da hierarquia do clero mediante generosa distribuição de presentes, pensões e prebendas, e adquirir relíquias, obras de arte, animais exóticos e curiosidades vindas de terras distantes. No domínio das relações internacionais, havia que impressionar rivais e aliados com embaixadas imponentes e presentes dispendiosos. A burocracia de um reino medieval era, pelos padrões actuais, incipiente, mas ainda assim era preciso montar e manter uma administração que cobrasse impostos, fizesse cumprir a lei e dispensasse (alguma) justiça. E havia que construir, expandir e reparar estradas, pontes, portos, diques, açudes, barragens, canais, pontes e outras infra-estruturas.

Em 1378, o rei Carlos V de França recebeu Carlos IV, o sacro imperador germânico, e o seu filho, o rei Venceslau IV da Boémia, com magnificentes banquetes no Palais de la Cité, em Paris. Na iluminura, o banquete é abrilhantado por uma reencenação da tomada de Jerusalém pela I Cruzada● Nas pg. 298-99, ao discorrer sobre o Império Azteca (outro “Golias”), Kemp menciona a “introdução de novas armas na [Mesoamérica], como as espadas de pedra”, que designa, mais à frente como “espadas de obsidiana”, e que terão sido importantes para aumentar o poderio militar azteca face aos seus Estados-vassalos e vizinhos. A ideia de uma “espada de pedra” desafia o mais elementar bom senso e é muito provável que as espadas a que Kemp se refere sejam as macuahitl, uma espada de madeira em cujo gume foram embutidas pequenas lascas afiadas de obsidiana; as macuahitl, ainda que sendo incapazes de medir-se com as espadas de aço dos conquistadores espanhóis, representavam um progresso em relação às macana, as espadas de madeira que tinham, até então, dominado o arsenal mesoamericano.

Guerreiros aztecas empunhando macuahitl, na Historia general de las cosas de Nueva España (c.1540-1585), supervisionada por frei Bernardino de SahagúnHá muito que os historiadores discutem o que terá levado a que, a partir do século XIII e, com maior ímpeto, a partir do século XVI, a Europa tomasse a dianteira em termos de inovação tecnológica e superioridade militar, face aos poderosos impérios otomano e chinês, o que levou a que estes fossem progressivamente definhando e acabassem por colapsar, sob a pressão das potências europeias, no início do século XX.No magistral The wealth and poverty of nations: Why some are rich and some are poor (1998, A riqueza e pobreza das nações), David S. Landes elabora uma convincente lista de factores que explicam o “excepcionalismo europeu”, entre os quais está a fragmentação do território e do poder: “Na Europa também abundavam os despotismos, mas eram mitigados pela lei e pela partição territorial e, dentro dos Estados, pela divisão de poder entre o centro (a coroa) e a autoridade senhorial local. A fragmentação deu origem à competição e a competição favoreceu o zelo pelo bem-estar dos súbditos. Se maltratados, estes podiam escolher viver noutro lugar” (pg. 36).

Mapa da Europa, c.1354Kemp também é adepto da explicação da fragmentação territorial, mas adapta-a à sua sanha anti-“Golias”, argumentando que a paisagem política europeia, um “panorama descentralizado de Estados concorrentes, ficou a dever-se à queda de Roma, após a qual a Europa se transformou numa manta de retalhos de reinos beligerantes que partilhavam uma mesma cultura cristã. Estas condições criaram um ambiente fértil para o desenvolvimento e divulgação de novas ideias, por muito loucas que parecessem. […] No conjunto, estas tecnologias, bem como a competição pela descoberta de novos territórios e rotas comerciais, alimentaram a ascensão das potências coloniais europeias. […] Como mostra Walter Scheidel [em Escape from Rome: The failure of empire and the future of the past (2019)], subjacente [aos factores favoráveis ao desenvolvimento da Europa] estava um estado de intensa competição que não existiria caso Roma não tivesse caído. […] Pelo futuro poderio europeu, o melhor que [os romanos] fizeram foi sair de cena.” (pg. 289-90).Há um abismo entre a sensatez da teoria de Landes, em que a fragmentação é apenas um entre vários factores que interagem de forma intricada e que comporta considera diversas subtilezas, e o primarismo e a monomania da teoria de Kemp, que estabelece relação causal directa e unívoca entre o término do Império Romano e a ascensão da Europa colonial. O hiato de cerca de mil anos entre os dois eventos não intimida Kemp, que se imagina o mestre supremo do bilhar às mil tabelas: percute-se uma bola – Odoacro depõe o imperador Augústulo em 476 – e, mil colisões depois, ela atinge o alvo pretendido – Vasco da Gama desembarca em Calecute em 1498.
Há uma legião de objecções a este raciocínio que parecem não ter aflorado à mente de Kemp: se a fragmentação é tão favorável à inovação e ao progresso, por que foi necessário quase um milénio para que produzisse frutos na Europa? Por que razão os principais focos de inovação e progresso na Europa do Renascimento e da expansão marítima surgiram em territórios que tinham pertencido ao antigo Império Romano (Portugal, Espanha, Inglaterra, França, Itália, Alemanha, Países Baixos), enquanto a Escandinávia e a Islândia, que nunca estiveram oprimidas por um “Golias”, se mantiveram entorpecidas e pouco ou nenhum contributo deram para a ciência, a inovação e para o desenvolvimento económico até à viragem dos séculos XIX-XX? Se a fragmentação territorial explicasse, por si só, o progresso e a prosperidade, não deveria África, muito mais fragmentada, do ponto de vista político, do que a Europa, ter suplantado esta em desenvolvimento tecnológico e bélico e empreendido a sua colonização?

Mapa diacrónico mostrando as principais entidades culturais africanas entre 500 a.C. e 1500 a.C. Não estão representadas dezenas de reinos cuja existência é conhecida mas cuja delimitação se desconhece, bem como dezenas ou centenas de chefaturasComo explicar que a Nova Guiné, cuja topografia extremamente acidentada propiciou a existência, antes da colonização europeia, de uma realidade política finamente pulverizada, com 600 a 1000 clãs independentes numa área que representa menos de vez e meia a área de França, se tenha mantido num estádio de desenvolvimento neolítico quase até ao século XX?Kemp escreveu um ambicioso livro sobre dinâmicas históricas sem compreender que 1) a História não é um processo determinístico e que 2) não é possível explicar um fenómeno histórico vasto e complexo com base num único factor.A ilha de Rapa Nui (também conhecida como Ilha de Páscoa) é um dos casos tratados por Jared Diamond, em Colapso: Ascensão e queda das sociedades humanas (2005), onde é apresentada como exemplo extremo de uma sobre-exploração dos recursos naturais que resulta numa profunda alteração do meio biofísico e no colapso da sociedade humana que dele dependia. Porém, Kemp defende que Rapa Nui, “o caso mais conhecido de colapso, é um exemplo de genocídio, não de ecocídio. […] Os rapa nui [a ilha e os habitantes têm o mesmo nome] foram vítimas da colonização” (pg. 305).As estátuas colossais, ou moai, que semeiam a ilha intrigaram a comunidade académica durante muito tempo, pois os habitantes que os primeiros navegadores europeus lá encontraram pareciam estar num estádio de desenvolvimento incompatível com tão monumentais obras e a localização remota da ilha excluía que os moai tivessem outra proveniência.

Uma das mais antigas imagens de Rapa Nui, pintada c.1775-76 por William Hodges, que documentou a segunda expedição do capitão James Cook ao Pacífico. Muitas das estátuas seriam, depois, derrubadas pelos próprios habitantes; algumas seriam reerguidas no século XXO que Diamond e outros autores propõem é que a sociedade dos rapa nui tinha conhecido um nível civilizacional mais sofisticado, durante o qual tinham erguido os moai, mas que a pressão que tinham exercido sobre o relativamente frágil sistema biofísico da ilha tinha levado ao colapso deste e, concomitantemente, à regressão dos rapa nui para um estádio civilizacional rudimentar. Kemp refere-se a esta hipótese como “a narrativa vulgar” e resume-a, atabalhoadamente, assim: “eles [os rapa nui] ou ratos importados, desflorestaram a ilha, provocando a erosão maciça do solo, o que levou a um declínio da agricultura e, por fim, à fome, guerra e canibalismo, antes ainda da chegada dos europeus”. Kemp admite que os rapa nui foram responsáveis pela desflorestação da ilha, mas alega que “não há provas de mortalidade em massa antes da chegada dos europeus. […] Pelo contrário, parece que que a população aumentou de forma consistente e gradual até à chegada dos europeus em 1860”. Estes “introduziram na ilha doenças mortíferas […], traficantes de escravos do Peru levaram centenas, talvez até metade da população […] [e] em 1877 só restavam 111 ilhéus”, dos 3000-4000 que habitariam a ilha “há séculos de modo sustentável”.

Apesar de mais de um século de esforços para reflorestar Rapa Nui, a arborização continua a ser muito esparsa e localizada, devida à pobreza dos solos erodidos, e a vegetação herbácea domina a paisagemO texto de Kemp enferma de várias imprecisões, contradições, omissões e interpretações enviesadas:1) O primeiro contacto europeu com a ilha data de 1722, não de 1860.2) A ilha recebeu vários outros visitantes europeus a partir da década de 1770 e é plausível que eles tenham introduzido doenças contagiosas que poderão ter causado elevada mortandade entre os rapa nui, como aconteceu noutras ilhas do Pacífico (e nas Américas).3) No início da década de 1860, uma expedição peruana (sublinhe-se, peruana, não europeia – o Peru era independente desde 1824) raptou 1400-1500 rapa nui, representando cerca de metade da população e vendeu-os como escravos. Se Kemp afirma que a população era, há séculos, de 3000-4000 habitantes e em 1860 havia cerca de 3000, contradiz-se quando afirma que a população “aumentou de forma consistente e gradual até 1860” (nem haveria explicação plausível para que a capacidade de carga da ilha tivesse aumentado nos anos que antecederam 1860).

“Habitantes da Ilha de Pascoa”, pelo explorador germano-russo Louis Choris, que visitou Rapa Nui em 18164) Em Colapso, Jared Diamond apresenta estes factos e não oculta quão desastrosos se revelaram para os rapa nui os contactos com o mundo exterior. Porém, o foco de Colapso não é o que aconteceu depois de 1722, mas o que terá acontecido antes de 1722 e que levou ao declínio da sociedade que tinha sido capaz de erguer cerca de 900 moai (numa ilha com apenas 163 km2) com um peso médio de 12 toneladas e chegando, por vezes, às 80 toneladas – assunto que Kemp ignora olimpicamente.5) A hipótese de declínio postulada por Diamond não envolve “mortalidade em massa”, mas uma lenta e penosa regressão para um patamar civilizacional inferior em resultado da desflorestação, da erosão e do empobrecimento dos solos.6) A febre de construção de moai que tomou conta dos rapa nui é um típico caso de competição por status, levando ao consumo da maior parte dos recursos das comunidades e sem lhes proporcionar qualquer incremento no bem-estar.O que é de uma tremenda ironia, é que esta desproporcional, improdutiva e fútil alocação de trabalho e recursos, que, segundo Diamond, terá levado ao colapso ecológico da ilha e da sociedade rapa nui, é, em essência, análoga aos numerosos casos de competição por status que Kemp denuncia repetidamente em A Maldição de Golias – mas apenas quando essa competição se trava entre as elites dirigentes dos impérios extractivistas. Como, em Rapa Nui, a competição por status se travou entre clãs de uma ilha do Pacífico, cujo papel na história só pode ser, na enviesada e estereotipada perspectiva de Kemp, o de vítima dos imperialistas europeus, é incapaz de reconhecê-la pelo que é. Em vez disso, foca toda a sua atenção nos males que se abateram sobre os rapa nui após a chegada dos europeus (e que, repita-se, foram, na sua componente mais dolosa, causados por esclavagistas peruanos).
Sim, em 1860, terá havido um “genocídio” em Rapa Nui, mas tal não exclui, de modo algum, que antes tenha havido uma irracional competição por status entre os seus habitantes que se revelou ruinosa para a ecologia da ilha e que aqueles não tiveram discernimento para travar antes de se tornar irreversível e de os condenar a uma vida menos próspera e mais árdua do que aquela que, certamente, tinham gozado antes de começarem desenfreadamente a erguer moais inúteis. E é este o principal ensinamento que nós, no século XXI, cada vez mais absortos em extravagantes competições por status, devemos retirar da trágica história de Rapa Nui.

Hino à dissipação: Ahu Tongariki, uma das mais de 300 “ahu” (plataformas de pedra) da Ilha de Rapa Nui; algumas “ahu” estão vazias, outras têm um moai, mas a de Tongariki conta com 15● Nas pg. 317-18, Kemp aborda o desenvolvimento, pelas potências europeias, de “um complexo militar-industrial-esclavagista para produção de mercadorias baratas”, assente em plantações nas Caraíbas e nas Américas, laboradas por escravos trazidos de África. Uma das nações que mais beneficiou deste “esquema” foi “a Grã-Bretanha, [que se tornou] numa máquina de acumulação de riqueza. Há cerca de meio milénio, o capitalismo e a colonização foram combinados em plantações esclavagistas e fábricas sobrelotadas”.A cronologia de Kemp é delirante: há meio milénio não existia ainda a Grã-Bretanha, entidade que surgiu apenas em 1707, e a sua antecessora, a Inglaterra não tinha colónias (se não contarmos com a Irlanda); a primeira colónia inglesa, assaz modesta em área e população, foi fundada em Jamestown, na Virginia, em 1607. Ao longo do século XVII, as ilhas do Caribe acabaram por revelar-se mais atraentes do que a América do Norte para os colonos ingleses, que, em 1650, já somavam 44.000 nas “Índias Ocidentais”, contra 23.000 na Nova Inglaterra. A mais importante possessão inglesa no Caribe era Barbados, colónia fundada em 1627; inicialmente, os trabalhadores das plantações de Barbados eram ingleses e indígenas arawak, mas concomitantemente com a transição do cultivo do tabaco para a cana-de-açúcar, a partir de 1640, começaram a dar lugar a escravos africanos (que em 1660 representavam já metade da população e em 1680 eram mais de 2/3 da população). Quanto às “fábricas sobrelotadas” só chegaram com a Revolução Industrial, cuja data de início, na Grã-Bretanha, é usualmente situada em 1760, com a máquina a vapor a difundir-se sobretudo a partir de 1800.

A plantação de cana-de-açúcar Codrington, em Barbados, fundada no século XVII● Na pg. 321, Kemp afirma que “no início da I Guerra Mundial, os impérios europeus controlavam cerca de 84% da superfície terrestre” e inclui nestas contas o Império Otomano. Ora, ainda que este tenha dominado vastas áreas no sudeste do continente europeu (e a sua herdeira, a Turquia, continue a aí deter território, a Trácia Oriental, onde fica a parte ocidental da cidade de Istambul), o Império Otomano nunca foi um “império europeu”. Pelo contrário, foi contra “o Turco” que a Europa (ou, melhor, a Cristandade) se definiu e foi contra ele que as potências europeias, ultrapassando as suas divergências, pelejaram conjuntamente ao longo de mais de meio milénio. A sua inclusão no rol de impérios europeus é apenas um malabarismo aritmético de Kemp para fazer o “Golias” europeu parecer mais esmagador.Na pg. 323, a propósito da II Guerra Mundial, Kemp acusa os Aliados de não a terem travado por motivos idealistas e dá como exemplo os EUA, que, “apesar de todo o seu ódio aparente pelo fascismo, só entraram na guerra com relutância, em Dezembro de 1941, depois de terem sido atacados pelo Japão”. Kemp lamenta, incontáveis vezes, que as democracias ocidentais sejam uma farsa em que o demos tem, na verdade, escasso poder e as oligarquias políticas e económicas fazem o que querem, mas não se dá conta de que o episódio que refere não substancia essa perspectiva.Nos EUA coexistiam opiniões díspares sobre o envolvimento do país na guerra: o presidente Franklin D. Roosevelt inclinava-se, desde o princípio do conflito, para apoiar a Grã-Bretanha, quanto mais não fosse com equipamento militar, mas o Congresso e o povo americano (que ainda tinha bem presente a morte de tantos jovens americanos numa guerra na Europa que não lhes dizia directamente respeito) estavam maioritariamente inclinados para o isolacionismo.

A Greve pela Paz, a 19 de Abril de 1940, que se opunha à entrada dos EUA na guerra, mobilizou cerca de metade dos estudantes da Universidade de Berkeley (quiçá um dos grupos demográficos mais “progressistas” do paísA presidência dos EUA não é um cargo autocrático e está coarctada pelo sistema de “freios e contrapesos” – na verdade, é ao Congresso, não ao presidente, que cabe o poder de declarar guerra, ainda que, no nosso tempo, o presidente Trump tenha vindo a tornear essa prerrogativa com sucesso (empregando astúcias de secretaria e graças à transferência de poder do Congresso para o presidente que tem tido lugar, insidiosamente, nas últimas décadas). Além disso, se quisesse ser reeleito, o presidente não podia ignorar a opinião pública. Assim, de forma a fornecer ajuda à Grã-Bretanha, Roosevelt foi obrigado a manobrar com grandes cautelas e a adoptar subterfúgios (como o Lend-Lease Act, de Março de 1941). O ataque japonês a Pearl Harbor, a 7 de Dezembro de 1941 (ver Pearl Harbor: O Dia da Infâmia foi há 75 anos), colocou de imediato o Congresso e a opinião pública a favor da guerra com o Japão, mas Roosevelt, ainda assim, hesitou em declarar guerra à Alemanha e, surpreendentemente, foi esta que, num acto intempestivo de Hitler, declarou guerra aos EUA (para uma perspectiva detalhada da evolução do posicionamento diplomático dos EUA face à II Guerra Mundial sugere-se a consulta de Aliados em guerra: Os rivais que derrotaram Hitler (2025), de Tim Bouverie, recentemente publicado em Portugal).Por outro lado, está longe de ser verdade que, nos EUA, reinasse o “ódio aparente pelo fascismo”. No final da década de 1930, o fascismo conquistou muitos admiradores nos EUA, como atesta o célebre comício nazi, com 20.000 participantes, no Madison Square Garden, em Nova Iorque, a 20 de Fevereiro de 1939, organizado pela Federação Germano-Americana, que sucedera, em 1936, à Amigos da Nova Alemanha, fundada em Julho de 1933, logo após a tomada do poder na Alemanha pelos nazis (e que tinha antecedentes na Sociedade Livre da Teutónia, criada em 1924, numa altura em que o nazismo ainda tinha fraca expressão na Alemanha).

Comício nazi no Madison Square Garden, 20 de Fevereiro de 1939Se, nos EUA, antes de a guerra estalar na Europa a coabitação de cruzes suásticas e bandeiras americanas não era uma visão inusitada, após Setembro de 1939 o III Reich adicionou-lhe uma intensa (e generosamente financiada) campanha de desinformação pró-nazi e anti-semita, que envolveu figuras gradas e com elevada notoriedade na sociedade americana, como o padre Charles Coughlin (com vasta audiência radiofónica), o jornalista William Dudley Pelley (“que acreditava ter sido visitado várias vezes por Jesus e sonhava vir a ser o Hitler americano”), o senador Ernest Lundeen (cujos discursos eram escritos por um agente a soldo dos nazis), ou o senador Robert R. Reynolds (“tonitruante político pró-fascista”), conforme relata Rachel Maddow em A América Contra o Fascismo, de 2023 (as citações entre aspas provêm deste livro).

Desfile da Federação Germano-Americana, Nova Iorque, 30 de Outubro de 1937Também o aviador Charles Lindbergh, uma das mais populares figuras públicas dos EUA, propalou ideias afins do nazismo – num discurso a 15 de Setembro de 1939 (ou seja, com a invasão da Polónia em curso), transmitido pelas principais cadeias de radiodifusão, Lindbergh apelou a que toda a Europa Ocidental e os EUA se unissem para “defender a raça branca contra o invasor” (o invasor eram as potências asiáticas, mais precisamente a URSS). Após aderir, em Abril de 1941, ao grupo de pressão isolacionista America First Committee, Lindbergh tornou-se no seu principal orador. O America First Committee chegou a ter 450 delegações e 800.000 membros, sendo um dos mais influentes destes o magnata Henry Ford, que, além de defender do isolacionismo foi, talvez, o mais empenhado promotor do anti-semitismo nos EUA, nomeadamente através do jornal Dearborn Independent, que adquiriu expressamente para essa missão e que funcionou entre 1919 e 1927, com tiragens de 700.000 a 900.000 exemplares. Embora Ford não tivesse simpatia pelo pendor militarista do III Reich, Hitler tinha grande admiração por Ford: fez-lhe uma menção elogiosa em Mein Kampf, tinha um retrato de Ford no seu gabinete e atribui-lhe em 1938 a Grande Cruz da Águia Alemã.Mais uma vez, Kemp dá mostras de uma abissal ignorância ou, o que é pior, de ausência de escrúpulos em reescrever a História de forma a que apoie as suas ideias.

“…e o lobo comeu as crianças e cuspiu os seus ossos… Mas como as crianças eram estrangeiras, não teve qualquer importância”: Cartoon de Dr. Seuss (Theodor Seuss Geisel) satirizando o America First Committee, publicado a 1 de Outubro de 1941● Na pg. 322, Kemp afirma que “nas décadas seguintes [à II Guerra Mundial], foram desaparecendo os impérios coloniais dos britânicos, espanhóis e portugueses”. A omissão dos franceses é inexplicável e a inclusão dos espanhóis é questionável. Espanha perdera Cuba, Filipinas, Porto Rico e Guam na Guerra Hispano-Americana de 1898, restando-lhe dois territórios demasiado modestos para que possa falar-se de “império colonial”: a minúscula Guiné Espanhola (a que foi adstrita a ilha de Fernando Pó/Bioko), que ganharia independência em 1968, como Guiné Equatorial; e o escassamente povoado e inóspito Sahara Espanhol, de que Espanha se retiraria em 1975, sem que tivesse ficado definido o seu estatuto, situação ambígua que se prolonga até hoje (entretanto, o território passou a ser conhecido como Sahara Ocidental).
● Após acusar repetidamente as potências europeias de extractivismo em relação às suas colónias ultramarinas, na pg. 323, Kemp argumenta que, no pós-II Guerra Mundial, as potências europeias encetaram um processo de descolonização, porque “as colónias tinham-se tornado um luxo de manutenção demasiado dispendiosa”. No que ficamos? As potências coloniais dilataram a sua riqueza à custa da espoliação das colónias ou as colónias eram um pesado encargo para as potências coloniais?● Na pg. 324, Kemp censura os antigos impérios coloniais que continuam a manter possessões ultramarinas, “esquecendo-se” de mencionar que, nalguns casos, tal resulta de os habitantes desses territórios assim terem decidido em referendo. É o caso dos territórios franceses da Guiana Francesa, da Nova Caledónia, da Martinique e de Mayote, dos territórios britânicos das Falkland e de Gibraltar, e dos territórios americanos de Porto Rico, das Ilhas Virgens Americanas e das Ilhas Marianas do Norte.

Guiana Francesa, c. 1930. Num referendo realizado em 2010, 70% dos habitantes votaram contra uma proposta para conferir um estatuto semi-autónomo ao território, pelo que esta manteve o estatuto de “departamento ultramarino” de França● Na pg. 325, Kemp acusa os “Golias” ocidentais de, embora tendo concedido independência às suas antigas colónias, terem montado “um novo sistema extractivo global”. Afirma que “os países industrializados […] extraem mão-de-obra barata e matérias-primas de países mais pobres” e comprova-o com um estudo que mostra que, “no período de 1990 a 2015, 9 biliões de euros foram transferidos todos os anos do Sul Global para o Norte Global. Isto é 30 vezes mais do que os países mais pobres recebem em ajudas todos os anos”. Kemp parece ter um entendimento do comércio internacional análogo ao de Donald Trump: tal como este acusa os países cuja balança de bens, relativa aos EUA, é positiva de estarem a “roubar”, Kemp considera que todo o comércio internacional entre o Sul Global e o Norte Global é extractivismo do segundo em relação ao primeiro. Nesta perspectiva, o único comércio internacional legítimo seria o que se traduz em saldo nulo.Dito isto, há um fundo de razão na acusação de neocolonialismo (em versão “suave”) praticado pelos ex-colonizadores em relação às ex-colónias; porém, é simplista (ou sectário) reduzir esta relação neocolonial ao refrão “o Norte Global esmifra o Sul Global”, já que a China, um dos paladinos do “Sul Global” tem vindo, nas últimas décadas, a dedicar-se entusiasticamente a tais práticas, do Sri Lanka ao Paquistão, do Laos à Zâmbia.

O porto de Hambantota, no Sri Lanka, foi construído entre 2008 e 2010 pela China e foi concessionado por 99 anos à empresa China Merchants Port Holdings● Na pg. 325, Kemp tenta fazer valer a ideia de que o mundo presente é mais imperial do que nunca, argumentando que há nações, “com línguas e histórias partilhadas, como os curdos, os catalães e os escoceses, [que] não têm os seus próprios Estados”. Kemp mistura situações muito diferentes: os curdos estão repartidos por quatro países (Turquia, Síria, Iraque e Irão) e têm sido, ao longo de séculos, reprimidos e privados de direitos na maior parte do seu território; os catalães e os escoceses gozam de ampla autonomia (incluindo um parlamento e um governo autónomos) e os segundos até já tiveram oportunidade, mediante referendo, de optar pela independência e recusaram-na.Nas pg. 329-330, Kemp debruça-se (superficialmente) sobre o legado do colonialismo e a forma – maioritariamente negativa, em sua opinião – como este influenciou, no longo prazo, a evolução das ex-colónias e conclui: “Estados frágeis e em crise são, em grande parte, um legado dos impérios coloniais”. É uma “narrativa” bem conhecida, que tem equivalente, no plano individual, a quem, na meia-idade, frustrado, atolado em dívidas e com a vida sentimental em fanicos, atribui as suas desventuras à incompetência dos professores de Matemática que lhe calharam em sorte no ensino secundário.Afirma Kemp que “nem todos os colonizadores foram igualmente brutais. Os britânicos e os espanhóis, apesar das atrocidades que perpetraram, eram mais brandos do que os franceses e os portugueses. […] Um estudo com 118 Estados [“The colonial foundations of state fragility and failure”, por Rollin F. Tusalem, in Polity vol. 48, n.º 4 (2016)] revelou que os [Estados] que tiveram mais intervenção europeia, especialmente dos Impérios Francês e Português, mais extractivos, tinham um risco mais elevado de crise de Estado”. É uma revelação que certamente deixará assarapantados os muitos portugueses que crêem que a colonização portuguesa foi particularmente benigna e inclusiva e vêem mérito na teoria luso-tropicalista de Gilberto Freyre.
O que a teoria da malignidade inata da intervenção europeia não explica é que:1) A Etiópia, que foi independente durante toda a sua história de 3000 anos, com excepção de cinco anos de ocupação (parcial) pela Itália (1936-41), não seja um dos países mais prósperos e avançados de África ou até do mundo.

Representação do imperador etíope Yekuno Amlak (reinado: 1270-85), fundador de uma dinastia Salomónica, que se reclamava da linhagem dos reis de Aksum que, por sua vez, se reclamavam descendentes do rei Salomão. Fresco na igreja de Genneta Maryam2) A esmagadora maioria dos países africanos, que apenas conheceram a colonização europeia durante cerca de 80 anos e que são independentes há cerca de 60 anos, ainda não tenham conseguido libertar-se das instituições extractivas legadas pelo colonizador.3) Tantos países da América Latina, que conquistaram a independência há mais de dois séculos, continuem a ter desempenho sofrível ou medíocre nos indicadores económicos e de qualidade de vida.4) Assumindo que as instituições coloniais portuguesas foram, como escreve Kemp, mais extractivas (e, logo, mais desfavoráveis aos desenvolvimento) do que as espanholas, o Brasil surja no ranking latino-americano do Índice de Desenvolvimento Humano da ONU (HDI) em 9.º lugar entre 20 países, ou seja, a meio da tabela (dados de 2025).5) Os antigos territórios do Império Otomano que não foram contemplados com copiosas reservas de petróleo na lotaria geológica continuem hoje a debater-se com pobreza, subdesenvolvimento, regimes autocráticos ou instabilidade política e social. Embora alguns deles tenham sido, durante algumas décadas, colónias ou protectorados europeus, as suas instituições foram, certamente, mais marcadas pelos séculos passados sob domínio otomano. A Síria é um caso paradigmático: nos séculos VII-VIII, Damasco foi a capital do Califado Omíada, hoje o país está em 162.º lugar (em 193) no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano da ONU.

Portão da Grande Mesquita Omíada de Damasco, pintado por Gustav Bauernfeind em 1890, quando a Síria já era uma sombra do seu antigo esplendorUma das notas desta parte de A Maldição de Golias remete para o artigo “The colonial origins of comparative development”, publicado na revista American Economic Review de Dezembro de 2001, por Daron Acemoglu, Simon Johnson & James A. Robinson, que examina hipóteses explicativas para a adopção de diferentes políticas de colonização (umas privilegiando instituições mais extractivas, outras instituições mais inclusivas), em função das diferentes taxas de mortalidade dos colonos europeus nesses territórios. Não é seguro que Kemp o tenha lido, pois o que o artigo conclui não é que as colonizações francesa e portuguesa tenham sido, inatamente, mais extractivas e brutais do que as colonizações britânica e espanhola, mas antes que as instituições extractivas são mais frequentes em territórios mais insalubres para os colonos europeus e as instituições inclusivas em territórios mais favoráveis à instalação de colonos europeus.É oportuno sublinhar que, após este artigo seminal, Acemoglu e Robinson aprofundaram a análise das razões para o diferente desenvolvimento dos países no (justamente) célebre Porque Falham as Nações: As Origens do Poder, da Prosperidade e da Pobreza (2012, Why nations fail: The origins of power, prosperity and poverty), que conclui que as instituições políticas e económicas são o factor determinante no desenvolvimento (e, claro, que as instituições de natureza inclusiva o favorecem e as de natureza extractiva o prejudicam), e que Acemoglu, Johnson e Robinson viriam a ser distinguidos com o Prémio Nobel da Economia de 2024, pelos seus estudos comparativos da prosperidade entre nações. Porém, da riqueza, profundidade e subtileza da produção intelectual de Acemoglu, Johnson e Robinson, Kemp apenas retira elementos pontuais que lhe permitem concluir que os Estados em crise do mundo de hoje foram vítimas da intervenção europeia.Na pg. 330, Kemp parece admitir, por instantes, que a colonização não explica todas as desventuras presentes dos ex-colonizados e que há também que contar com a outros factores, como “a degradação ambiental e a pressão demográfica, [que] podem ter desempenhado um papel importante”; mas logo regressa ao seu dogma: “Porém estes factores variam consoante os casos e não parecem ser tão comuns ou importantes quanto as instituições coloniais”. Kemp não substancia esta asserção, mas tendo, quiçá, consciência que o assunto é demasiado complexo e vasto para ser despachado em cinco linhas e de forma tão displicente, adicionou uma nota; infelizmente, esta mais parece uma colagem de elucubrações desconexas e, em vez de elucidar, adensa a confusão: “Para cada um destes pontos há contra-argumentos óbvios. Muitos Estados frágeis parecem sofrer por terem recursos a mais e não a menos. A Síria tinha uma densidade populacional de 124 pessoas/km2 antes da guerra civil, enquanto a Itália tem actualmente quase o dobro, com 200. Países como a Austrália e os EUA têm recursos saqueáveis, como o carvão e o petróleo, mas são muito mais ricos do que a Venezuela, com recursos semelhantes”.Qual é a relação entre prosperidade e desenvolvimento, por um lado, e densidade demográfica, por outro? Há países ricos com elevada densidade demográfica (Singapura, Holanda, Coreia do Sul), países ricos com baixa densidade demográfica (Canadá, Austrália, Noruega), países pobres com elevada densidade demográfica (Bangladesh, Rwanda, Burundi) e países pobres com baixa densidade demográfica (República Centro-Africana, Mali, Namíbia). E qual é a relação entre recursos e densidade demográfica? Por que escolheu Kemp comparar a Síria e a Itália? A Síria será um exemplo de países com “recursos a mais”?

Arco do triunfo da época romana, em Palmira, na Síria. Palmira situada na encruzilhada de importantes rotas comerciais, foi, durante séculos, uma das cidades mais prósperas do Próximo Oriente. O arco na foto, datada de 1996, foi deliberadamente destruído em 2015, tal como muitos outros monumentos “pagãos”, pelo DaeshQuando menciona que há Estados que “parecem sofrer por terem recursos a mais”, Kemp referir-se-á à célebre “maldição dos recursos”, também conhecida como “paradoxo da abundância”? A Venezuela é frequentemente apontada como exemplo da “maldição dos recursos”: embora possua as maiores reservas de petróleo do mundo, ocupa hoje o lugar 121 (entre 193) no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano da ONU. A hipótese da “maldição dos recursos” é extremamente pertinente no âmbito da análise comparada da evolução histórica das economias e não tem parado de ganhar proeminência desde a década de 1990 – o termo, introduzido em 1993 pelo economista Richard Auty, no livro Sustaining Development in Mineral Economies, surgiu em 13 publicações científicas em 1995 e em 2420 em 2014. Porém, apesar da sua relevância para a análise da disparidade entre países, Kemp não a menciona na nota, nem no resto do livro. O que leva a concluir que Kemp não pretende analisar coisa alguma, apenas respigar elementos pontuais que se encaixam na sua teoria que faz dos “Golias” os únicos responsáveis por todos os males do mundo.A seguir: O mundo depois de 1945

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