Sebastião Bugalho é o novo mestre do contra-ataque político?
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“Ilvense Doré” na Rádio Observador e em vídeo no YouTube e também nas redes sociais do Observador. Hoje com a Raquel Bocasis, o Nuno Gonçalo Poças e o António Costa. Hoje o António vai ter uma espécie de direito de resposta, que é responder ao Luís Aguiar-Conraria sobre algo que o Luís disse no Fora do Baralho, aqui na Rádio Observador. Já lá vamos. Também temos a entrevista de Alberto João Jardim ao Público, que tem como título: “Passos Coelho e Montenegro são aves da mesma plumagem.” E ainda temos uma acusação de engenharia eleitoral em Espanha. Mas Raquel, começamos pela conferência de imprensa do novo porta-voz do PSD, Sebastião Bugalho, e a chamada de ex-ministros do PS ao Parlamento para dar explicações sobre o número de imigrantes nos tempos do governo de António Costa, que afinal não bate muito certo com os números agora divulgados pelo INE.
Não batem mesmo nada certo. E eu acho que Sebastião Bugalho está a fazer jus ao critério pelo qual Luís Montenegro o escolheu para este lugar de porta-voz do PSD, porque numas semanas em que as notícias têm sido todas más para o governo, Sebastião Bugalho percebeu que estes números revelados pelo INE, que dizem que nós temos nada mais, nada menos do que 14% da nossa população de imigrantes que entraram em Portugal nos últimos anos, sobretudo depois da pandemia, são um tema através do qual o governo pode iniciar o contra-ataque, agora que andamos sempre a falar de futebol, e tentar meter aqui alguns gols. E por que eu digo isto? Porque manifestamente estes números alarmam qualquer pessoa e têm responsáveis claros, e um desses responsáveis é o atual líder do Partido Socialista. Portanto, faz bem o PSD em não perder a oportunidade de chamar, entre outros, o atual líder do Partido Socialista, que foi ministro da Administração Interna e através do qual se confirmou ou consolidou a extinção do SEF, e que controlou toda a política migratória durante o tempo em que foi ministro da Administração Interna. Faz bem o PSD em chamá-lo a pedir responsabilidades. Mas depois há um outro lado, e há bocado ouvíamos aqui a ministra da Saúde falar sobre os novos inscritos no Sistema Nacional de Saúde e a expectativa de que se venham a inscrever outros. E de repente, estes números, que não são bons para Portugal sob nenhum aspecto, mas são uma desculpa, pelo menos momentânea, ideal para o governo da AD consolidar aquilo que tem sido a sua tese, que está a mudar, mas que as mudanças ainda não se veem. Afinal, não se notam porque há muito mais utentes a tentarem entrar no Serviço Nacional de Saúde, porque as escolas não estavam preparadas para este impacto, porque é muito mais difícil conseguir habitação a preços razoáveis com o crescimento da população portuguesa desta maneira. E portanto, ao fim de muitas semanas com más notícias em que o governo não tem conseguido nem sequer consolidar ou deixar marca do seu discurso entre a população e os eleitores, que é o que mais interessa, com sondagens a darem o Partido Socialista muitos pontos à frente já da AD, finalmente aconteceu aqui uma coisa da qual Sebastião Bugalho, que é experiente nestas coisas de perceber o que se pode explorar e o que pode inverter as narrativas, não perdeu tempo para convocar esta conferência de imprensa e anunciar ao líder parlamentar do PSD, curiosamente, o que ele tem que fazer agora nos próximos dias no Parlamento.
E dá as nota positiva?
E dou uma nota positiva ao novo porta-voz.
Ao Sebastião Bugalho.
Ao Sebastião Bugalho.
António.
Para já, uma observação: o PSD passou a existir. É sempre difícil, eu não estava a ironizar, que um partido do governo tenha vida própria. É difícil, porque o governo obviamente toma conta da agenda e talvez se explique pela necessidade que o governo tem, estando isolado ou cercado em várias dimensões, nomeadamente, obviamente, no Parlamento, em pôr o partido a ter uma voz que complemente a ação e a iniciativa política do próprio governo, fazendo obviamente as despesas de um confronto político, nomeadamente parlamentar e com o PS e com o CHEGA, que até esta altura estava muito no governo, com o desgaste, obviamente, que decorre daí e da exposição que decorre daí, e no grupo parlamentar com o Hugo Soares, que na verdade é uma espécie de ministro-sombra, toda a gente percebe isso, e que também não liberta e não permite que o partido ele próprio possa ter uma existência autonoma, obviamente, mas politicamente mais visível. E eu acho que foi a primeira conferência de Sebastião Bugalho como vice-presidente e porta-voz do PSD. Também é interessante que tenha sido o PSD a fazer isto e não o governo
Ou o líder do grupo parlamentar.
Sim, mas o governo, apesar de tudo, António Leitão Amaro ensaiou na semana passada uma análise sobre a imigração, os números, com uma linha de análise que confesso ser especulativa, para não dizer outra coisa, projetando crescimentos exponenciais. A manter-se a entrada de imigrantes como se verificou nos anos anteriores, se essa conta pode ser feita até o infinito, deixamos de ter portugueses e passamos só a ter imigrantes.
Até porque isto é um país sem dinheiro.
Exato. A conta é uma pura especulação. O que eu acho que é importante, e isso sim vale a pena discutir, é, por um lado, a incapacidade que o país teve de perceber quantos imigrantes é que tinha. Eu não estou a classificar se é bom ou mau, mas quantos tinha e que políticas é que foram seguidas em função dessa realidade. A discussão da Lei da Nacionalidade permitiu-nos perceber que o governo PS percebeu, foi deliberado, isto é, sabia que a manifestação de interesse permitia entrar imigrantes, que a economia precisava deles, portanto, era preciso meter gente. Não estou certo que tenha sucedido a uma política de redistribuição que foi feita por António Costa no quadro da geringonça e de reverter medidas da troika, tenha sido alinhada exatamente com as necessidades que deveriam ter sido levadas em conta com a política de aumento de imigração em Portugal.
Dás nota positiva a Sebastião Bugalho, ao PSD?
Não, dou um 12 pela iniciativa política, mas isto é jogo político. Estamos a falar de jogo político.
Nuno.
Qual é que é o ângulo? Ainda não percebi muito bem.
Não, eu quero ouvir-te sobre esta matéria.
Se o ângulo for a iniciativa, o surgimento de uma cara nova, literalmente mais nova, sim, a avaliação é positiva. Aquilo que eu gostava de perceber era se nós depois vamos conseguir fazer ou não o debate, que de facto merece ser feito.
Esse é que é importante, claro.
Há aqui alguns factos, já quase históricos, que eu acho que não devem sair do radar de tudo isto. O primeiro tem a ver precisamente com a alteração legislativa de 2017, que, como já algumas pessoas disseram, e algumas disseram na altura, de facto alterava o paradigma e um consenso que estava mais ou menos institucionalizado entre o PS e o PSD relativamente à política migratória. E por que isso foi feito? Eu tendo a achar que o PS não ligou rigorosamente nenhuma àquilo. O Bloco de Esquerda queria aquilo, a gente dá-lhe, que é para depois isto andar tudo aqui direitinho e nós nos mantermos por aqui. Mas acho que o Bloco tinha, de facto, uma agenda, e não é muito diferente da agenda espanhola, por exemplo, sobre o que falaremos, se houver tempo, depois mais à frente. E depois há toda a questão do SEF, porque esta reorganização, e ainda José Luís Carneiro esta semana também, não sei se hoje ou se ontem falava maravilhas da reestruturação do SEF e toda aquela reforma que tinha sido feita. É preciso ter um bocadinho de memória nisto que também não passaram assim tantos anos.
O que é que aconteceu?
Tudo aquilo que aconteceu com o SEF andou à volta da sobrevivência política de um ministro em concreto.
Houve mortes, não é?
Houve mortes. E havia também, ao mesmo tempo, uma grande vontade, mais uma vez vinda da esquerda à esquerda do PS, de que o controle de fronteiras deixasse ter um caráter de polícia. E isso é importante. Acho que não há nenhum país civilizado no mundo que tenha as suas fronteiras entregues a entidades administrativas que põem crimes nas pessoas e as pessoas entram. Não tenho que detalhar aqui muito isto, mas há organizações criminosas espalhadas pelo mundo que nós entretanto soubemos que se vieram instalar em Portugal. E esse apuramento, de facto, é que é importante que se perceba. Depois o resto será toda uma discussão relativamente à estatística económica, política, social e cultural. Relativamente à questão do SEF, é isso. É uma nota positiva. Eu acompanho o 12 pela iniciativa.
E o António quer exercer aqui o direito de resposta. O António esteve a ouvir o “Fora do Baralho” preso no trânsito, na sexta-feira.
Primeiro a vencer. E participei.
Exatamente.
O local de reportagem.
E o Luís Aguiar Correria falou nas contas feitas pelo jornal Eco sobre esta questão do INE.
E minhas mesmo.
E disse que eram contas de mercearia.
Contas de merceeiro.
Sem desprimor para os merceeiros.
Pois, é o primeiro ponto que eu vou dizer, mas já lá vou. Eu não vou dizer que é um direito de resposta, mas talvez uma defesa da honra, um patamar, um grau abaixo.
Isto é por causa do cálculo do PIB, não é?
É, porque Luís Aguiar Correria, aqui no “Fora do Baralho”, com a competência técnica que tem, que é inquestionável, diretor da Faculdade de Economia da Universidade do Minho, vai de alguma maneira desvalorizar as primeiras contas e as contas que o Eco fez, mas não foram Formas únicas. Sobre o impacto do aumento da população no PIB. Umas contas de merceeiro, dizia o próprio. Eu devo dizer que eu tenho muito respeito pelos merceeiros, que fazem normalmente boas contas. Aliás, os merceeiros, como se sabe, fazem contas das quais dependem os seus próprios negócios. Podia-se talvez reformular a expressão para contas de banqueiros ou de alguns banqueiros, ou contas de políticos.
Vamos ao ponto.
Ou contas de economistas, também podia ser.
Não distraias.
Eu não sabia que os economistas sabiam fazer contas. Atiram umas coisas lá para frente. Enfim, qual é o ponto que me parece importante e que eu acho que a Susana Peralta num artigo no “Público” acabou também por tocar, embora focasse no tema do leitão a mar e da previsão, que eu acho que é uma crítica certeira sobre especulação sobre números. É que aparentemente, para Luís Filipe Gaião Conraria, não se devem fazer contas agora porque o INE ainda vai rever. Vem nas notas metodológicas que em função da revisão dos residentes, pode ter impactos, nomeadamente no emprego, o que é razoável, e provavelmente ou eventualmente, diz o INE, veremos, na produção, portanto, no próprio PIB. Para justiça, o Luís acaba aquela intervenção dizendo que é preciso reconhecer que a revisão que vier a ser feita no PIB não vai ser suficiente para limitar o impacto ou atenuar de forma muito significativa o impacto que há nesta riqueza per capita.
Deixa-me só tentar situar isto para quem nos ouve, porque isto às vezes não é muito fácil de perceber. Se eu estiver a dizer um disparate, por favor, corrige-me. Mas no fundo, o que o Eco vem dizer é que se somos mais, para calcular a estimativa do Produto Interno Bruto, pegamos no número de pessoas, vemos qual é que foi a produção e percebemos mais ou menos qual é o PIB per capita. O que o Luís vem acrescentar é que as contas não devem ser feitas assim, porque se temos mais gente, essas pessoas também podem produzir mais.
Vamos lá ver, o Luís sabe melhor do que eu.
Se calhar não seremos tão pobres como essas contas indiciam.
Eu, para não estar a citar o Eco a mim próprio, vou citar um artigo do Óscar Afonso, colega do Luís, diretor da Faculdade de Economia da Universidade do Porto, que tem um título no Eco, um ensaio que fez sobre esta matéria dizendo: “A grande fraude da convergência portuguesa.” O artigo do Eco, de resto, era sobre essa matéria. A constatação não é que passemos a ser mais pobres de um dia para o outro, porque obviamente o efeito é a revelação contabilística de uma realidade que já existia. É que nós pensávamos que estávamos mais próximos da riqueza e que tinha havido uma convergência, e estes números revelam que não. Ora, o que pareceu, não quero ser injusto, e se calhar vem direito de resposta no próximo Fora do Baralho.
Cá estaremos sexta-feira.
Cá estaremos.
Luís toma nota.
Mas eu creio que o Luís terá desvalorizado estas primeiras contas dizendo: “É preciso esperar pelos números do INE de março.” Vamos lá ver. Se esse é o critério, então eu não sei o que é que os comentadores podem fazer, porque em permanência há novos dados. Os dados que existem hoje, aliás, cito novamente o Óscar Afonso, diz que nós passamos a ser, de acordo com estes dados, com estes indicadores e com estes números, o sexto país mais pobre da União Europeia. A convergência, tal como ela nos foi vendida, e esse era o ponto, na verdade, do tema não contra a imigração ou contra os imigrantes, é que de facto, durante 10 anos, 2015 a 2025, não convergimos. Estagnamos do ponto de vista relativo comparativamente com outros países. O Luís parece desvalorizar isso e valorizar mais a expectativa ou a necessidade de esperar por uma revisão. Cá estaremos em março para avaliar afinal o que aconteceu. O INE tem nos habituado, e eu acho que é uma discussão interessante, que foi ligeiramente aflorada também pelo Luís, que o INE tem mais explicações a dar, porque já não é a primeira vez que o INE, com mais ou menos residentes, faz revisões significativas do PIB de 2023, ainda sem estes últimos dados. Aumentou bastante o PIB nominal face ao que foi o primeiro número. O ministro José Guilherme Sarmento, ainda há poucas semanas dizia, esperava que 2024 e 2025 houvesse uma revisão dos números conhecidos. Ele próprio dizia isto sem saber os números dos residentes, obviamente. Portanto, o meu ponto é: eu acho que o Luís valorizou ou desvalorizou, enfim, então talvez jocoso. Contas de merceeiro, eu como digo, tenho muito respeito pelos merceeiros, que se calhar não vale a pena fazer contas. Eu acho que vale mesmo a pena fazer contas e quando tivermos mais informação, cá estaremos para discutir também com o Luís, seguramente, os resultados do INE.
E Luís Filipe Gaião Conraria poderá agora responder no próximo episódio do Fora do Baralho, no Eco.
Tens aqui uma radionovela.
Nada como uma boa discussão sobre o PIB. Eu acordo a pensar aí, nada como o cheiro.
Não vamos perder a próxima edição.
Tu és a prova, porque sabes que eu disponibilizei-me a entrar em direto no Fora do Baralho para discutir com o Luís.
É verdade.
Mas num ponto não me deixaram.
Fui eu que não deixei. É verdade. Vamos agora olhar para a entrevista de Alberto João Jardim ao Público, que, Nuno, tem como título, deixa eu ver se eu não me engano: “Passos Coelho e Montenegro são aves da mesma plumagem.” Estás a pensar nalguma ave em especial?
Raras.
Aves raras.
Tipo Alberto João Jardim. Sim, eu vi aquilo e lembrei-me de uma capa do Tal & Qual, quando eu era miúdo.
Com Alberto João Jardim.
Como sou mais pequenito. Sim.
Isso agora doeu.
Precisávamos de ouvir esta boca.
Não era para bater, isto era uma auto humilhação.
Sim. Eu acho que já pagava impostos.
Que era para eu poder andar na escola.
Exato.
Era assim que se fazia. Essa capa do Tal & Qual, depois também me lembrei de outra, quando a Cicciolina cá esteve, e fiquei a pensar se também seriam aves da mesma plumagem naquela altura.
Estás a referir-te a uma capa para enquadrar de Alberto João Jardim em cuecas.
Em cuecas, no carnaval.
Tens que andar a tentar muitas vezes.
Eu tenho que enquadrar, vocês não enquadram.
É verdade. Enquadra então.
Enquadra, senhor.
A entrevista naturalmente tem o seu interesse. Alberto João Jardim é uma figura importante do PSD, mas com a idade que já tem, Alberto João Jardim continua a fazer uma coisa que no PSD é muito habitual. Primeiro, estas coisas no PSD são habituais por regra.
Faz parte da graça.
Exatamente. Nem seria a mesma coisa se fosse de outra maneira. Mas faz uma coisa que a mim em particular sempre me incomodou bastante, que é uma espécie de recuperação do legado de Sá Carneiro para toda e qualquer conversa. Normalmente, é uma espécie de argumento da autoridade. Quem diz o nome de Sá Carneiro primeiro, normalmente fica com o bónus de, à partida, tem razão. Ao mesmo tempo que Alberto João Jardim defende, acho que a notícia até falava sobre isso, ou a entrevista, o bloco central, uma aproximação entre o PS e o PSD. Eu diria que recuperar o sa carneirismo e ao mesmo tempo que se defende o bloco central é contraditório em toda a linha. Parece-me um ponto importante de discussão, se Alberto João Jardim a quiser ter, que é o facto de o sa carneirismo e sobretudo aquilo que aconteceu após a crise das opções inadiáveis em 78, salvo erro, e a publicação de muitos textos, até que depois em livro de Sá Carneiro, relativamente a uma questão que ficou conhecida como o impasse, que é uma coisa mais ou menos que nós estamos a viver agora, é que Sá Carneiro percebeu muito cedo e rapidamente que o regime sobreviveria, não se fosse multipolarizado, mas precisamente bipolarizado. E essa bipolarização seria naturalmente feita entre um partido à esquerda e um partido à direita. Eu sei que os tempos são outros, mas eu continuo a achar que se o regime se quiser salvar da maneira como nós mais ou menos o conhecemos, eu diria que essa multipolarização tem que ser eliminada ou dissolvida de alguma maneira, precisamente recuperando a bipolarização. No limite, podemos acabar com a bipolarização ou em bipolarização, com a ideia do bloco central, mas será entre o bloco central e outra coisa qualquer, que será precisamente aquilo que, imagino eu, Alberto João Jardim quer evitar. Esta é uma discussão tática que eu acho que faz sentido ter e que depois eventualmente se poderá revelar em estratégias. Depois não parece, ao mesmo tempo, que faça muito sentido achar que Luís Montenegro com isto estará colado a Pedro Passos Coelho. Tudo aquilo me pareceu bastante confuso. Mas eu trazia aqui uma nota positiva para o Alberto João Jardim, porque não há muita gente que fale dessa hipótese dos acordos entre o PS e o PSD de forma tão aberta, e parece-me um bom ponto de partida para a discussão.
Tens uma nota?
Tenho 10.
10. Raquel, queres acrescentar?
Eu não li a entrevista.
Nem viste o filme?
Temos de estar a comentar só aquilo que o Nuno disse. Sem desprezo por Alberto João Jardim, eu acho que aquilo que ele diz já não pesa um décimo, para dizer se pesa alguma coisa, do que pesou noutros tempos. Acho que Alberto João Jardim, eu já o ouvi dizer o contrário, já o ouvi dizer que devia haver uma relação com o Chega privilegiada.
Quem leu “O Diabo” durante 20 anos sabe que ele já defendeu muitas coisas ao contrário daquilo que ele está hoje.
Pronto. Dei atenção a um título que ele faz também sobre o Passos Coelho. Ajuda-me lá, o que é que ele disse que o Montenegro devia fazer ao Passos Coelho?
Isso foi há uns tempos, não era?
Eu li esse título hoje.
Não, ele no fundo diz que o devia descartar. Era qualquer coisa assim.
Descartar o Passos Coelho, exatamente.
Diz que eles são os dois aves da mesma plumagem e que o Luís Montenegro devia despachá-lo e não quer saber dele.
António.
Eu ia acrescentar só uma nota.
Eu acho que o Luís Montenegro não precisa de ajuda para isso.
Sim.
Não. Enfim, mas eu acho também que esta insistência em criar este fantasma de Pedro Passos Coelho também parece permanente. Toda a gente acrescenta qualquer coisa ao Passos Coelho, mas há uma pessoa que tem a mesma visão e consistente, não Alberto João Jardim, sobre o bloco central, que é António Barreto, e que há muito tempo entende que há falta de condições para um governo de maioria de um partido. Faria mais sentido entendimentos de bloco central.
Mas eu acho que é uma discussão válida. Eu discordo dela, mas acho que é uma discussão válida.
Interessante. António, vou te dar aqui
Um minuto e meio para falar sobre a Galp e a Meva, para ainda irmos à Espanha.
Sim, muito rapidamente.
Um minuto também.
Dizer que sinto a responsabilidade de ser o ano da Judite, que está de férias, de certeza que nos está a ouvir, só pode. Tem que estar.
Claro que está.
Só para que saiba.
Claro que está.
Não nos estando a ver…
A esta hora para tudo.
António, já só tens um minuto.
Mas para dizer que fico preocupado quando vejo a ministra do Ambiente, em entrevista ao Jornal de Negócios na Antena 1, dizer que está preocupada que a fusão entre a Galp e a Meva, que é uma empresa espanhola, nomeadamente na área chamada downstream, que é a refinação. E quando eu vejo o ministro a dizer isto, quer dizer que o governo, à laia do Fundo Soberano, sabe-se lá, quer ter uma intervenção neste processo e nesta negociação. Eu acho um mau princípio. Por quê? Porque vamos lá ver, percebo o ponto da ministra. Portugal tem uma refinaria, os espanhóis têm duas. Se houver uma fusão de uma empresa que fique com as três, sendo que a maioria do capital é da espanhola, coloca-se o tema da soberania, mas a soberania energética faz-se, desde logo, por outras fontes de energia. É não dependermos de uma só e termos outras fontes. Segundo, ao contrário também da discussão que foi pouco trazida ao tema do Fundo Soberano, os governos em Portugal, desde 2014, 2015, têm uma lei que é sobre ativos estratégicos do país, que permite que o Estado, em qualquer momento, sobre setores considerados críticos, e energia é um deles, obviamente, a banca, telecomunicações, pode ter intervenção. Ora, o governo não precisa de se meter neste negócio. Não precisa, não deve. Isso é capital privado, entre empresas privadas. O governo, se entende que há algum tipo de risco, tem leis à sua disposição para proteger o interesse nacional.
E aceito tua conclusão, ainda vamos à Espanha, onde há uma acusação de engenharia eleitoral.
Sim, que é um processo mais ou menos antigo que nós, mais uma vez, não temos acompanhado com a atenção devida, e até porque é um fenômeno que mal ou bem tem traído algumas comparações com Portugal. Em 2018, salvo erro, desculpem, agora perdi-me aqui nas datas, mas há relativamente poucos anos, agora não me lembro de que ano em concreto é que era a Lei da Memória Histórica. O PSOE fez aprovar uma lei que trazia uma série de temas que estavam mais ou menos arrumados e que vieram suscitar alguma polarização na sociedade espanhola. E uma delas prende-se com uma alteração legislativa que foi feita e que teve, na altura, o voto contra do PP, do Vox e do Ciudadanos, portanto, foi uma coisa transversal entre os maiores partidos contra, e que é mais ou menos conhecida agora como a Lei dos Netos. E que vem dar a nacionalidade e direito de voto a pessoas que não vivendo, nem trabalhando, não tendo relação com Espanha, são, de alguma maneira, descendentes de espanhóis. Há vários critérios. Há exilados, há pessoas que perderam a nacionalidade, etc. Muita gente na América Latina. E, portanto, neste momento, muitos cidadãos latino-americanos estão a ganhar nacionalidade espanhola e a conquistar esse direito de voto. Muitos dirigentes do PSOE, há muitas evidências disso, têm feito muita apologia, incluindo pelos países da América Latina, no fundo quase dizendo: “Nós damos a nacionalidade e vocês dão-nos os votos.” Há, em tudo isto, alguns problemas de legalidade, muitos problemas administrativo-burocráticos. Ninguém sabe muito bem em que aquilo vai ser feito. No fundo, as pessoas que passam a ter esse direito de voto votarão na comunidade de onde o seu ascendente seria original, portanto, será da Catalunha, da Andaluzia, da Galiza, etc. Ninguém sabe ainda muito bem como é que essa quantidade de votos se dispersará. Na Andaluzia, há mais ou menos uma ideia que se pode tirar daquilo. De facto, nas eleições regionais, nas últimas, o PP e o Vox tiveram uma maioria muito larga, mas neste voto, portanto, no voto fora do território nacional espanhol, o PSOE ganha com uma grande vantagem. Portanto, o PP neste momento acusa o PSOE de manobrar cadernos eleitorais. Eu tendo a concordar daquilo que me vai sendo mostrado e, como dizia hoje alguém com alguma graça, aquilo parece mais ou menos que o Pedro Sánchez está a fazer em Espanha aquilo que nós conhecemos como os episódios das carrinhas e dos sacos votos dos partidos, mas à escala nacional, num país como Espanha. E o que faz adivinhar o resultado das eleições do próximo ano, um grande ponto de interrogação. Porque faça tudo aquilo que aconteceu, acho que seria o mais normal que Pedro Sánchez fosse corrido da cadeira do poder.
Como é que ele ainda se aguenta, que é extraordinário.
E acabar numa cadeira algures dentro de uma cela. Portanto, nós temos ignorado isto tudo, a Comissão Europeia também.
Se fosse na Hungria.
E aqui estamos nós.
A Lei da Memória Democrática de 2022.
Isso, 2022.
Que vai substituir a Lei da Memória Histórica de 2007.
Isso.
Acabei de enquadrar.
Boa.
Um abraço a todos. E amanhã mais: E o Vencedor É…










