CIÊNCIA

Vital Fontes, um mordomo às ordens de reis e presidentes

Ainda hoje perdura esse 9-A dos Telheiros da Ajuda, casa modesta onde morreu, em 21 de abril de 1954, aos 94 anos, como que fechando o ciclo imperfeito de quem foi “enjeitado na roda”, entregue aos cuidados ainda recém-nascido da avó de “dois Srs. doutores”, Joaquim Fontes e Vítor Maria Fontes, de quem adotou o apelido. Mas não foi tarefa fácil quando o Museu da Presidência tentou localizar a sua ficha de funcionário. Bateram à porta da sua última morada onde apenas permanecia uma vaga memória de um antigo mordomo dos palácios, mas nenhuma pista sobre a descendência que o próprio mencionava nas suas memórias. Esses dados contudo foram fundamentais para reeditar uma obra originalmente publicada em 1945 e há décadas esgotadas, Servidor de Reis e de Presidentes. Da Monarquia à República. Do Sr. D. Luís ao Sr. General Carmona, com o selo da Imprensa Nacional Casa da Moeda. Apesar de se manter fiel à estrutura original, a presente edição é reforçado por um conjunto de notas  que corrigem algumas imprecisões da publicação de 1945.
Vital Ferreira Fontes nasceu em 6 de novembro de 1861, na freguesia de Santana, concelho da Sertã. Casou‐se com Guilhermina da Conceição, com quem teve dois filhos, que morreram precocemente (e, à data da publicação, um neto e uma bisneta). Depois da passagem, como soldado, pelo Regimento de Cavalaria n.o 8 (em Castelo Branco) e pelo Regimento de Artilharia 1 (em Lisboa), entrou ao serviço da Casa Real portuguesa em 1886, um acesso impulsionado pelo casamento do então príncipe D. Carlos e D. Amélia. Com D. Luís no trono, o prenúncio de festa e novo núcleo familiar no horizonte, foi preciso reforçar a contratação de pessoal para os palácios das Necessidades e da Ajuda.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Foi neste último que iniciou a sua carreira como moço de sala, para permenecer ao serviço de reis e rainhas, presidentes da República e convidados de Estado, durante 50 anos. Com o novo regime, foi solicitado para o Palácio de Belém. Aposentou­‐se em 1931, no dia em que fez 70 anos, mas manteve­‐se ao serviço até dezembro de 1936, era Óscar Carmona presidente. Com a categoria de contínuo de 1.a classe dos Palácios Nacionais, exercia funções de chefe do pessoal menor da Presidência. Em 1922, acompanhou António José de Almeida na sua viagem ao Brasil e, mais tarde, Carmona a Espanha (1929) e às então colónias (1938), esta última quando já se encontrava aposentado, mas cujos serviços ainda eram requisitados.
Conheceu o jornalista luso-espanhol Rogério Pérez durante a deslocação de Carmona à ilha da Madeira, a São Tomé e Príncipe e a Angola. “Tivemos que vencer a sua obstinada reserva, com o argumento convincente de que a História tem exigências. Quem melhor conhece os grandes homens é aquele que os serviu na intimidade, que os viu tal como andam por casa, em pantufas, por assim dizer.”, escrevia o jornalista na primeira edição. “Personalidade, simples como a sua vida simples, há 50 anos, numa casinha da qual não pagava renda no tempo da Monarquia, para estar perto do Palácio da Ajuda, com uma nesga de horta que ele próprio cultiva. Já reformado, mas ainda direito e aprumado, ali vive entre retratos que os seus senhores lhe ofereceram, rodeado de recordações de reis e presidentes, e tão nostálgico que todas as semanas visita o Palácio de Belém.”, detalhava Pérez, que sublinhou ainda como o interlocutor nunca o recebia sem mudar o casaco de andar por casa, sempre muito palaciano, cuidadoso no vestir e no falar. Reunimos algumas das suas impressões extraídas destas quase 200 páginas.Foi durante o seu reinado que Vital Fontes entrou ao serviço da Casa Real como moço de sala. Recorda o entusiasmo do monarca pela música e o seu violoncelo Stradivarius Chevillard, ainda hoje o único instrumento em Portugal com a assinatura do construtor António Stradivarius (1644-1737), classificado como Tesouro Nacional em 2006.Quando Afonso XII visitou Portugal foi vencido por D. Luís no tiro aos pombos. Houve parada militar na avenida e récita de gala no D Maria e, finda esta, um famoso baile no Palácio de José Maria Eugénio de Almeida, a São Sebastião da Pedreira. “Foi um escândalo o assalto ao bufete, e tal a confusão de carruagens no largo, à saída, que alguns convidados tiveram de esperar até de madrugada pelo trem, e também pelos abafos, todos misturados no vestiário.”, recorda Vital Fontes.

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