Mais um cisma na Igreja de Roma? Ou só uma crise secundária?
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A Fraternidade Sacerdotal São Pio X deu na semana passada o passo que o Papa lhe tinha pedido para não dar. Ordenou quatro novos bispos numa cerimónia realizada na Suíça, mas transmitida para todo o mundo. O Vaticano reagiu excomungando os quatro novos bispos, assim como os outros dois clérigos que presidiram à cerimónia. É mais uma crise entre os católicos tradicionalistas que continuam a seguir as pisadas de monsenhor Marcel Lefebvre, o arcebispo francês que entrou em rutura com a Igreja por discordar de algumas das conclusões do Concílio Vaticano II. Nesta história com mais de 60 anos, já houve reaproximações e afastamentos, já houve excomunhões e perdões, mas é uma fratura que teima em não desaparecer, pelo que hoje vamos falar dela, assim como de outras tensões que cruzem a Igreja de Roma. José Manuel, bom dia. Esta fraternidade tem pouca representatividade, não tem?
Sim, em termos numéricos tem. Não sei exatamente quantos seguidores tem. É um facto que nalguns países, designadamente no Brasil e também nos Estados Unidos, houve alguma expansão ao longo destas décadas. Os números que eu tenho são: tinha dois bispos, agora supostamente tem seis, terá um pouco mais de 700 sacerdotes, terá mesmo assim, neste momento, 260 seminaristas e os locais de culto serão cerca de 800. Também há em Portugal, mas são pequenos e pouco frequentados. A nível mundial poderão ser 1 milhão de seguidores, porventura, mas 1 milhão de seguidores numa igreja com mais de mil milhões de fiéis é uma parte ínfima. É 0,1%, é quase nada. Às vezes há uma confusão, porque uma coisa é o que defende esta fraternidade, que é a contestação de alguns aspetos, sobretudo do Concílio Vaticano II, nomeadamente aquilo que se refere à reforma de algumas práticas religiosas, em particular a missa, a forma como se celebra a missa, mas também, e talvez isso seja em termos doutrinários mais relevante, a questão do ecumenismo, da abertura da Igreja a outras confissões, do diálogo inter-religioso. Estas pessoas são, de alguma forma, aquelas que acham que é necessário fechar o quadrado, por assim dizer, e manter a ortodoxia, porque qualquer caminho diferente acabará por levar à diluição do que eles entendem ser os valores fundamentais. Há um bocado a ideia de que são aqueles que celebram ainda a Missa Tridentina. A Missa Tridentina é uma forma de celebrar a missa que foi estabelecida, digamos, fixada no Concílio de Trento como reação à reforma protestante. Eu provavelmente ainda assisti a missas dessas quando era miúdo, porque a reforma é pós-Concílio Vaticano II e é nessa altura que as missas passam a ser celebradas na língua das pessoas, em uma língua viva, na língua do país ou dos concelebrantes. É nessa altura que o padre volta a estar virado para a assembleia. Eu recordo-me, por exemplo, pelo menos desse aspeto, que na igreja a que os meus pais iam, não havia o altar colocado como está em quase todas as igrejas, virado para a assembleia. O altar era a zona do sacrário e era aí que o padre, virado para esse mesmo altar, celebrava, o que significava de costas para os fiéis. Essa missa tinha também formas musicais específicas, uma forma de rezar diferente e a chamada Missa Tridentina tem tido uma vida conturbada, mas é possível assistirem a ela sem fazer parte desta fraternidade. Penso que em Lisboa, uma vez por semana há quem a celebre. Quem gosta de coisas mais tradicionais, de um rito clássico, pode fazê-lo sem ter que ir aos locais da fraternidade dos seguidores do senhor Lefebvre. Mas isto é, porventura, a espuma do problema. E neste caso concreto, aquilo que estará em causa é a continuidade desta comunidade ou desta fraternidade, porque ela para poder continuar necessita de bispos. E as duas grandes crises que houve com ela foram precisamente quando ela tomou a iniciativa de consagrar bispos. Isso aconteceu pela primeira vez em 1988. O monsenhor Lefebvre já estava a ficar idoso, ele morreria cerca de 10 anos depois. Temia pela continuidade da fraternidade e ele e um outro bispo brasileiro consagraram quatro novos bispos e na altura costumou-se dizer que eles foram excomungados. Na verdade, a desobediência ao Papa nestes termos e a consagração de bispos, que tem que ser feita com a autorização do Papa, tem como implicação, pelo menos foi aquilo que eu pude perceber do que eu vi sobre Direito Canônico, a excomunhão imediata. Não é preciso uma decisão formal. É uma espécie de pena automática. E foi aquilo que aconteceu agora de novo. Dos seis bispos que ficaram da altura, depois esta excomunhão seria levantada numa tentativa de reaproximação a tentar encontrar soluções para este afastamento. Agora estava novamente numa fase em que os bispos estavam a envelhecer, já só havia dois e portanto eles foram ordenar quatro novos bispos, sendo que um deles nem 40 anos tem, o outro está entre os 40 e os 50. Bispos relativamente jovens que possam ter muitos anos pela frente, numa tentativa, penso eu, e são as interpretações também que estão a ser dadas, de manter esta comunidade que necessita desta hierarquia, digamos assim, sem o seu desaparecimento. É basicamente isto que novamente está em causa, porque uma das coisas curiosas é que apesar das suas divergências e da sua contestação, sobretudo da aproximação a outras religiões, a Fraternidade considera que há uma cedência ao protestantismo, por exemplo, a Fraternidade continua a aceitar a autoridade do Papa e até a dizer que quando o Papa se encontra com outros líderes religiosos, está a apocar-se, está a diminuir-se. Verdadeiramente, a própria posição, se estão ou não fora da Igreja Católica, há discussão sobre isso. Agora, não creio, até pela dimensão que tem, que isto se possa aproximar dos cismas históricos e das razões desses cismas históricos. Quando falamos de cismas históricos, o maior de todos, aquele com maiores consequências, foi o chamado Cisma do Oriente e é por isso que hoje temos a Igreja de Roma e depois temos as várias igrejas ortodoxas, a grega, a russa e todas as outras, que foram na altura em que houve esse afastamento, foi já no século XI, portanto foi há 1000 anos. Depois tivemos também o grande cisma, mas com características diferentes das igrejas protestantes, com protagonismos diferentes e que levaram também a uma grande divisão na Igreja. Eu não creio que de forma alguma estejamos perante algo semelhante. E há algo que me parece que vale sempre a pena, pelo menos meditar sobre o assunto, que é pesar como é que a Igreja evolui, porque a Igreja tem mais de 2000 anos, tem evoluído e evolui de uma forma que lhe permite manter o essencial, adaptando-se aos tempos. E isso é talvez aquilo que mais limita o alcance destes ultratradicionalistas. Eu gosto mais de lhes chamar ultratradicionalistas do que ultraconservadores, porque não é exatamente a mesma coisa. Mas vamos falar um pouco melhor sobre tudo isto com a ajuda de quem sabe muito mais do que nós sobre esta matéria.
Depois das 10:00, até já, Zé Manuel.
Depois das 10:00.










