Reindustrializar a Europa: estará Portugal preparado?
Durante décadas, a Europa acreditou que podia prosperar mesmo produzindo cada vez menos. A globalização permitia localizar a indústria onde os custos eram mais baixos, mantendo na Europa os centros de decisão, inovação e consumo. Parecia um modelo eficiente. Afinal, porque haveríamos de fabricar aquilo que outros produziam mais barato?
Os últimos anos mostraram os limites dessa visão. A pandemia expôs a fragilidade das cadeias globais de abastecimento. A invasão da Ucrânia revelou a dependência energética europeia. A instabilidade no Médio Oriente voltou a recordar que a segurança económica depende também da capacidade de produzir e garantir o acesso a matérias-primas estratégicas.A resposta de Bruxelas é clara: a política industrial está de volta.A proposta do Industrial Accelerator Act é um dos sinais mais evidentes desta mudança. O objetivo já não é apenas acelerar a descarbonização da economia. É também reforçar a capacidade industrial europeia, simplificar o investimento em tecnologias limpas e incentivar a produção de materiais estratégicos dentro da União Europeia.
A transição energética deixou de ser apenas uma política ambiental. Tornou-se uma política económica e, cada vez mais, uma política de segurança.Num mundo onde os Estados Unidos subsidiam fortemente a sua indústria e a China continua a dominar grande parte das cadeias de valor industriais, a Europa percebeu que depender excessivamente de terceiros deixou de ser uma opção confortável.É neste novo contexto que Portugal pode encontrar uma oportunidade rara.Historicamente, o país nunca ocupou um lugar central na indústria europeia. Apesar do sucesso de setores como o têxtil, o calçado ou alguns segmentos da indústria automóvel, Portugal permaneceu relativamente periférico nas grandes cadeias de valor.
A transição energética pode alterar parcialmente esta realidade.A indústria de baixo carbono dependerá cada vez mais de eletricidade renovável abundante e competitiva. Portugal dispõe de condições particularmente favoráveis neste domínio, graças ao investimento realizado em energia solar e eólica. Se a eletrificação da indústria acelerar, esta poderá tornar-se uma vantagem competitiva mais relevante do que foi no passado.Também a localização geográfica pode ganhar uma nova importância. Infraestruturas como o porto de Sines poderão desempenhar um papel estratégico nas cadeias logísticas associadas ao hidrogénio verde, aos combustíveis sintéticos ou à importação de matérias-primas críticas.Além disso, a crescente valorização da produção “Made in Europe” poderá levar empresas internacionais a instalar capacidade produtiva dentro da União Europeia para garantir acesso ao mercado europeu e aos novos programas de apoio.
Mas seria um erro concluir que estas vantagens garantem, por si só, o sucesso de Portugal.A reindustrialização europeia será também uma competição entre Estados-Membros. Alemanha, França, Itália ou Espanha possuem maior dimensão industrial, mais capacidade financeira e ecossistemas de inovação mais consolidados. Portugal terá de competir pela qualidade das suas condições de investimento e pela rapidez da sua execução.É precisamente aqui que continuam a surgir as maiores dúvidas.A burocracia permanece lenta, os processos de licenciamento continuam complexos e a definição de prioridades estratégicas nem sempre é clara. Num contexto em que os investimentos procuram rapidez, previsibilidade e estabilidade regulatória, estes fatores podem pesar mais do que diferenças de custos.
A verdadeira questão já não é saber se a Europa vai reindustrializar-se. Tudo indica que esse processo já começou.A questão é saber quais os países que conseguirão posicionar-se nas novas cadeias de valor que estão agora a ser construídas.Portugal reúne alguns dos ingredientes necessários para participar nesse novo ciclo industrial. Dispõe de recursos energéticos, localização estratégica e empresas capazes de competir internacionalmente. O que falta demonstrar é a capacidade de transformar essas vantagens em projetos concretos, investimento produtivo e emprego qualificado.Na nova política industrial europeia, a oportunidade existe. Mas, como tantas vezes acontece, não vencerá quem identificar primeiro a oportunidade. Vencerá quem conseguir executá-la mais depressa.
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