CIÊNCIA

A ridícula farsa ´infantina` dos três minutos

Coitados desses jovens que, tal como os indesejáveis que ocupavam a arena do Coliseu romano de outrora, estão condenados, em última instância, a arriscarem a sua integridade física diante de milhares de espetadores acumulados nas bancadas onde se disputam os jogos do mundial de futebol. Desta vez, não se trata exatamente de uma compita entre homens celerados, ou entre eles e umas escolhidas feras, mas sim de uma coletiva defesa de 22 inocentes contra um comum e omnipresente inimigo: uma tóxica mistura de envolvente calor e humidade que potencia um rude golpe e prejuízo na saúde de cada um desses exímios intérpretes da arte do ´futebolar`.
É esta, grosso modo, a constatação plena de humanidade, da FIFA, organização competente pela organização do Mundial de futebol, justificando em consequência a introdução de uma nova regra no que respeita ao próprio desenrolar dos 90 minutos regulamentares de cada encontro: esse período de tempo, que até agora apenas autorizava um intervalo de 15 minutos para os jogadores voltarem aos balneários e refrescarem, não apenas o corpo, mas também as ideias, passou a incluir igualmente uma paragem de 3 minutos, a meio de cada uma das duas partes de 45 minutos. A justificação oficial é a de se cuidar da proteção da saúde e bem-estar dos jogadores.Ninguém ousará pôr em causa o grito de compaixão do sr. Infantino, em quem se topa, com admiração, um edificante e exemplar altruísmo, aliás já eloquentemente demonstrado por ocasião do troféu FIFA concedido ao presidente Trump.Essa meia dúzia de minutos por jogo, para hidratação dos atletas, será pois a solução ideal, que transforma uma situação potencialmente insuportável num agradável momento de exercício físico e de feliz entretenimento entre esse grupo de profissionais evoluindo no terreno. Sente-se por isso e automaticamente, uma profunda e generalizada gratidão pela tocante atenção do responsável primeiro da ´Fédération Internationale de Football Association` que assim confirma deter, entre as demais virtudes, a da oportuna criatividade.
Vestidos de fato-de-macaco , e conscientes da nossa legendária ignorância sobre as coisas importantes do nosso desporto preferido – o que a gente gosta é de vê-los lá em baixo a fintar e a marcar golos -, inclinamo-nos diante da indumentária de gala do dirigente máximo daquela augusta Associação: nenhum de nós, os simples fãs deste maravilhoso desporto, se atreveu portanto a tornar públicas algumas breves interrogações, como por exemplo as seguintes: as regras estruturantes de um jogo de futebol, ou seja, nomeadamente, as pausas atribuídas no seu decorrer, podem ser arbitrariamente alteradas consoante a vontade manifestada pelo topo da hierarquia institucional, mesmo que seja tão somente nesta fase final do Mundial de futebol 2025/2026?E nos próximos? Dependerá de quem então estiver à frente desse organismo zuriquense? E se a UEFA, com jurisdição própria, se recusar a adotar esta fantasista flexibilidade, como é que ficamos no fim de contas? Cada continente, através das suas federações nacionais, decidirá? E porquê 3, e não 5 minutos?E já agora, lateralmente, nem sequer trazem alguma vantagem estes minutos no que respeita às eventuais instruções que os treinadores queiram então transmitir à sua equipa : pois não as fazia já chegar sem estas interrupções-extra caídas do céu?Inevitavelmente vem ao espírito uma outra lógica, paralela e estranha ao futebol, a montante da decisão: não será tudo isto, na sua base e simplesmente, o mero resultado do poder de lobbies empresariais que assim lograram aumentar o seu tempo de publicidade nos meios televisivos ou outras plataformas visuais? Pois se é verdade que a FIFA é estatutariamente soberana no que respeita ao ordenamento e prática do futebol praticado, também não é falso que os jogos, na sua esmagadora maioria, são disputados em solo dos USA, bacia batismal do capitalismo planetário.
Será que afinal, sejamos sinceros, o pontapé mais importante do Mundial foi um auto-golo da própria FIFA, e não um certo e certeiro ´petardo`na trionda?Ainda por cima, fica no ar , em penumbra, a possibilidade de a Organização criar novas oportunidades comerciais em seu proveito, o que se casa perfeitamente com a tal lógica financeira de aproveitamento da ocasião para, independentemente da ´verdade desportiva`, criar novas fontes de rendimento.Esta novidade gera naturalmente um claro desconforto, alimentando e corroborando a frequente acusação de falta de transparência e arbitrariedade que se terá instalado na cúpula do futebol mundial. Isto recorda-nos que foi essa a razão determinante do triste fim do longo ´reinado`do sr. Joseph Blatter, a quem Infantino sucedeu com promessas de renascimento e de inatacável conduta.Enfim, refletirão estas conjunturas tão somente um excesso de purismo ou de falta de coragem?Alguém profeticamente me dizia, um destes Domingos-de-bola, que a indignada reação popular só se virá a produzir quando a pessoa do árbitro vier a ser substituída por um robô humanoide: contra quem lançaremos nós então os nossos impropérios quando não concordarmos com a decisão tomada? Onde estaria, nesse caso de figura, o indispensável frisson?

Receba um alerta sempre que António Maria Mello e Castro publique um novo artigo.
Seguir

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Botão Voltar ao Topo

Adblock Detectado

Para continuar no site, por favor, desative o Adblock.