Como não sabe o que fazer, o governo fala por enigmas
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Este é o Bom, o Mau e o Vilão da Rádio Observador com o Miguel Pinheiro. Fala Miguel, bom dia.
Bom dia.
Bom dia. Miguel, o teu bom é um rei.
É um rei, mas eu digo sempre com Y. E eu volto ao rei da matemática depois de há dois dias ter falado aqui da forma como este professor e influencer do TikTok corrigiu publicamente a prova de matemática do nono ano, que o governo queria manter secreta. Na realidade, ele não corrigiu publicamente. Ele mandava a correção a quem lhe pedisse. E agora ele voltou a falar e deu uma lição de bom senso, de moderação e de empatia. Ele argumenta que há um problema de base com esta decisão do governo de manter o enunciado da prova em segredo para depois o poder repetir todos os anos e dessa maneira comparar a prestação dos alunos ao longo do tempo. E o rei da matemática argumenta que isto cria um problema de transparência. Atenção, um problema de transparência, que seria evidente, mas o que ele diz é que cria um problema de transparência na avaliação, porque mesmo podendo recorrer das notas, os alunos, e já agora os pais, não têm acesso ao enunciado, pois ele é secreto, e também não têm acesso, bem evidente, aos critérios de avaliação oficiais. E, portanto, nessas condições, não é possível confirmarem se há erros na avaliação. Isto torna muito mais difícil contestar as notas. É simples gente, pedem uma revisão e ficam à espera. E tudo isto mina a confiança num sistema que, pela sua própria natureza, devia ser totalmente transparente. As pessoas deviam saber: eu fiz este teste, os critérios de correção são estes e, portanto, estou aqui a ver como é que foi feita a avaliação. Ainda por cima, em áreas que contam pra nota. Já agora, se as pessoas se estão a esforçar. E o rei da matemática tem toda a razão. O Ministério da Educação acho que devia repensar a forma como está a fazer isto. Seguramente que há outras maneiras de ter avaliações coerentes sobre a evolução dos alunos ao longo dos anos. De certeza que há outras formas de fazer essa análise sem que se ponha em causa esta transparência.
Olha, o Ministério da Educação, pra começar, devia contratar pra um trabalho de consultoria o rei da matemática, pra ele ajudar.
Eu apoio.
Apoias.
Se calhar até fazia à borla.
Se calhar até fazia à borla, exatamente. E, portanto, ele que pelos vistos pensa bem estas matérias, ajuda o ministério e o governo a pensar estas matérias.
Subscrevo.
Então pronto, vamos a isso.
Miguel, quem é o teu mau?
Olha, o mau é o PPM. Eu não sei se te lembras do PPM. Muita gente seguramente não se lembrará do PPM. Eu é que sou obrigado a lembrar-me do PPM, porque esta é a minha vida. Mas em 1979 e em 1980, o Partido Popular Monárquico fez parte da Aliança Democrática original de Francisco Sá Carneiro, quando o PPM era liderado por Gonçalo Ribeiro Telles, mas depois entrou num lento processo de decadência até os dias de hoje. Em 2024, por razões misteriosas, o PSD foi recuperar o PPM pra uma nova AD, mas nas eleições de 2025 ganhou juízo e Luís Montenegro deixou cair o partido. Furibundo, o PPM recorreu pro Tribunal Constitucional contra o uso da designação AD numa coligação sem o partido e recorreu também, imaginem, pra o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos. Claro. E agora sabe-se que este tribunal decidiu recusar o recurso por ele ser manifestamente infundado. Agora põe aqui o emoji de lágrimas. E um dos argumentos do PPM quando recorreu, era o de que o uso da sigla AD contribuiu pra uma perda de votos do PPM e que isso poderia, vou citar: “Poderia levar a longo prazo ao seu desaparecimento enquanto partido político”. Portanto, o PPM acha que é o uso da sigla AD em 2025 que pode levar a longo prazo ao seu desaparecimento enquanto partido político. E eu não sei, dizer-lhes vocês ou digo-lhes eu? Alguém tem que lhes dizer: “Meus amigos, vocês não estão a ver bem a coisa.”
Não, não estão a ver a longo prazo. Não estão.
Miguel, o teu vilão é o governo.
Olha, é porque, como se sabe, no fim de semana o primeiro-ministro decidiu aproveitar o congresso do PSD pra anunciar à pátria a criação de um fundo soberano com dinheiro, mas não se sabe vim de onde. Um fundo soberano pra investir em empresas, mas não se sabe em quais. E um fundo soberano com o objetivo de defender o interesse nacional, mas não se sabe como. E depois deste anúncio muito informativo, obrigado, e depois de deixar toda a gente a coçar a cabeça a tentar perceber que raio de ideia é esta, o governo entrou em blackout. Não respondeu a perguntas, não atendeu os telefones, não falou com ninguém e ontem o ministro Leitão Amaro, coitado, foi obrigado a aparecer pra fazer o briefing do Conselho de Ministros e, como é óbvio, surgiram perguntas sobre o assunto. E ele disse isto, eu vou citá-lo porque isto, atenção, não podemos aqui agora andar a brincar com as palavras. Vou citá-lo “Há empresas estratégicas para a soberania e segurança nacional e de alguma forma soberania económica, que nem sequer é o caso de estarem plenamente em mercado aberto e capital disperso.” Há umas empresas. Não sei se estão a seguir o raciocínio. Há umas empresas que eu não vou nomear por aí. E depois continuou: “Há várias destas empresas que têm propriedade concentrada em entidades públicas e privadas estrangeiras.” Não sei se estão a ver, mais uma vez, não há cá nomes, não está cá a dizer empresa, não está a dizer nada. Vou deixar isto no ar, como se costuma dizer. E depois concluiu: “Não retiro daqui uma apreciação negativa, mas em muitos casos poder-se-á estar a discutir a participação de alguma intervenção soberana nacional, onde há já participação soberana estrangeira.” Mais uma vez, tudo no ar. Como o governo não pensou três segundos nesta ideia do fundo soberano, agora está a improvisar e a falar por enigmas. Tudo isto são enigmas. E no tempo da União Soviética havia pessoas que tinham uma profissão muito engraçada que se chamava kremlinologistas. Eram especialistas que procuravam pequenos sinais no jornal oficial do regime. Eles liam as cartas dos leitores no “Pravda”, liam as legendas e sempre que havia paradas militares olhavam para ver quem é que sentava onde. No ano passado este esteve aqui, agora está aqui. E o objetivo era tentar perceber quem é que estava a ver a sua influência a crescer ou a diminuir no Kremlin. Eram os kremlinologistas. E agora nós temos de fazer o mesmo cá, precisamos de arranjar uns montenegrologistas para percebermos o que é que vai na cabeça dos governantes. Eu tentei ser montenegrologista e tentei perceber ali nas palavras do Leitão Amaro para onde é que isto está a ir, mas sinceramente eu não sou um bom montenegrologista, peço desculpa.
Aquela referência aos soberanos estrangeiros fiquei um bocadinho com os olhos em bico. Mas enfim.
Paulo, mas depois parece-me que as coisas não batem todas certo umas com as outras. E além disso, quer dizer, vamos criar um fundo soberano para uma empresa ou para duas?
Não. Sim.
Ou para três?
A história está muito mal.
Não é?
Começou muito mal. É evidente.
Mas enfim, de qualquer forma, Paulo, ficas já aqui, estás nomeado o montenegrologista oficial do “O Bom, O Mau e O Vilão” e das manhãs da R360. Olha, boa sorte com isso.
Obrigado, bem preciso.
Vamos ao resumo. O bom desta sexta-feira é o rei da matemática, rei com Y. O mau é o PPM e o vilão de hoje é o governo. São as escolhas do Miguel Pinheiro no episódio que daqui a instantes também fica disponível em podcast.









