Do que eu gostava era de não ter medo do futuro!
É uma ideia comum que todos os adolescentes são distraídos. Virados sobre si próprios. Com os seus tempos geridos duma forma “anárquica” mas dentro duma normalidade que os deixa sossegados. Um tudo-desarrumados. Engenhosos e com uma pitada de demagogia quando se trata de argumentarem. Entretidos com as suas causas de cada momento. E distraídos em relação à política, à história e às agendas tidas por fundamentais pelas pessoas crescidas. Para efeito de reclamação de direitos entendem-se crescidos. Para levarem à prática as responsabilidades que lhes exigimos são sempre mais “pequeninos”.
Mas quando os entrevistamos às dezenas, como o fizemos na Escola Amiga da Criança, em várias zonas muitíssimo distanciadas umas das outras, há uma ideia que ressalta, fora das ideias comuns que temos dos adolescentes. Duma forma clara, houve muitos que nos disseram: “Do que eu gostava era de não ter medo do futuro!”. E, aí, percebemos que eles vivem cercados por expectativas e por exigências. Sob uma ideia de sucesso, que faz com que se rendam às notas e a meios “habilidosos” para as conseguirem. Cercados pela sensação de que a escola “a sério” são os três anos do secundário e que a vida parece “acabar” aos 18, com a entrada na universidade. Num curso que, mesmo que não seja a sua paixão, lhes dê empregabilidade garantida e, de preferência, muito dinheiro muito depressa. Mesmo que, logo a seguir, se sintam um bocadinho explorados para o dinheiro que ganham. Vivam num quarto ou partilhem casa, muitas vezes até aos 40. Com a sensação de que o nível de vida dos seus pais nunca venha a ser igual ao seu. E estejam cercados por crises: económica, energética, migratória e habitacional. Por uma pandemia do digital. E, sobretudo, num mundo onde os valores da democracia e da paridade parecem, todos os dias, mais desequilibrados.
É uma ideia comum que todos os adolescentes são distraídos. Mas distraídos somos nós. E, pior, tenho dúvidas de que acreditemos convictamente naquilo que eles venham a ser no seu futuro. E no mundo que construam, depois do nosso. Se acreditamos tão pouco neles e os conhecemos tão mal como hão-de os adolescentes acreditar, com a nossa influência, no seu futuro?
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