De preso a poeta: Betts leva livros às prisões
MANUEL FERNANDO ARAÚJO/LUSA
O poeta norte-americano Dwayne Betts falou este domingo, no festival literário Babell, no Porto, do projeto Freedom Reads, que tem levado bibliotecas a prisões “uma de cada vez” e, assim, mostrando como “a literatura transforma vidas”.
O poeta, advogado, educador e ativista pela reforma do sistema prisional norte-americano, de 45 anos, conversou com Raquel Marinho numa sessão literária na Praça Gomes Teixeira, quando está prestes a chegar a Portugal a primeira tradução de um livro seu, “Doggerel”.A sessão decorreu, em traços gerais, seguindo o fio cronológico da vida do homem que, aos 16 anos, foi condenado a nove anos de prisão por roubo com arma de fogo, tendo descoberto a leitura e que queria ser escritor precisamente nesse tempo em que foi encarcerado.Quando saiu, com quase 25 anos, estudou Poesia e, mais tarde, Direito, mas não conseguiu trabalhar como procurador.“Alguém me perguntou o que seria eu se o dinheiro não fosse questão. Disse que, se não fosse pelo dinheiro, e dado que metemos milhões de pessoas na prisão, então meteria milhões de livros nas prisões, uma biblioteca de cada vez. E foi assim que encontrei o trabalho da minha vida”, contou.
Betts vê todos os dias “como a literatura transforma vidas” a partir dos pequenos espaços em prisões norte-americanas, contando já meio milhar de instalações desde 2020.Trabalhou em livrarias, em tribunais, em escolas e universidades e até num comité da presidência norte-americana de Barack Obama, numa vida marcada pela procura de uma “vida menos fragmentada” e por encontrar o que o juiz lhe disse quando o condenou, que poderia “tirar algo disso se assim for escolhido”.“Eu era leitor antes de ser escritor. É interessante, mas eu tinha lido sobre prisões antes de ser escritor. Tinha lido sobre esse sítio estrangeiro em que estava a entrar, que me deu um sentido de ter cuidado com as pessoas nesse lugar. O ato de ler livros deu-me um entendimento do mundo e das pessoas ali que não veio à superfície até ter de estar lá dentro. Foi mais fácil acreditar em mim e a saber o que seria possível, porque esses livros me tinham ensinado”, admitiu.Dwayne Betts leu um dos seus poemas e contou sobretudo histórias sobre a sua experiência de vida através da poesia, de ter criado clubes de leitura a ler poemas na rua a desconhecidos, às dificuldades em aproximar as pessoas da literatura face ao custo de vida, dar instrumentos a pessoas encarceradas para “tomarem opções” quando saírem em liberdade.
Na Freedom Reads, cerca de 40% dos funcionários “estiveram encarcerados”.“A coisa principal quando se está 10, 15, 20 anos lá dentro é que, de todas as coisas que ficam inacessíveis, uma carreira é uma delas. Como se constrói uma carreira depois de 20 anos preso?”, questionou.Esta sessão foi aberta ao público, ao contrário das restantes, que exigiam um bilhete, mas mesmo assim estavam poucas centenas de pessoas na assistência, por contraste com as mais de 1.600 na plateia para as esgotadas sessões do dia anterior, com Margaret Atwood e Olga Tokarczuk.De resto, o evento decorreu com vários problemas na disponibilização de vídeo da legendagem automática, que a organização disponibiliza com recurso a profissionais e a inteligência artificial (IA), com falhas recorrentes na primeira metade da conversa.
Na segunda-feira, é apresentado “Doggerel”, pelas 12:00, no Clube dos Fenianos, na primeira tradução feita em Portugal de poemas do autor, em parceria com a Universidade do Porto.O festival literário Babell arrancou na quarta-feira e decorre até segunda-feira, com nomes como László Krasznahorkai, Salman Rushdie e Lídia Jorge num programa de sessões literárias, concertos, cinema e outras apresentações que, ao todo, custou mais de 3 milhões de euros à fundação da Livraria Lello, excetuando o apoio da Câmara do Porto, que coorganiza o evento.Ainda hoje, o Nobel da Literatura em 2025 László Krasznahorkai conversa com o público nos ‘Leões’, pelas 18:30, seguindo-se Salman Rushdie, pelas 21:30, numa sessão no Coliseu do Porto com apertadas medidas de segurança.










