Um verão com mais fogos? Ou um inverno com mais tempestades?
TOMAS SILVA/OBSERVADOR
A tempestade Kristin, a mais forte desse “comboio” de janeiro-fevereiro, foi descrita como uma das mais destrutivas de sempre em Portugal e teve ventos extremos, o “stingjet”. Também devemos esperar mais episódios destes e mais frequentes?Houve algo que me espantou verdadeiramente. Quando a previsão já apontava para dias seguidos de precipitação muito elevada, a ideia de todos os responsáveis era de que íamos ter “alguns prejuízos”. “Alguns prejuízos”? Era óbvio que íamos ter muitos prejuízos. Como é possível termos estado à beira da capacidade máxima de armazenamento de açudes e barragens, com uma gestão muito eficaz da APA, reconheça-se, mas no limite?Sim, sempre ali no limite.Sempre na linha limite, e não se perceber que o que estava à frente era um enorme prejuízo: economias, agricultura, zonas urbanas destruídas, estradas – sobretudo aquelas com desenho desgraçadamente mau – incapazes de ser mantidas, derrocadas perto de linhas de comboio, porque os taludes não estão bem preservados. Sempre o mesmo padrão, que podemos chamar, de forma que até pode não ser muito justa, “padrão Ponte Hintze Ribeiro” [Entre-os-Rios]: deixamos as infraestruturas chegar a um ponto de falta total de manutenção, na perspetiva do “talvez hoje não caia”. O que me espanta não é chamarem o LNEC no fim para ver o que correu mal, mas o facto de o LNEC não fazer observações regulares todos os anos e todos os meses. E o contrato com estas organizações não ser a longo prazo.A primeira medida seria essa. Seria rever tudo antes que volte a chover como no ano passado?A medida que temos de tomar é manter mais e fazer menos. É vício de pobre estar sempre a comprar novo. Os ricos, que sabem que são ricos, compram bom e mantêm-no muito tempo. Somos um país com vícios de pobre: queremos a ponte mais alta, o viaduto mais longo, recordes bacocos para nos encher o ego, quando devíamos querer que a pequena estrada que liga a aldeia “A” à vila “B” tenha o mesmo standard de uma estrada perto de uma grande cidade ou de uma aldeia da Noruega. Devíamos usar bem as infraestruturas durante o tempo para que foram feitas, e não pensar só em Santa Bárbara quando troveja.
Estes fenómenos de vento extremo são os mais perigosos que nos podem chegar agora? Quase ao nível de furacões e tornados?São, porque temos pouca proteção contra ventos. Não somos a Florida. A construção não está preparada. E as pessoas também não. Lembro-me da situação da Figueira da Foz, quando aquele furacão entrou pelo continente, as pessoas não sabiam o que fazer: se deviam fechar persianas, abrir janelas… Não sabiam.E também não foram avisadas…O aviso não chega. É preciso experiência, exercícios e conhecimento. Tínhamos já experiência de pequenos tornados com velocidades de vento muito elevadas, como em Silves por exemplo, mas atingiam uma pequena zona. Agora tivemos um fenómeno de escala maior, este “stingjet” que passou por Leiria, com dimensão de cerca de uma centena de quilómetros. Somos capazes de prever as condições para ele se formar: e foram previstas. Observá-las, porque temos radares de última geração: e foram observados. Mas não temos infraestruturas preparadas para episódios desta energia. São investimentos grandes de preparação e exigem grande disciplina na utilização do território, que exige uma compreensão que ainda não existe.Quando fala em investimentos grandes, é ao nível de material e prevenção. Ou também preparação das pessoas?Das duas coisas, mas essencialmente investimentos gigantes no escoamento de águas, proteção da rede primária e secundária de energia. Somos dos países com menos cabos enterrados. Isso tem a ver não só com desleixo, mas também com o grande espalhamento da área construída, o que torna o custo de enterrar uma parte significativa da rede faraónico e impossível. Voltamos à questão da disciplina, rotina, regras – e as regras têm de ser cumpridas para bem de todos.Esta chuva intensa, concentrada em poucos dias, é mais perigosa do que a distribuída por semanas?Muito mais, em comparação. A chuva distribuída é muito boa para a agricultura, tem impacto muito inferior nas infraestruturas de escoamento. A chuva concentrada escoa à superfície, cria grandes dificuldades de mobilidade no meio urbano. Temos uma falta de exigência enorme com os nossos políticos. Isto não tem a ver com partidos nem ideologias. Tem a ver com standard, com a qualidade de vida que achamos que devemos ter. E volto a dizer: só os pobres gostam de comprar novo e comprar o maior. Precisamos de comprar o que podemos, manter o que já temos e viver de forma sustentável.Portugal pode estar a entrar num padrão de extremos: seca prolongada seguida de cheias violentas? Isto é compatível com o que os modelos climáticos preveem?É compatível com os modelos, mas mais do que isso, corresponde a uma conclusão óbvia de física elementar. Temos uma temperatura mais alta. Hoje, ninguém duvida disso. A origem da temperatura mais alta pode ser discutida, mas que está mais alta, está. Temperatura mais alta leva a mais água na atmosfera. Mais água na atmosfera significa processos mais energéticos, chuva mais intensa. A distribuição espacial de cada fenómeno é que os modelos têm (ou tinham) obrigação de responder. Cada nova geração de modelos é melhor do que a anterior, mas atenção: modelos não são realidade, são projeções da realidade.Se já tivemos um mês de chuva em 12 horas, isto pode tornar-se ainda pior?Gostava de responder, mas não tenho a certeza. Existiram recentemente, noutras partes do mundo, situações piores do que a que tivemos aqui. Do ponto de vista físico, não parece haver um limite assim tão grande. Se podemos ter o triplo, quádruplo ou quíntuplo? Não faço ideia. Espero que não.Estamos a assistir a uma tropicalização do clima português ou isso é exagero mediático?Nas últimas décadas, parece haver tendência para diminuição de noites frias, o que é muito seguido por causa da fruticultura, que precisa de frio noturno – e, já agora, as pessoas também, para dormirem bem. O corpo precisa de descansar. Temos uma sequência de anos em que, do ponto de vista do que se mede, parecia caminhar-se nesse sentido. Os modelos também apontam para isso. Agora, o que pedimos é curto e os modelos têm limitações. Se isto será uma tendência, diria que tem toda a capacidade de ser. A temperatura média aumenta e a temperatura noturna também. E aumenta com as “ilhas” de calor, ou seja, com a expansão urbana. Todos os sinais apontam para termos aquilo a que se chama “noites tropicais”. E noites tropicais não são um movimento fantástico alimentado por caipirinhas e com danças repetidas ao som de música cubana. São noites em que pessoas idosas têm dificuldade em dormir, em que há muita desidratação e em que é preciso que os sistemas de apoio social garantam fresco. Por isso é preciso que os centros de dia, por exemplo, tenham ar condicionado.










