Venezuela: o terramoto expôs o chavismo, será que o derruba?
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Olha, Carla, consegue-se perceber que está sendo uma tragédia muito pra além daquela que era, de alguma forma, decorrente de um sismo com aquela violência. E uma tragédia a vários níveis. Primeiro que tudo, por que caíram tantas casas? Por que houve tantos colapsos de edifícios relativamente recentes, designadamente de muitos edifícios que tinham sido construídos já no tempo de Hugo Chávez e depois de Nicolás Maduro, edifícios de um programa dito social e que caíram verdadeiramente como castelo de cartas. Olhar pras imagens, não as imagens apenas das quedas, mas até as imagens de satélite das zonas arrasadas, aquilo tombou tudo. E em alguns casos, estamos a falar de edifícios onde viviam centenas de pessoas. Ora bem, a primeira questão que se coloca é: por que aqueles edifícios, em princípio, não terão cumprido as próprias normas que a Venezuela foi criando ao longo dos anos? A Venezuela tinha tido um grande terremoto em 1967, mudou as normas de construção, mas aparentemente o regime, o sistema, a forma como tudo funciona, há muita corrupção e muita prioridade a outros temas que não propriamente o rigor e, portanto, muito provavelmente houve aí falhas tremendas. Assim como houve falhas tremendas em tudo o que é rede de prevenção. Só pra dar um exemplo, na Venezuela houve, em tempos, uma rede de 300 sismógrafos pra monitorizar os eventos do planeta, da Terra, do Sol, num país muito atraído a tremores de terra e a terremotos. Atualmente, há cinco. Tudo foi destruído, as universidades estão vazias, os centros de investigação foram destroçados e, portanto, nada permitia prever, prevenir o que vinha aí. Mas, porventura, o pior de tudo não é isso. O pior de tudo é não existirem serviços de saúde minimamente preparados. Só pra te dar uma ideia, em cada 10 salas de cirurgia da rede hospitalar da Venezuela, só quatro estavam em condições de funcionar. Muitos hospitais, antes disso acontecer, pra realizarem uma intervenção cirúrgica, pediam aos doentes pra levarem os medicamentos e, às vezes, também as compressas e os instrumentos. Portanto, é um país verdadeiramente destroçado por 27 anos de chavismo, madurismo e agora delcismo. Não sei se o delcismo vai ter tempo suficiente pra ser alguma coisa, porque esse também é outro aspecto relevante. O único dispositivo que se pensava que funcionava na Venezuela eram as Forças Armadas, as polícias das Forças Armadas. Apareceram elas com meios pesados, com parte de engenharia a procurar ajudar? Não. Os militares, os polícias, estão neste momento a fingir que orientam o trânsito e, em alguns casos, a ajudar nas pilhagens. Tudo isto com esta incapacidade de acorrer às pessoas. O que aconteceu foi que os venezuelanos, bem à forma latina, acorreram em massa às zonas de catástrofe e a única coisa que o governo pôde fazer, ou quis fazer, ou soube fazer, foi tentar impedir que eles chegassem lá, dizendo que entupiam as estradas, o que deve ser verdade, mas não houve capacidade de criar rotas alternativas, garantir que as pontes funcionavam, até porque as zonas mais afetadas ficam numa espécie de vale litoral, numa plataforma litoral entre a montanha e o mar e, portanto, não têm assim tantos acessos como isso, mas a forma como as autoridades foram sacudindo as pessoas, ainda começaram mesmo a revoltá-las. Se a isto tudo acrescentarmos que a própria Delcy Rodríguez não tem aquilo que se costuma chamar competências comunicacionais e aquilo que deu nas vistas quando ela apareceu pela primeira vez depois do terremoto foi a capa que levava e que imediatamente foi identificada como sendo uma peça de vestuário caríssima, de luxo, acabou por indignar ainda mais as pessoas. Agora, é um regime que dura há muito tempo, está preparado Para romper com as oposições, tem uma espécie de compromisso com Trump para a transição e não sabemos até que ponto isso funcionará. Para já, os Estados Unidos estão a ajudar como ninguém mais. Os Estados Unidos libertaram US$ 140 milhões, a União Europeia libertou cinco, só para teres a ideia da proporção. Enviaram dois navios militares, enviaram um avião com centenas de operacionais, enviaram um general marine para coordenar tudo no terreno. Estão quase a fazer aquilo que a Venezuela não é capaz de fazer. E depois há mais coisas ainda. Por exemplo, ontem estava a ver numa rede social o polémico presidente de El Salvador, o Bukele, acho que é assim que se escreve agora, estou-me a falhar o nome, a anunciar resgates, a dizer que havia uma senhora de 60 anos presa há 82 horas, que uma equipa de El Salvador e peruana tinha conseguido resgatar. Depois continuou a dar notícias, deu notícias da chegada ao hospital, deu notícias da conversa dele com os médicos. Isto é, Bukele a fazer aquilo que não fazem as autoridades venezuelanas. É muito difícil prever o que vai acontecer no futuro. Para já, está a ser uma catástrofe, sobretudo para o povo da Venezuela, está a gerar revolta, mas daí a sabermos. Como tu referiste, às vezes isto dá para os governos consolidarem, aconteceu com o nosso Marques de Pombal, que não era propriamente um governo gentil e democrático. Outras vezes leva à sua queda, como aconteceu na América Latina, por exemplo, no México, depois de um terramoto também, que foi a velocidade do México e onde o regime do PRI, o Partido da Revolução Institucional, começou a cair. Vamos tentar perceber isso melhor com a ajuda de quem conhece também o terreno.
É isso mesmo. Até já, General. Faça parte do Contracorrente, ligue 91 002 41 85. Entra em direto logo a seguir ao jornal das 10.










