CIÊNCIA

Hélder Teixeira Aguiar: “A história veio ter comigo: esta…


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Eu apego-me muito aos personagens e para mim seria muito complicado. Para mim, eles não podem sair da minha cabeça. Eles falavam comigo de noite. É quase uma esquizofrenia.
Mas dirias que isto não foi exatamente assim.
Foi sobretudo o Gonço que falava comigo. Era quase uma esquizofrenia.
E Zé Batalha nem faltava ser visto, era acordado de noite pelos personagens que queriam que a história seguisse por ali.
Exatamente, foi um pouquinho isso que eu senti.
Um escritor que cria personagens, isso acontece em qualquer lugar.
Havia dias que eu quase via a selva, em vez de ver uma estrada, via uma selva à minha frente.
Há uns meses fiquei curioso com a obra que venceu a última edição do prémio literário Revelação Agustina Bessa Luís. Contactei com o autor pelo Instagram para ter acesso ao livro, e o livro ainda não existia, porque era um prémio Revelação que exigia ser, claro, um manuscrito inédito. E agora aí está, “Na tua mão”, editado pela Gradiva, uma obra impressionante que me comoveu e perturbou ao mesmo tempo. O editor e crítico britânico Scott Pack descreveu-a como uma obra emocionante e dilacerante de uma grande voz na ficção internacional, uma grande nova voz na ficção internacional. O autor é Hélder Teixeira Aguiar, médico de família na sua terra natal, São João da Madeira, onde integra a equipa de cuidados paliativos. Todo este trabalho pô-lo em contacto direto com situações de fragilidade humana, elemento que viria a ser determinante na sua aproximação à escrita. “Na tua mão” centra-se na história de dois irmãos menores que são forçados a abandonar a Venezuela após o desaparecimento da mãe jornalista. A narrativa acompanha uma fuga que rapidamente se transforma numa travessia de sobrevivência, galgando fronteiras físicas e emocionais até à selva de Darién, conhecida pela Selva do Demónio ou da Morte, uma das rotas migratórias mais perigosas do mundo, entre a Colômbia e Panamá. Um livro que nos impressiona, que nos comove, que nos abana, que nos muda. Olá, Hélder Teixeira Aguiar, bem-hajam por ter aceitado este meu convite e acima de tudo, bem-haja, porque vieste diretamente de São João da Madeira para conversar conosco aqui. Isto é um grande sinal de respeito que eu acarinho muito e agradeço desde já.
Olá, João Paulo. Agradeço o teu convite.
É um grande prazer estar aqui a falar contigo. Tu nasceste em São João da Madeira, és sanjoanense e do teu pai também já tens a escrita nos teus genes. O teu pai era oficial do exército e já era escritor, escrevia sob pseudónimo.
Exato.
Sempre ligado às letras e a mãe professora também.
Enveredou por uma carreira no exército um pouco por ter sido arrastado. Ele era uma pessoa humilde, que vinha de um contexto muito desfavorecido. Depois ele foi para a guerra do Ultramar e o exército acabou por ser uma oportunidade de vida para ele, e fez carreira. Mas ele sempre quis um curso na área das Letras. Inicialmente, queria advocacia, depois acabou mais tarde por tirar Sociologia. Já foi com 50 e muitos anos que ele tirou o curso de Sociologia. E paralelamente começou a escrever. Já tinha começado a escrever na guerra do Ultramar, embora seja um tema que ele não goste muito de falar, mas ele começou a escrever e já publicou vários livros.
Sempre sob pseudónimo.
Sob pseudónimo, Mário de Sinura. E realmente ele sempre foi uma influência para mim, desde os tempos de criança, porque o escritório dele estava sempre recheado de livros.
É isso que eu ia perguntar. Tinhas muitos livros em casa também?
Muitos livros. Para já, a minha mãe oferecia-me livros.
Era professora primária, a mãe?
Exatamente.
O teu pai é que é filho do avô Silvério?
Não, é a minha mãe.
A mãe, que era filha do avô Silvério Teixeira, que era um operário fabril e barbeiro. É extraordinário! Já a geração dos seus pais, muito ligados aos livros e à leitura. A mãe oferecia livros. Isso é tão importante.
O meu avô também era de origem muito humilde, operário fabril, mas ele tinha aquele gosto de querer que as suas duas filhas estudassem e tirassem curso e tivessem mais oportunidades.
Que foi a mãe Elísia e a tua tia.
Exato, Graça. E ele realmente esforçou-se. Ele trabalhava de sol a sol para dar um futuro. Para dar este futuro às filhas.
O fato da tua mulher Liliana ser médica também e de GNR quer dizer o quê? Ela é militar?
É militar.
Ou é médica na GNR?
Que eu tenho que ter muito respeito em casa.
Estás ali tudo na linha, tudo a marchar.
Exato. Não, ela é uma mulher extraordinária e eu tenho muita sorte em tê-la ao meu lado.
A mulher e os filhos maravilhosos, a Bárbara e o Tiago. Já vamos falar dela, porque ela depois ajudou também na escrita com isso. Aliás, há uma relação engraçada com a tua filha, porque vocês os dois partilham uma espécie de uma aventura cultural e literária, não é?
Sim, no livro há esta aventura literária e acenaste um bocadinho também da minha herança com a minha própria mãe. Não havia deliberadamente, tão diretamente uma aventura literária.
Mas tu já assumiste isso e formalizaste isso com a Bárbara.
Mas formalizei isso com a Bárbara. Já li imensos livros com ela, é uma atividade que fazemos de noite, antes de dormir.
Primeiro sai o conto e tu lês para ela?
Inicialmente, era um conto, mas depois evoluiu. Ela tem uma grande maturidade e depois comecei a ver que aquelas histórias…
Tem 13 anos?
Tem 13. Isto começou cedo, já na altura da escola primária. E ela, de repente, queria coisas mais avançadas. Ela também via-me a escrever e ela começou a querer histórias mais avançadas. Então eu comecei a testar um bocadinho, a ler até livros um bocadinho mais para além da idade dela. E reparei que isso era bom. Ler com ela até coisas mais avançadas fazia-nos refletir sobre elas, fazia-me explicar. E ela a raciocinar sobre isso e até se abria em relação a certos assuntos que na escola não.
É muito curioso isso que tu dizes, porque eu já vi entrevistas tuas em que tu és um grande apologista da leitura e de facilitar a leitura e pôr os mais novos a ler. Tu dizes: como os anglo-saxónicos têm os young adults, têm toda esta série de livros que são muito bons e que vão muito para esse público. Cá temos menos. Começa a haver agora, mas menos. Mas tu dizes: “Deves ter cuidado com isso, sugerir coisas próprias das idades deles, que não sejam também muito chatas, porque senão, como tu dizes, é um trauma literário, que eles apanham e depois já não querem pegar em coisas mais complicadas”. Mas se forem guiados pelos pais, que é o teu caso, aí tudo bem.
Sim. Há esta dicotomia. Por um lado, temos que oferecer livros aos jovens para ler. Por outro lado, torná-los obrigatórios tem aquele lado reverso. Os jovens: “Ah, isto é obrigatório, vai ser chato”. Já coloca aquele trauma à partida, mesmo que até seja um livro bom. Mas realmente, se formos olhar para trás retrospectivamente, se calhar alguns dos livros que nós sugerimos aos jovens, que fazem parte do Plano Nacional de Leitura e que são excelentes livros, mas quando são sugeridos às vezes em idades precoces, podem realmente gerar experiências traumáticas.
Ter o efeito perverso.
Tem o efeito perverso, porque o jovem não percebe. E isto aconteceu com amigos meus, que tiveram uma experiência tão traumatizante, afastam-se da literatura.
Que é uma coisa tão essencial.
E eu acho que realmente os anglo-saxões são mais organizados nisso, eles respeitam mais a vontade dos jovens. E os nórdicos também, que é onde se lê mais na Escandinávia.
Muito curioso fazeres isso com ela. Aliás, a Bárbara, tua filha, 13 anos, mas ajudou-te porque os protagonistas do teu livro são dois miúdos, um que tem 11, outro tem 16 anos, e por ser gamer, também ajudou nessa linguagem mais voltada para ela.
A certo ponto, ela começou a sentar-se ao meu lado. Eu costumo mais escrever à noite, tenho aquela paz, aquele silêncio. E ela começou a sentar-se ao meu lado depois do jantar e a ver-me a escrever e a certo ponto ela pediu para eu começar a ler com ela o meu próprio livro E depois ela começou a querer também intervir: “Nós não dizemos tanto isto, dizemos mais isto”. Então ela começou a ajudar-me e ela foi realmente uma influência pra eu polir a voz, sobretudo do rapaz mais novo.
Do Gonzo. Sim, Gonçalo.
Portanto, há muitas linhas de diálogo dele que vêm dela.
Eu tinha esta pergunta pra ti: como é que tu lhe consegues poupá-la? E se ela estava a acompanhar-te nessa escrita, a ouvir, como é que conseguiste poupá-la a algumas descrições que a mim me fizeram muita impressão e me assustaram. Tu consegues perturbar a esse ponto, Hélder, a tua escrita. Tem cenas ali que se passam naquela selva com os cartéis e com aqueles abusos, que é tremendo. Como é que conseguiste poupar tua filha de não ler essas partes?
O que aconteceu foi que só lemos até certo ponto. Lemos até cerca de metade do livro.
Eu percebi isso.
Até a entrada na selva.
Faz lembrar “O Exorcista”, que a própria protagonista nunca foi marcadas com o espelho à frente e não viu, não foi à estreia, porque tinha 14, 15 ou 18 anos, a Linda Blair, e não a deixaram ver.
É uma boa análise.
“Vai traumatizar esta miúda”. É engraçado, só muito mais tarde é que ela viu o filme. É giro. O apego à medicina, então, esta paixão, tu dizes, desde pequeno cantava aos trabulhões, que a minha mãe já sabia. Eu dizia à minha mãe: “Quero ser médico”. Muito bem. Portanto, és aqueles convidados que não faz sentido perguntar: se não fosse escritor, o que é que tu eras? Porque tu és médico. É outra vida inteira.
São duas realidades quase opostas. Há uma simbiose entre as duas.
Claro que há.
Por um lado, ambas envolvem esse respeito do cuidar e do ter atenção ao outro, de escutar o outro, da empatia.
É tão importante a relação com o cliente.
Há essa área em comum, realmente. Portanto, se calhar é isso que me move nas duas.
Medicina narrativa, que se fala hoje em dia.
Medicina narrativa, exatamente, que nos ajuda e que ajuda também a falar com o doente e tudo mais. Mas depois também há áreas de antagonismo. Porque, por um lado, a medicina tem que ser concreta, temos que chegar a um diagnóstico, temos que fazer um plano que seja objetivo. E essa concretude às vezes também me abala um bocadinho, porque eu sou um bocadinho imaginativo. Sou muito imaginativo e sou apaixonado.
És muito literário.
É, sou um bocadinho literário. Sou até bastante.
Mas é bom.
Isso foi sobretudo na pandemia.
É um bom complemento, não é?
Foi.
A escrita nesse aspecto é uma boa catarse, é um bom escape.
Eu precisava realmente desse escapismo.
Que literatura é mais imaginativa, é mais onírica. E a medicina tem que ser mais concreta, é mais aferida do momento. Mas é engraçado, porque a segunda profissão, depois do jornalista, é a segunda profissão que dá mais escritores: a medicina. E depois tu falas no Miguel Torga, no António Lobo Antunes, no Júlio Dantas, Júlio Dinis, Michael Crichton, no Somerset Maugham, Robin Cook, Conan Doyle, tantos médicos que foram escritores e de renome, como tu já és. Hélder, pra mim já és, de renome.
Obrigado.
Completamente. E é-me interessante que eras um miúdo sensível também. Tu tinhas esta inquietação humanitária desde pequeno, via aqueles telejornais, aquelas pessoas e aquela: “Menino, come, que há gente a morrer à fome em…” Tu a ver tua mãe ali e a dizer: “Há miúdos a morrer à fome no Biafra”, ou onde fosse.
Mas isso foi algo que sempre me inquietou. Quer dizer, o telejornal às vezes era muito gráfico.
São filmes de terror, às vezes, claro.
São filmes de terror. E em criança eu via, estava mesmo em frente à televisão.
Tu és filho único, é completamente isso.
E que a minha mãe que me ligava a televisão. Eu via o telejornal, os miúdos em África, magérrimos, e as guerras, e eu às vezes pensava: “Por que é que eu estou aqui? Por que é que eu não sou como eles?”
Síndrome do impostor.
Eu sempre me apercebi um bocadinho desta sorte de privilégio.
É verdade.
E também, se calhar, um bocado ser filho único, de não ter nada pra fazer. Pelo menos foi essa a minha experiência. Eu gostava muito de me pôr no lugar dos outros.
Isso também ajudou a coisa, a querer escrever e descrever essa complexidade humana, como tu dizes, e o sofrimento, trazer isso pra literatura. Mas tu fazes isso tão bem, Hélder. Os cuidados paliativos também é uma coisa muito dura, onde tu também estás e dás formação também nessa área. Como é que tu te defendes? Também teve a ver com a pandemia, a esta altura em que foi muito complicado. Como é que tu te defendes das pessoas que passam por ti, que sabes que vão morrer daí a uma semana ou uns dias?
Nós somos treinados pra isso. Somos treinados para ter empatia e ao mesmo tempo termos defesas para não nos deixarmos afetar pelo sofrimento das pessoas.
Pois, tu levas isso pra casa com isso.
Sim. Eu tento centrar-me, sobretudo, naquilo que eu posso fazer de bem pras pessoas, na diferença que eu posso fazer pra elas, porque muitas vezes tenho pessoas que me chegam à consulta de cuidados paliativos, que têm dor, que têm sintomas descontrolados, e depois vejo na consulta seguinte, com a nossa intervenção, que realmente as pessoas modificam muito a sua qualidade de vida. Já tive casos de pessoas que vieram de cadeira de rodas e por passarem a ter dor controlada, na consulta seguinte já vieram a andar. E eu até ficava surpreendido, porque até eu não pensei que isso pudesse acontecer, esse salto. Quer dizer, naquele espaço, e às vezes podem ser semanas, podem ser meses, às vezes temos casos que até as pessoas conseguem durar anos, apesar de terem doenças avançadas. Elas realmente melhoram muito a qualidade de vida e eu centro-me nisso. Mas apesar de tudo, não consigo evitar totalmente o impacto em mim. E na pandemia eu senti isso.
Tu és sensível, nada a fazer.
Sim, na pandemia eu senti isso. Houve ali um momento em que eu quase quebrei.
Foi desesperante.
E eu não sabia por quê, mas realmente foi, se calhar, o acumular de todas estas consultas emocionais, que nós achamos que não nos afeta, mas há ali um momento, e se calhar foi aí também que eu comecei a escrever um bocadinho mais.
Foi, durante a pandemia. Começaste logo a investigar pra este livro. Este livro viste uma reportagem, não foi? Digamos que o ponto de partida foi esta reportagem que tu viste desta jornalista canadiana, esta Nadia Drost. Aliás, que venceu o Pulitzer, sobre o Estreito de Darién. Esta gargalo, afunilamento geográfico ali, entre a Colômbia e o Panamá, onde centenas de milhares de pessoas de todo o planeta confluem todos os anos.
Confluíram. Era mais de meio milhão de pessoas.
Era impressionante. Sete ou oito milhões nos últimos sete anos. É um número tremendo.
E se formos apregoitar à maioria das pessoas, ninguém sabia o que era Darién.
Eu não sabia. E é o único sítio do mundo, não o único sítio do mundo, é o único sítio onde a Panamericana, aquela autoestrada que liga o Alasca à Patagônia, aliás, onde tiveste um aluno meu extraordinário, que bateu Patagônia ao Peru. Extraordinário! Fiz esta viagem, deve ser lindo, mochilão pela América do Sul. Mas aliás, é o único sítio dessa Panamericana que se interrompe, não se atravessa aquela selva.
Há ali uma selva, a selva de Darién, que é uma selva muito virgem, é realmente uma selva inexplorável. Até no tempo dos descobrimentos e da colonização, eles tentaram colonizar aquela selva, mas não conseguiram.
Sem sucesso.
Por culpa, entre aspas, graças aos nativos que lá viviam.
Estes Emberás.
Sim, na altura não eram os Emberá, eram os Kuna.
Ok.
Mas os Kuna depois migraram pra outras zonas e vieram depois os Emberá e os Wounaan, que atualmente lá residem.
Passam no teu livro, um deles.
Que também estão presentes no meu livro, exatamente.
Aliás, tiveste que usar um dicionário Emberá-espanhol-português pra te documentar como deve ser, como é que eles falariam. Muito giro isso. Também é outra valência, o teu livro tem muitas valências, Hélder, é muito rico.
É que aquilo era uma coisa realmente multicultural.
Exatamente. Tem essa parte.
Foi também uma coisa que me fascinou. Pra além disso tudo que referes, de ser realmente um território de passagem, mais de meio milhão de pessoas todos os anos.
Incrível!
Fascinou-me também esse contato cultural, porque parecia quase que o hemisfério sul estava todo a despejar-se ali pra aquele gargalo, entre a América do Sul e a América Central. E depois ainda havia os nativos.
Locais, que estavam a ser invadidos por aquela maré humana.
Que pontualmente interagem com estes migrantes. Aliás, até uma das cidades, Barro Chiquito Pertence a eles. E eles fizeram uma indústria, entre aspas, para ajudar os migrantes, porque eles começaram a ajudar alguns e depois resolveram que podiam fazer com os outros.
É uma travessia da selva do Diabo. E é tudo: é lama, é as condições. Há imensos filmes online, tu viste imensos TikToks, interagir em tempo real, em WhatsApp com pessoas que estavam a atravessar aquilo. Os cartéis de droga que se aproveitam daquelas pessoas, roubam-lhes tudo, abusam, fazem o que querem. Os mosquitos, tu falas disso en passant, mas eu já vi quando foi a construção do Canal do Panamá, que não é muito longe, morreram dezenas de pessoas com as picadas, todas as doenças e os paludismos e coisas que por ali grassam. Os animais, a nível de natureza e a nível humano, é do pior que pode acontecer.
Sim, é um território-
Um quinto são crianças sozinhas a atravessar, as mães com as crianças às costas ou ao colo. É muito duro aquilo, é muito complicado.
Era uma violência extrema. Tens os perigos naturais, como referes, e ainda pior, os perigos humanos. Havia toda uma indústria. Por um lado, há um cartel. Havia muitas rotas indo lá. E havia rotas controladas por cartéis que, por um lado, protegem os migrantes até certo ponto, porque os migrantes pagam-lhes para lhes fornecer proteção.
Para ficar no comando, claro.
Mas até certo ponto.
Depois há outros rivais.
E depois já há os outros rivais.
Que os assaltam, roubam-lhes tudo.
Roubam-lhes tudo.
Abusam, fazem o que querem.
Havia toda uma indústria ali montada também para saquear os migrantes, que já eram desgraçados que iam ali parar.
Vulneráveis.
Havia até tendas lá montadas que praticavam violência sexual aos migrantes de forma sistemática, grupos inteiros.
Médicos Sem Fronteiras tinham relatórios que falavam nisso, três por hora.
Exatamente.
Havia o número, três abusos sexuais.
É inacreditável, era uma violência inacreditável.
Pelo preço de uma maçã, matavam uma pessoa. Tu contas isso, falas disso muito naquilo.
Aquilo era realmente um território de ninguém, onde se sentem sem lei.
Os ganeses ou da África Subsaariana, se contactam com um deles e depois o que lhes acontece, por nada.
Por nada.
Pela violência.
Pela violência.
É impressionante. Retomaram sempre muitas imagens, além desta reportagem da Nadia Drezdek, que é da PBS, também estes artigos científicos, relatórios oficiais, ONGs da ONU, da UNICEF, os Médicos Sem Fronteiras, os vídeos da travessia em tempo real, os vídeos do TikTok. É, de facto, uma pesquisa que tu fizeste para esta travessia, que foi extraordinária. Ainda aparte, como médico, onde tu dizes que é muito importante o lugar do silêncio nesta relação do médico-paciente. Ouviste muitas histórias, muitas. Isso também te influenciou muito, deu-te muito material, não deu? Do que vais ouvindo. Também conheces Venezuela antes e conheces pessoas que passaram.
Bastante material. A certo ponto, tive dificuldade em selecionar os que iam aparecer na história. E, por outro lado, eu também não queria ser demasiado gráfico.
Pois.
Eu queria honrar a experiência daquelas pessoas.
Para que não se perdesse, para ficar o registo. Hoje já não está tão mal como estava, ouvi dizer hoje, depois de todos estes golpes de Estado e estas coisas.
Estou referente à situação atualmente.
Mas a história não pode apagar aquilo.
Aquelas pessoas eram invisíveis. Quem de nós é que conhecia Daria? Aquela é só uma das várias rotas migratórias do mundo, mas era considerada uma das piores.
E tu tiveste, como disseste, sem ser demasiado gráfico, disseste essa palavra agora, e de facto é uma coisa que eu te louvo, Hélder, e não é fácil. Conseguiste não ser, és gráfico que bem, sem ser a deselegante de contar o óbvio que seria as violações dos miúdos com os adultos que os apanham e que querem fazer tudo e fazem, e portanto, é sabido que fazem. Mas não trouxeste isso para o teu livro. Sei que se calhar vendia mais ou era mais chocante, mas disseste: “Não, eu posso contar essa história violenta” e conseguiste dar a volta e ser elegante a contar uma coisa duríssima como tu contas. Isso é um grande mérito, Hélder.
Eu quis que, por um lado, a emoção irrompesse dos factos.
Sim, da verdade.
Da verdade. E que o leitor interpretasse depois como quisesse. E, por outro lado, eu como autor também me apego muito aos personagens e para mim seria muito complicado. Para mim, eles não podem sair da minha cabeça. Eles falavam comigo de noite.
Acordavam-te.
Pronto, é quase uma esquizofrenia.
Tu vais escrever isto, que não foi exatamente assim.
Foi sobretudo o Gonzo que falava comigo. Era quase uma esquizofrenia.
O José Aguiar de fertava-se a viço, era acordado de noite pelos personagens que queriam que a história seguisse por ali.
Exatamente. Foi um bocadinho isso que eu senti.
Um escritor que cria personagens, isso acontece, é vulgar.
Havia dias que eu quase via a selva, em vez de ver uma estrada, via uma selva à minha frente.
Muito bem. Hélder Teixeira Aguiar, temos que fazer aqui um brevíssimo intervalo e já voltamos à conversa. Até já. Estamos a conversar com Hélder Teixeira Aguiar, ele é médico, formador e autor do romance “Na Tua Mão”, obra vencedora da 18ª edição do Prêmio Literário Revelação Agustina Bessa Luís, sobre a saga de dois irmãos menores em fuga da Venezuela, através de uma das rotas migratórias mais perigosas do mundo. É muito curioso que tu dizes que houve uma fase da tua vida, na formação, onde sentiste que tinhas que escolher entre a medicina e a literatura. Mas percebeste um dia que não se opunham
Sim.
Mas houve ali um período.
Eu sempre adorei a ciência.
Eras bom aluno, eras em física, matemática.
Sempre fui bom aluno, em física, matemática, tudo que era ciências. Se calhar um bocadinho derivado, lá está, ser filho único também tinha essa desvantagem.
Então estavas sempre a levar.
Sempre a levar.
A mãe da GNR também não ajuda. Pai militar.
Exatamente, pai militar, mas a minha mãe era a militar lá de casa. Se eu não tirasse boas notas, eu quase era desterrado ou ia para um colégio privado ou do militar.
Um internato.
Um internato, exatamente. Mas eu em criança abria muitos atlas, enciclopédias e lia. Sobretudo, eu gostava muito de geografia, de abrir atlas e ver também o mundo natural.
Aquela série de documentários.
Aquela série de documentários. E se calhar também transpus isso um bocadinho para o Gonzo na história. O Gonzo era um bocadinho eu na minha infância, digamos assim.
É verdade.
E isso também levou-me a apaixonar muito pela ciência. Depois mais tarde também via uma série que é os “Fileiros Secretos”, o “X-Files”.
Fantástico.
Eu admirava a Scully, porque ela era o contraponto do Mulder, ela era a cientista, ela estava sempre ali a objetivar tudo. “Mas isto não pode ser assim, deve haver uma explicação”. E eu realmente ficava fascinado com isso. Por um lado, gostava muito da ciência e queria saber mais. Também queria saber mais respostas a perguntas. Gostava muito do universo, da biologia, da física, da química. Gostava um bocadinho de tudo, digamos assim. Mas, por outro lado, também tinha a escrita.
Tinhas essa atração da leitura e da escrita. É engraçado, ser médico influencia a escrita e o escreveres influencia a tua parte de ser médico?
Eu acho que sim.
As duas coisas?
Acho que sim. É como eu disse, as duas áreas têm a tal interligação. E muitas das experiências que eu tive enquanto médico, a cuidar dos meus doentes e a ouvir as histórias deles e a perceber a dolência. No fundo, são as entrelinhas da nossa atividade como médico. Muitas vezes os doentes partilham aquilo que sentem de uma forma que não traduz exatamente o problema que eles têm. Nós temos de saber interpretar.
Temos que estar atentos aos sinais da dolência. As próprias palavras nem sempre refletem a verdade.
São as entrelinhas.
Mesmo que inconscientemente. É extraordinário isso.
É extraordinário.
Cabe ao médico, como tu disse, são palavras tuas, decodificar o que é dito e para tal devemos estar muito atentos à narração. Tu és tão bom. São as duas valências que de facto influenciam essa empatia na relação médico-doente, essa medicina narrativa que falámos, com o silêncio, que tu disse também. Isso é muito giro. O médico normalmente está muito focado nos ecrãs hoje em dia e tu dizes: como é que seria se eu escrevesse tudo no papel e não diretamente no ecrã? Será que a escrita seria diferente? É um problema engraçado.
É uma questão que me coloco. Eu não sei se seria exatamente igual. Realmente eu escrevo no computador. Habituei-me a isso. Hoje em dia, acho que toda a gente faz isso.
Mas é curioso isso.
É.
Será que o resultado seria diferente?
Eu não sei se seria melhor, se seria pior, mas se calhar seria diferente, porque provavelmente o punho doeria-me bastante mais.
Exato. Sem limite. Daqui uns anos, ó guitarro romance.
Até porque a minha pega do lápis e da caneta não evoluiu para a pega final.
Mas de facto, como médico de família, sabes também, o médico tem que cumprir aquelas metas, tem que ver os 30 doentes naquela tarde e por isso, dois terços é olhar para o ecrã, de facto.
É.
E tu sentes isso também, não é? É o mal do ofício. Mas eu noto isso. Não estão atentos ao que estou a olhar. Deviam estar, se calhar, a ver um bocadinho mais tempo.
No meu centro de saúde, na USC onde eu trabalho, temos consultas de 15 em 15 minutos.
É impressionante.
As programadas. E temos que gerir muito bem o tempo. Por vezes há manhãs em que eu não tenho tempo sequer para sair para tomar um café. Porque aquilo está sempre para eu conseguir cumprir o tempo. Por vezes acontece de falta alguém ou as consultas são mais fáceis naquele dia. Às vezes as pessoas vêm mesmo só por um motivo e é fácil resolvê-lo. Outras vezes as pessoas vêm com sintomas físicos que correspondem a uma depressão, então temos que apurar mais e temos que apurar as causas da depressão. E aí uma consulta pode, de repente, demorar 30 minutos. Se essa demora 30, outras têm que compensar essa.
As pessoas vão muito para às vezes passar à sala de espera e conviver e contactar com as outras amigas. Um dos meus irmãos, que é médico de família também, que dizia uma vez que o entrevistaram na televisão por causa da solidão, que é uma coisa que aflige muitas pessoas hoje em dia, obviamente. E ele contou essa história de uma senhora que estava lá e ele que a encontrou na sala de espera quando entrou. “Ó dona Ermina, já não a vejo há 15 dias”. E ela: “Pois não, senhor doutor, estive doente”. Quer dizer, não foi à sala de espera conversar com as amigas porque tinha estado doente. É extraordinário. Eu não vou perguntar como é que tu concilias os dois mundos da literatura e da medicina. Vou perguntar como é que tu concilias os três, como marido e como pai de família. Como é que consegues conciliar? Que é todo um mundo. Tu és ótimo pai, ótimo marido. Pelo que eu vou ouvindo, eu vi as fotos na Feira do Livro agarrado aos teus filhos. E de facto, não deve ser fácil conciliar estes três mundos.
São extraordinários. O Tiago e a Bárbara são extraordinários e não é por serem meus filhos, mas realmente são pessoas extraordinárias e a minha esposa também. Sem eles eu não teria chegado aqui, certamente.
Muito bem.
E é difícil conciliar e muitas vezes eu retiro horas ao sono para conseguir escrever.
Às vezes encontra-te no escritório e escreves, vai ter conteúdo estás.
Eu já me habituei a dormir menos, mas às vezes compenso no fim de semana ou nas férias. Mas muitas vezes é, porque aquele silêncio da noite é muito inspirador para mim.
Exatamente, eu percebo isso. “Na tua mão”, então, edição Gradiva, publicada, por coincidência, no Dia Mundial do Médico de Família, dia 19 de maio. Olha, foi fantástico. Muito bem, vencedor então desta 18ª edição do Prémio Literário Revelação Agostinho Bessa-Luís, que nos deu, por exemplo, o primeiro romance da Raquel Ochoa, da Catarina Gomes, também já passou por aqui, que eu tanto gosto, e a querida Dulce de Sousa Gonçalves, com o processo que passou por aqui em 10 de fevereiro.
Uma excelente pessoa.
Recebeste então aquele telefone do Guilherme de Oliveira Martins a dizer: “És tu o vencedor”. Não, deve ser engano, não sou eu. Não estavas mesmo à espera.
Não estava à espera. Eu estava a sair do banho e num domingo recebo uma chamada de um número que eu não conhecia.
Sim, claro. Não conhecia.
O número da professora Guilherme de Oliveira Martins. E eu achei muito estranho. Comecei a pensar: “Publicidade num domingo à noite? Não deve ser. O que poderá ser?” Realmente, ouvi depois aquela voz distintiva.
Sim, desse lado.
E fiquei totalmente abalado.
A tua mulher ficou mais eufórica do que tu.
Ficou mais eufórica. Eu nem sequer soube responder a idade que eu tinha. Eles perguntam a idade e eu errei. É para ver o nível que isto chegou.
Exatamente como estavas. Muito bem. Há quatro anos, em 2022, o Elder Silva e o David Araújo vieram cá por causa dessas histórias, de contar a história da Venezuela. E ele depois lançou o teu livro com a tua professora de português. Aqui fazemos homenagem também à professora Cristina Marques, que tiveste a delicadeza de a convidar para o lançamento do livro. E que foi tua professora de português, que como tu disseste, ela te impulsionou muito a escrever, foi sempre uma professora extraordinária. Gosto sempre de fazer estas homenagens aos professores. E aqui fica ela, a Cristina Marques. É extraordinário que te influenciou e te ajudou. E dizia: “Agora lança o livro, ela pode me chumar à vontade. Agora já pode.” Eu adorei essa. Muito bem. É uma história incrível de aventura, de aprendizagem, de superação desses dois irmãos. A mãe é jornalista, a mãe desaparece, ela é contra o regime. Eles fogem de Caracas para a Colômbia, tentam escapar à perseguição dos cartéis de droga, das regiões conturbadas da Venezuela, da Colômbia, e depois partem para o Panamá. E é nessa travessia que de facto tudo isto acontece. É muito complicado. Tens aqui um prefácio também muito comovente deste Slavko Supsic, este psiquiatra e escritor venezuelano, que diz maravilhas de ti. Ele mora em Madrid.
Em Valência.
Também não tinhas esperança. Em Valência. Não tinhas esperança também que ele aceitasse fazer o prefácio. Ele adorou.
Sim.
Escreveu um prefácio lindo.
Eu estava aterrorizado, sinceramente, quando o convidei.
Convidaste.
Quando o convidei, eu senti que ele era a pessoa.
Ele conhece aquilo, conhece pessoas de lá, que passaram aquilo. Eram pessoas de casa.
Exatamente. E eu senti que ele era a pessoa certa. Porque ele ainda por cima era filho de imigrantes, não de Portugal, mas croatas. Ou seja, ele era uma pessoa que se podia relacionar muito com a história.
Identificava-se.
Identificava-se. Para além dele conhecer a realidade, ele vai muitas vezes ainda à Venezuela e conhece pessoas que passaram dali. Eu estava completamente aterrorizado com o veredicto dele. Ou é isto ou nada. Mas ele realmente respondeu-me e ficamos amigos até hoje.
Exatamente o que eu disse, é comovente e perturbador. Completamente. É incrível a amizade dele e como ele também consegue tocar-lhe. Isso prova também o teu mérito, não é só a simpatia dele. De facto, a única foto do livro é aquela tableta do triunfo não te faz crescer, é o fracasso que te faz grande, que existe lá mesmo.
Existe lá mesmo. Foi uma fotografia, uma das muitas que me tocaram. E essa placa acaba por ser muito marcante no livro. Simboliza ali o momento. Eles passam duas vezes por essa placa.
Ok.
E na segunda vez eles interpretam de forma diferente, por causa de tudo que viveram.
O triunfo é o que não te faz crescer, é o fracasso que te faz grande. É muito querido, muito giro. Tem uma capa extraordinária. Aqui fica esta homenagem ao Aidil Vasco, se não me engano, da Gradiva, que fez o design. É muito bonito e é muito dura também a própria capa. É incrível esta imagem. Um livro pesado, um romance que não foge à realidade, como tu dizes, onde a violência humana é maior que a dos elementos. É incrível. A Venezuela, a gente sabe, esteve a passar este período complicado do Chávez, depois com o Nicolás Maduro, e desde 3 de janeiro ele foi raptado pelos americanos e agora enfrenta este julgamento por narcotráfico. Fartou-se de matar estudantes e afundar aquilo. Tiveram uma inflação de um milhão por cento, que é uma coisa que a gente não faz ideia.
Inacreditável.
Viviam em clima de guerra, a economia de um país de guerra e não estava em guerra. Tal a pobreza que atingiram, tu falas disso.
Havia até uma expressão: a dieta de Maduro. As pessoas comiam uma vez por dia, a maioria das pessoas. 74% das pessoas perderam peso.
Hoje em dia é complicado, também não se sabe o desfecho que vai ter. As pessoas estão divididas um bocadinho.
Está muito conturbado o clima político lá, ninguém sabe muito bem o que vai dar. Vive muita incerteza.
De qualquer modo, aqui está uma história, fala um bocadinho do país, fala bastante sobre o país e muito dura esta travessia das pessoas que saíram nos últimos oito anos, quase oito milhões de pessoas que fugiram dali. Estiveste três anos a investigar e a escrever este livro, o tópico principal da migração e na qual te questionas muito: por que isto? Será que isto continua a acontecer? Passamos todos por isto, por que isto acontece sempre? É uma coisa que te incomodou sempre.
Sim. Isto começou por ser uma história de travessia contada por dois jovens. Interessou-me colocar dois jovens também.
Isso é muito inédito também. Os protagonistas têm 11 e 16.
Exatamente. Foi um olhar diferente.
É muito diferente, é muito original.
Porque, por um lado, era honrar também a travessia, porque realmente aquilo era uma travessia de jovens, basicamente.
Tu diz, um quinto dos que passam são miúdos.
Alguns dos quais desacompanhados, como disseste.
Sozinhos.
E mesmo os crescidos, os maiores de idade, eram pais destas crianças. Eram pessoas de 18 a 25 anos.
Sim, impressionante.
É impressionante. Eu tinha que honrar a travessia dando voz realmente aos jovens. E realmente, uma coisa que me abalou um bocadinho e que inspirou também a capa que referiste, foi este olhar adulto das crianças e dos jovens. Quando eram entrevistados, eles eram muito profícuos e muito elegantes.
Maduros.
Maduros.
Tinham que amadurecer.
Tinham que amadurecer muito. E isso inspirou-me realmente a enveredar por este caminho de contar a história através de uma criança e de um jovem.
Muito original.
Em que o jovem vai ter que se transformar no adulto para cuidar do irmão mais novo, contra a vontade dele.
É pai e mãe daquele irmão
O Gonzo também vai querer ter uma palavra a dizer, porque ele também tem outras qualidades e eles contrariam-se um ao outro.
É muito curioso isso. Nunca foste a Darian, e são 100 km de uma selva muito hostil, como já falamos. Mas Darian é também uma personagem, e não é fraca, é uma personagem muito forte. Eu achei inacreditável quando acabei de ler o livro e vi que tu nunca lá tinhas posto os pés. Achei inacreditável como é que tu consegues descrever aquilo, não conhecendo na vida real. Mas informaste-te muito bem, hoje em dia consegue-se. De facto, investigaste muito as rotas migratórias, que foram mudando. Até tiveste um botânico que te ajudou com a flora local. É extraordinário.
Que se chama Timo, e que inspirou também o nome de um dos personagens da história.
Foste contido nesta descrição. Tiveste o apoio também da tua filha Bárbara e da tua família.
Tive muitas mãos que se estenderam para mim.
Viveste e sonhaste com estas personagens, que de facto entram nos sonhos. Eu estou a ver o Gonzo acordar-te e dizer: “Olá, vai reescrever isto que não foi bem assim.”
Houve pelo menos duas vezes que isso aconteceu.
É extraordinário. É que estás mesmo imbuído dessa personagem.
É como falámos. Eu desde criança que sempre gostei de me pôr no lugar dos outros. Esta história, no fundo, veio ter comigo quando eu li essa reportagem da Nadia Drozd e depois em verdade pude ler outras e ver imagens.
Foste investigar mais.
Investiguei mais. E eu senti que havia ali uma história por contar, sobretudo, estas pessoas não tinham uma voz e eu senti esse apelo.
Essa missão.
Essa missão, quase, de contar uma história através destas pessoas.
Não deixar esquecer, não cair no olvido. Exatamente, muito importante.
Mas isso foi uma coisa que também me abalou um bocadinho: será que eu tenho esse direito, de contar esta história, não tendo passado lá? E por isso eu batalhei muito contra esse sentimento e procurei alicerçar-me com opiniões de pessoas que viveram aquilo. Até integrei um grupo de migrantes, falei com imensas pessoas de lá.
Até tiveste utentes, com certeza. Há uma diáspora também venezuelana cá.
Exatamente.
Tens utentes que foram lá com certeza.
Sim, e depois também falei com venezuelanos.
Essa tua experiência foi importante.
Utentes meus e também tenho amigos que também estiveram lá na Venezuela. Eu falei com muitas pessoas que me ajudaram. Tive muitas mãos que se estenderam para mim.
Custou-te no fim despedir? Tiveste que fazer um luto do Gonzo e do Ruben.
É verdade. Os personagens estavam realmente muito entranhados em mim, sobretudo os irmãos, mas também a Maribel, o Juanito, o Timo, o Mateo. Mas claro, os irmãos, sendo os personagens principais, estavam muito entranhados em mim.
Tiveste que fazer esse luto. Acabou, agora já estão entregues.
O Gustave Flaubert até dizia que os personagens assombravam, ou era ele que assombrava os personagens.
“Beauvais, c’est moi!”
Exatamente.
“Sou eu, eu estou aqui.”
Exatamente. E aqui senti um bocadinho isso. Para mim, eles são praticamente reais.
Viveste isto. Até quase ao fim, tu não tinhas ideia como é que ias arrematar isto.
Não.
As coisas foram-se desenvolvendo.
Eu sou um bocadinho caótico no meu processo.
É tão bom.
Tinha uma certa ideia, mas faltava-me aquele rasgo para ter a certeza que aquilo era o final certo, que honrasse todos estes personagens. E foi só a meio da história que ele me surgiu. Foi também numa noite e eu tive que escrever no telemóvel, no bloco de notas do telemóvel.
Para te esqueceres.
Para não me esquecer. Porque às vezes já me aconteceu ter epifanias e depois não gravo naquele momento e perco-as. Mas às vezes recupero, às vezes tenho ideias ainda melhores. Mas é importante eu registar tudo aquilo que eu penso, porque senão depois corro o risco de perder. Mas foi ali a meio da história que eu tive essa epifania do final. Até aí eu estava um bocadinho abalado.
Não é fácil. Às vezes um final pode estragar um livro.
Pode estragar o livro.
Tu fizeste muito bem. Tu tiveste uma sorte e uma inspiração, um jeito extraordinário. Já sei que sentiste a pressão do segundo livro. Não, porque já estás com o outro nas mãos. Este acabou de sair, já estás a escrever outro.
Todos dizem que o segundo livro eleva mais a dificuldade.
Sim, claro, é uma pressão.
É uma pressão. Mas por acaso, enquanto escrevia este, eu tive uma ideia para um segundo livro.
Ok, uma segunda história.
E fui escrevendo paralelamente.
Ah, ok. Numa outra pasta?
Não sei como é que eu consegui, mas tenho outra pasta e fui escrevendo. Foi já depois de eu ter terminado este, mas já estava em processo de revisões. Já tinha terminado.
Está bem.
E foi aí que comecei a escrever o outro. E realmente, neste momento, ele está numa fase final.
Boa!
É. Agora estou a sentir-
Também tem protagonistas jovens, isso eu sei.
Sim.
Mas é uma circunstância completamente diferente, também sei. E agora estás na fase em que já estás quase a arrematar o segundo, é isso?
Sim. Agora estou a sentir a pressão para o terceiro.
Incrível. Então provavelmente para o Natal já teremos este segundo? Ou ainda é cedo?
Mas pelo menos dois livros acho que vou conseguir publicar.
Tu gostavas de um dia dedicar-te só à escrita um dia. Tu és médico, vais ser médico sempre, tu és um bom médico, Hélder. E os comentários que eu vou ouvindo, tu és muito bom, não podes deixar as duas carreiras. Vais aguentar as duas, enquanto puderes.
Eu vou tentar aguentar as duas. Claro que, sendo escritor, se eu conseguir ter mais sucesso enquanto escritor, por isso pode competir um bocadinho com a minha profissão enquanto médico. Por exemplo, o António Lobo Antunes acabou por depois-
Dedicar-se a isso exclusivo
…dedicar-se quase exclusivo à escrita. Mas ele acho que até uma fase muito avançada, ele conservava sempre um dia para a medicina. Eu acho que tenho essa ideia.
Ter esse pé.
Ter esse pezinho, sim.
Manter esse pé, exato.
Se calhar eu também irei precisar sempre disso, mesmo que isso me aconteça.
E tu dizes também que é importante o elogio que tu fazes do SNS e que é pena não ser tão atrativo, os jovens procuram lá fora Ou privado, que dê melhores condições. É pena não ser. Vocês lutam um pouquinho com essa falta de atração.
É.
O que é pena, porque tendencialmente deve ser gratuito e universal, e orgulha Portugal. Eu acho que é motivo de orgulho mesmo lá fora.
Sim. Os nossos profissionais são muito bem considerados no Reino Unido, nos países nórdicos.
E antigamente todos os grandes mestres passavam pelo público. Era típico.
Sim. Temos tido uma boa escola nas universidades portuguesas, em termos de medicina. Claro que se começarmos a abarrotar as faculdades de alunos, isso vai se perder um pouquinho, porque em vez de termos uma turma de prática com seis ou sete, vamos ter de 15 ou 16, que serão menos oportunidades para experimentar, para colocar a mão no estetoscópio, para ouvir o professor.
Para pôr a mão no dorriente.
Exatamente. Vai ser mais complicado. Mas realmente temos tido uma boa escola, em termos de medicina, que acho que se está a perder um bocadinho, porque está a tornar-se cada vez menos atrativo. E temos formado muitos médicos. Não acho que haja uma falta de formação de médicos, pelo menos se compararmos com os outros países da Europa.
Há muita oferta, então.
Em termos de produção de médicos, estamos ao nível dos outros países ou até mais. O que se passa é que muitos emigram, porque obtêm melhores condições lá fora.
Hoje em dia, cada vez mais. Basta ir para Espanha. Espanha já é outra coisa diferente.
É outra coisa diferente.
É logo aqui ao lado.
E é muito fácil ir para o Reino Unido, para a França, para os países nórdicos. Há muitos concursos e nós estamos muito bem considerados. Eles aceitam muito.
Sim, gostam.
Gostam muito dos nossos profissionais.
Será que a ideia será um romance por ano? Hélder diz que sim.
Eu gostava.
Mas nada, força-te por isso.
Mas vou esforçar-me por isso.
Como dizem outros. Está na tua mão.
Mas lá está, é preciso ter boas ideias.
Está na tua mão.
Pois está.
É preciso ter boas ideias. E para já, tiveste já três boas ideias. Isso ninguém te tira. Estou à espera, pelo menos, dos teus romances, que eu quero muito que tu voltes. Hélder Teixeira Aguiar.
Obrigado, João.
Quero agradecer muito teres vindo aqui de propósito conversar conosco, partilhar esta tua maravilha que é este teu talento, mas também a tua simpatia, o bom pai que tu és, o bom médico que tu és, o bom marido que tu és, bom filho que tu és. E de facto, isso transparece na tua escrita, na tua voz, na tua maneira de ser. Isso é uma grande alegria, uma grande honra estarmos aqui.
Obrigado, João. Eu adorei esta conversa e saio daqui de coração cheio e agradeço muito a minha vinda aqui e por ser mais um dos cromos da tua grande caderneta de pessoas que vieram aqui e que tiveram entrevistas extraordinárias.
Fantástico.
Obrigado por ser mais um.
E pronto, ficamos à espera, então. Já sabe, esta sugestão, “Na tua mão”, é da Gradiva. Hélder Teixeira Aguiar, Prémio Literário Revelação Agustina Bessa Luís. Não percam. Leiam muito, insistam. É sempre bom ler isto. Um livro muito comovente, muito perturbador ao mesmo tempo, muito duro. É sempre bom estar a par das coisas que acontecem e está na mão dele, de facto, a maravilha com que ele nos contou esta história tão dura, tão difícil, de uma maneira tão elegante e tão bem escrita. Bem-hajas, muitos parabéns, Hélder. Até sempre. Muito obrigado.
Obrigado, até sempre.

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