CIÊNCIA

Seleção da bola: banhos de futebol e de realidade


Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
“Ideias Feitas”. “Ideias Feitas” na Rádio Observador, com Alberto Gonçalves. Olá, Alberto, bem-vindo.
Olá, Ricardo, boa tarde.
E hoje queres falar de uma ida a banhos?
Banhos de um certo gênero, de um certo tipo. Mas olha, para despacharmos já, salvo seja, o elefante na sala, primeiro vou dizer que vou falar de futebol, não é uma coisa muito habitual aqui no “Ideias Feitas”, e depois vou falar para já do Cristiano Ronaldo, duas ou três coisas, e sobretudo vou dizer, pelo que eu percebo, e isto de perceber de futebol também não é uma coisa assim tão complexa, é mais uma questão de apreciação. Acho que o Cristiano Ronaldo já foi, sem dúvida, um grande jogador nos seus tempos áureos. Não sei se está no top cinco, 10, 30 ou 100 da história do futebol. Acho que essas classificações não fazem grande sentido. Mas foi um grande jogador e agora com 41 anos já não é tão bom jogador, porque é normal que as pessoas de 41 anos sejam menos boas a praticar desporto do que eram aos 25. Isso acontece a todos. Mesmo assim, do que eu vi, e já vi os três jogos da seleção no Mundial, nem me perguntem por quê, mas do que eu vi, o Cristiano Ronaldo não me parece nada inferior aos outros jogadores da seleção portuguesa, que julgo eu, é óbvio que muitos deles estão no seu presumível apogeu físico. São pessoas, na maioria, de 20 e tal anos. E realmente não parecem nada superiores ao Cristiano Ronaldo neste momento exato. Mas o responsável que se atribui pelas exibições de Portugal tem sido, para muita gente, o Cristiano Ronaldo. As exibições são, de facto, miseráveis. Aquilo é uma coisa que tem uma certa graça de ver por ser tão mau, mas acho que o culpado não é só aquele que já foi realmente um grande jogador e que já não é assim um jogador por ela. Agora, também não acho que faça grande sentido culpar o treinador, não conheço o historial do homem de lado nenhum, não sei avaliar, portanto. Mas acho que uma equipa com jogadores excelentes joga bem, independentemente do treinador. Exemplos não faltam na história dos mundiais de seleções que ganharam a jogar muito bem ou que perderam a jogar muito bem, o que é mais ou menos a mesma coisa e que ninguém sabia quem era o treinador. Agora, claro que é mais fácil responsabilizar o treinador, que ainda por cima é espanhol, ao responsabilizar o Cristiano Ronaldo, porque há muita gente que, não sei por quê, gosta de futebol, mas detesta o Cristiano Ronaldo. Estou a falar de portugueses. E o mais difícil seria reconhecer uma eventual evidência e admitir uma hipótese que me parece sinceramente muito provável, é que se calhar os jogadores portugueses não são tão bons quanto as televisões gostam de apregoar e os adeptos portugueses gostam de acreditar. Eu não faço ideia das proezas extraordinárias, com certeza, que eles cometem lá nos campeonatos onde jogam, sei lá, Inglaterra, França, nas Arábias. Agora, o que sei é do que vi neste mundial e com exceção do guarda-redes, que me pareceu competente, pelo menos não fez nada de especialmente comprometedor, e salvou até a equipa de ser goleada pela Colômbia. Agora, os restantes craques, os restantes génios da seleção, aqueles cérebros todos, aquelas sumidades, do que eu vi, não jogam nada de especial. E não jogam nada especial porque têm limitações, com certeza. Pode ser que estejam todos muito cansados, é uma hipótese, não sei. Mas não me parece uma hipótese tão provável. Agora, a seleção joga assim porque não é grande coisa, não por causa do Cristiano Ronaldo ou por causa do treinador, é porque é o que é. E alguns daqueles jogadores até me parecem jogar francamente mal, embora tenham todos penteados espetaculares e tatuagens dignas de registo. Agora, de qualquer modo, entre eles e com o Cristiano Ronaldo em baixa, não há nenhum que entusiasme ninguém, por muito que os comentadores se esforcem por convencer o espectador incauto de que aqueles moços são artistas da bola, são uns fenómenos. Eu, se não me engano, e é aqui que eu queria chegar com este introito todo, acho que estamos perante mais um caso típico de deslumbramento, que depois se desmorona num instante quando é posto à prova. Isto acontece no futebol e acontece no calha. Para consumo interno, somos, como diria o senhor primeiro-ministro e outros políticos especialistas em demagogia, somos os melhores dos melhores. E em tudo. Temos o melhor clima, as melhores praias, a melhor gastronomia, o melhor vinho, os melhores escritores, os melhores arquitetos, os melhores contabilistas e um longo etc, até chegarmos, claro, aos melhores futebolistas. O pior é quando a conversa fiada se confronta com a realidade e se verifica que não é por exaltarmos a mediania ou a mediocridade, que a mediania deixa de ser mediana e a mediocridade deixa de ser medíocre. Por acaso, e apesar da excitação permanente dos comentadores, eu até acho o futebol atual, não só o português, em geral, acho muito fraquinho e acho aborrecido, acho demasiado físico e não interessa agora. Mas mesmo neste contexto, o futebol da seleção portuguesa é ainda pior. E isso eu acho que até poderia acabar por ser positivo, porque como o mundial de futebol acaba por ser, e não é só este, tem sido quase sempre, é uma excelente oportunidade para percebermos que aquilo que gostaríamos de ser raramente ou nunca corresponde ao que de fato somos. Eu acho que também devia haver campeonatos no mundo em que competissem de forma muito quantificável a comida, as praias, os doces, os romancistas, os contabilistas e o calhaço, para que sofrêssemos desilusão atrás desilusão. Os portugueses, ao contrário do que normalmente é dito, precisam de desilusões para ver se aprendem a descer à Terra. Pelos vistos, ainda não tivemos as desilusões suficientes. E no caso do futebol e dos mundiais, estamos sempre a anunciar recorrentes gerações de ouro que vão aos mundiais, como se diz, jogar como nunca e perder como sempre. E depois, as pessoas ficam meio embasbacadas, pelo menos desconsoladas, algumas mesmo deprimidas, mas na realidade ainda não aprendemos nada. A não ser que sejam precisos mais 25 mundiais ou coisa do gênero para os portugueses perceberem que esta coisa dos melhores dos melhores é uma coisa que se diz, mas não é uma coisa que necessariamente seja verdade.
Até amanhã, Alberto.
Até amanhã, Ricardo.
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Rádio Observador, são 6h07

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