CIÊNCIA

A China não precisa de invadir Taiwan

A segunda administração Trump nunca escondeu a hostilidade para com os aliados que herdou. Ameaçou anexar a Gronelândia, pôs em causa a permanência na NATO, exigiu que os europeus carregassem o peso da defesa do continente e converteu décadas de compromissos atlânticos numa relação que mede tudo pela utilidade imediata. Esse desprezo costuma ser lido à luz de dois registos sobrepostos, o ideológico e o estratégico. O segundo antecede largamente Trump, atravessando as administrações desde Obama, e liga-se à convicção de que o poder militar americano estava mal distribuído, ancorado na Europa e no Médio Oriente, quando o eixo do século se deslocava para a Ásia. A nomeação de Elbridge Colby para subsecretário de Defesa foi recebida como sinal inequívoco dessa reorientação, e batia certo com a retórica do próprio Trump, para quem a China (pelo gosto pessoal que mostra ao pronunciar a palavra) sempre foi um tema central. Mas os eventos dos últimos meses complicam essa leitura, e complicam-na no teatro onde menos se esperaria. Tem sido a propósito de Taiwan que a Casa Branca se tem mostrado mais hesitante do que a imagem que cultivou deixaria supor, abrindo a Xi Jinping uma margem que há muito procurava para se aproximar do seu objetivo mais antigo sem ter de recorrer à força.
Desde que Chiang Kai-shek e o Kuomintang (KMT) perderam a guerra civil em 1949 e se refugiaram em Taiwan, a China (entenda-se República Popular da China) nunca abandonou o objetivo da reunificação. O plano de conquista rápida foi abandonado em 1950 por Mao apenas porque a eclosão da guerra da Coreia levou Truman a destacar a Sétima Frota para o Estreito de Taiwan. Mais tarde, quando Eisenhower assinou em 1955 com Taipei um pacto de defesa, uma reconquista e subsequente reunificação imediata com a ilha ficou, pelo menos no curto prazo, fora do alcance de Pequim. O grande objetivo chinês de reunificação foi-se mantendo assim uma miragem menos por fraqueza chinesa do que por força da dissuasão americana, refinada a partir de 1979 numa ambiguidade estratégica que evitava apoiar a independência taiwanesa ao mesmo tempo que preservava os laços com a ilha e a cooperação na sua defesa. Foi durante anos essa ambiguidade que tornou uma invasão chinesa pouco apetecível, porque uma operação militar arriscava trazer os Estados Unidos para o conflito e expor as importações energéticas chinesas, 80% das quais atravessam o Estreito de Malaca, a um bloqueio capaz de asfixiar a economia do país.É essa garantia que Xi parece empenhado em dissolver, e a guerra com o Irão terá oferecido a primeira abertura. A campanha americana no Golfo obrigou os Estados Unidos a deslocar defesas aéreas e meios navais da Coreia, do Japão, de Guam e de Taiwan para o Médio Oriente, deixando a presença americana na Ásia mais frágil do que em qualquer momento recente. Ao mesmo tempo, o consumo significativo de Patriots e de Tomahawks durante as operações no Irão, munições de que o próprio Japão tinha encomendas avultadas, atrasou entregas a aliados asiáticos cuja segurança a administração americana apresentava como uma prioridade.A cimeira de Pequim, em maio, apenas veio piorar este quadro. Trump deu-se por satisfeito com as promessas chinesas de encomendas de aviões Boeing e de estabilidade comercial, mostrando-se pouco preocupado com o rasto de ambiguidade que deixou para trás e que Pequim aproveitou. Trump, no seguimento da cimeira, sugeriu que o Presidente de Taiwan Lai Ching-te queria independência e arriscava arrastar os Estados Unidos para uma guerra a quinze mil quilómetros de casa, replicando, intencionalmente ou não, formulações típicas do estado chinês em relação à política interna de Taiwan. Ademais, congelou um pacote de armamento no valor de catorze mil milhões de dólares, sob o pretexto de o usar como moeda de troca em futuras negociações, e referiu ter discutido com Xi, segundo o próprio Trump “ao detalhe”, vendas de armas americanas a Taipei. Estas discussões representam um claro afastamento da posição histórica americana que remontava a Reagan, segundo a qual Washington não falava desse assunto com Pequim.
As razões por detrás desta inflexão, vinda de uma administração apresentada como hawkish perante a China, são pouco claras. É possível que Trump se tenha deixado marcar pela guerra de tarifas que ele próprio desencadeou em abril do ano passado, quando as tarifas chinesas sobre bens americanos chegaram aos 147,6% e as americanas aos 145%. Com a inflação e o preço do petróleo de novo em alta a poucos meses das eleições intercalares, o Presidente americano não quererá arriscar outra escalada que suba ainda mais os preços. Nesta perspetiva, uma retórica mais suave de Trump quanto ao Sudeste Asiático poderá constituir uma contrapartida cómoda por melhores termos comerciais em negociações com Pequim. Mas, qualquer que seja a explicação, o sentido último do volte-face permanece pouco nítido, e, neste ponto, o contraste com Xi é tanto maior quanto os objetivos do líder chinês são claros. Pequim mantém a reunificação como meta histórica, e Xi terá fixado 2027 como horizonte para que as forças armadas chinesas estejam prontas a tomar Taiwan ( ainda que 2049, centenário da República Popular, seja uma data mais plausível). Mas Xi, não obstante as preparações militares, parece ter retirado do atoleiro russo na Ucrânia e da campanha americana no Irão a mesma lição: a de que o aventureirismo militar sai caro mesmo contra um adversário menor e mais fraco, e de que a paciência será a aposta mais segura.O que Xi parece querer, em vez da invasão, é a redefinição daquilo que conta como normal na relação de Washington com Taipei. Levar Trump a hesitar, a consultar Pequim, a repetir vocabulário chinês sobre a ilha, vale sobretudo pelo precedente que instala, o de que os Estados Unidos passaram a tratar as suas próprias garantias como matéria negociável. Cada um desses episódios tende a adensar a dúvida, já semeada pelo ceticismo geral da administração em relação aos aliados, de que Taiwan possa no limite ser entregue à China, o que poderá levar muitos em Taiwan a concluir que não lhes resta senão procurar um entendimento nos termos de Pequim. Que o pacote de armamento congelado acabe por avançar é, deste ponto de vista, quase secundário, porque o atraso terá rendido o que dele se esperava, que era menos travar a entrega de armas concretas do que afirmar o princípio de que Washington consultará Pequim sobre vendas futuras e semear a desconfiança que mina a vontade taiwanesa de se defender. E vendo Trump disposto a renegociar elementos da política americana com décadas, Xi tem todas as razões para pressionar mais, não apenas quanto a Taiwan, podendo procurar que Washington degrade a cooperação de segurança com a Austrália ou as Filipinas, ou aliciar Trump a pedir à primeira-ministra japonesa Sanae Takaichi que suavize a sua recente retórica beligerante e se abstenha de intervir em assuntos que envolvam Taiwan.Esta estratégia diplomática vem acompanhada de uma audácia material crescente. A 23 de junho, o Fujian, o mais avançado porta-aviões chinês, atravessou o Estreito de Taiwan no dia seguinte ao início de um exercício taiwanês de cinco dias destinado a ensaiar a resposta a um ataque, e Pequim classificou a operação de treino de rotina prometendo repeti-la. E é essa banalização do gesto que mais conta. Parte de uma campanha de pressão em múltiplas camadas que combina poder naval e aéreo, guarda costeira, porta-aviões para testar as respostas de Taipei em vários domínios, campanha essa que se intensifica precisamente  no momento em que o compromisso americano parece mais frágil.E há sinais de que o esforço vai surtindo efeito. Uma sondagem da Brookings indica que apenas 24% dos eleitores taiwaneses veem os Estados Unidos como aliado de confiança, e que mesmo entre os eleitores do Partido Democrático Progressista (DPP), o eleitorado, em teoria, mais favorável a Washington, menos de metade partilham essa confiança, com cerca de quarenta por cento a duvidarem de que os Estados Unidos apoiassem a ilha num ataque chinês. Um inquérito do Institute for National Defense and Security Research chegou a conclusões que vão no mesmo sentido, com 51% dos inquiridos a recearem que os interesses de Taiwan sejam sacrificados na reaproximação entre Washington e Pequim e a fatia que acreditava numa proteção militar americana a cair de cerca de 54% em março para 44% em maio.
A erosão tende a alimentar-se a si própria, porque à medida que a confiança na proteção americana se desfaz, os políticos taiwaneses mais céticos resistirão a aumentos no orçamento de defesa, o argumento da acomodação em relação à China ganhará terreno e Pequim parece contar com essa dinâmica para empurrar o KMT numa direção mais abertamente pró-chinesa, esperando que o partido retorne ao poder em 2028. A ascensão de Cheng Li-wun aponta nesse sentido. Eleita líder do partido em 2025, viajou em abril a Nanjing, Xangai e Pequim, tendo-se encontrado com Xi Jinping, tornando-se a primeira líder do KMT a fazê-lo numa década, propondo, em lugar do binómio de dissuasão e diálogo que os seus antecessores defendiam, “arranjos institucionais” com Pequim.Mas a política americana em relação a Taiwan extravasa as fronteiras da ilha, uma vez que a sua posição para com a ilha costuma ser lida como um proxy para a solidez dos compromissos de Washington na Ásia inteira, e a sua diluição arrisca confirmar ao Japão, à Coreia, à Austrália, à Indonésia e às outras potências regionais aquilo que os europeus já concluíram depois da Gronelândia e dos ultimatos sobre a NATO: que a América se tornou explicitamente transacional e disposta a trocar parcerias históricas por ganhos imediatos. Uma resposta provável a essa leitura será a aceleração do processo de rearmamento, principalmente em Tóquio, onde setores do Partido Liberal Democrata japonês, e a própria primeira-ministra Sanae Takaichi, parecem hoje mais dispostos a abandonar os Três Princípios Não-Nucleares de 1967.Por trás de toda esta aritmética de compromissos e dissuasão há uma questão cada vez mais essencial que é a de saber o que move, ou deixa de mover, os Estados Unidos a segurar Taiwan, e a resposta tem-se jogado entre duas ordens de razão que esta administração trata de maneira muito desigual. A primeira é de princípio, e prende-se com o facto de a ilha ter construído, sob a ameaça permanente de um vizinho autoritário muito mais poderoso, uma das democracias mais sólidas da Ásia, provando perante os cidadãos da República Popular da China que uma sociedade onde a maioria é etnicamente han pode prosperar fora do modelo de partido único, razão pela qual a sua absorção por Pequim teria um efeito inibidor sobre quaisquer aspirações democráticas na região. Sucede que esta administração não dá mostras de se comover com argumentos dessa natureza, e é por isso que o caso de Taiwan acaba por se decidir no outro registo, o material, onde as razões para a defender são bem menos abstratas. Aí, a ilha torna-se difícil de dispensar. Taiwan produz a esmagadora maioria dos semicondutores mais avançados do mundo, e essa concentração, sustentada por um ecossistema de centenas de empresas, fez dela o quarto maior parceiro comercial dos Estados Unidos. A geografia vem apenas reforçar o papel fulcral de Taiwan, uma vez que ocupa o centro da primeira cadeia de ilhas que se estende do Japão às Filipinas, e o seu controlo por Pequim daria à China as rotas marítimas de que Tóquio depende para muitas das suas importações, abrindo-lhe o Pacífico de uma forma que tornaria muito mais incerta a defesa dos aliados americanos na região.A questão que emerge deste quadro não será tanto saber se, ou em que medida, os EUA abandonarão, no sentido formal do termo, Taiwan ou os seus aliados na Ásia de forma mais geral. Uma renúncia sem mais seria um passo excessivamente categórico e não parece sequer estar nos planos de Trump. Mas a questão é precisamente que um abandono desta natureza não é necessário para pôr em causa os interesses americanos na região. A fragilidade que Xi parece ter identificado é a de que a credibilidade americana sempre dependeu da perceção de que os seus compromissos são estáveis e previsíveis, de que os Estados Unidos seriam sempre o backstop determinante. Se essa perceção começa a ser posta em causa, a incerteza que daí resultará para os países asiáticos poderá forçá-los a procurar melhores relações, através de concessões, com a China, minando a posição americana na região.
É esta a ironia. A administração americana começou por tratar os aliados europeus como um mero peso morto em nome da concentração de meios na Ásia. Agora, é esse mesmo desprezo pelos compromissos e alianças que exibiu na Europa que a enfraquece no Pacífico, desfazendo-se a viragem asiática pela própria lógica que a justificava. A administração, que se apresentou como a mais intransigente com a China em décadas, arrisca tornar-se aquela que mais aproxima Xi do seu objetivo mais antigo.

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