O filme que a Europa mandou calar
Proibir é catapultar. Sempre foi, e partamos do princípio de que o fruto proibido pode ser, salvo raras vezes, o mais apetecido.Quando a Alemanha e o Reino Unido se recusaram a certificar Citizen Vigilante, o mais recente trabalho de Uwe Boll, não estavam apenas a impedir a distribuição comercial de uma película. Estavam a escrever, sem o perceber, a sua crítica mais eloquente — e a fazê-lo em nome de toda a Europa.
O filme conta a história de Michael Sanders, um americano abastado, ex-militar, radicado na Europa por herança de um pai distante. Quando percebe que o contrato social ocidental foi rescindido unilateralmente — a lei que não protege, a justiça que não pune, as instituições que existem para gerir e não para servir — torna-se num justiceiro vigilante por conta própria. Mata implacavelmente e justifica-se em vídeos anónimos que circulam nas redes com uma velocidade que nenhuma autoridade consegue travar. A sua retórica é directa, crua e pouco complacente:“O Estado, os tribunais, a polícia. Pensas que te falharam — mas não é assim. Porque nunca existiram para te dar justiça. Existem apenas para te controlar. Mas eu estou aqui para te ajudar a recuperar esse controlo.”É uma frase que a Europa democrática devia ser capaz de rebater sem dificuldade; mas o facto de não conseguir fazê-lo, deixa no ar algumas dúvidas sobre o estado actual das suas instituições.
O público real, não o das salas de imprensa, mas o que compra bilhetes e paga subscrições; deu-lhe noventa e cinco por cento no Rotten Tomatoes enquanto os críticos especializados lhe ofereceram zero. Este abismo merece mais do que uma nota de rodapé. A distância entre este mundo e o mundo de quem, realmente, consome cultura torna-se tão vasta, que o fenómeno deixa de ser apenas estético e converte-se, sobretudo, num fenómeno sociológico.Boll inspirou-se num caso real. Em Hamburgo, no ano 2016, uma rapariga de catorze anos terá sido violada em grupo por jovens migrantes. Os agressores saíram com penas suspensas e o juiz invocou dificuldades de integração como circunstância atenuante. Este caso existiu, está nos arquivos e pode ser verificado. Retratar este caso num filme poderá ser considerado incitamento ao ódio?Não devemos absolver o filme das suas simplificações. É tecnicamente irregular, narrativamente maniqueísta e claramente limitado a nível orçamento. Não obstante, é-nos também legítimo recusar a simplificação inversa. É pouco justo fingir que perguntas como a anterior não existem. Não devem ser ignoradas só porque o modo como foram feitas é polémico e inconveniente.Ao tentar cancelar este pasquim cinematográfico, a Europa garantiu que o mundo inteiro o visse. Elon Musk publicou-o gratuitamente para duzentos milhões de seguidores e o seu possível banimento viralizou na maior campanha de marketing possível.
E aqui reside o paradoxo mais perfeito de toda esta história: a Europa que construiu o seu mito moderno sobre a ideia de que as ideias perigosas se combatem com mais ideias e nunca com o silêncio; decidiu que a melhor resposta a um filme sobre o fracasso institucional era, precisamente, a tibieza institucional.Citizen Vigilante não é um grande filme, mas é um filme do seu tempo. E a Europa, essa velha senhora que confunde amnésia com sabedoria, preferiu virar o espelho contra a parede. Como faz sempre, aliás, quando o reflexo do seu suicídio a envergonha.
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