É possível tratar sem cirurgia um cancro digestivo
Há poucos anos, a ideia de tratar alguns cancros do tubo digestivo sem cirurgia parecia improvável. Hoje, essa possibilidade é uma realidade para um número crescente de doentes.
Os avanços da endoscopia terapêutica permitiram desenvolver procedimentos cada vez mais precisos e menos invasivos, capazes de tratar determinadas lesões precoces do esófago, estômago, cólon e reto, preservando os órgãos e evitando, em casos selecionados, cirurgias mais extensas.Tudo começa com o diagnóstico precoce. Quando um cancro é identificado numa fase inicial, ainda limitado às camadas mais superficiais da parede do tubo digestivo, pode ser possível removê-lo através de procedimentos endoscópicos realizados pelos canais naturais do organismo, sem incisões externas.Muitas pessoas continuam a associar a endoscopia e a colonoscopia apenas ao diagnóstico de doenças. No entanto, a realidade atual é bastante diferente, considerando que, nos dias de hoje, a endoscopia não serve apenas para identificar lesões; permite também tratá-las.
Técnicas como a chamada “dissecção endoscópica da submucosa” – com a remoção por endoscopia de lesões ou tumores superficiais do tubo digestivo – e a “resseção endoscópica transmural”, com a remoção por endoscopia de lesões mais profundas que atingem toda a espessura da parede do órgão, representam alguns dos avanços mais importantes desta área. Estes procedimentos permitem remover determinadas lesões com grande precisão, preservando a anatomia e a função dos órgãos sempre que tal é clinicamente adequado.Na prática clínica, muitos doentes ficam surpreendidos quando lhes explicamos que determinadas lesões podem ser removidas sem cirurgia convencional e sem necessidade de retirar parte do órgão afetado. Em casos cuidadosamente selecionados, é possível alcançar resultados muito favoráveis através de abordagens significativamente menos invasivas.Na minha opinião, um dos maiores avanços da gastroenterologia moderna não é apenas conseguirmos tratar mais doentes, mas fazê-lo de forma menos agressiva, reduzindo o impacto do tratamento na sua vida. Menos dor, recuperações mais rápidas, internamentos mais curtos e uma melhor preservação da qualidade de vida são benefícios que fazem uma diferença real para os doentes e para as suas famílias.Naturalmente, nem todos os tumores podem ser tratados desta forma, uma vez que existem múltiplos fatores a serem considerados, incluindo a dimensão da lesão, a localização e a profundidade. Por isso, a deteção precoce continua a ser determinante.
Esta é também uma das razões pelas quais os programas de rastreio do cancro colorretal são tão importantes. A realização de colonoscopias, quando recomendadas, pode permitir identificar e remover lesões antes de evoluírem para cancro ou diagnosticar a doença numa fase em que as opções terapêuticas são mais eficazes e menos invasivas.A rápida evolução da endoscopia terapêutica exige igualmente formação contínua e partilha de conhecimento entre profissionais. É neste contexto que decorre, nos dias 3 e 4 de julho, no Hospital CUF Porto, o EndoResect, um encontro científico dedicado às técnicas mais avançadas de resseção endoscópica, reunindo especialistas nacionais e internacionais para discutir os mais recentes progressos nesta área.A mensagem principal é simples: quanto mais cedo identificarmos um cancro digestivo, maior é a probabilidade de o tratar com sucesso e, em alguns casos, através de procedimentos minimamente invasivos que preservam os órgãos e a qualidade de vida dos doentes.
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