Porque se morre tanto de calor no tempo do ar condicionado?
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Sim. Ontem, por exemplo, quando vim pra casa estavam 12 graus de diferença pra Lisboa.
Sim, muito.
Para baixo.
Em pouco espaço.
Em pouco espaço. Enfim, também aqui este cantinho tem outros aspetos, é outro microclima. Mas dito isto, o que nós temos que tentar perceber é até que ponto, havendo mais vagas de calor, olhando para os mapas e para aquilo que é o seu registo, tem ocorrido com bastante frequência. Portanto, vagas de calor são seis dias acima da temperatura média para esses dias. E as vagas de calor têm alguns problemas, como tu referiste, pra saúde, porque, sobretudo se as noites forem muito quentes, que é o aspeto porventura mais complicado, os corpos não arrefecem e, sobretudo em pessoas idosas e populações idosas, e nós em Portugal e na Europa temos uma população idosa muito numerosa e com muito peso na população, causam desequilíbrios.
E de doenças pré-existentes.
O calor, apesar de tudo.
Estão ativos. Lá aí não está tanto calor.
Exatamente. Ora bem, estava a dizer, o calor desequilibra algumas doenças pré-existentes e há sempre registo de mais mortes. Agora, aquilo que de alguma forma surpreende é que nós, na Europa, que não é o continente, de forma nenhuma, mais quente e onde há mais vagas de calor. Nos Estados Unidos há mais vagas de calor, em África, naturalmente, na Índia, por exemplo, mesmo assim, a Europa regista índices de mortalidade elevadíssimos. Estamos a falar que nalguns casos, dezenas de milhares de pessoas em cada verão. Ora bem, aquilo que surpreende é haver na Europa alguma resistência, que não é apenas económica, a económica é mais compreensível, mas haver alguma resistência em instalar ares condicionados. Nos Estados Unidos, 90% das habitações têm ar-condicionado, na Europa, 19%. É uma diferença brutal e mesmo países onde até há menos vagas de calor, como por exemplo o Japão ou a Coreia do Sul, já adotaram o ar-condicionado e na Europa continua a haver um preconceito contra o ar-condicionado. Quer dizer, ainda agora o vice-presidente da Câmara de Paris disse que nós estávamos a ter vagas de calor por causa do ar-condicionado dos americanos ou em Genebra, por exemplo, na Suíça, para se instalar um ar-condicionado é preciso ter receita médica e por aí adiante. Há inúmeras barreiras, além daquilo que são, porventura, as barreiras mais comuns em Portugal, que são barreiras económicas. O ar-condicionado não é a única solução para fazer baixar a temperatura ou pra tornar mais suportável, ou sobretudo, pra aquilo que é importante no caso da saúde, que é fazer baixar a temperatura do corpo. Há comportamentos que nós devemos ter, há formas como devemos tratar casas que não estão muito preparadas. Sabemos que nós temos um problema de pobreza energética na maior parte das habitações. Porventura, no nosso caso de Portugal, nota-se mais no inverno do que no verão, mas mesmo assim, no verão há muitos bairros, sobretudo zonas urbanas, que são verdadeiros fornos e onde é muito difícil resistir ao calor. Portanto, aqui temos problemas que têm a ver com urbanismo, com construção, com transição energética e qual a forma mais racional de olharmos pra um problema que muitas vezes é mal entendido. Nós vamos falar um pouco como é que funciona o ar-condicionado. O ar-condicionado existe desde 1902 e vê-se que foi inventado não pra arrefecer as pessoas, mas para garantir que numa tipografia, a humidade em excesso não dava cabo da impressão, para não tomar as fotografias todas esborratadas. Foi a nossa indústria que permitiu o nascimento do ar-condicionado. Depois expandiu-se a muitos locais, naturalmente. As máquinas de ar-condicionado modernas são máquinas muito eficientes, em termos comparativos, muito mais eficientes do que as máquinas de fazer calor. Conseguem tirar um rendimento muito superior. E isso é porque elas não fazem frio, elas trocam calor. Ou melhor, trocam temperaturas mais altas por temperaturas mais baixas. Entre o espaço interior e o espaço exterior à zona que está com ar-condicionado. Vale a pena perceber um pouco isso e perceber também qual é o preconceito que existe em muitos países da Europa e em muitas autoridades públicas, que torna muito difícil instalar ares condicionados num tempo em que, porventura, ele é a única forma de, pelo menos, fazer diminuir significativamente um número absolutamente anormal de problemas de saúde que redundam em mortes. Em 2003, que foi a última grande vaga de calor, e ainda não foi ultrapassada, mesmo em Portugal, só em França foram 62 mil pessoas. É uma brutalidade, é uma carnificina. Nós não falamos muito disso, porque são mortes anônimas, mas é um problema que tem que ser, de facto, encarado e começa pelo urbanismo, pela arquitetura e pela tecnologia. Falamos depois um pouco disso. Vamos ajudar até quem sabe construir depois das 10.
É isso. Até já, José Manuel. Ligue 910 002 41 85 e dê-nos a sua opinião em direto no Contracorrente, logo a seguir ao jornal das 10. Tem também as nossas redes sociais, o site do Observador e já sabe que pode sempre enviar-nos a sua mensagem de voz por WhatsApp 910 002 41 85.









