Basta desejar que os filhos sejam felizes?
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Boa tarde, bem-vindos à última edição do “Porque Sim Não é Resposta” desta semana, com o psicólogo Eduardo Sá. Eu sou o Bruno Vieira Amaral. Hoje o tema é uma pergunta: mas afinal, o que é que queremos dos filhos? Boa tarde, Eduardo. Esta pergunta dará para muitas respostas, conforme os pais, mas há tendências mais comuns na forma como educamos e aquilo que esperamos dos nossos filhos?
Olá, Bruno. Numa palavra, eu acho que todos queremos que os nossos filhos sejam boas pessoas e bons filhos. Era isso que nós devíamos querer, porque é isso que nos enche de orgulho e nos permite perceber que todo o trabalho árduo que tivemos no sentido de os construirmos acabou por fazer deles pessoas que, de cada vez que nos apercebemos das qualidades que têm, mesmo quando olhamos distraídamente para o que fazem, nos levam a sentimentos de orgulho e nos permitem perceber que se eles eram bonitos quando nasceram, conseguem ser mais bonitos ainda à medida que crescem. E, portanto, numa palavra, sim, boas pessoas e bons filhos.
Eu ouço muitas vezes como resposta, em conversa com outros pais: “Eu quero que os meus filhos sejam felizes”. O que nós valorizamos mais? É essa felicidade futura dos filhos ou é que eles sejam mais parecidos com o que nós desejávamos que eles fossem?
Não, Bruno Vieira Amaral, a questão não é bem essa. As mães são ainda mais minuciosas. Elas dizem: “Eu só quero que eles sejam felizes”. O “só” faz toda a diferença. É normal e é saudável que nós baralhemos aquilo que sonhamos para eles com aquilo que queremos que eles sejam. Claro que sim. Porque quando os sonhamos, queremos sempre que eles sejam uma versão melhorada de tudo aquilo que nós não conseguimos realizar ou dos sonhos que, entretanto, descobrimos que podiam ter sido nossos, que nos fugiram por entre os dedos.
E se ainda existe muito nesta nova geração de pais, essa ideia de que o meu filho vai cumprir as promessas que eu fiz, mas não pude cumprir. Ou promessa que eu era.
Da natureza humana. Aquilo que me preocupa não são os nossos sonhos, é mais o modo como às vezes ficamos assustados quando eles se afastam dos nossos sonhos, como se de repente nós estivéssemos a chegar à conclusão de que se não forem, não digo milimetricamente, mas muito aproximadamente parecidos com aquilo que sonhámos para eles, de repente estivessem a trair os nossos sonhos, quando muitas vezes transcenderem-nos não é traírem-nos. E, portanto, nessas circunstâncias, sim, faz parte da natureza humana, mas depois nós temos também a humildade de perceber que os sonhos mais bonitos não são aqueles que nós sonhamos a dormir, são aqueles que nós sonhamos e construímos a quatro mãos e que nos levam a perceber que muitas vezes a vida nos traz os sonhos que nós ainda não tivemos a capacidade de sonhar. E sim, queremos isso para os nossos filhos, queremos que eles sejam atentos, inteligentes, queremos que eles nos surpreendam com boas notas, que é para depois nós fazermos aquele papel de quem está distraído e diz: “Tenho aqui as notas do meu filho, veja lá, eu até fico preocupado, porque a educadora diz que ele com jeito ainda vai a sobredotado.” Que eu acho uma ternura das maiores, percebe?
Mas os pais ainda põem muita pressão sobre os filhos para que eles se conformem à ideia, àquilo que os pais projetam para eles no futuro?
Eu acho que às vezes ainda põem mais do que punham. Então quando se trata dos povos dos adolescentes terem boas notas a tudo, há adolescentes que gostam de aprender, que foram tendo facilidade nos processos de aprendizagem, às vezes vivem dramas tremendos, porque eles têm os seus sonhos e percebem de uma forma muito atenta os sonhos dos pais para eles. E hoje, como antes, às vezes fazem escolhas quando se trata, por exemplo, de escolherem um curso, que não têm tanto a ver com aquilo que desejam, mas têm mais a ver com o sonho dos pais. Os nossos filhos são de uma bondade tão grande que chegam a fazer isto, comprometer os seus sonhos para, de alguma forma, satisfazerem os pais Ao darem-lhes os sonhos que eles não realizaram. Se isto não é bondade, o que é que é? Mas com isso depois é um drama, porque queriam estudar literatura e foram fazer um curso de farmácia e coisas desse tipo. E como eles são inteligentes, eles são capazes de fazer qualquer curso. Mas sim, às vezes nós não temos toda a humildade que devíamos ter quando percebemos que nem sempre, quando eles não vão bem pela linha do que tínhamos desejado pra eles, eles estão nos a interpelar para nós os conhecermos melhor e pra gostarmos mais deles. Os miúdos são tão fantásticos a esse nível que às vezes quando percebem que os pais colocam pressão sobre eles nas escolas, enfim, são os baldas oficiais de cada família, são aqueles cujos pais dizem: “Este meu filho tem tantas qualidades, mas depois é preguiçoso.” Não é nada preguiçoso. Ele tem a sensação de que por melhor que faça, parece nunca conseguir cumprir todos os sonhos dos pais e, portanto, a cautela criou uma personagem mais ou menos descontraída, o que é preciso é calma, quando com isso tenta, sobretudo, aliviar a pressão que lhe foram trazendo, mesmo que o façam sem darem conta e o façam de forma aparentemente subtil.
Pois, porque os pais têm essa capacidade, ou julgam ter essa capacidade, de pôr pressão, mas ao mesmo tempo de acharem que estão a disfarçar essa pressão com aquela história: “Eu não quero que ele tenha cincos a tudo. Eu quero é que ele seja bom em muitas coisas para que tenha depois mais opções, mais liberdade de escolha.” Mas ao mesmo tempo, lá está a pressão em cima.
“Eu só quero que ele seja muito bom naquilo que faça.”
Exatamente.
Só quem não é pai ou mãe não percebe isso. Eu percebo essa aspiração, mas será que nós somos todos muito bons naquilo que fazemos? Não lhe estamos a pôr fasquias tão grandes que, por mais bondade que essas fasquias possam ter, de repente não lhes estamos a tirar o ar e a fazer com que eles depois, em consequência disso, acabem por ficar numa espécie de epidemia atípica de baixa autoestima? Se calhar estamos.
Muito provavelmente estamos, com a melhor das intenções, como aliás é apanágio dos pais.
Sem dúvida nenhuma.
Eduardo, chegamos ao fim do “Porque Senão É Resposta” de hoje e desta semana também. Pra semana já está de regresso a Judite França com o Eduardo.
Se quiser ficar
Eu volto. Voltaremos a reencontrar-nos um dia destes aqui, é sempre um prazer. E estamos sempre em podcast para os nossos ouvintes, nas plataformas habituais, no site observador.pt. Enviem-nos questões, dúvidas e partilhas através do e-mail eduardosa@observador.pt. Eduardo, uma vez mais, foi um enorme prazer, é sempre, estar consigo aqui. Muito obrigado. Até à próxima. Muito obrigado.
Um grande abraço pra si.
E pronto, Eduardo, está feito. Muito obrigado pela disponibilidade. Assim despachamos a semana inteira. Um grande abraço e voltamos a ver-nos um dia destes.
Até breve.
Um abraço, Eduardo. Obrigado.










