CIÊNCIA

"Imigrantes não vêm comer do 'bolo', aumentam-lhe o tamanho"


O académico italiano reconheceu que muitos imigrantes de países mais pobres podem ter qualificações mas não conseguem, no país de destino, empregos que correspondam a essas qualificações. Mas até isso é algo que, sustenta, contribui para um aumento da produtividade na economia, sobretudo a prazo.
Mesmo em empregos de qualificação média ou baixa “ter uma educação superior é algo que importa para ser mais produtivo. Por exemplo, olhe para a assistência a idosos: um estrangeiro que seja médico ou enfermeiro no seu país terá conhecimentos de saúde que lhe permitem prestar uma assistência melhor do que aquela que pode ser prestada por uma pessoa sem instrução”, afirma Giovanni Peri, ao Observador.A OCDE concluiu, no final do ano passado, que 41% dos imigrantes em Portugal estão sobrequalificados para o trabalho que desempenham. Ou seja, muitos têm licenciaturas ou outras qualificações elevadas, mas acabam a trabalhar em funções como hotelaria, restauração, construção, logística ou serviços pouco qualificados.“Talvez um médico que emigre nunca possa [ver as competências reconhecidas e] ser médico no novo país, mas poderá tornar-se um enfermeiro especializado ou um assistente mais qualificado, o que tenderá a produzir um grande ganho de produtividade ao longo do tempo“, advoga Giovanni Peri.O estudo encomendado pelo BCE para ser debatido no Fórum anual de Sintra sustenta que, embora nem sempre isso corresponda à perceção pública, “o crescimento na imigração, sobretudo vinda de países não pertencentes à OCDE, tem sido, em média, marcado por um equilíbrio entre pessoas com e sem formação superior”. E isso é parte da explicação para que os indicadores de produtividade do trabalho tenham aumentado em períodos de elevada imigração, de acordo com a investigação.
Este benefício para as economias, pode ler-se no documento, “contrasta com a perceção que existe em pessoas que vivem nos países recetores, que muitas vezes descrevem os imigrantes como pessoas com baixas qualificações”. Não faltam, acrescenta-se, “evidências abundantes acerca das perceções erradas dos cidadãos em relação à imigração”.“Estudos mostram que, quando se pergunta às pessoas quantos imigrantes existem no seu país, elas tendem a sobrestimar largamente o seu número. Pensam que 20% ou 30% do país é imigrante, quando na realidade é mais perto de 10% ou 12%. E quando se pergunta sobre a taxa de desemprego entre imigrantes, pensam que a maioria está desempregada, quando, pelo contrário, a maioria trabalha“, afirma Peri, notando que, “quando se pergunta sobre as qualificações, muito poucos dirão que há muitos imigrantes com formação superior; pensam que são pouco qualificados, quando são relativamente instruídos, em média“.Residem em Portugal 11,4 milhões de pessoas, 1,6 milhões são estrangeiras
Aliás, de acordo com os dados, “em mais de 81% das observações, a imigração líquida foi mais qualificada do que a população local”, pode ler-se no estudo. Ao Observador, Giovanni Peri reconhece que esse dado surpreendeu até a equipa de economistas envolvidos no trabalho, por si liderados.“Uma revelação interessante é que o nível de educação destes imigrantes é relativamente alto“, refere o italiano, notando que “a intensidade de licenciados nesta imigração é normalmente superior à dos residentes, e esse é um canal através do qual os imigrantes aumentam o capital humano” e, por isso, o crescimento potencial das economias.

E qual é o impacto nos países de origem?

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O estudo de Giovanni Peri concentra-se no impacto da imigração nos países de destino, mas Fabio Panetta, governador do Banco de Itália que estava na primeira fila do Fórum BCE, questionou o académico sobre os possíveis impactos nos países de origem. Será que o efeito é simétrico e se está, apenas, a “transferir [potencial de] crescimento de uns países para outros?”, perguntou Panetta.
“A abordagem económica tradicional diz-nos que a emigração é muito boa para quem emigra e temos, também, muitas evidências de que é boa para o país de destino”, respondeu o académico italiano. Já para os países de origem, “é comum falar-se da ‘fuga de cérebros’ que, por definição, pode ser negativa”.
Ainda assim, aponta Giovanni Peri, “além da questão das remessas, existem evidências de que se o emigrante não sai do seu país para sempre, se a dada altura regressar, trazendo consigo tecnologia, isso pode ajudar o país de origem”. Mas este estudo não trabalhou sobre essa componente dos fluxos migratórios e respetivo impacto – “isso poderia ser o próximo passo” nesta investigação, aponta.

No estudo, afirma-se que “os imigrantes mais qualificados ajudam mais a produtividade e o investimento, mas os imigrantes com menor instrução não prejudicam a produtividade” e, ao mesmo tempo, “preenchem empregos necessários” num contexto de encolhimento da população.Em Portugal, o INE estima quase um em cada quatro imigrantes residentes em Portugal tem formação superior, uma proporção que já supera ligeiramente a da população portuguesa. De acordo com os dados mais recentes dos Censos do Instituto Nacional de Estatística (INE), 24,24% dos estrangeiros no país têm formação superior, face a 24,09% entre a população residente considerada pelos últimos Censos.
“O efeito agregado é grande: para cada 1% extra da população que é imigrante gera-se, acumulado ao longo de 10 anos, entre 1,5 e 1,9 pontos percentuais de crescimento extra do PIB per capita e, logo, da produtividade”, sustenta Giovanni Peri. Isto é algo que demonstra o potencial da imigração para impulsionar o crescimento económico, particularmente em regiões como a União Europeia, onde o crescimento da população nativa tem sido negativo, defende o economista.O estudo conclui que “os resultados mostram que a produtividade do trabalho nos países recetores cresceu significativamente durante e após períodos de taxas de imigração mais elevadas, ou após choques migratórios e políticas de imigração mais abertas”. Refere-se o caso de Espanha, onde a imigração aumentou em 15 pontos percentuais (na percentagem da população adulta) entre 1990 e 2024 e o crescimento real do PIB per capita de Espanha (acumulado) foi de cerca de 75%. O estudo aponta que “até um terço deste crescimento [económico] pode ser atribuído ao fluxo de imigrantes“.Também o Reino Unido terá, segundo os dados apurados, registado um crescimento total em que um terço pode ser atribuído ao crescimento da imigração, no mesmo período de 35 anos. Em Itália, outra das grandes economias da OCDE estudadas por Giovanni Peri, houve um crescimento de 7,5 pontos percentuais no peso da imigração (no total da população) e o estudo atribui à imigração “um acréscimo de 14,5% de crescimento do PIB per capita, face a um crescimento (total) de 24% no período”, de acordo com o estudo.

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