CIÊNCIA

Maradona, Escobar e um Brasil entre Senna e "Voo da Muamba"

Era o primeiro Campeonato do Mundo com uma Rússia separada da União Soviética, era também o primeiro Mundial com as duas Alemanhas unificadas depois da queda do Muro de Berlim, tornou-se um Mundial para alguns outsiders ganharem o seu lugar na história, com destaque para uma Bulgária com toque nacional de Krassimir Balakov, Emil Kostadinov e Yordanov que era liderada por Hristo Stoichkov e para uma Suécia que conseguiu mostrar que aquele Europeu de 1992 só não foi seu por mero acaso (tão grande como o acaso que estendeu a passadeira a história de encantar da Dinamarca, que foi campeã após substituir a Jugoslávia). No final, aquilo que todos temiam que podia ser um fiasco tornou-se um dos Mundiais mais rentáveis de sempre apesar de ser organizado nos Estados Unidos, país que não tinha uma relação própria com o soccer.

#OnThisDay 1994One of the greatest World Cup goals of all time!
Saeed Al-Owairan of Saudi Arabia scored this solo effort against Belgium at USA ‘94. The goal gave Saudi Arabia a 1-0 win ???????????? pic.twitter.com/L9ZWBOjZMq
— Football Remind ⚽️ (@FootballRemind) June 29, 2026Entre a queda abrupta de um ídolo chamado Diego Maradona, os cinco golos de Oleg Salenko em apenas 60 minutos na goleada da Rússia frente aos Camarões ou a medalha de bronze que ficou para a Suécia depois de uma goleada diante da Bulgária, muita da história passou pelo Brasil. A Itália teve no central Franco Baresi um exemplo de resiliência, sendo sujeito a uma pequena intervenção cirúrgica ao menisco durante a prova para regressar ainda a tempo de jogar (e bem) a final, e no mágico Roberto Baggio um farol para voltar a uma grande decisão – mesmo não estando a 100%, com esse peso extra de ter falhado a grande penalidade que decidiu a final. Ainda assim, tudo passou pela canarinha, que voltou aos títulos 24 anos depois de Pelé.
Era um Mundial com uma enorme carga simbólica para o Brasil, que perdera apenas dois meses antes um dos seus maiores ídolos da história de forma trágica. Milhões de pessoas marcaram presença nas cerimónias fúnebres de Ayrton Senna, falecido no circuito de Ímola a 1 de maio de 1994, e a presença do escrete liderado por Carlos Alberto Parreira nos Estados Unidos era uma oportunidade para voltar a reerguer a cabeça de um povo abalado pela perda de uma lenda. Prometeu, cumpriu. Houve jogos bem mais complicado do que se poderia pensar sobretudo na fase a eliminar, diante de Estados Unidos (1-0), Países Baixos (o melhor jogo do torneio, 3-2) e Suécia (1-0), mas o Brasil conseguiu superar todos os obstáculos a ser coroar uma geração de jogador experientes, batidos e com um coletivo fortíssimo no desempate por grandes penalidades frente à Itália. Romário foi o melhor marcador, Bebeto fez três vezes a celebração do bebé que um dia viria a jogar em Portugal (Mattheus Oliveira), Taffarel, Dunga, Jorginho, Branco, Márcio Santos e Leonardo estiveram também em destaque, cada um à sua maneira, para o quarto título mundial (primeiro sem Pelé).
24 years after their last World Cup victory, Brazil won again in 1994.
Their most exciting game en route to the final was vs. The Netherlands.pic.twitter.com/wfoFRCV1vM
— Retro Football Network (@retrofootballnw) July 3, 2026
Romário sending Brazil to the final of the 1994 World Cup ???????? pic.twitter.com/IF6r1qr8MJ
— 90s Football (@90sfootball) June 24, 2026Tudo acabou em festa depois da vitória no Rose Bowl, em Pasadena, tudo viria a terminar num dos maiores escândalos políticos e institucionais do Brasil na década de 90. Por altura do regresso, e em vez de apenas duas toneladas que tinham ido para os Estados Unidos, a comitiva do Brasil regressou com um total de 17 toneladas de bagagem. Havia de tudo: televisões, consolas, computadores, videocassetes, vários eletrodomésticos (que no caso de alguns jogadores eram cozinhas e salas…), equipamentos comerciais ou máquinas industriais. Ricardo Teixeira, presidente da Confederação Brasileira de Futebol, ameaçou não haver desfile pelas ruas caso a bagagem não fosse libertada. Passou, com alegações de falta de “condições operacionais” para fazer a fiscalização no aeroporto. No entanto, o “Voo da Muamba”, como ficaria depois conhecido, levou a várias demissões, batalhas judiciais e um rombo fiscal de um milhão de dólares.

O “voo da muamba”
Após a conquista do Tetra em 1994, a seleção brasileira retornou ao país em um episódio que ficou conhecido como “voo da muamba”. O apelido surgiu porque o avião voltou dos EUA com um volume de bagagem muito superior ao da ida, resultado das compras feitas… pic.twitter.com/lfpsdrbaH4
— Fotos de Fatos (@FotosDeFatos) May 21, 2026Higuita não conseguiu estar, Valderrama estava, Freddy Rincón e Asprilla também. A Colômbia era uma das seleções que mais interesse motivava no Mundial de 1994 por estar a atravessar aquela que para muitos era uma Geração de Ouro sem precendentes no país (a ponto de Pelé dizer que era “favoritaça” à vitória). O que falhou? Os resultados. Apesar do triunfo no fecho da fase de grupos diante da Suíça, as derrotas iniciais com Roménia e Estados Unidos acabaram por eliminar os sul-americanos. No regresso a casa, no estacionamento de uma discoteca em Medellín, Andrés Escobar, defesa do Atlético Nacional que marcara um autogolo com os anfitriões, envolveu-se numa discussão com os irmãos traficantes de droga Santiago Gallón Henao e Pedro David Gallón Henao. Tinham perdido muito dinheiro em apostas ilegais por aquele lance infeliz. Humberto Muñoz Castro, motorista dos barões da droga, matou ali o jogador com seis disparos, num crime que chocou o mundo e que mergulhou a Colômbia numa reflexão sobre o poder do narcotráfico na sociedade.

2nd of July 1994,Andrés #Escobar was mu*dered days after scoring an accidental own goal vs the USA in #fifaworldcup which led to #Colombia’s elimination K*lled by drug traffickers in Medellin,the gentleman was 27Let’s not forget.. pic.twitter.com/x6Njnp2hsU
— Paul Younes (@PauloYounes) July 2, 2026Depois de ter cumprido uma sanção de 15 meses por consumo de cocaína, Diego Armando Maradona deixou o Nápoles em 1992. Ainda havia muitos clubes interessados, acabou por fazer uma temporada no Sevilha, a seguir regressou à Argentina para representar o Newell’s Old Boys. A cabeça do 10 estava apenas no Mundial de 1994, depois da vitória de 1986 e da final perdida em 1990. A equipa prometia muito, a goleada diante da Grécia aumentou a expetativa, tudo acabou a seguir ao triunfo com a Nigéria: no final da partida, saiu de mão dada com uma responsável da FIFA pelo controlo antidoping e viria a testar novamente positiva a mais uma substância proibida, neste caso efedrina. A Argentina não mais recuperou da saída precoce do seu capitão, caindo nos oitavos com a Roménia, Maradona não mais recuperou da saída precoce daquele que teria de ser o “seu” Mundial. Mais do que um génio, ali acabou o jogador, mesmo acabando apenas em 1997.

Diego Maradona scored a memorable goal against Greece at the 1994 World Cup, celebrating with an intense, wide‑eyed expression that drew global attention. FIFA soon tested him, and he was found to have ephedrine, a banned stimulant. The result led to his immediate expulsion from… pic.twitter.com/U5BkYPyA52
— Then/Now Sport (@xThen_Now) July 2, 2026Havia muita renitência em torno da organização de um Campeonato do Mundo nos EUA, tendo em conta que era um país onde o soccer não era propriamente famoso (e até a era com mais interesse já tinha passado). A FIFA arriscou na mesma, vendo ali uma oportunidade onde muitos adivinhavam uma crise, e a aposta foi mesmo certeira: essa fase final, com 24 equipas em nove cidades, pulverizou por completo os recordes de assistência numa só competição (3.587.538 milhões de espectadores, numa média de 68.991 por encontro) antes do aumento da prova de 24 para 32 equipas quatro anos depois, em França. Dos estádios cheios à parte financeira, correu tudo bem menos… uma parte da cerimónia de abertura: a cantora Diana Ross tinha de correr a certa altura em direção à baliza para marcar um penálti que iria “partir” a baliza mas a tentativa saiu tão mal que, mais de três décadas depois, ainda é recordada como um dos maiores falhanços em Mundiais.

#OnThisDay 1994The USA World Cup opening ceremony took place ????????
It included a shocking penalty attempt from Diana Ross, who got the stuttered run up all wrong ???????? pic.twitter.com/WHMbMzluns
— Football Remind ⚽️ (@FootballRemind) June 17, 2026
17 de junho (fase de grupos): Alemanha-Bolívia, 1-0 e Espanha-Coreia do Sul, 2-2
18 de junho (fase de grupos): EUA-Suíça, 1-1, Colômbia-Roménia, 1-3 e Itália-Rep. Irlanda, 0-0
19 de junho (fase de grupos): Camarões-Suécia, 2-2, Noruega-México, 1-0 e Bélgica-Marrocos, 1-0
20 de junho (fase de grupos): Brasil-Rússia, 2-0 e Países Baixos-Arábia Saudita, 2-1
21 de junho (fase de grupos): Alemanha-Espanha, 1-1, Argentina-Grécia, 4-0 e Nigéria-Bulgária, 3-0
22 de junho (fase de grupos): Roménia-Suíça, 1-4 e EUA-Colômbia, 2-1
23 de junho (fase de grupos): Coreia do Sul-Bolívia, 0-0 e Itália-Noruega, 1-0
24 de junho (fase de grupos): Brasil-Camarões, 3-0, Suécia-Rússia, 3-1 e México-Rep. Irlanda, 2-1
25 de junho (fase de grupos): Argentina-Nigéria, 2-1, Bélgica-Países Baixos, 1-0 e Arábia Saudita-Marrocos, 2-1
26 de junho (fase de grupos): Suíça-Colômbia, 0-2, EUA-Roménia, 0-1 e Bulgária-Grécia, 4-0
27 de junho (fase de grupos): Bolívia-Espanha, 1-3 e Alemanha-Coreia do Sul, 3-2
28 de junho (fase de grupos): Rússia-Camarões, 6-1, Brasil-Suécia, 1-1, Itália-México, 1-1 e Rep. Irlanda-Noruega, 0-0
29 de junho (fase de grupos): Bélgica-Arábia Saudita, 0-1 e Marrocos-Países Baixos, 1-2
30 de junho (fase de grupos): Argentina-Bulgária, 0-2 e Grécia-Nigéria, 0-2
2 de julho (oitavos): Alemanha-Bélgica, 3-2 e Espanha-Suíça, 3-0
3 de julho (oitavos): Arábia Saudita-Suécia, 1-3 e Roménia-Argentina, 3-2
4 de julho (oitavos): Países Baixos-Rep. Irlanda, 2-0 e Brasil-EUA, 1-0
5 de julho (oitavos): Nigéria-Itália, 1-2 a.p. e México-Bulgária, 1-1 e 1-3 g.p.
9 de julho (quartos): Itália-Espanha, 2-1 e Países Baixos-Brasil, 2-3
10 de julho (quartos): Bulgária-Alemanha, 3-2 e Roménia-Suécia, 2-2 e 4-5 g.p.
13 de julho (meias-finais): Bulgária-Itália, 1-2 e Suécia-Brasil, 0-1
16 de julho (3.º/4.º lugares): Suécia-Bulgária, 4-0
17 de julho (final): Brasil-Itália, 0-0 e 3-2 g.p.

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