CIÊNCIA

O guloso Senhor de Matosinhos

Dois anos depois de terem publicado Matosinhos: Arquitectura e Urbanismo em Três Modernidades, organizado por Álvaro Domingues, Ana Catarina Costa e Teresa Cunha Ferreira, e co-editado com a Câmara Municipal de Matosinhos e a Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto (336 pp.), as Edições Afrontamento lançam este Elogio aos Doces na Romaria do Senhor de Matosinhos de Olga Cavaleiro, em parceira com mesmo Município — reforçando, assim, uma atenção poliédrica àquele “lugar terúlico” (p. 21), àquela “paisagem insubmissa” (p. 22) e às suas gentes de um mar “habitualmente violento e bravio” (p. 23) que enfrenta uma barreira protectora de rochedos graníticos, caprichosamente dispostos de modo a proporcionar um verdadeiro porto de abrigo para os muitos pescadores da região e desde sempre. É muito bom que esta bibliografia cresça e se renove com estudos os mais variados, para que as populações locais — e todas as outras, que não sejam autárcicas — se reconheçam, estimem e prosperem, melhorando a participação cívica no lugar em que lhes coube nascer e viver. O país precisa muito do reforço do protagonismo, do carisma e do garbo das cidades médias e pequenas. Uma romaria “com cerca de 800 anos de devoção” (p. 33) merece este livro, plenamente.
A milagrosa lenda romana do topónimo Matosinhos ajudou a fixar o nome português do rio Leça, derivado da alegria latina, assevera Pinho Leal no seu Portugal Antigo e Moderno de boa memória (1875, V, p. 28). Por outro lado, o designativo Amato Sinus — o porto de Amato, filho de Hércules — conferiu àquele porto marítimo e fluvial “a carapaça de espaço sagrado, protegido pelos deuses” romanos (p. 29), algo que a imagem do Cristo Crucificado ao alto de populares e belos ex-votos setecentistas e posteriores consagrou em definitivo (v. pp. 20, 38, 48 e 50). A devoção ao Bom Jesus de Matosinhos teve raízes profundas como protector das famílias dos pescadores do Norte, “e não há casa — escreveu Alves Lima numa revista etnográfica em 1961 — que não possua uma gravura ou retrato da imagem, e pessoa que não lhe tenha feito promessas”. Em 1897 Matosinhos era “o quarto centro pesqueiro do país”, em 1953 alcançaria a posição de “segundo centro conserveiro português” (p. 42), mas não pode ser esquecido o seu papel como porto seguro para a intensa emigração para o Brasil na viragem do século XIX para o XX, e a fé então investida numa jornada bem sucedida. Destaca Joel Cleto que até os armadores do Porto pagavam tributo ao Senhor de Matosinhos, ou Cristo de Bouças, “quando as suas embarcações partiam para longas e perigosas viagens” (2019, p. 108; cit. p. 49). Entre os lavradores não era menor a devoção, pois figuras de bovinos e caprinos em cera eram oferecidas em agradecimento de favores ou milagres atendidos, além de muito azeite para a lâmpada do Bom Jesus, cuja Venerável Figura foi várias vezes levada em procissão solene até à cidade do Porto, nos séculos XVI e XVII. E a geografia do credo alargou-se ainda mais, para a Galiza, por exemplo, mas sobretudo para muito mais longe, com a massiva emigração minhota para o Brasil. “Além do seu epicentro em Congonhas do Campo, no estado de Minas Gerais, muitos outros templos e momentos de devoção ritualizada foram aparecendo por outros locais do Brasil” (p. 52).

Título: Elogio aos Doces na Romaria do Senhor de Matosinhos | Autora: Olga Cavaleiro | Fotografias: Paulo Calisto | Design: Nuno Leal | Editores: Afrontamento e Câmara Municipal de Matosinhos | Páginas: 236, capa duraDa devoção à romaria foi, praticamente, um passo. A romaria do Senhor de Matosinhos foi oficializada a 3 de Maio de 1733. No domingo de Pentecostes, a procissão sai ao meio-dia da igreja do Bom Jesus de Matosinhos, em cujo altar a Sagrada Imagem se encontra, rumo ao Padrão da Areia, na praia do Espinheiro, e volta ao templo no fim da tarde. Durante a Novena do Senhor de Matosinhos, a igreja e os seus sete altares são profusamente decorados com flores e bandas de música tocam repetidamente no adro ou no coreto perto da Casa dos Milagres. “As romarias são o grand-prix [automobilístico] dos simples, o seu luxo, a sua extravagância, a sua loucura, a realização do seu ideal”, escreveu em 1893 o republicano bracarense Emídio de Oliveira. Em 1907, um jornal local reconhece que “as festas, as romarias, as diversões de toda a espécie são uma imperiosa necessidade para o nosso viver” (cit. p. 60). “Romaria é uma palavra alegre da língua portuguesa”, propôs a Gazeta de Matosinhos em maio de 1928. Setenta anos depois, o cronista portuense Helder Pacheco publicou Senhor de Matosinhos: Memória das Farturas, onde se lê: “Romaria sem alguns condimentos não seria festa. Seria outra coisa. Certamente insossa. Provavelmente morna e bem-comportada” (1997, p. 7). Comer, beber e dançar são o profano de braço dado com o religioso ou sagrado. “Nem o papa com as suas excomunhões seria capaz, em dias de feiras e romarias, de arredar o povo da porta dos tascos sem dispender algum dinheiro, tendo-o, em dissipações gastronómicas. É que para ele mais vale um gosto na vida que alguns vinténs na algibeira”, advertiu O Badalo de 21 de Novembro de 1909. Mas não só isso: “as lavradeiras aproveitavam a oportunidade de se mostrarem, no aparato da sua beleza e posses, e conhecer os pretendentes possíveis para uma vida futura. A romaria era também uma forma de firmar contratos sociais” (p. 67), além de um tempo de abundância e prazer alimentar, “o respirar entre os sacrifícios de um ano”, o “esquecer o freio apertado dos dias comuns” (p. 107).
O açúcar domina os doces de romaria, como as fotografias de Paulo Calisto neste livro exorbitam em nos mostrar. Olga Cavaleiro, que lhe chama “o pai dos doces de romaria” (p. 73), dedica à sua genealogia botânica, transmigração global e receituário gastronómico uma dezena e meia de páginas (esquecendo, todavia, a doçaria conventual), antes de se atirar aos “doces cobertos” com calda de açúcar em uso regular no calendário religioso. Rosquilhas, passarinhas e alguns outros, de formas naturais variadas, como cãezinhos e sardões, ou pitorescas até (não há, porém, qualquer foto dos São Gonçalo de Amarante…), consistiam numa massa de farinha de trigo cozida, com sal, em que a cobertura desempenhava uma função decorativa mas também — e não é de somenos — a de conservante natural, facilitando a sua produção artesanal antecipada e em conveniente quantidade. Depois vieram as cavacas ou melindres e belindres, os cacetes ou galhofas, mais os docinhos de Paranhos, com ovos, leite e manteiga, temperados com canela, açafrão e erva-doce, e em especial o biscoito da Teixeira (em Baião), aparentado ao pão de ló, com açúcar louro e acentuado sabor a limão, “ao longo do último século sempre presente nas feiras, romarias e festas populares que aconteciam ao longo do Douro, em ambas as margens” (p. 118).As farturas fritas em azeite ou óleo a ferver, feitas ao momento e comidas quentes, crocantes no exterior e macias no interior, com a cobertura de canela e açúcar, vieram impor-se nos arraiais da primeira metade do século passado, e crê-se que nas festividades de Matosinhos a partir dos anos 1930. Ainda que a fritura de massa seja prática bastante antiga e também na doçaria (durante a quadra natalícia, por exemplo), a sua novidade — levada da feira popular de Lisboa pela família Armando — foi capaz de destronar a grande tradição dos doces de romaria, como principal comércio da festa do Bom Jesus de Matosinhos. Ninguém parece resistir a uma boa fartura acabada de fazer, se a opção for cavacas ou rosquilhos forrados a calda de açúcar cristalizada. Pacheco considera essa preferência parte da vitória do luna-parque que a sociedade de consumo nos impõe, mas parece-me exagerado.Sobram, em todo o caso, as boas memórias de uma dúzia de matosinhenses que Olga Cavaleiro foi e soube escutar e a quem deu voz e rosto, num sortido de depoimentos que encerram este livro de mérito, a que todavia faltou medir bem a “proporção dos condimentos”: a calibragem do papel usado não se harmonizou com o formato e com o acabamento. As Edições Afrontamento, que fizeram em 2023 o mais que prodigioso Porto: Lojas de Outrora e de Agora, e renovaram recentemente o seu website, precisam de decidir melhor sobre o design-padrão dos seus livros.

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