Vouzela e Águeda. "Já lá vão mais de 11 mil hectares"
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Explicador da Rádio Observador. Já se temia um regresso em força dos incêndios florestais, com muito calor, vento, pouca humidade. Está reunido este triângulo favorável ao fogo. O incêndio que começou em Vouzela continua a ser o mais preocupante, é o que tem maior dimensão. Já atravessou a fronteira do distrito de Viseu para Aveiro. Temos conosco Carlos Oliveira, o presidente da Câmara Municipal de Vouzela, que não tem parado nestes dias perante este incêndio. Muito obrigado por estar aqui em direto na Rádio Observador. Carlos Oliveira, que ponto de situação podemos fazer nesta altura sobre o fogo que começou no seu concelho?
Boa tarde, agradeço o convite. Ponto de situação: continuamos com várias frentes ativas no concelho, como disse na sua introdução. Um incêndio que já vem há muitas horas. Começou no dia de ontem, cerca das 3 h da madrugada, e foi progredindo no terreno, alastrou vários concelhos do distrito de Viseu, nomeadamente Oliveira de Frades e Podela, mas também ao distrito de Aveiro, nomeadamente ao concelho de Águeda. Continuamos com muita área e muita frente de trabalho. É um perímetro muito grande, com muitos pontos quentes, que é preciso ocorrer durante muito tempo. Estão muitos meios empenhados, quer meios aéreos, quer meios terrestres, e estamos a trabalhar para que se consiga, de alguma forma, minimizar o impacto que possa ter aqui nas pessoas, que é a nossa principal prioridade, é a salvaguarda da vida das pessoas e os seus bens primordiais, nomeadamente as casas de primeira habitação.
E nesse sentido, chegou a ser necessário evacuar pelo menos duas aldeias?
Normalmente, o que nós vamos dizendo é que não podemos nunca afastar o perigo, a necessidade da aldeia estar em perigo. Na progressão normal das várias frentes de incêndio que nós vamos tendo, há sempre aldeias que se colocam no caminho e essas aldeias vão estar em perigo, automaticamente. E aí temos que fazer o trabalho de ou confinar as pessoas na própria aldeia, nos seus próprios bens, nas suas próprias propriedades, ou em alguns espaços onde seja garantida a segurança, ou daqueles que tenham mais dificuldades de mobilidade, que vivam de forma isolada, conseguir retirá-los em segurança e de forma preventiva para não haver qualquer problema. Fizemos isso ontem. Se tivermos que fazer nas próximas horas, também o faremos, sem qualquer tipo de problema. Os que ontem retiramos, alguns, poucos, já regressaram hoje novamente às suas aldeias, às suas casas, mas perfeitamente em condições de segurança.
E a resposta que tem tido às necessidades tem sido atempada e de acordo com os seus pedidos?
Nós temos aqui muitos meios, mas nunca são demais, com um incêndio desta natureza, desta dimensão.
Que é impossível apagar, não é? É um incêndio que é impossível apagar.
Exatamente. Há pouco estávamos a fazer aqui algumas estimativas, diria mais de 11 mil hectares de área consumida pelo incêndio.
11 mil.
Mais de 11 mil, diria. Estimativas nos vários concelhos. Estamos a falar de uma área muito grande, um perímetro muito grande para consolidar, para fazer rescaldo, para fazer combate. Mas nestas condições que se fizeram sentir ontem, durante o dia, esta noite, durante esta manhã, temos temperaturas muito elevadas, temos ventos muito intensos, com muita força, temos uma orografia também terrível, muito acentuada, temos manchas contínuas de eucalipto, de pinheiro-bravo, de giesta, com uma carga combustível muito grande no território, também originando aqui estas condições climatéricas, originando projeções para muito longe, para várias centenas de metros, o que obriga a um trabalho no terreno muito grande, com muito esforço. A tarefa é difícil. Felizmente, temos tido também bastantes meios, muitos meios aéreos, muitos meios terrestres, mas todos os que venham são sempre bem-vindos para ajudar aqui os meios que estão no terreno.
Carlos Oliveira, muito obrigado pela sua disponibilidade, o presidente da Câmara Municipal de Vouzela, aqui em direto na Tarde Política da Rádio Observador. Estamos a tentar fazer um ponto de situação sobre o incêndio que lavra naquela região. Como ouvimos, este incêndio começou na madrugada de ontem, por volta das 3 h. De resto, isso mesmo foi revelado ontem aqui, por volta desta hora, há cerca de 24 h, na conversa que tivemos com o secretário de Estado da Proteção Civil, Rui Rocha, que deu conta de duas ignições às 3 h. Vouzela, na região centro do país, uma região particularmente afetada pelo tempo quente que se faz sentir e por este triângulo, que no fundo, funciona como triângulo perfeito para a progressão do fogo. Temperatura muito elevada, humidade muito baixa e vento forte. Carlos Oliveira dizia-nos aqui que este incêndio, segundo as últimas estimativas, já está em 11 mil hectares ardidos nesta região Este incêndio já afetou quatro concelhos nesta região, entre o distrito de Viseu e o distrito de Aveiro. Estamos a tentar, nesta altura, chegar a outros presidentes da Câmara desta região, mas as comunicações, como sempre nestas situações, estão difíceis. Há muitos meios empenhados no terreno, quer homens, viaturas, também meios aéreos, mas um incêndio desta dimensão liberta cargas de energia muito impressionantes e dificulta, obviamente, o combate a este incêndio. Temos agora a oportunidade de falar com o presidente da Câmara Municipal de Águeda, Jorge Almeida. Bem-vindo, senhor Presidente, já no distrito de Aveiro. Que ponto de situação nos pode fazer sobre a forma como este incêndio, que começou em Vouzela, atingiu o seu concelho?
Temos ainda algumas frentes ativas, nomeadamente o incêndio, como sabem, entrou depois das 10 horas da noite no nosso concelho, ontem. Evoluiu praticamente em linha reta e de acordo com a orientação do vento e, entretanto, derivou para a esquerda do incêndio. Portanto, é uma zona que se aproxima claramente da encosta e já está nas encostas do Caramulo. São zonas de difícil condições de combate, com estação muito densa, com vales bastante cavados e com declives acentuados e, portanto, o combate é extraordinariamente difícil. Temos muitos meios mobilizados, temos definidos três setores de combate ao incêndio, mas esse setor mais esquerdo é o que concentra a nossa maior preocupação e onde temos muitos meios posicionados e em trabalho, no sentido de tentarmos adiantar o mais possível o combate ao incêndio, para que se possa prevenir de alguma forma e procurarmos não ter uma situação muito parecida com a que tivemos esta noite, porque esta noite com as frentes que se fizeram sentir, o incêndio foi extraordinariamente violento.
A noite de hoje também não deverá ajudar muito no combate às chamas, são as condições meteorológicas que temos. Qual é a perspectiva que tem para as próximas horas?
É o que lhe digo, fizermos o máximo que pudermos, reduzirmos o máximo o incêndio, no sentido de entrarmos em melhores condições nesta tal noite, que se tiver as mesmas condições climatéricas que tivemos na noite passada, vai ser outra situação extraordinariamente complicada, isso não tenho dúvidas nenhumas.
E tem tido resposta para os seus pedidos, nomeadamente por parte de…?
Como é que eu lhe hei de dizer? Já não é uma questão de meios, nem humanos, nem técnicos, já não é. É uma coisa que todos nós, cada vez mais, temos que começar a fazer esta reflexão. As nossas condições, em termos climatéricos, produzem este tipo de vegetação, indiscutivelmente, e arde tudo. E tem uma propensão para arder absolutamente incrível. Com estes ventos, com estas condições todas, com esta conjugação de condições, as situações são extraordinariamente difíceis. Eu ouço muitos técnicos com grandes teorias, mas gostaria que eles viessem cá aplicá-las e que tivessem sucesso, que é coisa que eu não vejo. Porque efetivamente, na prática, isto é extraordinariamente violento, não há dúvidas nenhumas. A capacidade de propagação destes incêndios, sobretudo com as projeções permanentes que se fazem, com os múltiplos incêndios que estão a surgir em simultâneo, torna o combate extraordinariamente difícil, por uma razão simples: já não é uma questão de falta de meio, é onde é que é desta vez e como é que nós fazemos para nos posicionarmos naquele sítio. É nisso que temos de pensar.
Jorge Almeida, muito obrigado por este retrato que nos traçou. Muito obrigado ao presidente da Câmara Municipal de Águeda, com um retrato da situação que se vai vivendo nesta altura. Vamos continuar ao longo desta hora a falar de incêndios e de calor, também no explicador que vamos ter depois das 17h30.










