"Há 23 anos que me tentam matar, é waste of time…"
▲Ronaldo não teve problemas em pedir para que um jornalista estrangeiro fizesse uma pergunta: "Aquele ali, sim, sei que não gosta de mim"
PAUL ELLIS
Entrou com uma cara mais séria, de óculos na mão, a olhar para toda uma sala de imprensa que estava cheia mas que ficou ainda mais à pinha quando foi confirmado que seria Cristiano Ronaldo a marcar presença na conferência antes do encontro com a Espanha. Ele, mais do que ninguém, tem uma ligação de mais duas décadas com La Roja: jogou nove anos no Real Madrid, tem muita família espanhola, mantém casa e vários negócios na capital do país, defrontou em várias ocasiões a Espanha. Mais do que isso, é alguém que diz muito. A Portugal, a Espanha, a todos. E foi alguém que, com o passar dos minutos, se foi sentindo cada vez mais confortável com a conversa, entre algumas piadas e até um pedido específico para que um jornalista estrangeiro tivesse margem para fazer uma questão por ser alguém que não gostava de si. Falou de tudo, não teve problema de comentar quase tudo, no final soltou uma das últimas novidades: será o último Mundial.
A propósito de uma questão sobre a forma como os adeptos estão a viver a antecâmara do encontro entre dois potenciais vencedores, a revelação acabou por sair quase de passagem. “O que fica são as pessoas. As pessoas que gostam de nós, as pessoas a quem podemos dar momentos diferentes. E vejo as pessoas que trabalham à nossa volta. São memórias espetaculares que levo. Durante o voo, sabia que uma das assistentes de bordo era argentina. Só pela maneira como olhou para mim. Eu disse-lhe ‘Sei que és argentina. Olhaste para mim e desviaste os olhos rápidos, vocês não gostam de mim…’. Mas a minha mulher é argentina. Está tudo bem. É desfrutar ao máximo. Vai ser o último Mundial, sim. É desfrutar disso”, atirou.Antes, Ronaldo tinha também visado as críticas de que tem sido alvo neste Mundial, chutando para o lado a questão com uma premissa que repetiu por mais do que uma vez: depois de uma vida em que teve tudo, só continua no futebol porque adora o que faz. “Há 23 anos que me tentam matar, para mim isso é waste of time [perda de tempo]… Já perceberam que não vale a pena, é perda de tempo. Tentam, tentam, tentam, mas não vale a pena. Há uns que gostam mais, outros menos. Estou habituado, faz parte. Mensagem para os adeptos? Esses que são os fiéis, não falham. Estão sempre do nosso lado, do meu lado. Tudo o resto é só garbage [lixo], não conta para nada”, comentou, abordando também os seus números no Mundial.“Não me falta nada da vida. Deus foi muito generoso comigo e deu-me tudo o que nunca esperei ganhar. Principalmente na Seleção, mesmo a nível pessoal. É desfrutar de cada momento. Não vou ser mais Cristiano por ganhar o Mundial nem menos menos Cristiano se não ganhar. Claro que estamos com esperança mas sabemos que só um vai ganhar. É desfrutar, não pensar no amanhã. Foi algo que aprendi. Uma das coisas que a idade dá é maturidade, experiência, o relativizar e suavizar muitas coisas. Obviamente que não sou cego, tenho visto os ataques que fazem constantemente à minha pessoa. Mas isso não é novo. Até agradeço muitas vezes, é viver um capítulo diferente na minha vida. Aprendi isso depois dos 40. Espero viver mais 40 anos e estar preparado. De onde vêm as grandes críticas, é de onde crescemos mais. E agradeço-vos, porque cresço e apareço cada vez mais. Sou feliz, tento desfrutar o dia-a-dia”, começou por salientar.
Ouça aqui a conferência de imprensa de Cristiano Ronaldo, em Dallas“Não vou ser mais nem menos Cristiano por ganhar o mundial”. A conferência de Ronaldo na antevisão do jogo com Espanha“O que é mais complicado fazer num Mundial aos 41 anos? É falar convosco [jornalistas], com alguns… Os que não gostam, principalmente. E tu és um deles, que eu sei. Fixo a cara das pessoas. Basta ver uma vez. Jogar com 41 anos tem sido uma boa experiência. Para chegar a este nível tens de abdicar de muitas coisas. E tudo o que tenho feito na minha carreira tem sido adaptar-me. Não sou o jogador que era, mas nada mudou. Continuo a fazer golos e espero fazer amanhã. Se não fizer, que outro companheiro faça e que possamos passar. Poder passar, jogar com uma grande equipa, e era bonito vencer amanhã”, prosseguiu o avançado que guarda boas memórias dos duelos com Espanha nos Mundiais, “vingando” a derrota nos oitavos de 2010, na Cidade do Cabo, com um hat-trick para o empate na fase de grupos em 2018, em Sochi.
“Estão com muita vontade que não regresse aqui… Chegará o dia, sim. Vou ser sincero: independentemente do que acontecer amanhã, sairá daqui o Cristiano com a consciência tranquila. Não a 100%, a 1.000%. Dei tudo no futebol e na minha vida. Foi por paixão, por querer, não por necessidade. Graças a Deus estou muito bem da vida mas tenho esta paixão. Jogo na Seleção e nos clubes porque fico encantado por jogar futebol. Aconteça o que acontecer amanhã, estarei feliz. Não posso colocar pressão em mim mesmo, de ‘Tens de ganhar’. É o que Deus quiser. Desfrutar a cada dia, a cada jogo. Desfrutar do Mundial. E acredito que não estou assim tão mal, fiz três golos… Há outros que fizeram mais mas porque estão muito bem. Mas eu não estou mal, acredito… A ver se amanhã marco”, voltou a referir o capitão da Seleção Nacional.Antes, Ronaldo tinha falado mais sobre o jogo e sobre os oitavos diante da Espanha. “Se não tivéssemos essa ideia não estávamos aqui. Tem sido uma experiência bonita. Estamos a melhorar. Sabemos que é uma competição onde é impossível jogar bem em todos os jogos e não está fácil para ninguém, é só ver quem já foi eliminado. Vejo a equipa tranquila, treinamos bem, preparámos bem. Amanhã vamos encarar uma equipa super difícil, mas vamos estar preparados. Influência na Seleção? Tem sido assim desde que cheguei à Seleção com 18 anos e não vai mudar [a influência]. Estou sempre de corpo e alma. Jogando ou não, terei sempre um papel importante. Terminarei, como disse há uns anos, quando eu quiser, não quando vocês quiserem. Acho que é uma perda de tempo fazerem sempre a mesma pergunta. Não quero virar as atenções para isso, o mais importante é jogarmos bem amanhã e ter fé que vamos passar”, frisou o número 7, que abordou também a pulseira por Diogo Jota e um sexto Mundial que vai ficar para sempre na memória.“Este é um grupo diferente de todos. Com muita qualidade como todos os outros. Muito tranquilo, mais jovem. A idade se calhar é mais baixa. A pulseira colocámos desde o primeiro dia porque estão os nomes de todos os jogadores. E é uma forma de estarmos unidos pelo Diogo Jota. Por nós, por Portugal, por todos os portugueses que estão no mundo. Tem sido uma experiência espetacular. Dá para refletir que o futebol vai mais além do que o dentro de campo. É alegria das pessoas, união, pessoas a chorarem por verem jogadores… Isso é que fica guardado. De todos os Mundiais que joguei, será aquele que mais recordarei pela paixão das pessoas. Não sei a razão, mas tem sido, nesse aspeto emocional, o melhor”, começou por dizer, “fintando” edições como por exemplo a de 2022, onde a Ronaldomania era tanto ou mais do que é agora.“O sentimento é quase sempre o mesmo, uma paixão grande pelo teu país, por tentar ganhar. É sempre como se fosse o primeiro jogo e é desfrutar ao máximo. Este Mundial tem ficado muito marcado pela paixão das pessoas, não só a nossa. Hoje de manhã vimos malta da Venezuela, da Colômbia, e eles contaram histórias. Vê-los com lágrimas nos olhos, emocionados a olhar para ti… Isso é o que fica da vida. O resto… Ok, estamos cá, só vai ganhar um. É viver isto, é o que fica marcado. ‘Ah, tem 41 anos, não devia jogar’… Isso é irrelevante. O que vou levar para casa é o afeto das pessoas com a Seleção e comigo”, referiu.
Numa parte final, Ronaldo falou também de Espanha e de Lamine Yamal, que já deixou também lamentos parecidos com aqueles que o avançado português vai tendo. “É um jogador com muito futuro. Sinceramente não vi nenhum jogo da Espanha até agora, apenas um bocadinho do primeiro frente a Cabo Verde. Mas é um jogador com futuro. Está a sair-se muito bem e terá um futuro brilhante. Mas, para mim, olho sempre para a Espanha como um coletivo”, comentou. “Quanto mais preparado estiveres para a crítica, melhor vais sobreviver a uma carreira longa. Se ligas à crítica, estás perdido. É normal, é o vosso trabalho. Eu entendo perfeitamente. Há críticas construtivas e outras para tentar matar, faz parte. Se queremos ter uma carreira longa, temos de nos habituar mas há que focar em quem gosta de nós, na paixão do estádio. Aprendi com o tempo que devemos estar ao lado de quem gosta de nós e de quem sente paixão por nós”, salientou.“Vejo sempre a Espanha com muito talento. Todas as gerações. Desde que cá estou, sempre vejo a Espanha como candidata a vencer tudo. Amanhã será uma batalha muito dura e temos de ter muita fé, correr e ter coragem. É a única maneira de vencer. Vocês sabem que tenho um carinho muito especial por Espanha. Tenho casas, negócios, os meus amigos são espanhóis. A minha família é praticamente espanhola. A Espanha é sempre candidata a ganhar tudo. A Espanha, teoricamente, é favorita porque já ganhou e tem mais títulos do que Portugal. Mas há cansaço, lesões, os jogadores são diferentes, o calor… Que amanhã até vai estar bom, teremos ar condicionado. Encanta-me jogar frente à seleção espanhola. Joguei várias vezes e foi muito equilibrado. E amanhã será igual. Quem acertar nos detalhes, ganhará. Espero que seja Portugal. Eu tenho esse feeling mas amanhã veremos…”, concluiu Cristiano Ronaldo, dando lugar a Roberto Martínez.










