CIÊNCIA

Plataforma de exames foi um passo maior do que a perna?


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“Iuvenescere” na Rádio Observador e em vídeo no YouTube e nas redes sociais do Observador. Hoje vai ser um pouco mais curto por causa do Portugal-Espanha. Hoje contamos com a Judite França e o Alexandre Borges. Vamos falar sobre as comemorações dos 900 anos da Batalha de São Mamede, para muitos, o momento fundador de Portugal, que se assinala em 2028. Mas começamos pelos problemas nos exames, Judite França, nos exames nacionais. Há aqui uma luta política e há também dúvidas sobre se o sistema está a funcionar bem ou não.
Logo hoje a plataforma não funcionou até meio da tarde.
Esteve em manutenção.
Esteve em manutenção. Aliás, tinha um ecrã que dizia: “Em manutenção”. A verdade é que a plataforma já apresentou diversas falhas e há centenas de relatos desses, dos professores, que por um lado, estão preocupados com os prazos, porque o tempo urge, mas também estão preocupados com as folhas de resposta que estão em falta. Um professor não se devia preocupar com isso. Depois, o ministro primeiro disse que a maioria dos relatos dos professores eram falsos, e já se percebeu que não eram, tanto que o governo foi obrigado a adiar o calendário depois de ter prometido que não era necessário adiar o calendário. A verdade é que o ministro não se retratou e eu acho que devia ter feito. Tem demonstrado ser um bom ministro, disso não retiro mérito técnico a Fernando Alexandre, talvez tenha sido o ministro, nos últimos anos, que tem mais mérito técnico nesta pasta. Mas acho, sinceramente, que aqui pôs o pé em ramo verde, porque não há nenhum problema em dizer: “Isto correu mal, e nós vamos ter que corrigir rapidamente pra que ninguém saia prejudicado”. No ano passado houve uma experiência com os exames de Filosofia, provavelmente não se deveria ter alargado logo a todos os exames, a 300 mil exames. O que deveria ter acontecido era fazer outro projeto-piloto, agora para mais exames, ou seja, fazer isto com baby steps, porque nós temos sempre problemas de software neste país, em diversas circunstâncias, e o sistema não está preparado, claramente. E eu consigo imaginar a angústia desses professores a corrigir estes exames. Deve ser dantesco.
Mas estes casos chegam para minar a credibilidade do ministro? Que é um dos, vamos dizer assim, melhores ministros, no sentido de que é alguém que tem uma avaliação positiva pelo desempenho no governo.
Eu acho que não, eu acho que serve para o ministro sair chamuscado. Isso acredito que saia. E acho que faz sentido que a oposição esteja a fazer o trabalho que está a fazer. Por um lado, é oposição e, portanto, é normal que o faça. Por outro lado, também era preciso chamar a atenção para este problema, porque há relatos de professores que encontram nos exames páginas com caligrafias diferentes. Ou seja, claramente há um problema.
São folhas de dois alunos diferentes.
São folhas separadas, de dois alunos diferentes. E eu imagino o que é que um professor deva sentir perante o ecrã do computador quando encontra estas coisas. Também imagino a ansiedade dos alunos que não sabem se o seu exame vai ser bem corrigido ou se não vai ser bem corrigido. E deixa-me só acrescentar isto: é que com as alterações das datas, há muitas famílias com férias marcadas, que agora, porque acreditam nas datas que o ministério anunciou, como é evidente, que agora têm a sua vida completamente desorganizada. Acredito que muitos peçam a revisão de prova e, portanto, nós vamos ter um problema também na segunda chamada, porque é evidente que isto tem minado a confiança das pessoas neste sistema e isso não se pode escamotear.
Alexandre.
Sim.
Temos que ir ao centro. Sim, eu não sei quanto a vocês, destes dias tem-me custado muito a dormir, mesmo por causa do calor. Eu não imagino Fernando Alexandre.
Sim.
Os professores têm toda a razão, mas eu imagino Fernando Alexandre e Alexandre Homem Cristo, secretário de Estado, e os principais responsáveis do governo, como não andarão, porque devem andar mesmo a rezar a todos os santinhos pra que isto não corra tão mal como se chega aqui a temer, de facto, que é isso. Folhas de continuação que não aparecem, caligrafias diferentes, os professores de Matemática a alertarem para o risco, aparentemente, das folhas quadriculadas poderem suscitar maiores dificuldades na digitalização e dos símbolos matemáticos ou serem erradamente lidos ou ficarem ilegíveis. Eu imagino também o que quer que aconteça. Eu se fosse aluno, se tivesse uma má nota, eu ia recorrer já. Sabia antecipadamente que o faria. Portanto, não teria nada a perder. Não quero imaginar o que é que vai ser a seguir o processo de quantidade de pedidos pra reavaliação de revisão de provas.
Ou seja, o que vai haver outra vez problemas com isso, porque o sistema aparentemente não está preparado pra esta quantidade de exames.
É isso, tal e qual, porque ainda por cima há uma sucessão, de facto, de problemas e como dizia a Judite, e bem, foi se sacudindo a água do capote. Primeiro era porque os professores tinham agrafado as provas ou as escolas tinham agrafado, e portanto, isso dificultou, atrasou a digitalização destes 300 mil exames. Depois, afinal, havia um erro de programação também, um erro de programação admitido pelo governo na plataforma. E agora há tudo isto que está a acontecer e que não sabemos bem. A história da manutenção de hoje aparentemente foi recomendada pela Deloitte
Consultora que também não tem memória disto. De repente, o governo contratou uma consultora para ajudar a resolução a meio deste processo. E terá sido um conselho da Deloitte suspender hoje a plataforma e colocá-la em manutenção, não se sabe bem por quê. Julgo que uma das plataformas de professores aventava a hipótese de ser para a colocação de um novo botão que sinalizava quando faltassem as ditas folhas de continuação, ter uma forma mais ágil.
Pelo menos os professores queriam esse botão, não é?
Exatamente.
Foi dado um passo maior do que a perna.
Foi dado um passo maior do que a perna, claramente. Se já correu mal no ano passado com os testes de Filosofia, não fazia sentido alargar para todos os exames. Deveriam ter sido feitos mais testes-piloto, porque claramente, se correu mal no ano passado só com os exames de Filosofia, qual era a garantia de que este ano ia correr bem? Nenhuma.
Tal qual. E nisto também fica um dia para as candidaturas ao ensino superior, com o atraso.
Um dia e meio.
Exatamente. Porque a fixação será dia 17, se tudo correr bem. Os alunos acho que têm até dia 20, no meio ou fim de semana, para se candidatarem. E é isto, e vamos ver que resultados de fato é que saem daqui. E depois há um ou dois pormenores estranhos. Por exemplo, o governo, ou melhor, o ministério em concreto, ainda não quis dizer quem fez esta plataforma, que também é um mistério, que não se percebe muito bem por que é um mistério. Por que não temos direito a saber quem é que fez, qual é a empresa, quem é que fez esta plataforma que, pelos vistos, está a dar bastantes problemas. No Portal Base há uma quantidade de contratos assinados no âmbito da digitalização dos exames, o público fez uma peça sobre isto, são 16 contratos, o total de 7,1 milhões de euros, mas não se percebe qual é qual. O público contratou uma série de empresas que lá apareciam, mas basicamente todas elas dizem: “Não, o que nós fizemos não foi esta plataforma, foi este ou aquele passo.”
Deixa eu só acrescentar aqui, estávamos a falar do acesso ao ensino superior, esse será posterior. A segunda fase é que arranca na terça-feira e, portanto, os alunos têm um dia e meio para decidir se recorrem ou se não recorrem.
Imagina. Tua nota, Judite.
Eu queria dar uma nota que não fosse tão má, mas não consigo dar mais do que um sete ao ministro Fernando Alexandre.
É isso mesmo, eu também sou da vontade de melhorar e modernizar, mas até aqui o ministério reprova, claramente, e é um sete também.
Alexandre, tu queres falar sobre as comemorações dos 900 anos da Batalha de São Mamede. Se pusermos as coisas de uma forma simplista, o primeiro caso de violência doméstica.
Sabia que ias por aí.
Já estou previsível. No fundo, quando Dom Afonso Henriques, de uma forma muito simplista, derrotou a mãe. Em 2028, a 24 de junho, assinalam-se os 900 anos. Será para muitos o momento fundador de Portugal. Paulo Portas foi nomeado o presidente.
Sim, comissário executivo.
Comissário, sim, da organização dessas comemorações. Tu queres falar sobre isto?
Sim, porque eu conheço imensos, não sei quanto a vocês, mas normalmente vais fazendo anos, e as pessoas a partir de certa altura começam a atirar. Eu conheço uma quantidade de gente que tem 39 anos desde 2017. No caso do governo e da forma como olha para o país, é o oposto. Em que momento é que a nossa data oficial de fundação deixou de ser 1143 e passou a ser 1128? Ou seja, estamos a querer ser velhos mais depressa. Isto também me aconteceu, mas acho que é um caso muito raro. Eu comecei a trabalhar muito novo e para ser levado a sério, eu ou não dizia a minha idade, ou tentava imenso que pensassem que eu era mais velho, que era para ser respeitado. Já desisti disto há imensos anos.
Ainda ninguém te dá mais 35.
Ora bem, ninguém me dá mais 35. E quem só me ouve então acha que eu tenho 23.
Então são 900 anos.
São 900 anos.
Pode começar aqui um processo de comemorações.
Pode começar aqui um processo de comemorações.
Depois temos o Tratado de Zamora.
E eu admito que exista algum fundamento para pensar assim. Agora, de fato, 1143, que é o ano do Tratado de Zamora.
5 de outubro, curiosamente.
5 de outubro, exatamente, é isso mesmo. Aliás, acho que não é por acaso, embora muita gente não saiba, mas não é por acaso que muita gente sabe que é no 5 de outubro, 1143, o Tratado de Zamora, e quantas pessoas é que sabiam que a Batalha de São Mamede era a 24 de junho?
Não, eu fui ver.
É isso. E aliás, há até muitas dúvidas sobre o que é a Batalha de São Mamede. O governo anuncia três momentos nestas comemorações, este, Batalha de São Mamede, depois a Batalha de Ourique e depois o Tratado de Zamora. A Batalha de Ourique, deixa-me dizer, eu acho que escrevi muitas vezes sobre este assunto, nem sequer se sabe onde é que foi. Nem sequer se sabe de que Ourique estamos a falar, se é que é algum dos vários lugares chamados Ourique que ainda existem em Portugal.
Como houve milagre.
O milagre, ora bem, exato. Isso ajuda. Há outros momentos, a pensar no que é oficialmente a história.
Também tens a bula.
Exatamente. “Manifestis Probatum”, 1179. Portanto, os reconhecimentos oficiais seriam, 1143, Tratado de Zamora, é quando o rei de Leão e o novo rei de Portugal assinam um tratado em que o de Leão reconhece que tu agora és rei dessa parte autonomamente. E há depois a bula papal, que é o reconhecimento também. À época não havia ONU, por alguns séculos ainda não havia ONU, portanto, tipicamente seria o papa a reconhecer internacionalmente.
E não é por acaso que a embaixada portuguesa na Santa Sé é um posto muito importante. No fundo, temos duas embaixadas em Roma, não é? Uma na cidade e outra na Santa Sé.
Exatamente. E tipicamente são processos também que não por acaso custaram bastante dinheiro.
Também.
E demoraram muitos anos. E foram essas primeiras manobras diplomáticas de um modo geral. Portanto, temos isto. E temos até, em 1139, é o momento em que Dom Afonso Henriques começa a assinar como Rei de Portugal. Se quiséssemos recuar e antecipar 1143, seria 1139, ou seja, seria só em 2039 que iríamos festejar esses anos, que é quando haverá a dita Batalha de Ourique e após esta, Dom Afonso Henriques passa a assinar Rex Portugal ou qualquer coisa assim, mais ou menos isto. Portanto, 1128, o mundo acabou de assistir às comemorações americanas dos 250 anos da independência, agora neste 4 de julho. Que é o dia da proclamação da independência, não é o dia do início da guerra, que tinha sido um ano e tal antes, por exemplo.
Não achas que há aqui uma pressa?
Eu acho que há aqui uma pressa que eu estranho.
Comemoratória.
Isso. Fica margem para especular sobre se não estamos a querer apostar aqui uma comemoração para caber dentro do mandato deste governo, e que tem objetivos eleitoralistas, que tem a ver com eleitorados a que se quer piscar o olho. Até há movimentos nacionalistas que se calhar agora vão ter que rever os seus nomes e as suas tarjas, porque tipicamente eles também falam em 1143, agora vão ter que antecipar e fazer tarjas novas para 1128. Parece uma piscadela de olho a esse eleitorado, tendo em conta ainda aqui se falarmos dos Amálias, os nomes de IA, do Aeroporto Camões, das leis das nacionalidades, das insistências nas perdas de nacionalidade, dessa discussão na assembleia, tendo em conta tudo isto, tendo em conta as palavras do ministro Leitão Amaro no dia da nova lei da imigração, que era: “Hoje Portugal ficou mais Portugal”. Portanto, parece haver este tipo de intenção aqui por trás. Eu acho que seria uma pena, porque fará todo o sentido pensar no que é Portugal, no que foi ou no que quer ser. Mas se de facto se é para agitar bandeirinhas, acho que não é a coisa mais útil.
Tu também estás assim tão pessimista, Judite?
Não estou assim tão pessimista.
Tens 30 segundos para te manifestares sobre os 900 anos.
Percebo as recomendações do Alexandre e se só tenho 30 segundos, acho que a escolha de Paulo Portas é uma boa escolha. Acho que terá cuidado com esses possíveis aproveitamentos extremistas. Disso acho que não há grande dúvida. É um homem inteligente e, portanto, disso acho que não há grande dúvida.
Alexandre, não deste uma nota ao aniversário?
Ao aniversário, para já dou um 10.
Dás 900.
Se coubesse. Não, para já dou 10 e fico à espera para ver de que cirurgias, de que operações é que estamos a precisar nesta grande idade.
Queres dar uma nota, Judite?
Eu acompanho o 10 do Alexandre.
E amanhã há mais “E o Vencedor É?”, das manhãs 360, depois das 08h30. Amanhã, a Alexandra Machado junta-se ao Jamail Fernandes, ao Paulo Ferreira e ao Bruno Vieira Amaral.

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