CIÊNCIA

Portugal "dava para mais", mas andou "sem alegria"

Nunca será fácil reagir a uma derrota. Especialmente uma tão tardia, quando parecia que o jogo ainda teria mais meia hora de discussão. Depois da derrota de Portugal com a seleção espanhola por 0-1, Cristiano Ronaldo abandonou o relvado em lágrimas — a retratar o que o golo de Merino aos 90+1′ tinha ditado: Portugal está fora do Mundial-2026. Para Ronaldo, é o fim de um ciclo que começou em 2006, quando tinha 21 anos.
O capitão da Seleção assumiu ser “frustrante sair assim da competição”, mas lembrou garante que amanhã vai levantar-se da mesma forma que hoje, antes do jogo. Lembrou ainda, com “consciência tranquila”, o seu trajeto da Seleção: “Antes do Cristiano, Portugal nunca tinha ganho nada”, frisou. “Estou triste por sair do Mundial. Mas, como já tinha dito anteriormente, estou de consciência tranquila. O futebol é assim e agora vou descansar, estar com a minha família e seguir em frente. Amanhã vou levantar-me de igual forma a hoje. Antes do Cristiano, Portugal nunca tinha ganho nada. O melhor título que ganhei foi em 2016, que para mim tem a mesma dimensão de um Mundial”, afirmou Cristiano Ronaldo na zona mista no Dallas Stadium.“Não decido nada com a cabeça quente”, garantiu, quando questionado se voltaria atrás com a decisão de este ser o seu último Mundial. “Perdemos com uma equipa que vai chegar, possivelmente, longe na competição. Saio de consciência tranquila. Eu dei o meu melhor, demos o nosso melhor.” Quanto a Roberto Martínez, deixou elogios. “Foi uma pessoa com quem adorei trabalhar. Um grande treinador e um grande ser humano”, disse. “Portugal ainda não tinha ganho nada e nos últimos anos ganhou três títulos. É agradecer-lhe e dar-lhe os parabéns pelo que ele fez”, acrescentou.Ainda antes do apito final, nos minutos em que Portugal tentava desesperadamente o empate, houve um momento de tensão entre dois ex-colegas do Manchester City: Bernardo Silva e Rodri. A mesma cidade, o mesmo clube, o mesmo balneário durante anos — e agora em lados opostos do relvado nos últimos minutos de uns oitavos de final de um Campeonato do Mundo.
Roberto Martínez foi dos primeiros a falar. “A mensagem é de que podemos estar muito orgulhosos. Os jogadores fizeram um desempenho com o coração. Acho que foi o nosso melhor jogo no Mundial. A bola bate na barra, não entra, e essa é a diferença num jogo muito igual. Os jogadores mereciam o prolongamento. Mas é um orgulho. O futebol é assim e precisamos de aceitar isto”, disse à LiveMode. O selecionador foi igualmente claro na análise à segunda parte: “Defendemos muito bem, tivemos uma agressividade sem bola muito boa. Jogámos olhos nos olhos contra uma equipa que é favorita ao título. Precisava-se de ter mais um bocadinho de sorte. Podia ganhar Espanha, podia cair para o lado de Portugal. Foi um jogo muito igualado, como a final da Liga das Nações. Merecíamos chegar ao prolongamento”.Diogo Costa não escondeu a tristeza, mas foi direto. “Demos o nosso melhor, mas, tal como disse, faltou-nos uma pontinha de sorte. Para mim o mais importante é ganhar coletivamente. Sei que preciso dos meus companheiros em campo para ganhar e trocava a exibição por uma vitória. Tínhamos qualidade para isso, por uma ou outra razão não conseguimos, mas demos sempre o nosso melhor fisicamente e mentalmente para todos juntos mostrarmos o que é o país. Como todos sabem, queríamos muito dedicar este Mundial a duas pessoas muito especiais para nós, não conseguimos e estamos também muito mais tristes por isso”, disse à RTP, referindo-se a Diogo Jota e André Silva.Bruno Fernandes foi ao ponto: “Na primeira parte fomos superiores, mas na segunda voltámos a cometer o mesmo erro de baixar muito as linhas e dar demasiado a bola ao adversário e, quando assim é, mais cedo ou mais tarde acabamos por sofrer golo. O balanço não pode ser positivo, só o seria se chegássemos ao fim e não chegámos. Sei que Portugal nunca ganhou o Mundial e que pomos sempre as expectativas lá em cima, mas acho que posso dizer, com alguma certeza, que este grupo tinha qualidade para ganhar o Mundial. Infelizmente não vai ganhar, não foi possível, mas não há que desacreditar. Perdemos contra uma das seleções candidatas e há que olhar em frente de maneira diferente. Acho que temos de ser mais nós próprios, olhar para aquilo que nós temos dentro, tentar jogar mais ao nosso modo e ao nosso jeito e encontrar forma de fazer com que as equipas nos respeitem mais”, disse à LiveModeTV.Rúben Dias, no estúdio da LiveModeTV, ao lado de Ricardo Quaresma, reconheceu as limitações mas recusou arrasar a exibição. “Foi dos jogos mais equilibrados que já tivemos contra eles. Eles fizeram-no na altura crucial. Ambas as equipas são mortíferas e nós não conseguimos marcar. Temos perfeita consciência de que estávamos a crescer e a melhorar. Saímos com a sensação de que dava para mais. Temos de olhar para o futuro pois há muito pela frente”, disse à RTP. Quando Quaresma lhe disse que a equipa “podia ter dado muito mais”, Dias respondeu: “Passaste tempo suficiente neste contexto para entender todos os entornos do que rodeia uma Seleção — diferentes personalidades e mentalidades que se tentam juntar. Temos muito boas individualidades, mas não temos um conceito de jogo como tem a Espanha, por exemplo. Em Espanha pensam todos da mesma maneira e sabem tudo o que têm que fazer. Temos que ir em busca do equilíbrio, o que não é fácil, porque os jogadores não pensam todos da mesma maneira”.
Foi Ricardo Quaresma, campeão da Europa por Portugal em 2016, quem foi mais longe nas críticas. “Para mim, correu mal do início até agora. Correu tudo mal. Não houve um jogo que pudesses dizer que jogámos bem ou que atacámos muito e tivemos azar. Ainda hoje, entregaste o jogo desde o início ao fim à Espanha. A Espanha a controlar o jogo todo, a fazer o que queria, a controlar o ritmo de jogo, quando queria acelerar acelerava, quando queria meter mais pausa no jogo metia mais pausa, e nós a andar ali sem vontade e sem alegria, muito lentos. Estou farto de dizer isto, mas o Martínez a mim nunca me encheu o olho. Gostem ou não gostem, não quero saber se ficam chateados ou não, mas temos de ter muito mais alegria nisto. Desde que o Martínez chegou, eu não vi a Seleção a fazer um grande jogo. A realidade é esta. Meteu 50 táticas, nenhuma deu certo. E está aí a prova: saímos com a Seleção que toda a gente dizia que era a melhor de todos os tempos… Mas melhor de todos os tempos em quê? O que é que ganharam? Vamos para casa desiludidos e de cabeça baixa? O melhor é eu não comentar muito mais deste Mundial, senão vou começar a dizer coisas que mais tarde me posso vir a arrepender“.Quaresma foi depois ainda mais longe: “O nosso meio-campo… Grandes jogadores, grande talento, mas neste Mundial foram muito fracos. Um meio-campo muito, muito fraco. Um ataque fraco, uma defesa perdida… Eu não posso culpar só o Martínez, porque os jogadores também não deram aquilo que tinham de dar. A Seleção precisa de se sentar, de ver o que está bem e está mal e de vir um treinador que entenda disto“.

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