E nunca mais voltaste à Caparica
Há casas nem por isso feitas de paredes. Não são casas, antes uma maneira de voltar depois de um ano inteiro à espera de um Verão inteiro condensado na curva da estrada quando a arriba desaparece e o Atlântico, paciente, inerte e eterno celebra o teu regresso.
E aquela casa na Costa de Caparica (de e não da) um regresso ao princípio, ao lugar onde a infância ainda mora escondida nas persianas de madeira, no cheiro da maresia entranhado nas toalhas, na areia a entrar contigo casa adentro como um cão fiel.Um dia, dizias para ti mesmo, quando o tempo deixasse de correr atrás de ti e começasse finalmente a caminhar ao teu lado, seria ali o destino dos últimos anos. Os últimos livros. Os últimos cafés. Os últimos pores do sol na varanda. O fim da vida não te assustava conquanto tivesses o mar à janela.Mas e se uma casa morrer antes de tempo? Não porque o sal rói as paredes, mas por não ser possível nela habitar. Basta, para tal, uma torneira aberta e dentro de si este silêncio metálico, um silêncio a querer rir-se da tua ingenuidade. E nunca pensaste ser o mais triste de uma casa a ausência de água.
Na Costa de Caparica a água tornou-se uma visita incerta. Uns dias chega, noutros desaparece, e sempre sem aviso ou anúncio prévio.As roturas sucedem-se, a rede envelheceu e o Verão continua a multiplicar pessoas e necessidades como se cada turista trouxesse consigo mais uma sede para juntar às outras. Se a Câmara de Almada e os Serviços Municipalizados de Água e Saneamento (SMAS) reconhecem um problema de anos, entre reparações sucessivas e promessas de investimento pouco mais fazem para além de correr atrás da próxima rotura e nunca à frente dela.Entretanto, a vida espera. Desespera.Nas redes sociais repetem-se fotografias de torneiras secas, autoclismos por funcionar, restaurantes obrigados a fechar mais cedo, cafés sem poder servir um simples galão porque nem uma chávena conseguem lavar, famílias a ver passar as horas sem saber se podem tomar banho, idosos a encher baldes quando a água aparece, sem esquecer os alojamentos onde hóspedes prometem não mais voltar e ninguém sabe responder sem encolher os ombros.
O gesto mais português de todos continua a ser esse: encolher os ombros como quem pede desculpa quando a culpa não é sua.É estranho viver numa terra rodeada de oceano e ter sede. Mais estranho ainda é perceber como a sede não é um fenómeno natural, ao invés o resultado da incapacidade de suprir este bem elementar, básico e universal.Conheces quem tenha comprado depósitos de mil litros. Conheces quem tenha instalado bombas, mangueiras, sistemas improvisados para sobreviver aos caprichos de uma infraestrutura há muito por substituir.E enquanto olhas para aqueles reservatórios azuis, enormes, pousados nos quintais como animais domésticos de uma nova espécie, ocorre-te ser esta a verdadeira fotografia do país: não a praia cheia. Não o pôr do sol partilhado nas redes, mas um depósito de plástico onde antes habitava uma torneira.
E o problema não é a existência de depósitos: o problema é ver os mesmos depósitos como bens obrigatórios a poucos quilómetros da capital.É uma inversão completa do contrato social. Em vez de o cidadão exigir o funcionamento de um serviço público, o mesmo cidadão adapta a casa para sobreviver à falha do serviço público. A responsabilidade muda de lugar e ninguém dá por isso. O abastecimento deixa de ser um direito garantido e passa a ser uma engenharia privada: quem tem dinheiro compra um depósito, uma bomba e um canalizador, e quem não tem dinheiro espera pela água.Dizem dos portugueses serem um povo paciente, mas tu não concordas. Uma coisa é paciência, outra é resignação. Queixamo-nos à noite nas redes sociais, escrevemos ser isto uma vergonha, multiplicamos comentários indignados, distribuímos culpas por políticos, empresas e autarquias, e tudo isto para acordar na manhã seguinte e comprar mais um depósito de água.Adaptamo-nos. Acomodamo-nos. Fazemos da excepção uma rotina. Como se sobreviver fosse suficiente.Haja saúdinha.E esta atitude, ou falta dela, tranquiliza quem decide. Um povo a protestar sentado não incomoda ninguém. Um povo capaz de resolver sozinho os problemas da competência do Estado torna o incumprimento numa poupança. E cada depósito comprado é uma manifestação por acontecer.
Os governantes agradecem em silêncio. Não precisam de dizer nada. Basta-lhes esperar enquanto a indignação segue o mesmo caminho da água: aparece por momentos para desaparecer logo a seguir.Continuas a ir à Costa porque há afectos capazes de resistir à lógica. Abres as janelas, escutas o mar e imaginas a vida por viver. Depois olhas para a cozinha antes de desfazeres a mala. Não procuras a vista. Procuras a torneira enquanto fantasias um copo de água ou um simples lavar das mãos.E o tempo de abrires a torneira na ausência de água é o tempo de pegar na mala e bater com a porta na certeza de nunca mais voltar à Caparica.Não assim.
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