CIÊNCIA

Uma virgem misteriosa e um carpinteiro: os pais de Jesus


Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Quem foram Maria e José, os pais de Jesus? Este é o nono episódio da segunda temporada de As Histórias da Bíblia, o podcast da Rádio Observador, em que deciframos o livro mais impresso e distribuído da história da humanidade, mas não necessariamente o mais lido. Eu sou o João Francisco Gomes, sou jornalista e escrevo sobre religião no Observador.
Eu sou o Daniel Nascimento, padre e professor da Universidade Católica Portuguesa. Eu sou o João Basto, padre e colunista do Observador.
E esta semana falamos sobre Maria e José, os pais de Jesus, um carpinteiro de Nazaré e uma jovem virgem que se viram envolvidos na história mais inacreditável: o anúncio do nascimento milagroso do seu filho que, para os cristãos, viria a ser o Messias esperado pelo povo da Bíblia. Não sabemos muito sobre a história de vida deste casal, embora alguns textos apócrifos, que não pertencem à Bíblia, nos tenham dado informações que passaram a fazer parte do imaginário coletivo sobre estas duas figuras. Vamos falar do carpinteiro José, de Maria e da sua misteriosa e controversa virgindade, e também do papel que os pais tiveram na vida da personagem central do cristianismo. Estas são as Histórias da Bíblia. Olá a todos. Como sempre, antes de seguirmos para o tema do episódio desta semana, quero lembrar que os nossos ouvintes nos podem enviar perguntas, comentários e sugestões para o nosso e-mail ashistoriasdabiblia@observador.pt. Têm sido muitos os ouvintes que nos têm enviado e-mails e já sabem que agora nos encontramos duas vezes por semana, além do episódio semanal aos domingos, depois do noticiário das 09:00 da manhã na Rádio Observador, também sempre em podcast. Temos um episódio extra todas as semanas. Às quintas-feiras, em 10 minutos, respondemos a uma pergunta enviada pelos nossos ouvintes para o nosso e-mail ashistoriasdabiblia@observador.pt, e também a perguntas que nos deixem nos comentários do YouTube e das plataformas de podcast. Esse episódio vai ficar apenas em podcast, como sempre, não passa na Rádio Observador. Portanto, já sabe, pode ouvir-nos no site do Observador ou nas plataformas de podcast habitual e para ter a certeza que não lhe escapa nada, pode clicar em seguir para receber uma notificação sempre que sair um novo episódio. E na próxima quinta-feira vamos responder à seguinte pergunta: o que é a verdade? Pode ouvir a resposta. Não sei se vamos satisfazer a curiosidade do ouvinte que nos mandou esta pergunta complexa, mas pode ouvir-nos na próxima quinta-feira. Ora bem, esta semana vamos falar sobre Maria e José, os pais de Jesus, como dizia na introdução. Se nós olharmos para a Bíblia, não é tão fácil como se poderia pensar, descobrir o início da história destas duas personagens. Por exemplo, nos Evangelhos de Marcos e de João, Jesus, quando aparece pela primeira vez, já é um adulto e, portanto, os autores dão muito poucas informações sobre Maria e José. No Evangelho de João, por exemplo, a mãe de Jesus nem sequer tem nome. Onde é que nós encontramos mais informação? É naquilo a que chamamos os Evangelhos da infância, os Evangelhos de Lucas e de Mateus, que falam sobre a infância de Jesus e, portanto, que têm algum contexto sobre Maria e sobre José. Maria é apresentada como uma jovem virgem de Nazaré, casada com José, que é da casa de David. Ela é prima de Isabel, a mãe de João Batista, de quem já falámos. E a dada altura aparece-lhe um anjo, o anjo Gabriel, para lhe anunciar que apesar de ser virgem, vai ter um filho. Ora, curiosamente, é fora da Bíblia que encontramos os relatos mais detalhados sobre a história de Maria e de José, nomeadamente no chamado Protoevangelho de Tiago. É um texto apócrifo muito popular, que não integra a Bíblia, mas que deu origem a algumas das tradições mais importantes sobre a figura de Maria, por exemplo, que até são aceites pela própria Igreja Católica, como é o caso dos famosos Santa Ana e São Joaquim, os pais de Maria, que só aparecem nesse texto apócrifo. João, queres contar-nos um pouco do background destas duas personagens antes de entrarmos na história principal?
Se calhar só uma precisão antes de começar. Falaste aí dos Evangelhos de infância associados a Mateus e a Lucas. O Evangelho de São Mateus e o Evangelho de São Lucas, no seu todo, não são Evangelhos de infância. Estamos a falar de secções, os primeiros capítulos.
Aqueles inícios.
Aqueles inícios que são os Evangelhos de infância. Os dois primeiros capítulos de cada um. Os dois primeiros capítulos de cada um falam um bocadinho da história, do início de Jesus, que nós hoje chamamos infância, mas que na altura realmente não era propriamente como se chama.
E depois rapidamente avançam para a vida adulta também.
Exato. Honestamente, quanto a São Joaquim e a Santa Ana, nós sabemos muito pouco ou nada. Sabemos essas referências que são feitas no Protoevangelho de Tiago, como disseste, é um escrito apócrifo do século II, mas muito possivelmente estes nomes são colocados a posteriori por uma questão de vazio que é deixado pelos próprios textos canônicos, os evangélicos que estão na Bíblia, mas também para dar um sentido teológico. Joaquim recorda uma personagem do livro Daniel, que é o marido de Susana, a famosa casta Susana, que recusa a tentativa de sedução de dois homens, até bastante agressiva junto a uma piscina, e que é por eles acusada de adultério, por não se querer envolver sexualmente com eles. Portanto, Joaquim faz recordar este esposo de Susana. E Ana, na Bíblia, no Antigo Testamento, tem duas personagens que são muito cimeiras. Por um lado, a mulher de Tobias, que trabalha incansavelmente depois do marido ficar cego para sustentar a família, ou depois também a mãe do profeta Samuel, que é também uma mulher estéril. A própria Maria já é pintada em Lucas com estas cores de Ana, a mãe de Samuel, e a própria mãe de Maria, depois no Protoevangelho de Tiago, vai assumir essas mesmas cores. Agora Sobre Maria e José, o que sabemos sobre o seu background? Sabemos que Maria e José eram uma família de uma aldeia da Baixa Galileia, chamada Nazaré, que não estava diretamente sob a administração romana como a Judeia estava. Estamos a falar de uma aldeia com uma população rural quase insignificante, estimada entre 400, 500 pessoas, portanto, uma aldeia muito pequena. O mundo deles é o mundo rural. O mundo de Jesus também é, as aldeias da tradição judaica, aldeia à volta, como Cafarnaum, Caná, Naim, fora claramente das grandes cidades helenísticas à volta, influenciadas pelo império grego. Há um dado interessante que é: a uma hora de caminho, cerca de 6 km, ergueu-se uma capital por Herodes Antipas, o que alimentou durante algum tempo, ainda que não se possa demonstrar isso, mas também não é nada irrazoável, que José e o próprio Jesus tenham trabalhado na construção dessa capital por volta de 26 depois de Cristo. José, como já referimos aqui, estava ligado às artes manuais, não era necessariamente um carpinteiro, mas era um artesão de materiais duros, podia trabalhar claramente em madeira, mas também podia ser pedra e ferro. E é curioso que um biblista, historiador-
Era da construção civil.
Era uma pessoa ligada à construção civil. O que nos permite tirar duas conclusões. Em primeiro lugar, como diz um historiador e exegeta americano, o John Polheimer, tem um livro extraordinário que se chama “O Judeu Marginal”, um calhamaço em vários volumes. Ele diz que a ideia de que Jesus e José são uns magricelos, esqueléticos deste tempo, é pouco provável, porque não resistiriam ao esforço físico necessário pra este trabalho, por um lado. Segundo, claramente não eram pessoas ricas, mas viveriam um bocadinho acima do limiar da pobreza. Aliás, Flávio Josefo, que é um historiador da época, diz que é muito possível que José e Maria fossem de uma espécie de classe média, porque nós sabemos que no interrogatório de Domiciano, Judas, que é dito irmão de Jesus, daqueles irmãos que às vezes aparece na Bíblia de Jesus, declara possuir uma parcela de terra cultivável. Portanto, quem possui terra não é claramente da classe mais baixa, não é um jornaleiro, nem uma pessoa escrava. Outros dois dados, só pra terminar. A estrutura familiar antiga não é a nossa estrutura familiar, nós não temos aqui claramente a família nuclear. O indivíduo não é claramente autônomo e socialmente independente e está muito ligado à aldeia, ao clã, ao tecido social, que até o legitimava à própria pessoa. E também é claro, pelos nomes que estão associados à família de José e de Maria na Bíblia, é evidente que a família de José e Maria era uma família claramente piedosa, que cultivava a tradição de Israel. Isso é visível logo no nome de Jesus, mas também os outros irmãos de Jesus, que podem ser por direito ou por sangue, chamam-se Tiago, José, Judas, Simão. Todos eles estão ligados à tradição de Israel, à tradição religiosa. Estamos falando aqui de uma família que não seria claramente extraterrestre no mundo onde Jesus nasce.
Ainda assim, há aqui um pormenor interessante neste contexto que o João apresentava, que é o fato de Nazaré ser uma periferia religiosa também. Não só era pequena, tanto quanto podemos reconstruir, isto são estimativas que o João aqui nos deu. É também difícil saber estas coisas com muita certeza, mas esta temos: em todo o Antigo Testamento, o número de vezes que Nazaré aparece referida é zero. Portanto, é um sítio completamente fora de tudo que é tradição bíblica, tradição judaica.
Não teve qualquer importância no Antigo Testamento.
Nada.
Daniel, a este propósito, logo no início do episódio, estávamos a falar muito do contexto sobre a vida de Maria e de José, do seu nascimento e infância, vem dos tais evangelhos apócrifos ou textos apócrifos. É, por exemplo, aí que encontramos a própria dificuldade de Ana e Joaquim em ter uma filha, também são estéreis. Depois também há um anúncio milagroso. Depois Maria é entregue no templo para viver de forma pura até ao dia em que é entregue a José. Quer dizer, tudo isso que surge nesses textos apócrifos. Queres explicar-nos muito rapidamente o que é que são estes textos? Há esses textos, esse Protoevangelho de Tiago, também há a história de José. Que livros são estes? Os cristãos acreditam neles?
É um grupo de textos que não é homogêneo, não é tudo igual. Nós temos tido pouco acesso a estas coisas em português. Aqui o Frederico Lourenço, há três ou quatro anos, publicou um livro chamado “Evangelhos Apócrifos Gregos e Latinos”, das poucas oportunidades que temos pra encontrar alguns destes textos. Apócrifos quer dizer, em primeiro lugar, escondidos. E isso alimenta, às vezes, uma certa teoria da conspiração que a Igreja que triunfou teria querido escolher só uma certa literatura oficial, com uma linha determinada daquilo que convinha, e tivesse escondido outros livros que revelariam a verdade. O “Códigos da Vinci” e outro tipo de literatura segue muito este tipo de argumentação. Mas não é verdade, ou pelo menos, certamente não é toda a verdade. Neste grupo de evangelhos ou textos apócrifos, uns têm uma certa pretensão de ser evangelhos, outros não. No fundo, são textos que ficaram fora do cânon. Já falamos sobre o cânon numa destas edições extra. E são textos que acabaram por não ser aceitos neste processo paulatino, demorado, diferenciado no Oriente e no Ocidente, de chegar a uma lista final de livros. Estes são livros que por um motivo ou outro ficaram de fora. Há aqui dois grandes grupos, eu diria, pra simplificar, de textos apócrifos. Uns serão textos gnósticos, que foram considerados heréticos. Gnose quer dizer conhecimento, portanto baseia-se, sobretudo, numa linha mistérica, iniciática, de que havia uma verdade profunda revelada. Alguns destes textos, por exemplo, foram descobertos. Uns sempre foram conhecidos, outros foram descobertos em Nag Hammadi, no Egito, nos anos 40. É um grande acervo destes tais textos considerados heréticos e, portanto, que foram
Postos fora de uso, porque não foram aceitos pelas comunidades cristãs no Oriente e no Ocidente. Outros, que é o caso deste que referíamos do Protoevangelho, no fundo são textos que tentam preencher um bocadinho os buracos e os vazios do texto. Os evangelhos canónicos, que são claramente os textos mais antigos que dispomos, falam-nos pouco e falam-nos só basicamente isto que referias, que delineavas rapidamente acerca de Maria e José. E já no século II, foram surgindo estas tradições que no fundo nascem desta busca, desta tentativa de explicar, de dar mais dados sobre a vida destes personagens.
Nós estamos mesmo a chegar ao final da primeira parte deste episódio, mas quero deixar aqui uma pequena nota para depois o que vai ser a discussão na segunda parte. Temos que tirar o elefante da sala e tentar perceber o que é possível e o que não é possível dizer sobre o tema que mais controvérsia gera em torno deste casal. Se aceitarmos os evangelhos como um relato relativamente histórico da vida de uma personagem que existiu mesmo, Jesus, somos confrontados com uma impossibilidade científica, que é a de que Maria era virgem quando engravidou. Os evangelhos de Mateus e de Lucas não perdem grande tempo com isso, limitam-se a dar o dado como adquirido. Dizem que o anjo apareceu a Maria, virgem que estava desposada com José, lhe disse que ia ter um filho concebido pelo Espírito Santo. A única expressão de incredulidade é uma frase muito simples de Maria, basicamente: “Como é que é possível se eu não conheço homem?” Mas imediatamente ela aceita e a história segue em frente. Os textos apócrifos que falámos até aqui parecem ter uma obsessão maior com o tema. Há aquele relato da parteira que quis confirmar a virgindade de Maria com a mão e até começou a mão a cair-lhe do braço quando ela ousou tentar confirmar isso. Também há uma discussão sobre o sentido da palavra virgem, se quer dizer virgem, se quer dizer jovem mulher. Muito rapidamente, João, antes de irmos pro intervalo, a Bíblia permite-nos resolver esta questão ou deixa a questão mais em aberto?
Sim, sempre uma questão complexa, pelo menos dependendo das expectativas que temos. Agora, aquilo que me parece de maneira muito simples dizer, e na segunda parte teremos tempo aprofundar isso, é que os evangelhos estão mais focados em mostrar a origem de Jesus do que propriamente em explicar o modo pelo qual Jesus foi gerado. Ou seja, a origem da ideia de Maria virgem é que aquele filho é de Deus. Os evangelhos já não estão propriamente preocupados em falar do modo como isso foi feito.
Muito bem, então já vamos perceber com maior profundidade esta controvérsia, este problema que tem sido colocado ao longo dos séculos. Voltamos depois de um curtíssimo intervalo para a segunda parte de “As Histórias da Bíblia”. Até já. Segunda parte de “As Histórias da Bíblia”, com os padres João Basto e Daniel Nascimento. Esta semana estamos a falar sobre Maria e José, o casal que criou Jesus e no final da primeira parte interrompi o pensamento do padre João Basto, que nos estava a falar sobre justamente a grande controvérsia em torno desta personagem, que é a mãe de Jesus, que os evangelhos nos dizem que era virgem quando engravidou de Jesus. João, afinal, como é que isto é possível? É a pergunta que toda a gente faz.
Na primeira parte nós dissemos, e acho que isso é importante, é uma das chaves, de que os evangelhos estão preocupados não em falar sobre o como, o modo como foi gerado Jesus, mas a origem da criança, que este filho vem de Deus. O que tem uma perspetiva polêmica com as histórias pagãs da época, onde os heróis nasciam muitas vezes de uma espécie de relação sexual entre Deus e os humanos. E, portanto, o evangelho não tem nada disso. Não há cá este erotismo entre Zeus e uma jovem da Galileia. Agora, o que nós podemos saber sobre esta polêmica? Realmente, é estranho que uma criança daquela época, de uma sociedade extremamente patriarcal, seja identificada como filha de uma mãe. Só raramente é que Jesus é associado como o filho de um carpinteiro, muitas vezes é associado como o filho de Maria. Isso pode ser estranho. Uma das grandes justificações é que José teria morrido mais cedo que Maria, mas não é claro que assim seja. Nós sabemos que desde o início existe um boato no seio do judaísmo, que a própria teologia cristã vai retomar, de que teria havido alguma ilegitimidade no nascimento de Jesus. Um filósofo grego, Celso, que dialoga com um teólogo chamado Orígenes, fala precisamente disso. Tertuliano, que é também um padre da Igreja, diz uma coisa que pra nós, portugueses, pode chocar, uma sensibilidade muito ligada à imagem de Maria e de Fátima, de que existiria um boato judaico de que Jesus era filho de uma mulher adúltera e até de uma prostituta. Portanto, há aqui claramente um boato que existe, que é contemporâneo até do tempo de Jesus. Aliás, há uma discussão no capítulo oitavo do Evangelho de São João em torno desta questão. O que é possível dizer, e estou a seguir aqui um livro chamado “Vida e Destino de Jesus de Nazaré”, de Daniel Margearat, um teólogo suíço, que diz que nós podemos, pelo menos, ter a ideia de que Jesus era uma criança cuja paternidade teria sido posta em causa. Poderia ter sido posta em causa na época, os evangelhos parece que relatam um bocadinho isso. Agora, nós não podemos ler esta ideia como um facto biológico avulso. Nós temos que ler a ideia da virgindade como algo muito mais amplo, que é uma consequência da ideia que já falamos anteriormente, no início, de que Jesus vem de Deus.
Mas isso não é uma maneira de fugir à pergunta difícil, que é uma impossibilidade científica.
Podemos sempre dizer que são sempre formas de fugir à pergunta.
É apenas a progressão que não resisto a fazer.
Nós temos que ter um bocadinho de limitações naquilo que é o nosso método. Ou achamos que o nosso método serve pra responder a tudo e a todos ao mesmo tempo, ou então assumimos que o método teológico tem limitações, a própria exegese tem limitações e há conclusões que são do foro mais teológico que propriamente histórico, e que a História vai até um ponto e a Teologia vai até outro ponto.
E não é possível fazer como a tal parteira.
Exatamente.
Mas essa questão da impossibilidade científica também tem os seus limites, porque se partirmos do princípio que isso não acontece, as mulheres não dão à luz virgens, portanto, isto sai fora deste campo, não tem uma impossibilidade científica, portanto, não aconteceu, tudo o que está aqui vamos tentar desvencilhar isso. Se partirmos do princípio que não há milagres, não há coisas que acontecem fora do acontecimento, daquilo que a ciência nos permite, então o que está aqui vamos tentar explicar de outra forma. Isto também depende muito do nosso ponto de partida, da nossa conclusão acerca do que é possível ou não é possível. O que é facto é que os textos, sobretudo os evangelhos, dão-nos esta virgindade como ponto adquirido. E até de atestações que são mais ou menos independentes, porque geralmente considera-se que quer Mateus, quer Lucas, não deram um ao outro, portanto, são fontes independentes.
E isso mostra claramente. Há quem diga: “Só Mateus e Lucas é que falam disto. Logo, há aqui algum problema”. Mas o facto de serem fontes independentes mostra claramente que isto era uma ideia que circulava na época, já com uma certa reflexão. Não é propriamente uma invenção cristã, que mais vezes se diz do século II ou do século III. Não, há aqui claramente um facto que depois tem uma interpretação teológica e que foi consolidada na ideia da virgindade de Maria.
Daniel, uma questão que também me ocorre e disse já quando introduzi este tema, é o debate em torno da linguagem que é usada para descrever isso. Eu lembro-me de estar a ler justamente a tradução do Frederico Lourenço do Evangelho, e há lá uma nota de rodapé em que ele alerta pra essa questão sobre os termos gregos que são usados para descrever a virgem, também no Antigo Testamento, se estamos a falar de uma palavra que quer mesmo dizer virgem ou se quer dizer apenas uma jovem mulher que estaria na idade pra casar. As traduções, a história da tradução da Bíblia também alimentou esta questão ao longo da História.
Alimentou, e isso deve-se também a um salto hermenêutico, cultural, linguístico, na passagem do hebraico pro grego. Provavelmente, estás te referindo a esta tradução, diz aí as sete capituais, que a virgem consagrada era a luz um filho. De facto, a palavra que está ali em hebraico, esta “almah”, o significado seria não virgem, mas uma jovem rapariga que à partida é virgem. Portanto, a virgindade incluída no campo semântico da coisa, mas não necessariamente só essa perspectiva. Isso também é transformado à medida que se passa do mundo hebraico e da linguagem hebraica pro campo grego. Aliás, quando falamos de irmãos do Jesus, e o João já referia aqui isso, o que é que são esses irmãos de Jesus, também encontramos este mesmo problema. O que quer dizer este irmão? Significa irmão biológico, irmão de sangue, mesmo pai, da mesma mãe, ou tem um sentido mais lato? Podemos depois também falar disso, desenvolver um pouquinho esse aspecto. De qualquer forma, o que a Bíblia nos apresenta é esta virgindade, estes relatos de Mateus e de Lucas, este fruto do seio de Maria ser sem intervenção humana, até ao parto, até ao nascer de Jesus. Esta questão da virgindade perpétua, o facto de Maria ter permanecido virgem durante toda a vida, Maria e José, numa consagração a Deus, é algo que a Bíblia não trata. É depois no desenvolvimento da questão, na tradição eclesial, que vai aparecendo. Mas mesmo assim, pra vermos essa diferença no Ocidente e no Oriente, ou seja, no cristianismo de língua latina e no Ocidente, e no cristianismo de língua grega, no Oriente, a figura de José era vista de uma forma diferente. No Oriente, seguindo este protoevangelho de Tiago, considerava-se que José era um homem mais velho, de uma certa idade.
Já tinha outros filhos.
E que já tinha filhos. E portanto, estes tais irmãos de Jesus, no fundo, seriam filhos de uma anterior relação de José.
Meios-irmãos.
Meios-irmãos. Enquanto no Ocidente, sobretudo seguindo São Jerônimo, que viveu no século IV, no fundo, vê José não necessariamente como homem mais velho, mas um homem mais novo e, portanto, os irmãos não seriam filhos biológicos nem de José nem de Maria, mas membros de um clã familiar mais alargado, porque, de facto, o conceito de irmão no mundo hebraico pode ter esse significado de uma espécie de clã familiar, primos ou coisa parecida.
Mas só pra precisar, eu acho que é possível nós dizermos que o conceito da virgindade de Maria parte do seguinte pressuposto, que é: numa situação de dúvida e de possível até, partindo até de algumas interpretações talvez mais exageradas, mas de irregularidade, de suspeita face ao nascimento de Jesus, aquilo que a teologia refletiu, os evangelhos refletiram logo, é que independentemente das circunstâncias, aquilo que nasceu Aquele que nasceu, mais do que aquilo, neste caso, aquele que nasceu é fruto de Deus, mesmo que as circunstâncias sejam de suspeita, de dúvida, de irregularidade. E isso é a base que está depois detrás da doutrina que vai ser consagrada como virgindade de Maria.
Impossível, portanto, fechar aqui biologicamente uma questão.
Nem é sequer o centro da questão. Ler biologicamente, como disse, ler este dado unicamente como um dado biológico, um facto biológico avulso, é deturpar claramente a visão e o horizonte teológico desta reflexão, e até literária desta reflexão. E até mesmo histórica.
E a leitura da Bíblia que é feita pelos crentes pressupõe sempre uma perspectiva de que a realidade não se esgota na aplicação científica.
O que nós podemos concluir ao ler a Bíblia, mesmo com um olhar leigo, é: realmente o nascimento de Jesus foi um dado polêmico. E os cristãos interpretaram isso de uma determinada maneira.
Muito bem. Depois do nascimento milagroso, a história que se segue é muito conhecida de todos. As festas do Natal e da Páscoa, por exemplo, ajudam a contar essa história. Vemos nos textos dos evangelhos o nascimento de Jesus, que surge no texto de Lucas, que dá origem, por exemplo, às imagens do presépio. É ali que depois a família é visitada por uns magos, que são descritos no evangelho de Mateus. Depois a família foge pro Egito pra escapar à perseguição do rei Herodes, que manda matar todas as crianças com menos de dois anos. Ele tinha medo do surgimento de um rei mais importante do que ele. Sabemos muito pouco do que acontece entretanto, a não ser aquele curioso episódio em que Maria e José perdem Jesus durante uma peregrinação a Jerusalém por altura da Páscoa, que depois encontram-no a conversar com os doutores no templo. Parece quando os pais perdem os filhos no corredor de supermercado.
Ele sozinho em casa.
Exato. Sozinho em casa. Depois não sabemos muito mais sobre a vida desta família, até ao início dos relatos da vida adulta de Jesus, em que José já desaparece da narrativa. Acredita-se que poderá ter morrido antes. Mas, curiosamente, ainda vemos Maria muitas vezes aparecer no texto. Daniel, tu falavas há pouco, muito rapidamente disso. Os evangelhos vão dando algumas pistas sobre a família biológica de Jesus, falam muito da presença da mãe. Também em alguns momentos falam da presença dos irmãos, usam esta palavra, irmãos.
Certo.
Tem dado muita discussão, não é? Esta existência de possíveis irmãos biológicos.
Claro, na medida em que depois parecem contradizer esta afirmação de virgindade de Maria, sobretudo no contexto da afirmação de uma virgindade perpétua.
Claro. Ou seja, mesmo se não se pusesse em causa a virgindade no nascimento de Jesus, teria de se pôr em causa no nascimento dos outros irmãos.
Claro. Mas a questão é irresolvível, na medida em que certezas absolutas não estão ao nosso alcance, porque há tradições diferentes, até com uma leitura diferente, como esta que eu referi, e que ganharam espaço no Ocidente e no Oriente de forma diferente. É claro que podemos dizer que há aqui uma desvalorização da sexualidade e esta ideia de que a virgindade seria um estado espiritualizado de perfeição e seria uma desvalorização por oposição, e sobretudo no protestantismo. É curioso, eu não tinha bem esta noção, mas os primeiros reformadores, Lutero, Calvino, Zwinglio, parece que eles próprios aceitavam a ideia de uma virgindade perpétua e é sobretudo no protestantismo seguinte que vão atacar um pouquinho esta ideia. A questão é que o texto fala-nos de irmãos, fala-nos de Maria com irmãos, umas vezes até nomeados. O João referiu há bocadinho alguns nomes destes irmãos, que fariam parte de um grupo familiar. É certo. Se eram biologicamente irmãos de Jesus, filhos de Maria ou filhos de José, é possível que sim, é possível que não. É claro que a leitura mais imediata é que sim, mas não é impossível, pelo que sabemos da cultura hebraica, porque há amplas atestações deste uso da palavra irmão no hebraico. Os evangelhos são escritos em grego, mas numa cultura, num contexto hebraico. Portanto, também não serve dizer que a palavra grega adelphós significa irmão de sangue, porque há uma outra palavra grega para dizer primos. Porque, de fato, na mundividência hebraica, ach, que é a palavra para irmão, tem um campo semântico mais amplo. Sim, nós temos que ter a humildade de perceber que nós não vamos conseguir, com tradições que não são concordes entre si, chegar a uma factualidade de que exista um Jesus ideal. O Daniel falou, por exemplo, do São Jerônimo, que claramente defende esta ideia do adelphós não ser necessariamente irmãos, mas poder ser primos, ser uma comunidade alargada. Mas nós tivemos padres da Igreja tão importantes pra nós como Tertuliano e Eusébio de Cesareia, que falam explicitamente de irmãos de sangue de Jesus. Portanto, as coisas não são assim tão fáceis pra chegar a uma resposta final.
Muito bem, vamos acelerar um bocadinho, porque ainda tenho algumas perguntas pra vos fazer e o tempo corre. O evangelho de João, por exemplo, dá-nos ainda alguns vislumbres sobre a presença da mãe de Jesus na vida pública de Jesus. Embora não lhe dê nome, é um aspecto curioso. A mãe de Jesus não se chama Maria no evangelho de João.
As mulheres.
É só a mulher. Por exemplo, logo no primeiro milagre ou sinal, como diz no evangelho de João, é a mãe de Jesus que está com ele naquele casamento que há em Caná, que até lhe diz: “Olha, que o vinho acabou”. Vê lá se fazes qualquer coisa para isso. E é aí que temos o famoso milagre da transformação da água em vinho. João, conta-nos alguma coisa sobre a importância que Maria foi tendo na vida de Jesus.
Eu respondo agora a isto e se calhar já respondo à pergunta que me ias fazer no final, porque acho que se ligam. Contrariamente ao que nos pode parecer ao longo do ministério de Jesus, a importância de Maria é, de facto, nas fontes mais antigas, nos evangelhos, até mínima e às vezes até discreta ou pelo menos tensa. Nós sabemos, por exemplo, Paulo não reconhece um papel especial da Maria, fala que Jesus é nascido de mulher, mas não há ali muito desenvolvimento da figura de Maria. E em Marcos, o evangelho mais antigo, a imagem é francamente negativa, com Jesus muitas vezes a opor-se à família e a família até quase a ir buscá-lo a um lugar, porque, diz o evangelho, achavam que ele estava fora de si, estava maluquinho da cabeça. É curioso que Maria acaba por ter uma relevância muito importante na história da Igreja, na história da teologia e na história cultural. Há um livro de uma professora de Yale que diz que Maria é a mulher para todos os tempos e para todas as latitudes, porque a forma como nós a interpretamos acaba por ser um código cultural dos nossos próprios códigos de sociedade. Agora, acho que há dois pontos ou três que ajudam a perceber a importância de Maria. O primeiro é o que acontece precisamente em Caná, como referiste. Maria entra na cena com uma ideia errada de Jesus. Ela dirige-se a ele a partir de exigências que seriam naturais de uma mãe fazer a um filho, mas Jesus parece inverter o ônus e ajudar a mãe a sair dos seus laços familiares de sangue para uma outra compreensão dos laços e das relações com as pessoas. E creio que isso é muito importante para o futuro da imagem de Maria, a ideia de que Maria tem que corrigir as suas expectativas, como também os cristãos têm que corrigir as suas expectativas. Depois, Maria é muito importante pelo contraponto a Eva na história da teologia, com Agostinho e Irineu isso é muito importante. A última questão é que Maria é o garante que Jesus é verdadeiramente homem e por isso vai levar a que nos primeiros séculos, onde Jesus é tido como um semideus ou um semi-Hércules, nós vamos precisar de recorrer a Maria para dizer: “Não, olha, meus amigos, ele nasceu realmente de uma mulher de carne e osso e é realmente homem e não é meramente um deus com uma humanidade aparente”.
No livro dos Atos dos Apóstolos, que é o que vem logo a seguir aos evangelhos, também é dito, ainda é referida a existência de Maria, ela ainda seria viva naquela primeira comunidade de cristãos. Daniel, ela assume um papel de moderador entre os primeiros membros daquilo a que já podemos chamar uma igreja depois de Jesus?
É difícil dizer muito mais do que aquilo que está escrito, e o que está escrito é parco. São coisas poucas ao longo dos evangelhos e também no livro dos Atos, mas é interessante que, de facto, apareça, sequer apareça. E alguns episódios são significativos. O facto de no evangelho de São João, Maria aparecer junto da cruz, quando há uma espécie de desertar coletivo, com exceção do discípulo predileto, é significativo. O facto de em Atos, logo no primeiro capítulo, no versículo 14, os apóstolos estarem reunidos com Maria e com os irmãos de Jesus, e que depois o livro dos Atos vai desenvolver e também nas cartas de Paulo vemos isso, a figura destes irmãos, sobretudo de um tal Tiago, que se torna o líder desta comunidade, da primeira comunidade cristã de Jerusalém. Portanto, uma figura que de certa forma acompanha Pedro na liderança da comunidade cristã. Mas Maria está ali e o fato de estar ali é significativo. É claro que podemos hipotetizar e desenvolver, romantizar, entre aspas, um bocadinho o seu papel. A verdade é que não sabemos, mas o próprio fato de estar mencionada já nos diz que tinha, sim, um peso específico. Se não tivesse, não era referida.
Daniel, para uma resposta de uma frase muito curta para o final. Estamos num país em que, por exemplo, com Fátima, há uma relevância muito grande da personagem de Maria para o catolicismo português. Já falámos aqui neste podcast sobre a questão das mulheres na Bíblia, mas a importância de Maria, aliás, todas essas mulheres do Antigo Testamento acabam por ser muitas vezes apontadas como precursoras de Maria. A importância de Maria não só nos textos, mas depois na vida de Jesus, também ajuda a redefinir um bocadinho o pensamento da Bíblia sobre as mulheres.
Eu penso que sim, porque apesar de às vezes se criticar ou de uma certa vinha de crítica de Maria ser uma espécie de figura de um paradigma, de um modelo de mulher obediente, submissa, silenciosa, só mãe, há uma certa valorização, sobretudo a partir de certas correntes mais feministas, mas também que entraram bem no pensamento geral da Igreja, reconhecer Maria, outros aspetos da vida de Maria e Maria encarnando também esta dimensão de povo e das expectativas de Deus, de reviravoltas, por exemplo, o Magnificat, este cântico de Maria, é também algo muito valorizado em Maria como a figura deste-
Que derrubou os poderosos
Que derrubou os poderosos.
Muito bem, chegamos ao final do nono episódio da segunda temporada de Histórias da Bíblia. Na próxima semana vamos falar sobre o próprio Jesus Cristo, figura decisiva da história da humanidade para crentes e não crentes. E já sabem, podem enviar-nos perguntas, comentários e sugestões para ashistoriasdabiblia@observador.pt. Nós respondemos às perguntas todas as quintas-feiras num episódio especial em podcast. Até para a semana aqui na Rádio Observador e até quinta-feira em podcast. As Histórias da Bíblia é um podcast da Rádio Observador com Daniel Nascimento e João Basto. É apresentado por mim, João Francisco Gomes, e a música do genérico é de Tiago Afonso.

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