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Entre dragões, super-heróis e clássicos brasileiros

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Tem semanas em que os grandes lançamentos parecem concentrar toda a atenção. Mas, muitas vezes, o mais interessante está justamente um passo além: nas consequências de uma batalha, naquele personagem que parecia secundário, num clássico longíquo do cinema brasileiro.

A edição desta semana passeia por tudo isso. Entre A Casa do Dragão, Supergirl, cinema nacional e as principais estreias dos próximos dias, reunimos recapitulações, indicações e algumas reflexões que surgiram enquanto assistíamos às novidades da semana.

Vamos nessa!

A Casa do Dragão: Alguém anotou a placa?

A terceira temporada de A Casa do Dragão começou forte – Imagem: Divulgação e Olhar Digital

Começos de temporada geralmente tentam te conquistar no grito. Primeiros episódios costumam ter cenas irresistíveis, sequências de ação incríveis e cliffhangers que te deixam na beira do sofá. O pontapé da terceira temporada de A Casa do Dragão, lançado no último domingo (21), não é exceção. É um primeiro episódio que segue essa cartilha à risca.

O começo da terceira temporada do spin-off de Game of Thrones é daqueles que te atropela. Do meio para o final, me peguei agarrando o sofá mais forte a cada take. A cada cena. A cada morte. Belíssima direção de Loni Peristere (cofundador e sócio da Zoic Studios, uma das “empreiteiras” dos efeitos visuais da série). E belíssima performance de Olivia Cooke, que interpreta Alicent, carregada de gestos, olhares e expressões tão discretos quanto significativos.

É apenas o começo da temporada. Mas o gosto é de season finale, com grandes batalhas (aquela no mar ficará conhecida como Batalha da Goela, aliás) e mortes impiedosas bem no estilo Game of Thrones. No segundo episódio, que vai ao ar no próximo domingo (28), meu palpite é que a série vá fazer o que geralmente faz após grandes conflitos com grandes consequências: explorar os escombros, fazer o rescaldo e começar a reorganizar as peças no tabuleiro. Ao meu ver, este vai ser o começo “de verdade” da temporada. O que assistimos em “Sal e Mar, Fogo e Sangue” funciona mais como final da segunda temporada.

Aliás, a série vai continuar a te cutucar para escolher um lado. Verdes ou Pretos – de que time você é? É uma velha artimanha para farmar engajamento (lembra da época da Guerra Civil no Universo Cinematográfico da Marvel?). A minha dica é: olhe a história de cima em vez de num dos lados. Ela fica bem mais interessante. Fique atento aos paralelos e contrastes entre Rhaenyra (Emma D’Arcy) e Alicent, Daemon (Matt Smith) e Aemond (Ewan Mitchell), Viserys I (Paddy Considine) e seu filho Aegon II (Tom Glynn-Carney).

Se quiser mergulhar ainda mais fundo enquanto o segundo episódio não chega, recomendo dois conteúdos: o primeiro episódio do podcast da série, que traz Harry Collett (“Jace” Velaryon, filho primogênito e herdeiro de Rhaenyra) e Ryan Condal (co-criador e o showrunner da série); e esse vídeo do youtuber e crítico de cinema PH Santos, no qual ele faz o que chamou de “raio-x, ‘em detalhes’ e sala de guerra” do primeiro episódio da terceira temporada.

O que observar no segundo episódio de A Casa do Dragão (sem spoilers)

Queria aproveitar o fato de já ter lido Fogo & Sangue, livro que inspirou a série, para fazer outra coisa. Em vez de tentar prever o que vai acontecer no próximo episódio, separei três perguntas que podem deixar a experiência ainda mais interessante – sem spoilers, prometo.

1. Quem realmente venceu a Batalha da Goela?

A resposta pode parecer óbvia quando os créditos sobem. Mas, nos livros de George R. R. Martin, uma batalha raramente termina quando o último golpe é desferido. As consequências políticas costumam ser mais importantes do que o resultado militar. Vale prestar atenção em quem ganhou espaço e, principalmente, em quem perdeu.

2. Como a batalha mudou cada personagem?

A Casa do Dragão nunca foi uma série apenas sobre dragões ou guerras. Ela também é sobre a forma como o poder, o luto e a ambição transformam as pessoas. No próximo episódio, eu prestaria menos atenção ao tamanho das batalhas e mais às reações de cada personagem. Rhaenyra é um bom ponto de partida, mas vale observar como todos lidam com as consequências do que aconteceu na Goela.

3. Não ignore quem acabou de entrar na história

A Batalha da Goela costuma chamar atenção pelos grandes nomes envolvidos. Mas, se tem uma coisa que Fogo & Sangue faz muito bem, é transformar personagens aparentemente periféricos em peças importantes da guerra. Então, se alguém que você mal conhece começar a ganhar alguns minutos extras de tela, talvez exista um bom motivo para isso.

Pode ser que nenhuma dessas perguntas tenha uma resposta clara já neste domingo. Mas desconfio que elas deixem o segundo episódio um pouco mais interessante de assistir.

Tesouros escondidos no streaming Tela Brasil

Tela Brasil é uma plataforma de streaming gratuita do governo com foco em produções nacionais – Imagem: Divulgação / gov.br

Lançado em 30 de maio de 2026, o streaming Tela Brasil tem mais de 500 títulos em seu catálogo. Depois que você faz login com a sua conta Gov (é, eu sei), pode navegar rolando a tela inicial para baixo ou clicando nos botões “Categorias” (Diversidade Cultural, Juventude, Artes) e “Gêneros” (Ficção, Documentário, Animação). 

O Tela Brasil te traz a oportunidade de conhecer a base do cinema com o nosso tempero. Confira abaixo sete tesouros que encontrei enquanto fuçava no streaming:

O Sal da Terra (2014)

O documentário acompanha a trajetória de quatro décadas do renomado fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado (1944-2025). ele viajou pelos cantos mais isolados do planeta registrando a crueza e a beleza da condição humana em meio a conflitos, fomes e migrações em massa, até redirecionar seu olhar para o projeto Gênese, focado em paisagens intocadas e na preservação ambiental. Codirigido pelo cineasta alemão Wim Wenders e por Juliano Ribeiro Salgado, filho do fotógrafo, a obra é um dos marcos mais aplaudidos do gênero documental associado ao país. Ela conquistou o Prêmio Especial do Júri na mostra Un Certain Regard no Festival de Cannes e uma indicação ao Oscar de Melhor Documentário em 2015. Em suma: é fundamental para a história do audiovisual por demonstrar o poder da interseção estética entre a fotografia e o cinema.

Carandiru (2003)

Conduzido pelo olhar de um médico que faz um trabalho de prevenção ao HIV na Casa de Detenção de São Paulo, o longa expõe o cotidiano, as leis próprias e as contradições daquele microcosmo por meio dos relatos dos próprios detentos. O enredo culmina no massacre de 1992, quando 111 presos morreram após intervenção da polícia militar. Dirigido por Hector Babenco e baseado no livro de Drauzio Varella, o filme é um dos maiores fenômenos de público e crítica da Retomada do cinema nacional. A obra atraiu mais de 4,6 milhões de espectadores aos cinemas e competiu na seleção oficial do Festival de Cannes em 2003. Além disso, marcou a história do audiovisual brasileiro ao provar que a indústria nacional era capaz de produzir um blockbuster com apelo popular sem abrir mão do teor de denúncia social.

O que é Isso, Companheiro? (1997)

Baseado no livro autobiográfico de Fernando Gabeira, o longa – com Fernanda Torres, Pedro Cardoso e Matheus Nachtergaele no elenco – recria o tenso episódio de 1969 no qual jovens integrantes dos grupos guerrilheiros MR-8 e ALN sequestram o embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Charles Burke Elbrick (interpretado por Alan Arkin no longa), em plena ditadura militar, exigindo a libertação de presos políticos em troca de sua vida. Dirigido por Bruno Barreto, o longa é um dos principais marcos do período da Retomada nos anos 1990. O filme conquistou uma indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1998 e se consolidou na história do audiovisual por reacender o debate público sobre a memória política do país e os limites da luta armada contra o regime autoritário.

A Hora da Estrela (1986)

O filme acompanha Macabéa (Marcélia Cartaxo), jovem órfã e semianalfabeta que migra de Alagoas para a metrópole de São Paulo. Vivendo numa pensão precária e trabalhando como datilógrafa, ela navega pela solidão urbana e pela indiferença social de forma quase invisível, agarrando-se a pequenos prazeres cotidianos e a um namoro desajeitado com o ambicioso Olímpico de Jesus (José Dumont). Dirigido por Suzana Amaral, o longa marcou o cinema brasileiro nos anos 1980 ao adaptar com rara precisão o último romance de Clarice Lispector. E conquistou projeção global no Festival de Berlim de 1986, onde Marcélia ganhou o Urso de Prata de Melhor Atriz.

A Noite do Espantalho (1974)

Num sertão pernambucano castigado pela seca, o tirânico Coronel Fragoso (Emmanuel Cavalcanti) decide vender suas terras e expulsar quem morava lá. A comunidade encontra uma voz no retirante Zé Tulão (Gilson Moura), que organiza a resistência popular contra o despejo ao mesmo tempo em que disputa o amor de Maria do Grotão (Rejane Medeiros). Dirigido pelo multiartista Sérgio Ricardo e rodado no imenso teatro ao ar livre de Nova Jerusalém, o filme é um dos experimentos mais ousados do cinema nacional. A obra mistura a crônica social herdeira do Cinema Novo com a estrutura de uma ópera-cordel. Escolhido para representar o Brasil na corrida do Oscar de 1975, o longa se destaca na história do audiovisual por sua estética teatral marcante e por colocar em cena os jovens Alceu Valença e Geraldo Azevedo em início de carreira.

Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964)

No sertão baiano, o vaqueiro Manuel (Geraldo Del Rey) reage à exploração, mata um coronel latifundiário e foge com sua esposa, Rosa (Yoná Magalhães), mergulhando numa jornada violenta e mística. O casal vaga primeiro pelo fanatismo religioso liderado pelo beato Sebastião (Lidio Silva). Depois, junta-se ao cangaço de Corisco (Othon Bastos), enquanto tenta escapar de Antônio das Mortes (Mauricio do Valle), caçador de recompensas contratado pela Igreja e pelos grandes proprietários de terra. Dirigido por Glauber Rocha em 1964, este longa é o pilar definitivo do Cinema Novo e uma das maiores revoluções estéticas do audiovisual global. Ao materializar o conceito da “Estética da Fome”, Glauber rejeitou as fórmulas narrativas de Hollywood para construir uma linguagem cinematográfica brasileira, com montagem visceral e alegorias poéticas para escancarar as raízes da miséria e da violência no país. Isso rendeu ao filme uma indicação histórica à Palma de Ouro em Cannes.

Orfeu Negro (1959)

Adaptando o mito grego de Orfeu e Eurídice para o cenário de uma favela carioca durante o Carnaval, Orfeu Negro acompanha a paixão trágica entre um condutor de bonde músico e uma jovem que foge de um perseguidor que representa a própria Morte. Para além do enredo dramático, este clássico dirigido por Marcel Camus e baseado na peça Orfeu da Conceição, de Vinicius de Moraes, é um pilar na história da projeção cultural do país. Foi o primeiro filme em língua portuguesa a vencer a Palma de Ouro em Cannes e o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. A obra despertou o interesse estrangeiro pelo potencial do audiovisual nacional pouco antes do surgimento do Cinema Novo.

Estreias no cinema

Mal assimilamos Toy Story 5 e já vem outro blockbuster de Hollywood: Supergirl. Interessante um filme protagonizado por Milly Alcock, que interpretou a jovem Rhaenyra Targaryen na primeira temporada de A Casa do Dragão, estrear justo na semana que voltamos para o spin-off de Game of Thrones, né? A indústria cultural tem dessas. Enfim, vamos aos destaques das estreias desta semana nos cinemas:

Supergirl

Baseado na história em quadrinhos Supergirl: Mulher do Amanhã (ilustrada pela brasileira Bilquis Evely, inclusive), o longa afasta a heroína da Terra e a joga numa ficção científica espacial. Dirigido por Craig Gillespie (Cruella), o filme traz Milly Alcock no papel de Kara Zor-El. Aos 21 anos e ainda traumatizada pela destruição de seu planeta natal, ela tenta viver isolada, mas é forçada a agir. A trama engrena quando Kara decide ajudar a jovem alienígena Ruthye (Eve Ridley) a se vingar do mercenário Krem (Matthias Schoenaerts). A perseguição se transforma numa jornada por diferentes sistemas solares onde a ausência do sol vermelho anula os poderes da kryptoniana. Vulnerável, ela precisa sobreviver a perigos extremos e fugir do caçador de recompensas Lobo (Jason Momoa). Ao seu lado, tem a sua sagacidade. E, claro, o supercão Krypto.

Segredo Obscuro

Elisabeth Moss interpreta Samantha Lake, atriz talentosa que luta para recuperar o prestígio em Hollywood enquanto enfrenta a escassez de papéis e a pressão da idade nos testes de elenco. Em crise financeira e com a autoestima abalada, ela cede às pressões do mercado e procura Shell, badalada empresa de bem-estar comandada pela CEO Zoe Shannon (Kate Hudson). O que parecia a oportunidade perfeita de rejuvenescimento e mentoria exclusiva logo vira um pesadelo quando a protagonista passa a manifestar sintomas estranhos e testemunha o sumiço repentino de sua amiga Chloe (Kaia Gerber). Isso desencadeia um perigoso jogo de gato e rato para desmascarar a verdade por trás do tratamento milagroso.

Apenas Coisas Boas

O isolamento e a rotina silenciosa de Antônio (Lucas Drummond), caubói recluso que vive numa fazenda no interior de Goiás, são interrompidos por um evento inesperado neste drama nacional. Ambientado na região rural de Batalha das Neves em 1984, o filme acompanha o momento em que o camponês decide acolher Marcelo (Liev Carlos), motoqueiro solitário que sofreu um acidente na estrada próxima à propriedade. E, assim, começa uma paixão avassaladora entre os dois, o que provoca transformações emocionais e rompe com o estilo de vida rígido sustentado por eles até então.

Também acabou de chegar…

Várzea: Onde Nasce o Futebol — minissérie documental sobre o futebol de várzea brasileiro estreou na Netflix;

Homem-Aranha: Através do Aranhaverso — animação vencedora do Oscar chegou ao catálogo da Netflix;

See You At Work Tomorrow! — série sul-coreana sobre relacionamentos no ambiente de trabalho estreou no Prime Video;

Avatar: Fogo e Cinzas — capítulo mais recente da franquia criada por James Cameron chegou ao Disney+;

Avatar: O Último Mestre do Ar — segunda temporada da adaptação em live-action da animação da Nickelodeon estreou na Netflix;

Little Brother — comédia estrelada por John Cena estreou na Netflix;

O Urso — quinta temporada da premiada série estrelada por Jeremy Allen White chegou com todos os episódios ao Disney+.

O que chega aos streamings nesta semana

Disney+;

HBO Max;

Netflix;

Prime Video.

O que esperar para a próxima semana nos streamings?

Elle — primeira temporada da série do universo de Legalmente Loira estreia nesta quarta-feira no Prime Video;

Enola Holmes 3 — filme de mistério estrelado por Millie Bobby Brown estreia nesta quarta-feira na Netflix;

X-Men ’97 — os primeiros três episódios da segunda temporada da produção da Marvel Animation estreia nesta quarta-feira no Disney+;

Sobrevivendo em Grande Estilo — terceira e última temporada da série estreia nesta quinta-feira na Netflix;

Mamonas Assassinas: O Filme — filme brasileiro chega nesta sexta-feira ao catálogo da HBO Max.

Sugestões e críticas podem ser enviadas para ana.figueiredo@olhardigital.com.br e pedro.spadoni@olhardigital.com.br. Até a próxima sexta! Bom fim de semana!

Ana Luiza Figueiredo e Pedro Spadoni

Repórteres do Olhar Digital
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