CIÊNCIA

A chatice dos números

Quando o INE confirma que, em 2025, vivem em Portugal 11,42 milhões de pessoas ficámos a saber que a população cresceu mais nos últimos dez anos que o PIB. Ou seja, que o PIB per capita desceu. O que significa que estamos mais pobres. Mais pobres apesar de António Costa (durante 8 anos) e Luís Montenegro (nos dois que já leva) nos dizerem que não. Que a economia cresceu e que continua a crescer, logo que estávamos mais ricos.
Os números têm esta coisa: contam-nos mentiras, mas também nos dizem a verdade. A verdade é que a economia cresceu na última década a um ritmo superior à média europeia. A mentira é que estamos mais ricos. E não o estamos porque a economia cresceu apenas porque há mais pessoas a trabalhar, a produzir, a criar riqueza. Infelizmente não o suficiente para compensar o aumento da população. Porque o que falhou não foi o trabalho. Foi a produtividade.A produtividade não significa mais trabalho, mas mais resultados. Pede mais tecnologia, o que requer mais investimento, o que exige mais capital. Mas também depende das áreas em que se decide investir. Por exemplo, o turismo é um sector excelente para um país como Portugal, mas que não paga salários muito elevados porque o conhecimento exigível para quem trabalha num restaurante ou num hotel ou que tem um AL não é muito elevado. Na generalidade dos casos a mão-de-obra não é qualificada; a mais-valia é pequena; a produtividade, curta; os salários, baixos.Nada disto é novidade conforme mencionei em Outubro de 2025, já lá vão quase dois anos. Os números só o vieram confirmar. Mas os sucessivos governos foram-nos dizendo que estávamos mais ricos. Algo semelhantemente ilusório (e é muito importante ter em conta este ponto porque nos pode ser fatal num futuro próximo) é o que se está a passar com os números da dívida pública. Em 2025, esta foi de 274,8 mil milhões de euros. Mais 3,9 mil milhões que em 2024 e de cerca de 35 mil milhões de euros que há 10 anos. A tendência é de subida, embora face ao PIB se registe uma descida: de 131% do PIB em 2016 para 89,7% em 2025. Sucede que se ficámos a saber pelo INE que o crescimento do PIB se deveu ao aumento da população imigrante isso significa que se a população deixar de crescer ao mesmo nível, a dívida face ao PIB sobe. Pior: que o crescimento se deveu unicamente à chegada de imigrantes e não à melhoria da produtividade, a um aumento do capital, a uma maior eficiência do estado. Não derivou de uma estratégia, de uma política. Foi só um acaso que aconteceu. Ou seja, se nada fizémos para melhorar não há planos para evitar que piore.
Um dos grandes feitos do governo de Montenegro foi a redução de entrada de estrangeiros em Portugal. Não questiono essa medida porque não há forma de integrar tanta gente. Mas deixo a pergunta: se a descida da dívida pública face ao PIB se deveu ao crescimento económico que dependeu do aumento da população, o que é que vai acontecer se a população deixar de aumentar? A pergunta, já de si pertinente, torna-se ainda mais premente quando a redução da imigração surge ao mesmo que se prepara o regresso dos défices das contas públicas.A partir de 1996 Portugal convenceu-se que era rico. A adesão ao euro veio confirmar essa ideia. Nessa altura tapámos os ouvidos a quem nos disse que não éramos nós que estávamos mais ricos, mas o dinheiro que ficou mais barato. A vida era demasiado fácil para andar a fazer reformas difíceis. Agora tornou-se demasiado difícil para que se façam reformas custosas. Foi por isso que quisemos acreditar que estávamos mais ricos. Da mesma forma continuamos a crer que a dívida pública não é um problema. No fundo, e mesmo depois de tantos sacrifícios, os últimos 30 anos parece não terem sequer servido para evitar a repetição dos erros. Mas pode ser que surja outro acaso e o país político se possa continuar a iludir.Um exemplo interessante desse gosto que os nossos governos nutrem pela ilusão é a proposta de um  fundo soberano como o que Luís Montenegro anunciou no último congresso do PSD, debaixo de aplausos. Normalmente, estes são financiados por um rendimento extraordinário com vista à criação de um montante que dê garantias de estabilidade financeira em caso de crise ou que mantenha a qualidade dos serviços públicos quando esse rendimento extraordinário cessar. A ideia peregrina deste governo é financiar o fundo soberano com o orçamento. Basicamente, com défice e com dívida. À ideia, já de si assustadora, junta-se a intenção de que esse fundo sirva como “instrumento de autonomia e intervenção do Estado em sectores estratégicos” (Montenegro dixit). Basicamente, no capital das empresas que não deixarão de ter ligações políticas. É demasiado mau para ser verdade, mas é mesmo verdade.

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