CIÊNCIA

É patriótico torcer pela selecção?

É má ideia responder ao cinismo, porque o cinismo é aquele vício do espírito que usa verdades insignificantes para troçar de verdades profundas, e é impossível conversar com quem não percebe a diferença entre uma coisa e outra; ainda assim, há coisas que devem ser ditas mesmo quando sabemos que vão cair em saco roto, sobretudo quando servem para defender ideias bonitas e generosas, pervertidas por inteligências fascinadas consigo próprias.
Vem isto a propósito de uma mania que vi espalhar-se por aí – abraçada, não diria por grandes, mas pelo menos por médios intelectuais da nossa praça – de exprimir repugnância pela “vaga patriótica” que a selecção nacional gera.As reacções podem ser as mesmas, mas não são iguais. Há uma corrente nórdica (pela frieza que exibe, não se queira ver aqui qualquer resquício de uma primitiva afeição baseada em arbitrários critérios geográficos) que pura e simplesmente se declara imune ao sentimentalismo, à parolice, e que reconhece a superioridade do seu livre-arbítrio face ao acidente temporal que o fez nascer português. Torcem por quem querem, como homens livres saídos da caverna, que não se deixam impressionar pelos barbarismos arcaicos e tribalistas que afectam os outros; mas há uma corrente ainda mais virtuosa, que liga as sirenes quando ouve falar em selecções nacionais. Para eles, o patriotismo não é só ridículo; é também perigoso. Estamos a encorajar o sentimento que foi o motor de Hitler e dos fascismos; cada golo do Ronaldo é como um deputado pela AOC: um era uma espinha na garganta do Cunhal, outro é o fortalecer da espinha dorsal dos perigosíssimos nacionalismos.Se isto fosse apenas mais um caso de histeria política, não seria muito importante. É certo que a demonstração de que é o mesmo o princípio que subjaz a uma coisa insignificante e a uma coisa horrenda impressiona sempre um bocadinho; mas mesmo que não o formulem, as pessoas intuem que não basta virem do mesmo princípio para que duas coisas se equiparem. Não é o mesmo matar uma mosca porque ela me maça ou matar um bebé porque ele me aborrece, embora possamos dizer que em ambos os casos o princípio que preside à acção é o de que posso matar o que me chateia. Da mesma forma, torcer pela selecção num jogo contra a Etiópia não é igual a invadir a Abissínia.
Ainda assim, imaginemos que havia alguém tão puro, tão puro, ou com um ódio de tal maneira refinado ao nazismo, que não queria misturar-se minimamente com qualquer sentimento que, deixado à solta, pudesse levá-lo à suástica; o que eu queria dizer, e queria dizê-lo com clareza, porque pessoas assim só podem viver numa tensão e vigilância tão apertadas, que será com certeza um alívio sabê-lo, é que nem assim faria mal torcerem pela selecção. A diferença entre o patriotismo de quem torce simplesmente por quem é mais natural que torça e o nacionalismo político de um regime não é apenas de grau, é de natureza. Não se está mais perto de ser nazi por se gostar muito de um país, e nem sequer é preciso gostar muito de um país para se ser patriota.O patriotismo é uma virtude, e como todas as virtudes tem pouco que ver com o gosto, e só por um espírito privado de toda a réstia de inocência pode ser visto como perverso ou sequer como ridículo. É claro que ninguém é obrigado a gostar de futebol, ou a torcer, no sentido performativo do termo, por um clube nacional; mas é natural que quem torce, torça pelo seu país. E isto tem simplesmente que ver com compreensão de que nem tudo nos é dado escolher e de que há coisas com que nascemos e que não parecemos mais livres quando fingimos, de ar amuado, ser superiores a elas (parecemos apenas avestruzes). Mais ainda do que isto, tem que ver com a forma mais natural de relação com o mundo, pervertida por décadas de doutrinação, que nos tentam convencer de que o patriotismo e o amor à humanidade são contraditórios, como se amar o mais concreto não fosse a confirmação mais clara do amor mais geral. É impossível amar a humanidade sem ser patriota, da mesma maneira que não podemos amar a humanidade sem amar pessoas concretas. Acreditar que o patriotismo é uma limitação, que nos impede de amar a humanidade, é como acreditar que por amarmos os nossos pais não podemos amar as pessoas, como se os nossos pais não fossem pessoas.Repito, não é preciso gostar da selecção, nem fingir que as exibições de mau gosto são na verdade a essência da nossa alma, nem achar que o espírito de feira permanente faz mais do que encolher o cérebro até ao limite; mas não façamos de uma coisa bonita, natural e inocente uma manifestação política, sobretudo daquilo que não é.

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