CIÊNCIA

"O PS não pode padecer de ansiedade"

O deputado socialista André Pinotes Batista deixa um alerta a quem, dentro do partido, esteja a sentir a tentação de provocar uma nova crise política: os portugueses não querem eleições e os responsáveis por esse eventual cenário podem acabar por pagar a fatura.
Em entrevista ao Observador, no programa “Sofá do Parlamento”, Pinotes Batista desvaloriza as sondagens que têm consolidado a aparente vantagem do PS sobre PSD e Chega e defende que o partido precisa de “humildade” para reconhecer que alguns eleitores ainda estão a “readquirir a confiança”.Ainda assim, Pinotes Batista aponta o dedo a Luís Montenegro e acusa o primeiro-ministro de estar ativamente à procura de uma crise política para ir a votos. “A problemática de Luís Montenegro é que percebe a inoperacionalidade do seu Governo, percebe que precisa de alimentar narrativas eleitorais sucessivas, mas não tem uma forma de provocar as eleições que deseja.”Ouça aqui o “Sofá do Parlamento”, com André Pinotes Batista.
“Montenegro é o único líder partidário que quer eleições”Ouvimos José Luís Carneiro clamar vitória nestas duas frentes – na Lei do Trabalho e na PSU. Não faria mais sentido atribuir vitória ao Chega, no chumbo da reforma laboral, e ao Governo, que conseguiu aprovar a Proteção Social Única?Não é exatamente a interpretação que faço das palavras do secretário-geral do PS. A derrota da contrarreforma laboral foi uma defesa dos trabalhadores. Era o que a sociedade civil portuguesa, não digo na sua totalidade, mas na sua grandíssima maioria, desejava. Mas os progressistas não se querem ficar por aquilo que não acontece. E é importante que as pessoas percebam: mantivemo-nos fiéis aos nossos princípios, mas continuamos um caminho de reconstrução com José Luís Carneiro, que já leva um ano, da confiança dos portugueses, mas que carece de tempo. Não celebramos derrotas do Governo. Quanto à PSU, tivemos a possibilidade de, com a fiabilidade que o PS pode dar ao país, ao contrário do partido da instabilidade, encontrar uma solução. Não quero entregar medalhas de ouro nem taças de campeão do mundo aos campeões da instabilidade e do populismo. As únicas vitórias que o Chega tem são as que celebra sozinho, porque nem tem princípios, nem revela qual é o caminho que quer para o país.
O líder do PS deixou uma mensagem inspirada em Saramago: “Não tenhamos pressa, mas não percamos tempo”. A pouco tempo da discussão do Orçamento do Estado, o que quer isto dizer?Neste momento há muita gente que questiona o que é que está na cabeça do secretário-geral do PS, como se fosse difícil de responder esta pergunta. Não é. O PS não pode padecer de ansiedade. Neste momento, estamos a falar com os portugueses, estamos a gostar de falar com os portugueses e os portugueses estão a gostar de falar connosco. José Luís Carneiro é alguém que acorda às cinco da manhã e trabalha até à meia-noite. Ouvimos muitas queixas do Governo, mas também ouvimos pessoas que ainda estão a readquirir a confiança no PS. Partimos desse ponto de humildade. Andamos a privilegiar um tipo de contacto onde escutamos coisas que alguns políticos não gostam de ouvir. Governámos o país durante muito tempo, acertámos muito mais do que errámos, mas temos a consciência de que há uma reconciliação a fazer. E essa frase de Saramago é para ser aplicada em cada dia sobre o processo orçamental. Quando existe bom senso, quando Luís Montenegro não quer andar a baloiçar entre negociatas e namoros de extrema-direita, o PS é garante de estabilidade. Agora, há uma coisa que não vale a pena: o PS não entrega os seus princípios, mas que também não está aqui para aventureirismos. Vamos encarar o processo orçamental recusando que nos venham colocar pressões que não temos de aceitar, mas com sentido de responsabilidade. Já demos provas cabais de poder estar ao lado da estabilidade do país.

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