CIÊNCIA

"Acabaram as linhas vermelhas"


Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Gabinete de Guerra na Rádio Observador, programa em que fazemos o ponto de situação nos conflitos na Ucrânia e no Médio Oriente, conflitos que estejam a marcar a atualidade em todo o globo. Hoje contamos com a ajuda do major-general João Vieira Borges. General, bem-vindo e obrigado por estar conosco.
Muito boa tarde.
Boa tarde. Eu começava por lhe perguntar e começamos por falar do tema que vai marcando este dia, esta quarta-feira, 2 de julho. Uma série de ataques aéreos russos que devastou Kiev, está a ser descrito como o maior ataque da Rússia desde o início do conflito. Major-general, isto começa a se tornar quase como uma repetição ad eternum, não é? Quase todas as semanas somos defrontados com o maior ataque desde o início do conflito.
Sim, efetivamente, assim acontece, porque a capacidade quer da Rússia, quer da Ucrânia, em termos de lançamento de drones, vai aumentando. A tática é sempre a mesma, exactamente os drones, em primeiro lugar, para criar empastelamento nos radares e depois os mísseis balísticos, depois dos mísseis de cruzeiro. Portanto, há uma sequência, há uma capacidade maior e é normal que a destruição seja maior. Mas há aqui outras questões de foro político e estratégico. Ou seja, julgo que este grande ataque da Rússia tem muito a ver com a pressão que tem havido internamente sobre o Putin pra responder ao sucesso dos ataques da Ucrânia. Ou seja, independentemente daquilo que foi a argumentação hoje da parte da Rússia, de que o ataque era só sobre instalações industriais militares e instalações de combustível e energia, na prática, houve ataques sobre a população. Há aqui uma estratégia também clara de campanha de terror. Nós estamos a perder neste momento e nos últimos meses, aquilo que têm sido as linhas vermelhas. Todos nós nos lembramos, as linhas vermelhas estavam a ser associadas a sistemas de armas e não à capacidade de destruição. E, portanto, neste momento, os drones têm tido um papel crescente. Aquilo que tem sido a capacidade de destruição e sobretudo o alcance dos drones, fazem com que a Ucrânia ataque a Rússia no seu coração. E isso fez com que Putin, ao fim de cerca de dois meses, esteja agora a responder de maneira a demonstrar que tem capacidade de destruição elevada, já que no teatro de operações continua na linha da frente a lentidão. Em termos de conquista, vai conquistando, mas com muito mais lentidão e com muito mais mortes em termos de porcentagem. E, portanto, a solução é virar-se para a destruição das grandes cidades e designadamente sobre Kiev, pelo impacto que isso tem no sentido de haver uma reação de cariz político, não direi de rendição, mas de cariz político da parte dos dirigentes ucranianos, pressionados também pela própria população. Julgo que é isso que está a acontecer neste momento, o que é péssimo. A comunidade internacional não reage, os Estados Unidos não reagem, e como dizia há pouco na sua observação, e muito bem, vai se tornando costumeira, mas é um costumeiro diferente, com maior capacidade de destruição, com destruição sobre cidades. E isto pode esnaguar naquilo que eu vou vendo também naquilo que são os dirigentes russos com responsabilidade, já dizem que Putin, pra além de usar este tipo de ataques, devia usar já armas nucleares. E a comunidade internacional não liga. Liga mais ao mundial de futebol, pelos vistos, do que liga propriamente a uma guerra que se pode tornar uma guerra de maiores dimensões na Europa. Vamos ver o que acontece na Cimeira da NATO, mas a situação está cada vez mais sensível neste teatro de operações.
Falou aqui na falta de resposta, na ausência de resposta da Europa. Hoje surgiu a notícia de que a União Europeia, através da chefe de diplomacia, Kaja Kallas, propõe novas sanções contra entidades que apoiam o complexo militar e industrial russo. Isto não chega.
Não chega de maneira nenhuma. É o que diz o Zelensky. Mais do que as sanções, e já perdemos o número aos pacotes, sabemos que são mais que 20. Mais do que as sanções, o que a Ucrânia precisa são de sistemas defensivos, nem sequer é sistemas ofensivos, que ele tem uma capacidade industrial para os produzir, fazer mais investigação, mais desenvolvimento do que a própria Europa no seu conjunto. Portanto, o que ele precisa é de sistemas defensivos pra proteger a população, pra proteger as instalações. Fez esse apelo hoje novamente, e nós estamos com um grande condicionamento da Europa toda no seu conjunto, na sequência dos condicionantes que têm sido dados pelos próprios Estados Unidos da América, era aquele que tinha maior capacidade, designadamente em termos de defesa aérea. E, portanto, as sanções é a linguagem política. As sanções não têm efeitos no teatro de operações amanhã, nem depois de amanhã, nem daqui a um mês, nem daqui a um ano, nem daqui a dois anos. A Rússia tem capacidade, já percebemos perfeitamente, para enfrentar a adversidade econômico-financeira. Não tem para enfrentar outro tipo de adversidade, já percebemos. Inclusive os ataques com drones no interior do seu território a mais de 2000 km de frente. Isso não tem, por isso reage como tem reagido. Agora, relativamente a sanções econômico-financeiras, contorna perfeitamente, como temos visto, com o apoio Explícito da própria China, da Índia e de outros países que defendem a paz, mas que na prática estão a incentivar a guerra.
Entretanto, Volodymyr Zelensky afirmou há instantes que a Ucrânia vai definitivamente retaliar contra este ataque. Que tipo de resposta é que a Ucrânia pode dar?
A Ucrânia pode continuar a dar as respostas que tem feito até agora, ou seja, o ataque a determinados objetivos, como são as refinarias, como são postos de comando, como são centros de satélites, como são a interdição quase total da Crimeia. O problema agora sente-se na pele de grande parte dos russos, que é andarem em filas horas e horas pra pôr combustível. O ataque a quase todas, acho que só falta uma, às grandes refinarias russas está a ter implicações diretas. O cidadão russo está a perceber e, portanto, a resposta a um ataque destes que visa terror, vai haver do lado oposto um ataque que visa terror. Tem havido um cuidado muito grande da parte da Ucrânia em que esses ataques não tenham consequências em termos de mortandade civis, como foi com a Rússia, que já vai a mais de 21 mortos só hoje em Kiev. Portanto, os ataques têm sido precisos com um determinado objetivo, que era ferir a Rússia no seu interior, mas nunca para matar russos. A Ucrânia tem esse cuidado, a Rússia não tem essa preocupação mínima. E portanto, talvez também na linha do que eu disse há pouco, de que acabaram as linhas vermelhas, a própria Ucrânia também começa a atuar do mesmo modo, com consequências ou grandes baixas da própria população russa, chamando assim a atenção de que não é nenhuma operação especial, que efetivamente estamos em guerra há 12 anos. Não é há quatro e meio, há 12 anos. Sim.
E há outro conflito também a marcar a atualidade, claro, o conflito no Médio Oriente. Hoje chegou um aviso do Irão direcionado pra os Estados Unidos e pra Israel contra eventuais ataques durante o funeral do antigo líder supremo Ali Khamenei. Acredita que tanto Washington como Tel Aviv possam usar essa ocasião para atacar o Irão enquanto está mais fraco?
Relativamente a Israel, acredito. Relativamente aos Estados Unidos, não. Ainda bem que colocou essa questão, até porque nós soubemos hoje que o líder Khamenei não vai estar presente nas cerimônias do pai, exatamente por razões de segurança. E para eles o fazerem, que é um assumir de medo, um assumir de incapacidade de defesa aérea, muito complicado. Eu julgo que também não tem a ver só com questões de segurança, julgo que também haverá questões de saúde relativamente a Khamenei, que nós não vemos desde que morreu o pai e, portanto, desde o ataque, nunca o vimos, nem uma foto, nem uma imagem, nem uma voz. São as duas dimensões, mas respondendo à sua questão em concreto, eu acredito, da parte de Israel, acredito em tudo, tal como acredito em tudo da parte do Irão. Ou seja, são dois Estados que visam a destruição do outro Estado. E, portanto, esse é o objetivo político principal. Nós temos que acreditar em tudo, independentemente dos argumentos que vão usar e das narrativas históricas que vão usar para desenvolver esses mesmos ataques.
E não acreditando que os Estados Unidos se envolvam nesse ataque, diria ou considera que Donald Trump se vai esforçar também para tentar convencer Israel a não avançar com essa ofensiva neste dia do funeral de Ali Khamenei?
Claramente, esse esforço certamente que está a ser feito pela administração Trump e julgo que pelo próprio Trump junto de Netanyahu, porque neste momento não há qualquer interesse da parte dos Estados Unidos em que seja posto em causa um eventual entendimento por questões desse foro. Há outro tipo de questões que já percebemos quais são, que têm a ver sobretudo com o Estreito de Ormuz e entendimentos relativamente ao estreito, entendimentos relativamente ao fim das sanções, entendimentos relativamente a fundos. Agora, a guerra não interessa minimamente a Trump neste momento e, portanto, fará tudo para pressionar Netanyahu no sentido de não desenvolver um ataque desse tipo, porque um ataque desse tipo contra o direito internacional é um ataque que põe sempre os assassínios deste tipo, põe sempre em termos de prestígio em causa o país que os desenvolve. Independentemente de Israel ter isso como estratégia, internamente é discutível, já percebemos que esses líderes são sempre substituídos e normalmente são substituídos por outros mais vingativos, menos preparados e com consequências maiores. Isso é algo que tem sido muito discutido em Israel entre os acadêmicos de luta antiterrorista. Mas infelizmente continua a ser essa a postura de Netanyahu. São esses os standards de vitória, já que outros é difícil alcançar, tendo em conta a distância entre Israel e o próprio Irã.
Major-general João Vieira Borges, muito obrigado por ter estado com a Rádio Observador. O Gabinete de Guerra está de volta amanhã.
Opa!

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Botão Voltar ao Topo

Adblock Detectado

Para continuar no site, por favor, desative o Adblock.