CIÊNCIA

Lídia Jorge vence Prémio Camões de 2026

Lídia Jorge é a vencedora da 38.ª edição do Prémio Camões, considerado o mais prestigiado galardão literário da língua portuguesa. A decisão foi tomada esta tarde pelo júri constituído para esta edição do concurso, confirmou a LeYa, grupo editorial que representa a autora, ao Observador. O Ministério da Cultura enviou entretanto o comunicado oficial que confirma a distinção para a escritora.
A decisão do júri de premiar Lídia Jorge com este galardão foi unânime, lê-se na nota enviada às redações, sendo destacado “o diversificado conjunto da sua obra e o grande contributo para o enriquecimento do património literário e cívico-cultural da língua portuguesa”.Nascida há 80 anos em Boliqueime, no Algarve, Lídia Jorge estreou-se em 1980 com o romance O Dia dos Prodígios, considerado uma das obras mais significativas do panorama literário pós-25 de Abril. A partir daí, publicaria várias ficções de largo fôlego como A Costa dos Murmúrios, Combateremos a Sombra, Os Memoráveis e Misericórdia. Este último, romance editado em 2022, foi amplamente aclamado pela crítica e recebeu várias distinções a nível nacional e internacional, onde se inclui o Médicis Étranger.Além dos romances já mencionados, da sua bibliografia fazem igualmente parte coletâneas de contos, obras de literatura infantil, de ensaio, de teatro, de poesia e de crónicas. A sua obra mais recente é a coletânea O Céu Cairá Sobre Nós – 30 Crónicas e 1 Discurso, lançada em abril pela sua editora de longa data, a Dom Quixote, parte do grupo LeYa. O título deste lançamento refere-se aos vários textos que Lídia Jorge escreveu no jornal espanhol El País, assim como a sua comunicação feita em Lagos a 10 de junho de 2025, aquando das comemorações do Dia de Portugal.
“Somos descendentes do escravo e do senhor que o escravizou.” No dia de Portugal, Lídia Jorge expôs as dores do colonialismo portuguêsDe todo este corpus literário resulta a consideração do júri do Prémio Camões de que tem uma escrita “marcada por uma prosa poética densa”, dedicada a temas que vão da condição feminina ao passado ditatorial português e a sua transição para a democracia.Uma das mais prestigiadas escritoras portuguesas a nível nacional e internacional, Lídia Jorge soma esta distinção a um vasto rol que inclui o já mencionado Médicis Étranger, o Prémio FIL de literatura em Línguas Românicas de Guadalajara, o Prémio Pessoa, o Grande Prémio de Romance e Novela da APE e, mais recentemente, o Prémio Estatal Austríaco de Literatura Europeia.
A ministra da Cultura, Juventude e Desporto, Margarida Balseiro Lopes, emitiu uma reação na nota enviada às redações, frisando que “o Prémio Camões 2026 reconhece uma das mais relevantes vozes da literatura portuguesa contemporânea”. “Ao longo de décadas, Lídia Jorge construiu uma obra de enorme exigência intelectual e literária, contribuindo para afirmar a língua portuguesa como espaço de criação, pensamento e diálogo entre culturas”, acrescenta a ministra.Instituído por Portugal e pelo Brasil em 1989, o Prémio Camões tem um valor de 100 mil euros, financiado em partes iguais pelos governos de ambos os países, tendo como objetivo “distinguir autores cuja obra contribua de forma relevante para a projeção e valorização da língua portuguesa”.O júri composto anualmente para deliberar o vencedor do Prémio Camões é composto por duas personalidades portuguesas e duas brasileiras, além de dois representantes dos países africanos de língua oficial portuguesa. Este ano, os representantes portugueses voltaram a ser Ana Mafalda Leite, poeta e investigadora da Universidade de Lisboa, e José Carlos Seabra Pereira, escritor e professor da Universidade de Coimbra.A representação brasileira foi assumida por José Bessa Freire, jornalista, antropólogo, historiador e professor da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, e Lúcia Santaella, autora, investigadora e professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. O júri foi completado por Lopito Feijó, escritor e crítico literário oriundo de Angola, e Odete Semedo, escritora, poeta e professora universitária proveniente da Guiné-Bissau.
Com a vitória de Lídia Jorge, Portugal volta a ser o país com mais laureados pelo Prémio Camões, 16, face aos 15 do Brasil. As várias figuras nacionais distinguidas por este galardão foram Miguel Torga, o vencedor inaugural, Vergílio Ferreira, José Saramago, Eduardo Lourenço, Sophia de Mello Breyner Andresen, Eugénio de Andrade, Maria Velho da Costa, Agustina Bessa-Luís, José Luandino Vieira (que recusou o prémio), António Lobo Antunes, Manuel António Pina, Hélia Correia, Manuel Alegre, Vítor Manuel de Aguiar e Silva e João Barrento, vencedor em 2023.A autora portuguesa sucede assim à poeta e historiadora angolana Ana Paula Tavares, vencedora de 2025, tornando-se também na décima mulher a ser distinguida nos 38 anos do troféu. Antes de si, a honra coube às brasileiras Rachel Queiroz (1993), Lygia Fagundes Telles (2005) e Adélia Prado (2024), às portuguesas Sophia de Mello Breyner Andresen (1999), Maria Velho da Costa (2002), Agustina Bessa-Luís (2004) e Hélia Correia (2015), à moçambicana Paulina Chiziane (2021) e à supramencionada Ana Paula Tavares.

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