Partículas que mudam vidas
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E se algumas das descobertas científicas que podem melhorar a vida de milhões de pessoas estivessem a acontecer neste momento em Portugal? “A Próxima Descoberta”.
Seja bem-vindo a “A Próxima Descoberta”. É uma parceria entre a Rádio Observador e a Ovion, uma série de seis episódios onde mostramos como a ciência desenvolvida em Portugal tem um impacto real em todo o mundo. Eu sou o Nelson Ferreira e se no último episódio percebemos como se produzem os APIs, as substâncias ativas dos medicamentos, hoje entramos na fase seguinte: como é que transformamos esse pó químico num medicamento que o nosso corpo consegue absorver. Para nos explicar esta ciência, recebo hoje o Filipe Gaspar e o José Luís Santos, que estiveram na origem do desenvolvimento da área da engenharia de partículas da Ovion. Muito bem-vindos a ambos. Filipe, começo por si. Quando ouvimos falar de um novo medicamento, normalmente pensamos na molécula que foi descoberta. Mas porque é que essa descoberta, por si só, não é suficiente? O que é e que papel, afinal, desempenha a engenharia de partículas para transformar uma molécula, que pode ser promissora, num medicamento que se torna realmente eficaz?
Nelson, a substância ativa de grande parte dos medicamentos modernos não é eficaz na forma como são produzidas nos seus processos químicos ou biológicos. Para funcionarem corretamente no organismo, precisam de passar por transformações adicionais. Por exemplo, alguns medicamentos têm que ser protegidos da acidez do estômago para depois poderem ser libertados no intestino, onde o ambiente já é menos ácido, e permitirem serem absorvidos pela corrente sanguínea. Outros necessitam de dimensões muito específicas. É o caso dos pós para inalação, que são muitas vezes usados no tratamento de asma ou bronquite crônica. E nesse caso, se as partículas forem demasiado grandes, ficam retidas nas vias respiratórias superiores e não chegam aos alvéolos onde elas têm que ser absorvidas. Ao invés, se forem demasiado pequenas, acabamos por expirá-las antes de serem absorvidas. Por isso, encontrar o tamanho adequado é essencial para garantir a eficácia do tratamento. Um último exemplo marcante são os medicamentos orais modernos, que precisam de ser convertidos numa outra forma, a forma amorfa, para que o organismo os consiga absorver adequadamente. E a engenharia de partículas permite isto mesmo, ultrapassar muitas destas limitações, melhorando a absorção, a distribuição do fármaco e a eficácia destes medicamentos.
Em 2003, creio, a Ovion tomou uma decisão ousada e investiu no spray drying ou na secagem por atomização. José, para quem nos está a ouvir, consegue explicar de forma simples o que é, afinal, esta tecnologia, que problema vem resolver e por que ela foi tão revolucionária na altura?
Em primeiro lugar, referir que esta tecnologia, o spray drying ou a secagem por atomização, é utilizada há décadas noutras indústrias. Vou dar alguns exemplos. Se pensar, por exemplo, no leite em pó, no café solúvel ou no detergente em pó que usamos nas máquinas de roupa lá em casa. Em todos estes casos, nós começamos com o líquido: o leite, o café ou uma pasta de um gênero de sabão. E esse líquido é transformado depois num pó finíssimo, que se dissolve quase instantaneamente quando lhe juntamos água. Esta transformação é feita exatamente por spray drying ou secagem por atomização. De uma forma muito simples, vou tentar explicar. O que acontece dentro do spray dryer é o seguinte: imaginemos que temos uma câmara de grandes dimensões, como se fosse um secador de cabelo gigante. Lá dentro, o líquido que queremos secar é transformado num spray, uma espécie de um nevoeiro. E dessa forma geramos gotas extremamente pequenas. Estas gotículas microscópicas são secas muito rapidamente com gás quente, no tal secador gigante, e em milissegundos o líquido evapora e depois permanece o pó feito de partículas minúsculas e que têm propriedades tais, como o Filipe referiu, que lhes permitem ser extremamente solúveis. Os pós que geramos na indústria farmacêutica são, portanto, fisicamente semelhantes aos exemplos que eu referi, ao leite em pó, café solúvel ou o detergente em pó. E agora, por que esta tecnologia foi revolucionária na indústria farmacêutica? Porque, tal como no caso do leite em pó, a tecnologia permitiu conservar leite durante meses sem frigorífico, ou no caso do café solúvel, nos deu um café que conseguimos preparar em segundos. No caso do spray drying farmacêutico, permitiu criar medicamentos com melhor efeito terapêutico pelo fato de serem mais solúveis. E, portanto, sem o acesso a esta tecnologia de spray drying ou secagem por atomização, grande parte destes medicamentos não teriam um caminho viável para chegar ao mercado e aos pacientes.
Filipe, já percebemos um bocadinho o que acontece na fábrica, mas estou curioso para perceber o que acontece no organismo de um paciente. Consegue dar-me exemplos concretos? O que acontece quando uma molécula até parece promissora no laboratório, mas o organismo não a consegue absorver logo de forma eficaz?
Claro. Por incrível que possa parecer, a grande maioria dos medicamentos tomados por via oral, os comprimidos, as cápsulas, são menos solúveis em água do que o vidro ou o mármore. Como os nossos sucos gástricos e intestinais são maioritariamente água, estes medicamentos, na sua forma cristalina original, dissolvem-se muito pouco e poderiam atravessar o aparelho digestivo sem qualquer absorção pela corrente sanguínea. Isto tornar-os-ia completamente ineficazes. O processo de spray drying resolve este problema ao transformá-los numa forma amorfa Que dissolve muito mais facilmente e pode ser absorvida pelo organismo. Uma analogia simples é comparar um cubo de gelo com neve. Ambos são o mesmo composto, são água sólida, mas a neve dissolve-se muito mais rapidamente devido à sua estrutura. O spray drying aplica um princípio semelhante aos medicamentos, aumentando significativamente a sua capacidade de dissolução e absorção.
José Luís, para quem nos ouve, pode isto parecer sempre um pouco mais técnico, mas o resultado são pessoas que, de facto, por causa destas tecnologias, acabam por viver mais, viver melhor. Há exemplos concretos de medicamentos que só chegaram ao mercado e aos pacientes graças a esta tecnologia de que estamos a falar?
Com certeza. Um dos exemplos mais marcantes em que a Ovione esteve envolvida é o caso do medicamento para a Covid-19, que todos nós conhecemos amplamente, onde a Ovione esteve envolvida na produção de um composto, que é o Captisol, que foi um composto essencial pra produção de um antiviral, Remdesivir, da Gilead, que foi um dos poucos medicamentos autorizados para o tratamento da Covid-19. Outro dos exemplos foi o dos medicamentos pra hepatite C. Há cerca de 10, 12 anos, a doença foi praticamente erradicada através do desenvolvimento do processo de produção, tendo como base a tecnologia spray drying, o que permitiu que esses medicamentos para a hepatite C tivessem a solubilidade e o efeito terapêutico desejados. Estes são apenas dois exemplos, e nós, Ovione, e outras empresas neste espaço estamos a trabalhar com um número cada vez maior de medicamentos, por exemplo, pra oncologia ou pra fibrose quística, e muitas outras doenças que beneficiam do acesso a esta tecnologia de spray drying e das vantagens que a mesma oferece.
Ainda vai ser muito útil no futuro, em muitas outras descobertas, pelo que estou a perceber. Filipe, quando a Ovione investiu no spray drying, esta era uma tecnologia quase inacessível, pouco usada na indústria farmacêutica. O que a Ovione viu que muitos não viram? E como é que uma aposta aparentemente arriscada acabou por colocar a empresa na liderança mundial desta área?
Em 2003, quando investimos na tecnologia, já tínhamos identificado uma ou duas oportunidades. E era, como disse, uma tecnologia praticamente inexistente entre as empresas como a Ovione, que prestam serviços à indústria farmacêutica. Decidimos investir antes de existir uma procura consolidada, assumindo com isso um elevado risco. Estamos a falar de muitos milhões de euros, o custo de um spray drier industrial. Depois disso, fomos atrás do mercado e a procura que vimos, nomeadamente na necessidade de aumentar a biodisponibilidade dos medicamentos orais, confirmou as nossas melhores expectativas. Fizemos e continuamos a fazer um investimento contínuo em ciência, na tecnologia, na nossa capacidade industrial, que ao longo dos anos consolidou a posição da Ovione como uma referência mundial em spray drying. E agora temos que continuar a inovar pra manter essa posição.
Não me parece que vá ser difícil pelos exemplos que temos estado a conhecer da Ovione. Sabemos que a inovação não se faz também de forma isolada. O caso do spray drying também foi disso exemplo. A Ovione, pelo que me parece, tem uma ligação forte à academia, às universidades, através de mestrados, de doutoramentos que acontecem também em ambiente industrial. Esta união é o segredo para continuarem na vanguarda?
Sim. A nossa ligação à academia foi sempre muito importante e ainda continua a ser. À data de hoje, nós contamos com mais de 300 pessoas com funções de investigação e desenvolvimento e mantemos uma forte ligação com o meio acadêmico. A Ovione é dos maiores empregadores privados de doutorados em Portugal, com cerca de 120 doutorados nos quadros, e promovemos projetos em parceria com universidades e centros de investigação.
Gostava também de referir o Ovione Research Program.
É o quê?
É o programa de investigação da Ovione.
Ok.
É um programa em colaboração com as instituições acadêmicas portuguesas e é um programa que está ativo há mais de 15 anos. Para lhe dar uma ideia, em média, temos cerca de 10 doutorados e 20 a 30 mestrados em ambiente industrial e que decorrem em simultâneo. E a maioria destes doutorados e mestres acabam por ficar na Ovione depois de concluírem os seus trabalhos, integrando as áreas onde fizeram a sua investigação. E são, digamos, um reflexo desta colaboração com a academia, que tem sido uma peça-chave na nossa capacidade de inovar, mas também na capacidade de atrair e reter este talento altamente qualificado.
Muito bem, Filipe Gaspar, José Luís Santos, muito obrigado por nos mostrarem que por detrás de cada medicamento existe, de facto, um enorme trabalho de ciência, inovação e também de talento. E muitas vezes são tecnologias invisíveis como esta, do spray drying, que falamos um pouco mais em pormenor hoje, que fazem a diferença na vida de milhões de pessoas. Fica por aqui o terceiro episódio de “A Próxima Descoberta”. Na próxima semana, damos o passo seguinte. Vamos descobrir como é que a Ovione desafiou a tradição da indústria ao introduzir a produção contínua de comprimidos. Para ouvir este e os restantes episódios, estão disponíveis em observador.pt ou nas plataformas habituais de podcasts. Até à próxima descoberta!










