Incêndios. "Erros do ano passado vão ser cometidos este ano"
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Começa agora o Explicador das manhãs 360, esta sexta-feira, sobre os incêndios que estão a afetar Portugal e o plano para lidar com esta vaga de calor. É nosso convidado António Nunes, presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses.
António Nunes, muito bom dia, bem-vindo a este Explicador. Obrigado por ter aceitado o nosso convite. Antes de mais, qual é o retrato que faz da situação neste momento? E também perguntava o que é que mais preocupa os bombeiros nas próximas horas e nos próximos dias.
Bom dia, muito obrigado pelo convite. É evidente que o que mais preocupa os bombeiros neste momento é a meteorologia. Isto é, estamos num período de uma onda de calor que assola praticamente todo o território do continente e começámos a ter alguns incêndios que, fruto muitas das vezes das condições meteorológicas locais, obriga a que se faça o empenhamento de elevado número de corpos de bombeiros. As temperaturas estão bastante elevadas, quer durante o dia, quer durante a noite, a humidade está muito baixa, ventos quer gerais, quer locais, correntes de convecção, impossibilidade muitas vezes de utilizar meios aéreos face às condições meteorológicas locais e, portanto, nós corremos o risco daquilo que era a expectativa de que se venha a verificar um conjunto de incêndios no território do continente que obrigam a um combate muito complicado e até, em algumas situações, a uma substituição permanente de bombeiros nas frentes de fogo, face às temperaturas que nós estamos a viver e à exaustão que isso causa.
E há alguma região, neste momento, em que a situação seja mais preocupante?
Neste momento, a situação mais preocupante é na região Centro, Vouzela, pelas condicionantes que tem e naturalmente que se nos recordarmos que em 2017 houve também um incêndio naquela zona bastante complicado, que abrangeu vários municípios e, portanto, é uma zona que deve merecer uma atenção especial de todos nós e, em particular, da capacidade de mobilização e gestão de meios que é preciso ter para tentarmos encontrar solução para um combate bastante difícil face, como disse, às condições meteorológicas que não têm uma perspetiva de aliviar do ponto de vista da temperatura, dos ventos e, acima de tudo, aquilo que é mais favorável para o combate, que é um aumento da humidade, em particular na humidade durante a noite.
Durante a noite é exatamente isso que não está a acontecer e que torna esta situação particularmente anormal, António Nunes. E nós estamos preparados para reagir a este tipo de fenómenos meteorológicos extremos.
Nós, como um pouco a Europa, e pudemos assistir a isso nesta semana e no fim de semana passado, ouvimos sempre, há cerca de 10 anos, falar nas alterações climáticas. E julgo que as sociedades, coletivamente, não se convenceram de que isso era de facto uma realidade. E essa realidade passa a traduzir agora, em Portugal, nós tivemos uma primavera com bastante complexidade, com o tal comboio das tempestades. Já tivemos, em 25, incêndios florestais, alguns deles a demorarem oito, 10 dias em combate, e estamos agora em 2026, em que acresce uma onda de calor que afeta a população em geral. Portanto, o que é que poderemos dizer? Que muitas das vezes nós decidimos correr atrás do prejuízo, se me permite a expressão. Ou seja, nós temos que muitas das vezes verificar, de facto, que as alterações, quer do ordenamento do território, quer do comportamento dos cidadãos, quer até do reforço dos meios de combate, têm que ser feitas, mas só o fazemos depois de acontecer. Assim ocorreu em 2017, que se tentou criar um conjunto de mecanismos, e até de uma agência, a AGIF, para alterar uma situação que se pensava que se poderia alterar em quatro, cinco anos. A Liga dos Bombeiros Portugueses disse sempre que para alterar a paisagem do nosso território, nós precisamos de mais de uma década ou década e meia para o conseguir fazer, não só pra sensibilização das próprias populações, como também aquilo que toda a gente fala, de que muitas vezes não se identificam os proprietários para se poder fazer ações de prevenção. E depois ninguém contava que em cima destas situações, que já eram previsíveis, tempestades como aquelas que já tinha havido na área da Figueira da Foz dois anos antes, mas agora durante a primavera, ocorresse com a dureza para as populações e para o ambiente que teve. Ora, isto representa que nós temos organismos, os organismos estão a preparar os seus planos de resposta, mas naturalmente que não é só Portugal, o mundo não está preparado, na sua globalidade, para entender que nós vamos ter situações climáticas Completamente diferentes do que vivemos nas últimas duas ou três décadas.
Mas Portugal, sobretudo na questão dos incêndios, é particularmente vulnerável. Isto significa, tudo aquilo que acabou de dizer, que a evolução que seria expectável, visto que estamos a falar também de uma evolução que nunca é imediata, que é de um ano para o outro, que no que diz respeito ao combate aos incêndios e na prevenção, estamos sempre a voltar mais ou menos à estaca zero. Relembro aqui umas declarações do António Nunes o ano passado, que dizia que a floresta não estava limpa, que a prevenção tinha vindo a falhar, apesar dos fortes investimentos, e que não se consegue alterar a mentalidade das pessoas nem a floresta no prazo de quatro a cinco anos. Continuamos este ano, estamos no mesmo ponto?
Eu diria que estamos muito próximos desse ponto. É verdade que há uma excepcionalidade que tem que ser sublinhada, é que depois das tempestades na região Centro, os ministérios, com particular relevo para o Ministério da Administração Interna, envolvidos na questão da prevenção, criaram uma estrutura de missão, o Comando Integrado de Prevenção e Operações, CIPO, que fez um trabalho extraordinário no que diz respeito à abertura de aceiros, à limpeza dos caminhos, mas não teve a oportunidade, não poderia ter a oportunidade, porque ou não tinha trabalhadores ou não tinha capacidade de penetração nas florestas para resolver o interior das nossas matas. Portanto, isto quer dizer que nós temos os caminhos limpos, temos os aceiros feitos, mas se ocorrer um incêndio numa daquelas áreas florestais, temos muita dificuldade em fazer o seu combate, até porque há árvores derrubadas, há o mato a crescer e não foi humanamente possível fazer essa limpeza, apesar da organização, do esforço dos municípios, das freguesias, das associações dos produtores, dos baldios e do Estado em geral.
E essa articulação entre as diversas entidades existiu?
Existiu e foi uma boa experiência. Naturalmente que nós, Liga dos Bombeiros Portugueses, temos vindo a chamar a atenção para alguns fatores da organização do combate, que é aquilo que interessa essencialmente aos bombeiros, é terem capacidade para lidarem com estas situações. E muitas daquelas que nós propusemos no ano passado, por ocorrências do ano passado e mesmo durante os incêndios do ano passado, não se vieram a verificar, que era uma outra organização dos bombeiros, um reforço dos equipamentos dos bombeiros, um reforço da capacidade de primeira intervenção, isto é, do ataque inicial.
E isso não existe. Desculpe interrompê-lo, António Nunes, porque é claro que nunca há os meios perfeitos, nunca são suficientes, mas ficam mesmo aquém daquilo que é necessário para este verão?
Ficam sempre aquém, será sempre uma dúvida que fica no ar. É evidente que os corpos de bombeiros têm capacidade de combate, mas nós temos alguns corpos de bombeiros em que não conseguimos resolver nos últimos oito ou 10 anos, que têm viaturas com mais de 35 anos de idade a combater incêndios florestais. Não é a totalidade dos casos, não é verdade. Mas quando um corpo de bombeiros tem que utilizar quatro ou cinco viaturas e não a primeira, há a segunda, a terceira e a quarta, quando chegamos à quarta viatura, provavelmente ela tem mais de 30 anos. E portanto, a questão aqui é que não houve nos últimos anos, um planeamento para dotar os corpos de bombeiros anualmente de um conjunto de meios de ataque. E isso não foi feito, não é uma questão deste governo, nem do anterior. Foi uma questão de que até há uma legislação que diz que anualmente deve sair uma portaria para reequipamento dos corpos de bombeiros e dos seus quartéis e nunca saiu, nunca passou do papel.
Mas isso deve-se à falta de recursos do Estado, deve-se à falta de vontade política, por que esse investimento não é feito?
Eu tenho dificuldade em admitir que há falta de recursos, porque nós tivemos 15 mil milhões de euros no PRR e aos bombeiros para adquirirem viaturas foram cerca de seis milhões de euros, para 80 viaturas. Nada impedia que Portugal pudesse ter, porventura, afetado para se comprar 400 viaturas em vez de 80 viaturas, digo eu. E portanto, eu julgo que muitas das vezes tem a ver com as prioridades que são dadas e os bombeiros são sempre lembrados quando existem incêndios, quando eventualmente alguns deles acabam por morrer na frente de combate. E nós já temos 256 mortos desde 1980 para cá. E depois no dia seguinte toda a gente se esquece que temos mais um verão. Nós no final do ano passado, percorremos alguns dos concelhos a acompanhar o senhor Secretário de Estado da Proteção Civil, para saber o que é que tinha corrido mal, mas não houve medidas implementadas, porque quando se chegou ao momento da decisão, fevereiro, março: “Bom, temos agora mais um verão, não é oportuno alterarmos as estruturas e vamos manter a mesma estrutura”. Ora, manter a mesma estrutura quer dizer que os erros do ano passado vão ser cometidos este ano. Isso nós alertámos. E, portanto, nós gostaríamos que tivesse feito algumas alterações significativas na questão da organização do combate. Mas o combate é a última linha.
Portanto, continua a falhar a prevenção
A prevenção tem que ser mais ativa. Há uma situação que eu gostaria de sublinhar. Em alguns locais, mesmo que se queira obrigar os proprietários florestais ou os próprios condomínios da aldeia, que são poucos, a fazer a sua limpeza, não há, muitas das vezes, gente para o fazer. E, portanto, nós temos que descentralizar muito mais e acompanhar muito mais a limpeza das áreas florestais e das áreas rurais. Tem que ser ao nível das freguesias, ao nível dos municípios, ao nível das comunidades locais que se possam constituir, porque não é possível alguém que está de uma forma centralizada ou regionalizada conseguir controlar todos os projetos. Nós temos que acreditar que tem que ser o principal interesse da limpeza das nossas matas, dos nossos caminhos, das faixas de proteção das nossas aldeias, é essas comunidades. E por isso temos que ter uma grande proximidade com os cidadãos. E esta proximidade com os cidadãos é mudar uma mentalidade que é mais difícil. E por isso nós dissemos: “Atenção, que isto não se pode fazer por decreto”. Não é por eu dizer que vou aplicar uma coima de € 1 mil ou € 1.500 a alguém que não limpa a floresta, que eu pus em causa toda uma aldeia, porque eu pago os € 1.500 e depois não tenho mais responsabilidade nenhuma, porque eu digo que não tenho capacidade financeira para o fazer. Portanto, há muita coisa para fazer na prevenção. Quando chega a esta altura, os olhos ficam para os bombeiros e com os incêndios, como estamos a ver, com imagens terríveis em Vouzela.
Terríveis mesmo. E também ficam para outra questão que é recorrente nestas alturas, que é falarmos de meios aéreos. O ministro da Defesa garantiu que este ano as Forças Armadas vão estar prontas para responder e vão ter um papel mais ativo. Isso fará a diferença, António Nunes?
A nossa opinião é que se os meios aéreos resolvessem os incêndios, nós não precisávamos de bombeiros. E, portanto, os meios aéreos, nem em Portugal, nem em lado nenhum, resolvem incêndios. Os meios aéreos, que podem ser aqueles que entenderem, têm que ser um binómio, se quisermos, entre as forças terrestres e as forças aéreas. Isto é, é o comandante que está à frente de um teatro de operações que tem que definir em cada momento de que meio aéreo é que tem necessidade e com que intensidade. Ora, se nós tivermos, por exemplo, condições meteorológicas desfavoráveis, há muitos dos meios aéreos que estão contratualizados que não podem atuar. Quando se fizeram os concursos para os meios aéreos, porventura, ninguém suspeitava que nós íamos ter, em determinados locais do continente, temperaturas de 45, 46 ou 47 graus. Ora, é muito difícil um meio aéreo estar a trabalhar com essa temperatura e, por exemplo, com ventos superiores a 30 km/h. Ou seja, nós não podemos pensar que os meios aéreos resolvem tudo. Não, nós temos que pensar que a prevenção ajuda a resolver, que nós temos que ter bombeiros, como temos, com uma disponibilidade imensa, com uma capacidade e qualidade de trabalho imensa e com meios aéreos de suporte, mas que eles têm que ser aplicados quando são pedidos e no momento em que são pedidos, mas também têm que ter a capacidade para poderem atuar.
O papel das Forças Armadas, António Nunes.
Temos a tempestade perfeita.
E mesmo para terminar, o papel das Forças Armadas podia ser importante, por exemplo, na prevenção, visto que há pouco dizia que falta mão de obra também para esse trabalho?
Nós sabemos que as nossas Forças Armadas têm dificuldade em recrutamento de recursos humanos, como têm as forças de segurança, como começam a ter os bombeiros. Nós temos essa dificuldade, portanto, também não podemos querer colocar nas Forças Armadas a responsabilidade pela limpeza, pelo combate, pelos meios aéreos. Não vale a pena. Nós temos que pensar que Portugal tem que ter um sistema articulado entre todos os organismos públicos, todas as agências, e ter sob a tutela, penso que do senhor Ministro da Administração Interna, uma capacidade de mobilização, de intervenção e de medidas especiais, como estão a ser tomadas agora neste momento da onda de calor, que porventura vão ter que passar a ser pensadas permanentemente enquanto nós não tivermos uma prevenção adequada.
António Nunes, muito obrigada por ter partilhado conosco essas preocupações. Um bom dia ao presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses.










