CIÊNCIA

O Festival de Almada "é impossível com estes financiamentos"


Voltando às pessoas que vão ao teatro. Portanto, não o alarmam os indicadores que apontam para um baixo consumo teatral por parte dos jovens? Vê isso como um processo natural?Sabemos que pessoas que têm 30, 40 anos, 50, vão menos, porque têm filhos. É uma questão à qual não se pode fugir. Quem vai ao teatro é porque tem, graças a Deus, tempo disponível da sua vida para ir ao teatro. Para assistir a 19 espetáculos em 15 dias, precisa de tempo disponível.A verdade é que desde que me lembro de trabalhar em teatro que é assim, já lá vão mais de 30 anos, e já se falava na necessidade de fomentar a frequência do teatro por parte dos jovens. No nosso caso, devo dizer que ao longo do ano, no que toca aos espectadores dos nossos espetáculos, 60 a 70% são escolas. Estou a falar de espetáculos que fazem um mês de carreira, que é uma coisa que também vai rareando. E talvez isso explique porque é que temos tanto público.Temos tanto público porque estreamos um espetáculo e temo-lo em cena durante um mês. Para que os espectadores tenham tempo de ir vê-lo. Agora não vale a pena ter um espetáculo em cena um fim de semana e depois queixarmo-nos que as pessoas não vão ver, porque seria uma grande pontaria acertar justamente naquele fim de semana em que as pessoas podem ir ao teatro. Enfim, isto são contas de outro Rosário. Mas nas nossas criações, esses espectadores, escolas aqui de Almada e do Seixal, estudantes do ensino secundário são o prato forte, a parte de leão dos nossos espectadores. Sei que esses espectadores, quando depois vão para a faculdade, continuarão a vir ao teatro, depois têm filhos e durante uns anos virão muito menos. E depois regressarão. O que acho é que é importante proporcionar-lhes esse contacto de início e, sobretudo, não cair na tentação paternalista de ir atrás daquilo que os jovens gostam. Porque muitas vezes têm-se surpresas muito desagradáveis. Os jovens são tão exigentes quanto os velhos. Quando vejo que um determinado evento é direcionado aos jovens, cheira-me sempre àquilo que já acontece na nossa sociedade, que é segmentar a população para ter consumidores. “Agora vou fazer isto para vender aos jovens, vou fazer isto para vender aos velhos.” Parece-me que isso é um contrassenso em relação à ideia que eu tenho de um festival que é juntar as pessoas de várias gerações, de várias tradições sociais, de vários gostos.Até porque olhamos para a programação, eu sei perfeitamente que pessoas mais velhas gostarão de vir ver a sua Gaivota de Tchekov, ver ali o texto, como todos os matadores, como têm o direito. Outros gostarão de vir ver o Josef Nadj, que é um coreógrafo, um filósofo do movimento. Ter espetáculos de tipos tão distintos na mesma programação e depois vender uma assinatura para um festival que inclui espetáculos tão distintos vai proporcionar que as pessoas se cruzem.E, de facto, aqui acontece uma coisa que eu vejo acontecer em muito poucas salas do país, que é ver brancos, pretos, jovens, velhos, mulheres, homens. Quando as pessoas estão a entrar no espetáculo, percebem que é gente muito diferente. Que é gente que se veste de maneira muito diferente. Que é gente de Almada, mas que também vem muita gente de Lisboa. Acho que é isso que vai rareando na nossa vida. Tendemos a ir com o rebanho. E aqui acho que ainda conseguimos isso com este tipo de programação tão eclética.Lisboa tem vivido uma enorme pressão imobiliária e demográfica, com a chegada de muitos residentes estrangeiros, um fenómeno que já atravessou o rio. Isso já se reflete no público? Há mais público estrangeiro?Há. Não turistas, mas pessoas que cá vivem. De alguns anos a esta parte, tenho sentido. Dá-me sempre vontade de rir quando nos perguntam: mas vocês não fazem espetáculos com legendas em inglês?
Em alguns teatros tem começado a acontecer.Tenho sérias dúvidas que um turista chegue a Lisboa e se vá enfiar no teatro a ver uma peça. Porque eles vêm de Paris, vêm de Londres. Ao teatro vão eles. Vir a Portugal para ir ao teatro tenho sérias dúvidas. Tenho sentido sentido, sim, que há, sobretudo, pessoas mais velhas, conheço algumas delas, francesas, italianas, que moram em Almada e que quando descobrem que há aqui um teatro que tem uma programação anual que faz teatro, mas também concertos, depois tem um festival, ficam assim até um bocadinho espantados. Depois quando veem o preço dos bilhetes ficam ainda mais espantados. O que tenho, sim, também sentido é que há uma camada da população a vir morar para Almada, que há cinco, seis anos era uma população extremamente envelhecida e tem existido uma renovação. São pessoas em idade ativa, com filhos, que já não conseguem pagar rendas no centro de Lisboa e vêm morar para aqui, para Almada e também para os arredores de Almada. É uma cidade que está a mudar muito, como seria inevitável, uma vez que é incomportável morar em Lisboa.A discussão sobre a possibilidade de interferência política nas opções artísticas de teatros municipais esteve recentemente na ordem do dia em Lisboa, a propósito da não recondução de Francisco Frazão no Teatro do Bairro Alto (TBA). Como analisa este cenário? Alguma vez sentiu pressões ou tentativas de condicionamento artístico em Almada?Jamais, nem poderia ser de outra maneira. Aliás, a Presidente da Câmara é atriz, realizadora, encenadora e quando eu a conheci dirigia um teatro, o Teatro da Trindade, com quem nós, de resto, tínhamos relações, mas jamais houve alguma tentativa de interferência, quer com este executivo, quer com os executivos anteriores. Sempre foi muito claro que o nosso papel era escolher espetáculos e ter essa relação com o público, prestar contas, até o último cêntimo do investimento público que aqui é feito, em relatórios de atividades e contas rigorosíssimos e que tem uma comissão de acompanhamento permanente a quem nós reportamos, mas acaba aí a influência do poder público.Qual é, concretamente, o apoio financeiro anual que a autarquia concede à Companhia de Teatro de Almada?A Câmara apoia o Festival de Almada em 225 mil euros, apoia a atividade de criação da Companhia em 200 mil euros. E depois investe aqui no Teatro Municipal 423 mil euros para a gestão, para as despesas de financiamento do teatro, e investe 211 mil euros na programação do Teatro, dos espetáculos que acolhemos aqui ao longo do ano, espetáculos que não são criações nossas.A CTA ocupa o Teatro Joaquim Benite desde a sua inauguração, em 2006, ao abrigo de um protocolo válido por 20 anos, que terminaria agora. O vínculo foi renovado?Sim. O protocolo existe desde 2006, com a inauguração do Teatro, e poderia ser renovado por 20 anos, e foi isso que aconteceu.Foi renovado quando e em que termos?Formalmente foi no final do ano passado porque teve que ter o visto do Tribunal de Contas, houve esse entendimento, e portanto o Tribunal de Contas demorou algum tempo a responder, e no final do ano passado chegou a confirmação de que poderia ser renovado. Este teatro existe porque a Companhia está instalada em Almada desde o final dos anos 70, já nos anos 80 havia o projeto de construir um teatro de raiz para albergar a Companhia, a Companhia esteva instalada no Teatro da Academia Almadense até 87, depois em 88 é inaugurado o primeiro Teatro Municipal, que é o Teatro Estúdio António Assunção. Com o festival, não havia em Almada um sítio para acolher as grandes companhias, e a própria companhia precisava de um sítio para desenvolver o seu trabalho. Nos anos 80, a Câmara tinha cedido, o anterior executivo da Câmara tinha cedido um terreno à companhia aqui na Avenida D. Leonor para que a Companhia pudesse construir o seu teatro, mas não se conseguiu fundos para a construção. Este teatro só é construído, já com o Manuel Maria Carrilho já ministro da Cultura, quando na altura foram construídos e reconstruídos uma rede de 48 teatros, a ideia era que cada capital do distrito tivesse um teatro municipal, e o que a companhia fez foi devolver à Câmara esse terreno de que tinha o direito de superfície, e a Câmara, com esse dinheiro investiu na construção do edifício, que é uma obra do Manuel Graça Dias e do Egas José Vieira. O teatro é indissociável do percurso da Companhia Almada, foi construído para albergar a Companhia, e por isso justamente se chama Joaquim Benite, que foi o fundador da Companhia e do Festival.Nos últimos tempos temos assistido ao encerramento de vários teatros para obras, qual é o estado de conservação do edifício, vinte anos depois? A situação é bastante dramática, porque em vinte anos o edifício degrada-se. No ano passado, em março, houve um terramoto, se bem se lembra, e que danificou uma parte do edifício. Portanto, estão a decorrer, neste momento, levantamento de estragos para se realizarem obras, porque no próximo inverno vai chover dentro do teatro. Aliás, já chove. Este inverno já houve áreas, não públicas, mas áreas de camarins que tivemos que encerrar. Portanto, está neste momento a decorrer um levantamento dos estragos do edifício, para se efetuarem obras, para que no próximo inverno o teatro possa funcionar sem ter de encerrar, por causa das infiltrações.Sem obras o teatro encerra, é isso que está a dizer?Obras terão que ser feitas. Agora é a questão de conseguir fazê-las antes que comece a chover.

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