CIÊNCIA

Não é preciso jogar muito para jogar tudo quando é preciso

O dia do Egito não começou propriamente da melhor maneira. Horas antes de defrontar a Austrália na corrida pelos oitavos de final do Mundial 2026, a comitiva egípcia passou por um confronto inesperado com a polícia dos EUA — e tudo por causa de um autógrafo.
Com a base da concentração estabelecida em Spokane, Washington, o Egito viajou para Dallas para o jogo contra a Austrália e foi recebido por um grupo de adeptos à porta do hotel. Mahmoud Trézéguet, avançado do Al Ahly, decidiu aproximar-se das baias de segurança e dar um autógrafo a uma criança, com um agente da polícia a interromper abruptamente o momento para afastar o jovem adepto.
A member of the Egypt national team staff was pushed by Dallas police while taking a photo with a young fan. pic.twitter.com/uuPSQ7b3sn
— Daily Loud (@DailyLoud) July 3, 2026Ora, depois de assistir a toda a situação, um dos adjuntos do Egito decidiu confrontar o polícia — e desde logo Ibrahim Hassan, o irmão gémeo do selecionador Hossam Hassan. O agente policial acabou por empurrar o adjunto, que reagiu com gritos e o início de uma discussão mais física que só foi sanada pelos restantes elementos da polícia norte-americana e da comitiva egípcia que ali se encontravam. No fim, tudo acabou bem. Mas a confusão já tinha ficado na memória.
Era neste contexto que, esta sexta-feira e em Dallas, o Egito defrontava a Austrália à procura de um lugar nos oitavos de final. Os egípcios, que ficaram no segundo lugar do Grupo D com os mesmos pontos que a Bélgica, contavam naturalmente com Mohamed Salah e Omar Marmoush no onze inicial, enquanto que os australianos, que só venceram a Turquia na fase de grupos, viam Tony Popovic colocar Cristian Volpato e Connor Metcalfe no ataque. Mais à frente, ambos já sabiam que o eventual adversário da próxima ronda será o vencedor da eliminatória entre Argentina e Cabo Verde, que jogam a partir das 23h em Miami.Numa primeira parte que não teve grandes pontos de interesse, a primeira situação de perigo até pertenceu aos australianos, com Cristian Volpato a rematar de longe para tirar tinta da trave (5′). Ainda dentro do quarto de hora inicial, porém, os egípcios mostraram eficácia: numa insistência depois de um livre, Karim Hafez cruzou na direita e Emam Ashour apareceu totalmente sozinho a cabecear para marcar (13′). Ao intervalo e sem que a equipa de Tony Popovich tivesse grande capacidade para responder para lá dos momentos individuais de Cristian Volpato, o Egito estava a vencer a Austrália em Dallas.
???????????? Emam Ashour scores for Egypt against Australia.pic.twitter.com/fOl3HuTaca
— Sports on Predict (@predictdotsport) July 3, 2026
???????????? Mohamed Hany own goal for Australia against Egypt.pic.twitter.com/N47DKBWeJS
— Sports on Predict (@predictdotsport) July 3, 2026
Beach segura o empate ????
Grande defesa do guardião australiano envia o jogo para prolongamento em Dallas!#sporttvportugal #MUNDIALnaSPORTTV #MundialFIFA2026 #Austrália #Egipto pic.twitter.com/iA6DH1kdFf
— sport tv (@sporttvportugal) July 3, 2026Jordan Bos saiu lesionado ao intervalo e foi substituído por Kai Trewin, enquanto que os egípcios poderiam ter marcado logo na saída de bola e num lance em que Omar Marmoush atirou ao lado da cara de Patrick Beach (46′). Ainda antes da hora de jogo e aproveitando alguma passividade do adversário, porém, os australianos conseguiram mesmo chegar ao empate: livre na esquerda e Mohamed Hany, com muita infelicidade, desviou de cabeça para a própria baliza (55′), tornando-se o primeiro jogador de sempre a marcar dois autogolos no mesmo Mundial depois de já o ter feito contra a Bélgica na fase de grupos.
Pouco ou nada aconteceu no que restou da segunda parte, com Patrick Beach a negar Ramy Rabia com uma enorme defesa na única oportunidade em mais de meia-hora (90+4′), e o jogo seguiu mesmo para prolongamento. Nada mudou na meia-hora extra, destacando-se apenas um remate de Salah que passou por cima (94′), e a eliminatória seguiu para as grandes penalidades — e Tony Popovic trocou de guarda-redes para os penáltis, com o capitão Mathew Ryan a entrar para o lugar de Patrick Beach. Aí, Harry Souttar falhou, Lucas Herrington acertou na trave e o Egito venceu a Austrália para garantir o apuramento para os oitavos de final do Mundial 2026. 
Num jogo em que ninguém se destacou individualmente, à exceção do golo de Emam Ashour, Mohamed Salah acabou por conseguir mostrar o porquê de ser um autêntico ídolo no Egito. Esteve apagado durante toda a primeira parte, acordou na segunda, ficou perto do golo no prolongamento e apareceu nas grandes penalidades para, com uma Panenka só ao nível dos melhores, serenar um país inteiro. Salah, aos 34 anos, continua a concretizar o sonho que alimentou ao longo de toda a carreira.

Ninguém dorme hoje no Egipto ????????
Os egipcios vencem a Austrália nas grandes penalidades e ficam a aguardar o vencedor do Argentina x Cabo Verde nos oitavos do Mundial FIFA 2026!#sporttvportugal #MUNDIALnaSPORTTV #MundialFIFA2026 #Austrália #Egipto pic.twitter.com/z0sxBeO7Us
— sport tv (@sporttvportugal) July 3, 2026
Até ao Mundial 2026, Emam Ashour não tinha qualquer golo em quase 30 internacionalizações pelo Egito. Com quatro jogos disputados no Mundial 2026, já leva dois: marcou à Bélgica, logo na estreia, e voltou a marcar esta sexta-feira contra a Austrália. O médio de 28 anos atua no Al Ahly, tal como grande parte da seleção egípcia, sendo que já passou pelo Zamalek e também pelo Midtjylland da Dinamarca.

O Egito venceu um jogo a eliminar pela primeira vez num Campeonato do Mundo. Apesar de já ter estado nos oitavos de final do Mundial de 1934, essa edição ainda não contava com fase de grupos e a competição começava desde logo com eliminatórias — sendo que os egípcios caíram logo na primeira, com a Hungria. Esta é desde já a melhor participação de sempre do Egito num Campeonato do Mundo, depois das eliminações nas fases de grupos de 1990 e 2018, e os africanos vão agora defrontar Argentina ou Cabo Verde nos oitavos de final.

A Austrália não esteve assim tão perto dos oitavos de final. Apesar de terem chegado às grandes penalidades e de não terem permitido o apuramento do Egito em 120 minutos, os australianos não conseguiram esconder que são claramente inferiores aos egípcios tanto coletivamente como individualmente, acabando por aproveitar alguma falta de inspiração ofensiva do outro lado. Sair nos 16 avos de final do Mundial, para a Austrália, parece apenas um destino natural.

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