Portugal e Áustria: os casamentos ao longo dos século
▲Frederico III e Leonor foram o primeiro casal a selar a união entre a realeza portuguesa e austríaca, no século XV
Dinis de Bragança vai casar-se com a austríaca Anna Schaffgotsch von und zu Kynast und Greiffenstein, anunciou a Casa de Bragança esta semana. O noivado deu-se em Lisboa, onde a jovem de 24 anos que detém o título de Baronesa de Trachenberg está a fazer um estágio, e o casal terá informado os pais posteriormente. Mas se nos dias atuais as relações acontecem de forma expontânea, há 600 anos, quando a primeira união entre membros das realezas portuguesa e austríaca aconteceu, os casamentos tinham outro objetivo.
Ao longo da história Portugal e Áustria selaram a união de famílias nobres sob a forma de casamentos, que entre os séculos XV e XVIII representavam uma estratégia familiar, política e patrimonial, de valorização da linhagem e para a ampliação do poder e da riqueza. E esta abordagem fica especialmente evidente nos vários casamentos que se realizaram durante a Dinastia de Avis, com a Casa de Habsburgo — mas segue, com objetivos ligeiramente diferentes, até o final do século XIX e meados do século XX.O primeiro grande enlace entre um membro da realeza portuguesa e outro da família real austríaca deu-se no século XV, entre uma princesa portuguesa da Dinastia de Avis e um Imperador do Sacro Império Romano-Germânico. D. Leonor, de 16 anos, era filha de D. Duarte e D. Leonor de Aragão, enquanto Frederico III, de 36 anos, era filho de Ernesto da Áustria e representava a linhagem fundadora da Casa de Habsburgo, da qual, a partir do seu filho, Maximiliano I, descenderão todos os membros da família imperial austro-húngara, como o imperador Carlos V. Na altura os casamentos tinham objetivos diplomáticos. “Eram alianças políticas que se faziam, e que continuaram por muitas gerações“, explica a historiadora Maria Augusta Lima Cruz, autora da biografia de D. Sebastião, relançada em 2024 pela Temas & Debates — também ele filho de um casal luso-austríaco.
O contexto político na altura explica a união. D. Leonor, por ser filha do Rei, tinha um valor especial para as casas reais estrangeiras. Por sua vez, a realeza portuguesa tinha o interesse num casamento que representasse a expansão do poder. Quando morreu o Rei D. Duarte, em 1438, o herdeiro ao trono, Afonso V, tinha apenas seis anos. Por este motivo, e conforme o testamento do antigo monarca, a regência foi entregue à sua mulher, Leonor de Aragão. Contudo, o facto de ser mulher e estrangeira gerou alguma oposição. Em 1441 a tutoria do herdeiro passou a ficar ao cargo do seu tio, D. Pedro. Mais tarde, quando alcançou a maioridade, em 1448, Afonso V assumiu o governo e enfrentou a oposição que apoiava o tio, uma crise que culminou na Batalha de Alfarrobeira.Foi neste ambiente que se deu o casamento entre Leonor e Frederico III, impulsionado por Afonso V, que via na união uma forma de elevar o prestígio da sua linhagem, ampliar o património e selar alianças. “Na realidade, a dimensão política do matrimónio da princesa portuguesa com o imperador alemão pode bem aferir-se pelas numerosíssimas fontes – documentais, literárias e iconográficas – sobre ele produzidas, que, felizmente, até nós chegaram. Por certo nenhuma união da família real portuguesa ficou tão bem documentada, prova cabal do seu magno significado”, refere a historiadora Maria Helena da Cruz Coelho num artigo de 2003 publicado na Revista Portuguesa de História.Foram 40 dias de negociações antes da assinatura do contrato, em dezembro de 1450. A 9 de agosto de 1451, numa cerimónia em Lisboa, D. Leonor casou-se com Frederico III através do seu procurador, o capelão Tiago Motz. Suntuosos banquetes foram servidos no paço real para celebrar a união, enquanto nas praças o povo terá dado vivas à imperatriz — a primeira infanta portuguesa a ascender ao trono imperial, tornando-se Imperatriz do Sacro Império Romano-Germânico.O primeiro encontro entre os noivos deu-se seis meses depois, na cidade italiana de Siena, num ritual descrito numa das cartas enviadas por Lopo de Almeida a D. Afonso V, e citada pelo historiador António Martins Costa num artigo de 2018 para a revista Medievalista. “D. Leonor chegou a 24 de fevereiro de 1452, foi recebida pelo Rei da Boémia e da Hungria, Ladislau, e pelo irmão do Imperador e duque da Áustria, Alberto, juntamente com muitos nobres do Sacro Império, senhores das repúblicas de Veneza, Bolonha e Florença e cardeais legados da Santa Sé. Cumprindo a hierarquia, acompanharam a imperatriz até às portas da urbe, de onde um grupo de cidadãos com um pálio, no qual figuravam as armas portuguesas e imperiais, a transportaram até ao Rei dos Romanos, que aguardava no interior. Avistando-se, Frederico III e D. Leonor apearam-se das montadas e, com toda a cortesia, trocaram-se saudações. Apregoado um solene discurso, o arcebispo da cidade, Eneas Sílvio Piccolomini (futuro Papa Pio II), deu a cruz a beijar, após o que o casal se dirigiu à sé, onde rezou por instantes.”
A 8 de março iniciou-se o terceiro enlace, dessa vez em Roma. O casal foi recebido à porta da igreja de S. Pedro pelo Papa Nicolau V. No dia 16 o líder da Igreja Católica celebrou uma missa solene a fim de selar a união, e a 19 de março foi realizada a última cerimónia de sagração e coroação imperial em Roma sob a autoridade papal. De acordo com Lopo de Almeida, antes da cerimónia, D. Leonor, sob influência da comitiva portuguesa, recusou ser levada à igreja pelos dois duques enviados por Frederico, exigindo no seu lugar alguém com sangue real. Entretanto, o marido não cedeu, pelo que a então Imperatriz foi obrigada a aceitar. Contudo, a 16 de abril, no castelo de Cápua, em Nápoles, na ocasião da noite e núpcias, Leonor ter-se-á vingado. Recusou-se por cinco ou seis vezes a ser conduzida ao leito de núpcias por dois condes, exigindo a presença do próprio Frederico III. Desta vez, o Imperador acabou por vir buscá-la.Outro casamento que exemplifica as boas relações entre Portugal e Áustria decorreu em 1518 entre D. Manuel I e D. Leonor da Áustria. Manuel I não era o herdeiro direto ao trono. Era na verdade irmão da Rainha, Leonor, e só se tornou Rei por causa da morte prematura, em 1491, de D. Afonso, o único filho legítimo do Rei João II. Em 1495, com a morte do então monarca, Manuel subiu ao trono, e em 1497 casou-se com a viúva de D. Afonso, Isabel de Castela, com quem teve um filho. Depois da morte de D. Isabel, casou-se com a infanta D. Maria, irmã da sua primeira mulher, com quem teve 10 filhos.







