CIÊNCIA

Hamas anuncia retirada do poder na Faixa de Gaza

O grupo militante islamita Hamas anunciou esta segunda-feira a dissolução oficial das suas estruturas governativas na Faixa de Gaza, ao fim de quase 20 anos no poder. Esta decisão permite assim a transferência da governação do território para um comité tecnocrático eleito pelo Conselho de Paz de Donald Trump. O órgão internacional concebido pelo Presidente norte-americano reagiu com cautela, ao passo que Israel encarou esta ação como uma manobra de distração para criar um “modelo Hezbollah”.
Em conferência de imprensa, o Hamas comunicou a demissão do “comité de emergência” — nome do órgão executivo que até aqui governava efetivamente o enclave palestiniano — com o objetivo de transferir a autoridade sobre Gaza para o Comité Nacional para a Administração de Gaza (CNAG).“O presidente do comité de emergência do Governo, Mohammed al-Farra, apresentou oficialmente a sua demissão”, declarou à AFP Ismail al-Thawabta, diretor do gabinete de comunicação social do Governo do Hamas, acrescentando que foi decidida “a dissolução do comité para facilitar a transição administrativa e governativa para o Comité Nacional para a Administração de Gaza (CNAG)”.No entanto, al-Thawabta esclareceu também que a transição será suave, garantindo que “todos os funcionários do Ministério da Administração Interna continuarão a desempenhar as suas funções para garantir que não haja qualquer vazio de segurança” e que estão “prontos a trabalhar sob a responsabilidade” do CNAG.
Estes funcionários — cerca de 40 mil — também já se pronunciaram, exigindo a salvaguarda dos seus direitos profissionais e económicos. “Reafirmamos que os funcionários públicos são funcionários do Estado e estão plenamente preparados para cumprir as suas funções e garantir a continuidade dos serviços prestados aos cidadãos”, afirmou num comunicado Jalil Hamada, presidente da Al Risala, o Sindicato dos Funcionários do Setor Público de Gaza.Hamada salientou ainda que os cerca de 40.000 funcionários de Gaza trabalharam nos últimos anos “em circunstâncias excecionais e difíceis” no contexto da ofensiva israelita, pelo que defendeu ser “imperativo salvaguardar todos os seus direitos profissionais e económicos e garantir que estes não sejam comprometidos”.Esta iniciativa do Hamas marca uma importante viragem política do movimento islamita, que assumiu o poder na Faixa de Gaza em 2007, após confrontos com o Fatah, o partido do presidente da Autoridade Palestiniana, Mahmoud Abbas, com sede em Ramallah, na Cisjordânia ocupada.“O Hamas dá um novo passo ao renunciar à administração da Faixa de Gaza, retirando à ocupação qualquer pretexto para prosseguir a sua agressão e a sua guerra de extermínio”, afirmou à agência France-Presse (AFP) o porta-voz do movimento, Hazem Qassem. “Os movimentos [palestinianos reunidos no Cairo] saudaram a decisão do Hamas, considerando-a um passo importante que permite ao Comité Nacional assumir o seu papel na governação”, disse outro representante à imprensa.
Na sequência da decisão do Hamas, o CNAG declarou-se preparado para administrar a Faixa de Gaza. “Afirmamos que o Comité Nacional para a Administração de Gaza está plenamente preparado para assumir as suas responsabilidades nacionais assim que estejam reunidos os recursos e as capacidades necessários”, escreveu na rede social X o presidente do organismo, Ali Shaath.
We affirm that NCAG stands fully prepared to assume its national responsibilities as soon as the necessary conditions and enabling measures for its work are in place.
— Dr. Ali Shaath (@AliShaathNCAG) July 6, 2026No entanto, Shaath também deixou claro que a atuação eficaz do CNAG depende de “requisitos essenciais”, onde se incluem “a existência de uma única autoridade reguladora que opere ao abrigo de um único quadro jurídico, com um mandato claro, e de um aparelho de segurança unificado que preste contas a essa autoridade”.
O aviso de Shaath decorre do facto de esta transferência ter um efeito mais simbólico que prático, visto que o Hamas continua a recusar o desarmamento sem que haja uma iniciativa política palestiniana para o território, algo que Israel rejeita. De resto, este comité tem sede no Cairo há vários meses, depois de Israel se ter oposto, segundo várias informações, ao seu destacamento para o território devastado pela guerra.O comité foi criado pelo Conselho de Paz, estabelecido pelo presidente norte-americano, Donald Trump, durante as negociações que conduziram ao cessar-fogo entre Israel e o Hamas, em outubro de 2025. Este órgão também já reagiu, manifestando alguma desconfiança.
We have taken note of the announcement today regarding the dissolution of the “Emergency Committee” in Gaza. Ultimately, our assessment will be guided by actions, not promises, to meet the critical needs of the people of Gaza. Decisions must be comprehensive with respect to the…
— Board of Peace (@BoardOfPeace) July 6, 2026“Tomámos nota do anúncio feito relativamente à dissolução do ‘Comité de Emergência’ em Gaza. Em última análise, a nossa avaliação será orientada por ações, e não por promessas, para dar resposta às necessidades críticas da população de Gaza”, lê-se num comunicado partilhado nas redes sociais.
O Conselho da Paz indicou que esta avaliação dependerá da aplicação efetiva das medidas previstas para responder às necessidades da população do enclave palestiniano e para concretizar o roteiro político acordado para a governação, segurança e transição naquele território.“O princípio fundamental continua a ser uma autoridade, uma lei e uma arma”, referiu o Conselho da Paz, defendendo que todas as armas devem ficar sob o controlo de uma autoridade palestiniana unificada, em conformidade com o plano de paz para Gaza e com a Resolução 2803 do Conselho de Segurança das Nações Unidas. “Uma verdadeira transferência de autoridade deve permitir que o CNAG exerça o seu mandato de forma independente, incluindo a tomada das decisões administrativas e de governação que lhe foram confiadas”.O diretor-geral do Conselho da Paz, Nickolai Mladenov, considerou que a decisão do movimento extremista Hamas, que assumiu o poder na Faixa de Gaza em 2007, reforça a importância de concluir as negociações pendentes sobre o roteiro para a transição política.Segundo Mladenov, um acordo permitirá ao CNAG assumir as suas responsabilidades, iniciar o processo de desarmamento, facilitar a retirada das forças israelitas e lançar a reconstrução em grande escala da Faixa de Gaza.Se a reação do Conselho da Paz foi de desconfiança face à decisão do Hamas, a de Israel foi pautada por ainda mais ceticismo, com o ministro dos Negócios Estrangeiros israelita, Gideon Sa’ar, a acusar o movimento de tentar criar uma milícia paramilitar à semelhança de como o Hezbollah opera no Líbano.

Hamas’s trick is simple.
Hamas’s apparent willingness to “make room” for a technocratic government is designed to prevent its own disarmament.
Hamas seeks to replicate the “Hezbollah model” in Gaza: a technocratic administration would be responsible for garbage collection and…
— Gideon Sa’ar | גדעון סער (@gidonsaar) July 6, 2026“O truque do Hamas é simples. A aparente disponibilidade do Hamas para ‘abrir espaço’ a um governo tecnocrático tem como objetivo impedir o seu próprio desarmamento“, acusou o ministro, que atua como chefe da diplomacia israelita, nas redes sociais.Para Sa’ar, o Hamas “procura replicar o ‘modelo do Hezbollah’ em Gaza” ao permitir que uma administração tecnocrática fique “responsável pela recolha de lixo e outros serviços municipais” enquanto o grupo “continuaria a ser a força militar dominante”.“Enquanto o Hamas mantiver as suas armas, qualquer governo civil funcionará, naturalmente, conforme as ordens do Hamas”, alerta, considerando que isso permitiria ao grupo “continuar a oprimir o povo palestiniano em Gaza, ao mesmo tempo que prossegue a sua guerra jihadista contra Israel”. “Israel insiste na implementação integral do plano de Trump, cujos princípios fundamentais são o desarmamento do Hamas e de todas as outras organizações terroristas, bem como a desmilitarização total da Faixa de Gaza”, termina Sa’ar.De recordar que Israel exclui qualquer regresso do Hamas ao poder, mas rejeita igualmente, nesta fase, o restabelecimento da administração direta da Faixa de Gaza pela Autoridade Palestiniana.Um acordo de cessar-fogo está em vigor desde 10 de outubro de 2025 entre Israel e o Hamas na Faixa de Gaza, colocando fim a dois anos de guerra no enclave, desencadeada pelo ataque de 7 de outubro de 2023 do grupo extremista no sul do território israelita, no qual cerca de 1.200 pessoas foram mortas e 251 sequestradas.
Em retaliação dos ataques do Hamas em outubro de 2023, Israel lançou uma operação militar em grande escala no enclave palestiniano, que provocou mais de 73 mil mortos, segundo as autoridades locais controladas pelo grupo islamita, um desastre humanitário, a destruição de quase todas as infraestruturas do território e a deslocação de centenas de milhares de pessoas.Apesar do acordo de cessar-fogo, as duas partes acusam-se mutuamente e regularmente de violar a trégua.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Botão Voltar ao Topo

Adblock Detectado

Para continuar no site, por favor, desative o Adblock.