Fundo soberano: uma boa ideia com dúvidas para esclarecer
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Já temos conosco o Pedro Lino. Pedro, vamos a um dos temas que está na atualidade. O Fundo Soberano Português foi anunciado pelo primeiro-ministro, ainda não se sabe muito bem, não há detalhes sobre aquilo que é a ideia do governo. Isto pode ser uma boa ideia?
Bom dia, Paulo. Bom dia a todos. É verdade, estas medidas, muitas vezes os anúncios são feitos com intenções positivas, mas já sabemos que o diabo está nos detalhes.
Exato.
Mas primeiro vamos ver o que é um fundo soberano. Na essência, um fundo soberano é uma carteira de investimentos que pertence a um Estado. Temos exemplos como a Noruega, Cingapura, Emirados Árabes ou Arábia Saudita. E todos estes fundos são diferentes entre si. Ora, este fundo soberano, normalmente, o objetivo é preservar riqueza, gerar rendimento para as gerações futuras. No caso da Noruega, uma parte das receitas de petróleo vão para esse fundo, que depois investe de uma forma diversificada nas bolsas mundiais, em ações e em obrigações, por isso está a criar aqui um patrimônio para as gerações futuras. E um dos objetivos também é diversificar os ativos e proteger também setores estratégicos, que parece-me que é aqui que Portugal se quer focar.
Pelo menos foi esse o anúncio desde o lançamento.
Foi esse o anúncio. Mas até aqui isto parece tudo consensual, agora o problema é, lá estávamos aos detalhes, de onde é que vem o dinheiro.
Que é uma questão central. Não temos petróleo, noutros países, outros fundos soberanos são alimentados muitas vezes com receitas desse recurso natural ou de outros. Neste caso, quais são as alternativas?
A diferença entre, por exemplo, Portugal e a Noruega, é que a Noruega investe os excedentes que são gerados pelo petróleo, ou seja, primeiro cria riqueza e depois investe essa riqueza. Portugal não tem essa riqueza. Portugal não tem excedentes desta dimensão.
Claro.
Por isso, segundo as notícias conhecidas até agora, o fundo vai se financiar e emitir dívida para comprar participações em empresas que supostamente são estratégicas para Portugal. E isto é completamente diferente. Uma coisa é investir os ativos que temos, outra coisa é pedirmos dívida, emitirmos dívida e investir.
Já agora, em termos técnicos, há logo aí uma questão a ver, que é perceber se o fundo vai ter uma rentabilidade superior ao juro que está a pagar de dívida.
Essa é a questão essencial, porque, para mim, o fundo tem que ter uma rentabilidade pelo menos de 4%. Por quê? Porque se são investimentos a longo prazo, o Estado consegue emitir a 3,5% e nós precisamos de 4% de rentabilidade, porque senão, exatamente, não compensa. E agora aqui vamos pensar: qual é o sinal que esta decisão transmite? Que é, nós normalmente dizemos aos investidores particulares: não peça dinheiro emprestado para investir em ativos de risco. Por quê? Porque uma dívida nós já sabemos que é uma obrigação e já sabemos quanto é que vamos pagar de juros. O retorno no mercado financeiro é uma expectativa. Podemos ter anos com 10%, outro com menos 10%. Por isso, pode correr bem, mas pode correr mal. Por isso, é verdade que o Estado tem uma capacidade de financiamento diferente, mas mesmo assim, o princípio econômico deve ser o mesmo. Quando nós financiamos o investimento com dívida, o retorno esperado, como estavas a referir, tem de compensar. E é esta análise que tem que ser feita.
É essa análise que tu há pouco já fizeste aí as contas com taxas de juro hipotéticas, mas depois há outros custos também, não é? Custos de gestão.
Sim, os custos de gestão, os custos de criar uma equipa, o risco de mercado, que tem que ser considerado também como um custo, e principalmente quando investimos em empresas estratégicas e já tivemos em Portugal exemplos que foram um desastre, por exemplo, a Efacec, depois o BPN, nessas nacionalizações que acabaram por ser investimentos.
PT, por aí fora.
PT, isto foi um desastre. Por isso, é preciso ter uma política de investimento muito concreta, porque investir não é apenas ganhar dinheiro, é ganhar mais do que custa. Ou seja, temos que ter sempre em consideração este custo, principalmente com a dívida, que não é um bom princípio.
Portanto, as regras de governação, de governance, se quisermos, e de transparência são muito importantes num instrumento destes.
Paulo, são as mais importantes, porque a intenção pode ser boa, mas já sabemos que os governos mudam, as maiorias parlamentares mudam, as políticas mudam, e o que pode ser uma coisa que tem um fundo, um princípio positivo, pode ser utilizado depois para influenciar decisões por interesses políticos de curto prazo, porque já sabemos que os ciclos eleitorais são de curto prazo e não se coadunam com o investimento de longo prazo nas ações. Mas os melhores fundos soberanos têm três características: os objetivos têm que ser claros, a gestão altamente profissional, o que não quer dizer que a do IGCP não seja, mas eles estão focados em dívida, não estão focados em gestão de empresas.
Carteira de investimentos, ações, por aí fora.
E depois, o terceiro, que é o fundamental, tem que ser independente relativamente ao ciclo político. E se pusermos o IGCP a gerir um fundo, eles estão relacionados diretamente com o poder político.
Sim, as negociações e isso tudo, a tutela é da Pasta das Finanças.
E aqui é que estávamos a dizer, governação e temos um fundo que realmente é independente e que investe a favor dos portugueses e não a favor de interesses.
E este debate, que é um debate político, como estamos aqui também a fazer, há daqui alguma lição que possa ser tirada para as nossas vidas particulares?
Eu acho que, tendo em conta também os podcasts que nós já temos feitos, o investidor, seja particular, seja o Estado, tem que perguntar: um, qual é o objetivo? De onde é que vem o dinheiro? Qual é o retorno esperado e quem é que toma as decisões? Na realidade, é aquilo que andamos a falar até agora. Isto são exatamente as perguntas que nós devemos fazer e colocar quando escolhemos um fundo de investimento, um PPR ou um outro qualquer ativo financeiro. E o Estado devia pôr na política de investimento deste fundo soberano exatamente as respostas a estas quatro perguntas.
Muito bem, e para fechar, temos duas ou três notas, então.
É assim, Paulo, Portugal pode beneficiar de um fundo soberano. O problema é que o sucesso não depende dos anúncios, porque vemos sempre anúncios que são de pompa e circunstância, mas depois a questão está na execução. Por isso, depende de como é que ele vai ser financiado, da qualidade da gestão, da disciplina, que é muito importante, e depois há que termos sempre muito cuidado. Investir com dinheiro emprestado pode criar riqueza, mas só quando o retorno compensa claramente o custo de financiamento. E aqui tem que ser uma rentabilidade esperada superior a 4%, com uma gestão perfeitamente independente, profissional e que garanta que os portugueses estão a ter ali um pé de meia para o futuro.
Muito bem, ficam aqui as primeiras notas sobre o fundo soberano. Provavelmente, é um tema que no futuro voltaremos, há desenvolvimentos, seguramente. Pedro Lino, mais uma vez, bom dia, bom fim de semana e até para a semana. Obrigado.
Obrigado, bom fim de semana.










