CIÊNCIA

Crescer em público c/ Beatriz Frazão


Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Não é fácil, eu sei. Mas, amiga, faz parte. Encontramo-nos domingo à hora de costume? As pessoas tratam-te por Bia? Pode ser Bia?
Bia, prefiro Bia.
Bia? Boa. Bia, olha, há tanta gente que passa a vida toda à procura de saber aquilo que quer fazer da vida. E tu cresceste a saber exatamente aquilo que tu querias. Como é que isso aconteceu?
Uau, que ótima pergunta para começar. Não sei mesmo, foi uma coisa que aconteceu. Eu lembro-me de ser tão pequenina e ter a certeza absoluta que era isto que eu queria fazer. Não me perguntes por quê, eu simplesmente sabia. E à medida que fui crescendo, fui questionando mais e pensando mais sobre várias coisas e às vezes tenho que me relembrar daquilo que eu queria mesmo quando comecei, que era isto.
Mas tu já duvidaste de: “Será que é isto?”
Não duvido. Eu tenho a certeza absoluta que é isto que eu quero fazer para o resto da minha vida, mas é complicado, não é? Porque há muita competição e isto é uma profissão de muitos altos e baixos e um dia podes estar no topo, no dia a seguir podes estar cá embaixo e é difícil de lidar com essa pressão toda.
Mas já pensaste que tens uma grande vantagem de saberes exatamente aquilo que queres. Tantas amigas minhas que estão frustradas no trabalho e o maior problema é, e eu trago isto para as conversas, mas tipo: “O que tu gostavas de fazer?” O maior problema é: “Eu não sei. Eu não sei o que eu gosto, eu não sei o que eu quero”. Portanto, é uma grande vantagem, tu parece que desde sempre tiveste ali aquele caminho, não é? Tens tipo uma luzinha que te vai guiando, tipo, é aquilo. É aquilo que eu quero fazer.
Tu sentes muito isso, que as pessoas não sabem, a maior parte das pessoas não sabe?
Sinto que a nossa geração está muito perdida.
Perdida.
E acho que esse é o maior problema, porque tu ficas perdida quando tu não tens uma linha que te guie, um propósito bem definido, percebes? E crescer com isso ajuda a ter estrutura na vida, que eu acho que falta a muita gente. Percebe?
Se calhar também há tantas possibilidades, não é?
Também é isso.
Há tanto por escolher, que uma pessoa fica muito perdida. Eu sinto-me muito perdida muitas vezes, mesmo já tendo um caminho que eu sei que quero seguir, também me sinto assim.
Sim, porque mesmo dentro da tua área também podes fazer várias coisas.
Sim, claro.
Portanto, tu escolhes um caminho, se calhar estás a deixar outros de lado. E essas escolhas também pesam, não é? Como é que vais lidando com isso ao longo de… Como é que vais tomando essas decisões de agora quero aceitar este projeto e vou deixar outros de lado. Agora quero apostar mais em cinema. Como é que fazes essa gestão?
Pois, isso é uma gestão complicada, que eu tento gerir sempre com a minha agência, para saber onde é que eu quero ir agora, o que eu já fiz, o que é bom para mim. Mas eu tento sempre seguir aquilo que eu quero mesmo fazer, aquilo que o meu coração diz. Mas sim, é difícil, é uma área com muita pressão, muitas pessoas em cima de ti, muitos olhares. Mas a verdade é que também há imensas coisas que podes fazer. Eu também gostava muito de escrever, quero começar a escrever e a fazer as minhas próprias coisas. Não sei, estou a tentar explorar tudo o que posso fazer.
Também. Que idade é que tu tens agora?
Tenho 22.
Estás tão novinha, meu Deus!
Tens quantos?
Eu tenho 28.
28? A mim não parece.
Mas é muito diferente. E tu começaste, o teu primeiro projeto foi com 10 anos.
Com 10, há 12 anos.
Meu Deus!
Ya.
Isso é totalmente crescer em público, não? Não sentiste isso?
Ya.
Estavas a crescer com os olhos todos postos em ti.
Sim.
Como é que uma criança lida com isso?
Ui, não sei. É assim, a minha família sempre foi muito terra a terra. Ou seja, eu em casa não tinha noção mesmo de que as pessoas me conheciam na rua, até quando saía e era literalmente sempre. Por exemplo, nos supermercados.
Logo no primeiro projeto?
Não, no primeiro projeto, não. Foi no Amor Maior, que foi o meu segundo projeto, que foi aquele que eu ganhei.
Sim, eu vi essa novela toda.
O Globo de Ouro.
Tu viste?
E aí foi, toda a gente sabia. E foi complicado no sentido que eu sou muito perfeccionista e a partir daí toda a gente pôs uma enorme pressão em cima de mim. “Esta miúda ganha um Globo de Ouro, ela é incrível”. E depois comecei a receber imensas propostas desta novela ou outra novela, e eu fiquei cheia de medo de desiludir. E se eu já não souber fazer isto, e se não for tão boa como eles acham que eu sou? E eu lembro-me que isso mexeu muito comigo na altura.
E tinhas esse apoio em casa que te trazia à realidade, puxava para baixo.
Tinha bastante, sim.
Os teus pais sempre acreditaram que tu ias conseguir seguir esta profissão?
É assim, no início, o meu pai achava que todas as miúdas querem ser ou atrizes, ou cantoras, ou bailarinas, mas deixa-a tentar e vamos ver se ela consegue. E no primeiro casting que eu fiz, fiquei logo nas três pré-selecionadas. Ele ficou: “Não estava à espera que isso acontecesse. Se calhar ela até tem jeito”. E depois consegui fazer o meu primeiro projeto e a partir daí ele apoiou-me 100%.
Mas onde é que surgiu essa vontade de experimentar, ser atriz?
Não sei ao certo quando, mas houve um dia que eu estava em casa sozinha e estava na televisão a dar uma novela, que acho que era o Dancing Days, e estava a Joana Santos.
Lembro-me dessa também.
Também? E eu lembro-me de ver uma cena da Joana Santos superdramática e eu fiquei a olhar para ela e eu assim: “Eu quero fazer isto. Eu quero fazer isto, nem que seja uma vez na vida, eu tenho que estar ali, tenho que fazer uma cena destas”. E depois, para aí cinco anos mais tarde, ela fez de minha irmã numa novela.
A sério? Que giro!
E eu não acredito, estou a fazer isto e com ela.
Que giro! Por acaso, eu sinto que se calhar, não sei se tu sentes isso enquanto atriz, mas todas as pessoas que vão um bocadinho para este meio mais artístico ou meio da comunicação, são normalmente pessoas que são mais tímidas.
Sentes isso?
Eu sinto isto, porque eu sinto que acaba por ser um escape da tua realidade, porque tu não te consegues expressar no teu dia a dia, sentes-te um bocado presa, um bocado pequena, e encontras ali uma forma de mostrar outro lado teu.
Sim.
Achas que foi por isso que te atraiu tanto vê-la na televisão e pensar: “Eu sou aqui, tímida, pequenina”.
Talvez, nunca tinha pensado nisso, por acaso, mas eu sou mesmo muito tímida e já fui muito mais, estou bastante melhor.
Também te ajuda esta profissão, ires falando, conhecendo pessoas, ajuda também a te pores nessa posição desconfortável.
Sim. Mesmo assim, em entrevistas também continuo a ser eu, muito tímida. Só mesmo com as câmeras é que consigo não ser.
Ok.
É uma boa questão.
Não, mas eu acho que sim. Acho mesmo que pessoas, por exemplo, que vão para as redes sociais e que falam mais, se fores perguntar, hoje em dia não parecem tímidas, mas eram sempre das pessoas mais tímidas. Eu era das pessoas mais tímidas.
Mas já não és.
Agora não sou. E agora descrevo-me como uma pessoa extrovertida, mas na altura sempre fui a miúda mais tímida, mais caladinha, mais fila da frente, mais tudo.
Uau! Mas obrigaste-te a sair dessa zona de conforto.
Comecei a fazer vídeos para o YouTube, a falar para uma câmera.
E não estavas em pânico quando começaste no início?
Super. E depois as pessoas comentavam e é difícil lidar.
E recebeste muitas críticas ao início?
Recebia porque eu era cringe. Faz parte. Eu estava na faculdade quando comecei e não era uma profissão. Ou seja, a tua profissão já é uma profissão reconhecida desde sempre. O fazer vídeos para a net, o que estás a fazer? Ninguém reconhecia isso como profissão, portanto, foi mais difícil. Hoje em dia, miúdos querem ser YouTubers e influencers e tudo mais, porque já é uma coisa que já consegues ver, já tens provas sociais o suficiente para perceber que é uma profissão. Mas na altura não. Então foi também eu acreditar numa coisa que nem sequer era real ainda, percebes?
Uau!
Então tem um bocadinho outra camada.
Isso tem muito valor. Tem mesmo muito valor.
Obrigada. E as redes sociais, como é que tu lidas com essa exposição, com aquilo que partilhas, que não partilhas? Porque tu dizes que queres também ter uma vida muito privada, ao mesmo tempo que és uma figura pública.
Sim. As redes sociais sempre foi uma coisa que eu nunca gostei muito. Ou seja, eu queria ser atriz só por ser atriz e não ter que postar nada sobre mim.
Não ter essa pressão.
Não ter essa pressão, porque não sei mesmo o que postar. Ou seja, sempre que tenho que ir para as redes sociais falar e que tenho que ser eu própria, eu entro em pânico, não sei como fazer.
Porque não estás habituada, não é a tua realidade.
Mas depois percebi que as redes sociais hoje em dia, infelizmente ou felizmente, são quase essenciais.
E não achas que é importante para contares a tua história e não serem os outros a lançarem notícias sobre as tuas histórias?
É verdade.
Para tu controlares a tua narrativa, não é? Porque principalmente para quem está em televisão, acaba por ser sempre alvo de dares um passo na rua e estão a falar sobre isso.
Sim, ou especulações, ou notícias falsas.
Como é que tu lidas com isso?
Desde que não sejam críticas pessoais, está tudo bem.
Passa ao teu lado, consegues desligar?
Consigo desligar, sim. A não ser que seja uma crítica mesmo ao meu trabalho e fico mais em baixo.
Perfeccionista.
Agora, tudo que não tenha a ver com isso, para mim, é na boa.
Mas ao longo dos anos em que estavas a crescer também em público, alguma vez isso te afetou?
Por acaso, eu sempre tive sorte, eu nunca tive assim muitas críticas, mas eu lembro-me que havia um canal de televisão que o meu pai um dia mostrou-me uma crítica de uma senhora e era só uma, todas as outras eram para aí 50 a dizer super bem do meu trabalho e havia uma que dizia, não me lembro, mas: “Eu não percebo o valor que dão a esta miúda”, não sei o quê. E eu era tão pequenina e só aquele comentário mexeu tanto comigo, eu passei tão mal com aquilo. Eu assim: “Eu não acredito”.
É que nem consegues ligar com as outras positivas.
Não, e o meu pai assim: “Bea, foca-te, tens 50 críticas extraordinárias, não penses nesta senhora que provavelmente não sabe o que está a dizer.”
Mas sendo tão nova, também não consegues fazer essa filtragem, perceber, essa avaliação. Hoje em dia, se calhar, já consegues, mesmo que sejam críticas negativas, que podes não ter muitas, se calhar já consegues fazer uma análise melhor.
Acho que mesmo assim ainda é um bocado…
Ainda é duro?
Ainda é um bocadinho duro.
E não depende das pessoas de onde vêm essas críticas? Porque são pessoas que tu não conheces de lado nenhum, que não conhecem de onde é que tu vens, se calhar não tem tanto impacto como se uma pessoa da indústria te disser alguma coisa, não é?
Sim, claro, sem dúvida. Para mim o que interessa são mesmo as pessoas da indústria.
E então, mas como é que tu fazes essa gestão do que eu quero partilhar da minha vida pessoal ou o que eu não quero partilhar? Como é que tu fazes isso no teu dia a dia?
Eu tento sempre, tudo aquilo que eu partilhar, tem que ser algo com propósito. Algo que as pessoas se identifiquem. Ou seja, não quero partilhar só por partilhar, para não ser uma coisa fútil, só para fazer conteúdo. Não sei se estou a explicar bem.
Sim, que também não é a tua profissão.
Exato, não é a minha profissão. Mas agora eu estou a tentar mesmo focar-me mais nas redes e fazer essa gestão do ok, o que eu partilho? Sou atriz, mas o que eu partilho? Porque eu também gosto muito de muitas outras coisas. Adoro desporto, adoro alimentação, adoro tudo isso. E adorava partilhar a minha rotina, a fazer desporto, aquilo que eu como. E às vezes fico com um bocado de medo. Ok, mas as pessoas veem-me como atriz e se eu começar a partilhar isto, posso…
Misturar dois mundos.
Exato, misturar dois mundos. Então é sempre uma…
Mas tu não achas que é importante estar nas redes? Estavas a dizer isso.
Eu acho que é superimportante, sim.
Mas mantendo a linha da atriz.
Mas mantendo, não dispersar.
Ok.
Acho que sim.
Mas se é uma coisa que também gostavas de explorar, outras áreas tuas, também não somos só uma coisa.
Exatamente.
Acho que faz sentido, ou seja, em termos de posicionamento, teres esse cuidado de para onde é que tu estás a levar as redes. Mas no final do dia, nós somos muitas coisas e também está tudo bem em explorar isso. Olha, e já que falas de desporto, tu também fizeste ginástica acrobática.
Fiz.
Que eu não sabia. Que eu sou uma trouxa.
Também não fizeste?
Muitos anos, foi a minha vida dos sete anos aos 20.
Uau!
Foi muito tempo.
Aos 20?
Sim, e ainda fui treinadora, fiquei mesmo muitos anos.
Uau, isso é incrível.
Era mesmo a minha vida. E tu fizeste ainda para uns seis aninhos também.
Eu fiz também. Acho que fiz dos sete aos 13. Depois quando comecei a fazer novelas, parei.
Pois, não conseguias conciliar tudo.
Não. E entrei no mundo da competição e não dava para mim, eu tinha muito medo de me aleijar. Eu era volante, que cheguei a um nível muito avançado, fazer figuras muito avançadas e quando surgiu o meu primeiro trabalho como atriz, que era tudo o que eu mais queria, e se eu me lesionar?
Era esse o receio?
Sim, o meu receio era muito esse. Sempre fui muito paranoica com isso. Então tinha muito medo de me lesionar e perder o meu trabalho.
Claro, mas treinavas muitas horas?
Treinava. Nós treinávamos seis dias por semana, três horas por dia.
Pois, era como eu. Que é muito exigente, e as pessoas não têm bem a noção da exigência que a ginástica traz.
E não és só tu, tens uma equipa. No meu caso, eu era um trio. Tenho mais duas pessoas que estão a contar comigo, portanto, se eu falhar, elas também falham.
Mas não achas que te trouxe muitas coisas positivas?
Eu acho que a ginástica trouxe-me, sem dúvida, muitas coisas positivas. Eu acho que fez de mim a pessoa profissional que eu sou hoje. Se não tivesse aquele foco da ginástica e da disciplina no início da minha vida, seria muito mais difícil de entrar numa profissão destas.
Mas achas que é preciso uma criança passar por tanta rigidez?
Não.
Se tivesses filhos, porias os teus filhos na ginástica?
Não.
Pois.
Num desporto mais saudável, sem competição.
Pois. É que é uma exigência de treino, de horas, de gestão de tempo, mas também é uma exigência muito mental, muita pressão para seres perfeita, para seres a melhor. Todos os milímetros contam.
É exatamente isso.
E todos os dias tu estás sob pressão com o teu treinador. Sendo volante, a volante sofre muito mais pressão do que as bases. E a pressão também é das bases para a volante, porque ela que tem de treinar mais, porque ela que tem de fazer acontecer, as bases só estão aqui embaixo para segurar.
Totalmente.
Mas achas que trouxe essa disciplina?
Trouxe a disciplina, mas por outro lado, também trouxe o meu medo enorme de falhar. Na minha vida profissional, se eu sinto que falho numa coisinha pequenina, eu não sei como lidar com isso e eu acho que isso é capaz de vir da ginástica.
Mas achas que não é de ti?
Também pode ser de mim, um bocadinho. Não sei, é uma boa questão. Acho que também vem um bocadinho da ginástica.
E cresces também com muita gente na ginástica a comparar-se uns com os outros. Não sentias isso? Mesmo dentro de clubes e tudo mais, é uma pressão.
Por acaso, na ginástica, eu nunca fui competitiva.
Ok.
Mas sim, por parte dos treinadores, isso.
Em termos de alimentação, tu sentias muita pressão?
Não. Só me lembro de uma vez estar com o meu pai a lanchar e a comer um gelado e passar o meu treinador e ver-me a comer um gelado. E ele assim: “Por que está a comer um gelado?” E eu: “Não posso comer gelado?” E eu: “Meu Deus, ele não me deixa comer gelado.”
Pois, porque isto também varia muito clube para clube.
Varia muito clube.
O meu também era mega tranquilo.
Já ouvi histórias de treinadores que estavam mesmo em cima.
Sim, nós tivemos várias situações em que íamos para estágios da seleção, com pessoas de outros clubes mais exigentes, que o meu era tranquilo, e às vezes as volantes só podiam, às refeições, era tipo comer uma laranja, escolher uma peça de fruta.
Eu ouvi essa história.
Só podiam comer uma peça de fruta. E depois nós estávamos a treinar oito horas por dia, porque treinávamos quatro de manhã e quatro à tarde. E depois era as volantes a virem bater à porta do nosso quarto a pedir tipo bolachas, comida, porque quem é que aguenta com duas peças de fruta por dia a treinar oito horas?
Que horror!
Depois imensas histórias de pessoas que acabam por ficar com distúrbios alimentares, com doenças graves e que não conseguem recuperar, é horrível.
Sim.
Por acaso eu tive sorte no meu clube que foi mega tranquilo, mas mesmo assim eu sinto que a má relação que eu tenho hoje em dia com a comida também vem muito daí, vem um bocadinho da ginástica.
Ok.
Porque eu própria também era muito exigente como tu. Era muito tipo aquilo que eu podia controlar, eu ia controlar. E alimentação é uma coisa que influenciava diretamente o teu peso e a tua performance na ginástica. Mas havia pessoas que levavam aquilo de uma forma que é mesmo surreal de pensar.
Uau.
E hoje em dia, como é que é tua relação com o desporto? O que é que tu fazes?
Eu não consigo passar sem fazer desporto. Eu adoro, acho que faz muito parte de mim. Não vou tanto ao ginásio porque sou muito tímida e não gosto de ir com as pessoas todas a olhar para mim, mas gosto de treinar sozinha, faço os meus próprios treinos.
Em casa?
Sim.
Giro.
Faço bootcamp também muitas vezes, cycling, ioga. Tenho certificado para dar aulas de ioga.
A sério?
Sim, eu sou muito apaixonada pelo desporto.
Por quê o ioga? Pela conexão?
O ioga era uma coisa que eu fazia com a minha mãe e foi muito pela parte interior, pela parte da meditação. E foi um professor que nos dava aulas, eu apaixonei-me completamente pela forma dele dar aula. Já tentei fazer ioga com outras pessoas e não é de todo a mesma coisa. Portanto, acho que foi esse professor que fez crescer este amor pela meditação, sobretudo.
Tu também falas muito que tens ansiedade.
Já tive muito mais, mas sim.
Encontraste as ferramentas para acalmar isso?
Sim, não sei como, mas não sei o que eu fiz ao certo. Foi uma coisa que foi acontecendo ao longo do tempo, fui ficando um bocadinho mais tranquila.
Achas que é com o crescer e com tirares esse bocadinho de pressão sobre ti, será?
Acho que sim.
E se calhar também refugiaste em desporto e outras coisas também se calhar vai ajudando.
Exato.
Acho que é um bocadinho por aí. Olha, e nós estivemos também a fazer uma coisa muito gira. Vamos ver? Vamos ver aquilo que estivemos a fazer?
Bora! Tens imagens.
Tenho um videozinho.
Que giro!
Então nós hoje também estamos aqui com o apoio da Tampax, com uma campanha que é #EstouIn, que nos desafiaram a nós fazermos uma coisa diferente, que tu já tinhas experimentado uma vez, que é stand up paddle, que para mim foi a primeira vez. E foi mesmo giro.
Foi muito giro.
Te sentiste confortável, foi ok para ti?
Sim, super. Eu gosto muito.
Gostas dos desportos aquáticos?
Gosto muito. Tenho cá medo, se.
Tens? Já experimentaste?
Já.
Eu, por acaso, não me sinto assim tão à vontade em água. Então eu estava com receio, porque eu achei que ia ser muito mais instável, que íamos cair muito mais, mas nenhuma de nós caiu.
Ainda bem que não, eu estava gelada, eu não queria cair.
Mas estava ótimo, estava mega tranquilo, sem ondas e adorei. Apeteceu-me. Fiquei com vontade de depois no futuro voltar a fazer tipo aquelas sessões de sunrise stand up paddle. Marcam sessões, tipo ao horário de sunrise, deve ser lindo.
Isso deve ser incrível.
És tu, o sunrise, o mar.
Uau! Lindo.
Foi muito giro e temos um videozinho de resumo da experiência, vamos ver?
Vamos lá ver.
Aquelas pranchas pesadíssimas. Parece fácil, não foi. Pegar na prancha foi mais difícil. Todas estas imagens estão espetaculares. E para a água e nenhuma de nós caiu.
Nenhuma de nós caiu.
Está lindo isso.
Uau!
Bem, correu bem. Eu estava mega nervosa. É que eu nunca fiz isto na vida. E tu alguma vez deixaste de fazer alguma coisa por estares com o período?
No início, se calhar sim, ficava com receio.
Mas a partir do momento que usaste tampão.
Sim.
Mega tranquilo.
Exato, mega tranquilo.
Mesmo a água, ir à água.
Supertranquilo. E não somos só nós que podemos experimentar estas coisas giras. Com a Tampax também podes ganhar 500 € para experimentar uma atividade à tua escolha.
Está giríssimo. Aquelas imagens de drone está qualquer coisa.
O drone, incrível.
Está espetacular. E aquelas em que eu estou tipo com a câmera. É que eu estava a segurar, como é que se chamará aquilo? A pá? Não sei como é que se chama.
Acho que é a pá.
E a segurar na câmera, eu estava tipo: “E agora, como é que eu vou fazer só com uma mão?”
Ficaram supergiras.
Ficou mesmo giro. Olha, eu estava ali a contar que quando te veio a menstruação pela primeira vez, tu lembras-te?
Foi numa prova de ginástica.
A sério?
Ya, foi no MIAC.
Pois tu contaste-me essa história.
Se calhar estavas lá.
Pois, muito provavelmente. E nessa altura tiveste logo de usar tampão ou não?
Não, eu entrei em pânico, porque e agora? Ainda por cima nas provas nós usamos aqueles maiôs que são super-
Super grudidos.
Ui, super estreitinhos e tu tens que pôr cola para aquilo não sair e eu porque fazemos bué movimentos e eu: “E agora? E vai ficar tudo sujo, o que é que eu vou fazer?” Porque não estava habituada.
Sim, é que não há possibilidade de fazeres uma prova de ginástica de competição sem tampão.
Não há, não há mesmo. Ou seja, eu tinha pensos, mas o penso é gigante, não dava para fazer. E foi a minha base que me emprestou um tampão e eu estava cheia de medo. “E o que é que eu faço? Como é que eu ponho e não sai?” E ela: “Não, não, é supertranquilo, confia em mim”.
Ensinou-te?
Explicou-me todos os passos e foi supertranquilo. Salvou-me a vida.
E desde daí, nunca mais foi uma questão.
E desde aí, claro que sim.
Sim, para mim também foi. Não estava numa competição, mas estava num sarau, acho que era um bocado algo do género. E também foi isso. E teve de ser a minha base na altura também a ensinar.
Também? Uau, história parecida.
Aconteceu igual, imagina, podia perfeitamente ter sido as nossas mães em casa, mas foi precisamente no momento em que veio a primeira vez, no momento em que precisávamos mesmo de usar. O que acaba por facilitar, que eu acho que há muita gente que tem dificuldade em começar a usar, porque não têm essas situações de serem obrigados a. Percebes?
Acho que há muita gente que até acaba por não usar, porque nunca teve uma situação em que foi mesmo obrigada a usar.
E que acha que é muito mais complicado do que é, na verdade.
Exato.
Facilita tanto a vida, não é?
Mesmo.
Alguma vez deixaste de fazer alguma coisa por estares com o período? Lembras-te assim de alguma coisa?
Não, lá está, como tive essa experiência, depois passei a usar sempre o tampão.
Mesmo coisas de água, férias. Não sei se tens amigas assim, mas sempre tive amigas que era tipo: “Não, estou com o período, não posso ir à praia”. E para mim era tipo: “Mas why? Tipo, põe o tampão”.
Sim.
Percebes?
Sim.
Acho que foi um bocadinho esse choque que nos ajudou, olha. Que também, outro ponto positivo da ginástica.
Exato. Ainda bem que foi tão cedo.
Olha, e qual é que é aquele plano que tu estás sempre in no verão, que tu adoras fazer?
Ui, eu sou muito aventureira, estou sempre in para fazer tudo, o que seja aventuras.
Mas desportos radicais ou…?
Tudo. Este ano experimentei saltar de paraquedas, que era uma coisa que eu disse a mim mesma que nunca na vida ia fazer.
Que horror! Como é que isso foi?
Mas foi no aniversário da minha irmã, ela foi e: “Não queres vir comigo?” E eu: “Não, não, não, não vou.” Ela assim: ” Bia, é a única oportunidade que vais ter para fazer isto”, e eu: “Eu não acredito que vou fazer isto”. Achei mesmo que ia morrer.
Que pânico, eu acho que ia desmaiar. Nunca saltaste? Não, eu acho que nunca quero fazer.
Foi assim inacreditável.
É? Mas saltar de paraquedas, tipo de um avião ou de um sítio alto?
De um avião pequenino, de um paraquedas. Ficas 50 segundos em queda livre.
Tanto tempo.
É uma sensação.
E depois aquilo abre logo ou…?
Não, só abre passado 50 segundos. Então ficas 50 segundos a cair em queda livre.
Faz sentido.
Mas tipo os primeiros 10 segundos é que é uma sensação horrível, depois o corpo habitua-se.
Então és mais assim de coisas aventureiras. Então o stand up paddle para ti foi easy peasy.
Foi, é mais uma meditação.
Olha, e a Tampax também este ano está a dar liberdade para não sermos só nós a experimentar coisas novas e a fazer estes planos giros. Portanto, a Tampax está a oferecer também 500 € para próximas aventuras, para fazerem aquilo que quiserem, experimentarem, escolherem fazer. É uma campanha que está válida desde 15 de maio até dia 28 de agosto, na compra de duas embalagens Tampax, onde se partilharem qual é o plano de verão que estão sempre in, tal como acabaste agora de fazer, são escolhidos 10 vencedores E podem então ganhar estes €500 para poder escolher em qualquer tipo de atividade que quiserem fazer, seja radical ou não. Podem ser coisas bem mais simples como aquilo que nós fizemos ou ainda mais. Já fiz, por exemplo, nos últimos episódios fiz pilates, reformer, também foi muito giro. Já fiz também voleibol, já fiz algumas coisas com a Tampax, portanto também tem sido giro. E podem consultar todas as informações desta campanha também em www.tampaxestouin.com. Tens 23?
22.
22 anos. Com 22 anos já viveste muita coisa, seja profissionalmente, na tua vida. O que tu sentes que até agora a vida mais te ensinou? O que tu mais aprendeste? Como é que tu mais cresceste?
Uau, sei lá, tanta coisa. Aprendeu-me que eu não posso controlar tudo. Há coisas que nós não controlamos e que nem sempre as coisas acontecem como nós queremos e que está tudo bem, que faz parte.
Falas profissionalmente, falas da tua vida pessoal?
Falo de tudo. Mas também me ensinou que se eu tenho um sonho, se eu quero muito uma coisa, para nunca desistir e que se eu nunca desistir, vou chegar lá. Isto com qualquer pessoa. Eu acho que quando temos uma coisa na nossa cabeça, quando o coração nos diz para fazer algo, é mesmo para fazer.
Segues muito a tua intuição nas decisões que vais tomando na tua vida?
Sim, muito.
Achas que te tem guiado bem ou achas que já tiveste alguns momentos que é tipo: “Não era por ali e eu senti que era por ali.”
Eu sou super indecisa. Detesto tomar decisões. Não gosto nada de tomar decisões porque nunca sei o que fazer.
Mas lembras-te assim algum momento que tenhas tomado uma decisão que depois te viste a arrepender? Ou achas que te ensinou sempre alguma coisa?
Eu acho que me levou ao caminho onde eu tinha que levar. Até agora ainda não tomei uma decisão que eu senti que fosse mesmo errada, que devia ter ido por outro caminho.
Houve alguma fase assim na tua carreira que tenhas feito um projeto que se calhar não era bem aquilo que estavas a imaginar?
Não. Por acaso sempre tive a sorte.
Sempre bateu certinho.
Sempre bateu certinho.
Qual foi o projeto que mais te marcou?
Foram tantos. A mim o que mais me marca, para além do projeto, é as pessoas que fazem parte do projeto. E eu tenho tido a sorte de trabalhar com pessoas tão incríveis, que me ensinam tanto e isso para mim vale mais que tudo.
Ficam amigos depois de gravações?
Alguns, não todos, claro. Mas alguns sim.
Achas que existe ainda muita competição ou vocês conseguem separar bem as coisas e criar amizades verdadeiras mesmo?
Pois, eu tenho amizades verdadeiras fora da área. Dentro da área, ainda não consegui arranjar uma amizade que eu sinta que possa confiar e que eu sinta que é mesmo verdadeira.
A sério?
Sim. Se calhar é um medo meu.
Sentes que não te abres o suficiente a essas pessoas por teres esse medo?
Talvez. Mas eu também sempre quis ter amizades fora da área.
Também te faz bem, não é? Para a tua vida não ser só trabalho. Já és tão obstinada com o trabalho que se calhar também te faz bem chegares a casa e…
E também ter amigos que tenham outro trabalho completamente diferente também me ajuda muito.
Mas não te faz falta ter pessoas que tu confies 100% dentro do meio, que tu consigas desabafar sobre a área?
Exatamente, sinto que as minhas amigas como não estão dentro do meio, falar de mim e do meu mundo é completamente irreal para elas, ou seja, não é algo que elas consigam compreender.
Sempre, por mais que tu tentes explicar, não é a mesma coisa que alguém que está a passar pela mesma coisa que tu, não é?
Exato.
Mas tu dás muito espaço para alimentar essas amizades ou achas que no teu dia a dia tens tanto trabalho que fica um bocado de lado?
No início, sim. No início eu lembro-me que eu tinha muita dificuldade em fazer amigas, porque eu estava sempre a trabalhar e estava sempre focada no trabalho. E não saía, não queria estar com as amigas, porque era aquilo que eu queria fazer. Aí depois fui crescendo e apercebi-me que não tenho uma rede de apoio, não faço as coisas normais que as pessoas da minha idade deviam estar a fazer, como sair, jantar com as amigas. E comecei a sentir muito isso, muito o peso da solidão. E então este ano, sobretudo, isso começou a ser uma das minhas prioridades, passar mais tempo com amigos, conhecer pessoas novas.
Era isso que eu ia perguntar. Estás focada em amizades antigas ou também tens estado aberta a fazer novas?
Aberta a conhecer pessoas novas, sim.
O que mais te faz falta daquilo que estavas a falar de ser uma pessoa normal da tua idade? O que sentes que perdeste mais ou que queres mais explorar?
Talvez os relacionamentos. Ter um grupo de amigos e fazer coisas com eles, não estar sempre na minha bolha preocupada, o que é difícil para mim, porque eu estou sempre muito focada no meu trabalho e esqueço-me que também preciso relaxar um bocadinho. Ir jantar fora, combinar com alguém.
Sim, eu ouvi-te dizer, já não sei onde, que tu não conseguias estar no sofá, só chill, sem fazer nenhum. Isto tu disseste há uns anos atrás.
Consigo, mas é complicado.
Agora já consegues?
Se ficar mais do que meia hora no sofá, começo a me sentir super culpada.
Porque há sempre mais coisas para fazer. Mas o que são essas coisas? É preparares-te para ler texto, é fazer o quê?
Olha, estudar línguas para conseguir ir para fora, ter um trabalho para fora, escrever. Eu não sei ao certo o que há para fazer.
Mas há sempre mais.
Mas há sempre mais para fazer. Exato.
Tu gostavas de ter uma carreira internacional?
Gostava muito. Sinto que é o que me falta.
Pois, porque tu também és tão nova, já alcançaste tanta coisa. Isso assusta-te? O teres conseguido tudo Muito rápido?
Assusta-me porque eu acho que-
E leva um bocadinho a fasquia, não?
E leva muito a fasquia e faz com que eu nunca esteja contente com nada. É horrível. Eu sinto que sempre quero mais e sempre quero atingir mais do que já atingi antes. E é muito cansativo, porque parece que nunca estou bem. Parece que tenho sempre que fazer mais e trabalhar mais para chegar mais longe ainda.
E quando chegas a esse longe, és mais feliz por isso?
Fico muito feliz, mas tenho que conseguir mais.
Mas não é suficiente.
Nunca nada é suficiente.
E quais são os próximos grandes objetivos que tu tenhas?
Trabalhar internacionalmente, gostava muito.
Mas está em algum país que gostavas?
Gostava muito de ir para Espanha. Adoro o mercado espanhol, acho que se fazem imensas coisas lá e cada vez fazem mais com atores portugueses. E o mercado brasileiro também me parece muito interessante.
Tu falas espanhol?
Espanhol já estive a aprender, sim.
Nice.
Brasileiro é que estou a achar muito mais difícil.
A sério?
Ainda por cima é praticamente a nossa língua, mas custa muito fazer o sotaque brasileiro.
Trocar, não é?
Bem mais difícil do que o espanhol ou do que o inglês.
Acredito. Estavas a dizer que gostavas de ir para fora e depois ias dizer outra coisa que querias falar.
Criar projetos meus. Ou seja, não estar à espera que me chamem para um projeto, que pensem em mim para fazer uma certa personagem. Criar mesmo eu a história que eu quero contar e chamar eu atores para fazerem parte dessa história.
E daí a escrita também?
E daí a escrita, exatamente.
Ok. Mas tu sentes que na fase em que estás, ainda estás num ponto em que precisas de ir a castings, ainda tens dificuldade em ter trabalho, em que sentes essa dificuldade da indústria ou sentes que já estás num ponto em que isso não é uma questão?
Já estou num ponto em que as pessoas me conhecem, conhecem o meu trabalho, portanto não sou nova, não me estão a ver pela primeira vez, falam do meu nome, já sabem quem é que eu sou. Isso claramente que é muito mais fácil para arranjar trabalho, mas claro, há sempre castiginhos que eu tenho que ir. E mesmo que já me conheçam, não faz com que seja muito mais fácil. Continua a ser bastante difícil, porque há sempre gente nova a entrar no mercado e infelizmente não temos assim muitas oportunidades ainda cá em Portugal. E há muitos atores à procura de trabalho e as oportunidades vão para poucos atores e principalmente sempre para os mesmos. Então é sempre difícil, porque eu nunca sei, por exemplo, como é que vai ser a minha vida para o ano ou como é que vai ser a minha vida daqui a três meses, se vou ter trabalho, se não vou ter. Posso ter um trabalho incrível, como posso não ter. E é muito lidar com essa imprevisibilidade.
Altos e baixos.
Exatamente.
E quando tu estás entre trabalhos, imagina, acabaste um projeto mesmo bom, tu consegues aproveitar para descansar ou já estás logo preocupada em: “Tenho de arranjar o próximo, porque não posso ficar neste standby.”
Eu sendo como sou, estou sempre preocupada com isso. Mas agora já aprendi mais a relaxar.
Relativizar.
Exatamente.
Acreditas que as coisas acontecem no tempo que têm que acontecer ou tu é que tens sempre de fazer por isso?
Não sei. Eu penso muito nisso. Ou seja, será que devo relaxar e acreditar que o que é para ser meu vai acontecer?
Porque foi acontecendo isso na tua vida, não é?
Foi sempre acontecendo isso, sempre. Mas ao mesmo tempo também sinto que tenho que estar a trabalhar ou a fazer algo para alcançar isso, que não posso simplesmente esperar.
Sim, por acaso eu ontem estava a falar também num episódio com um amigo meu, eu estava a lhe a dizer que eu acredito ter assim uma veia espiritual e acredito muito no universo e que ele nos vai trazer as coisas certas para nós na altura certa. Seja em relacionamentos, amizades, projetos, carreira. Mas tu tens de estar sempre é aberta e a trabalhar para isso. Ou seja, não digo que o universo vai dar tudo e eu aqui sentadinha à espera que isso aconteça. Eu vou criando as minhas oportunidades, mas acredito que não posso forçar demasiado para as coisas acontecerem. Estás a perceber?
Ya.
Acreditar que se eu fizer as coisas certas, como eu acredito em mim que estão certas, que as coisas depois o puzzle se vai montando. Estás a perceber?
Faz todo sentido.
Mas pronto, isto é já a minha veia espiritual.
Também sou superespiritual.
E então estavas a dizer que agora estás mais focada então em se calhar explorar outras coisas, escrita. O que é que tens andado a fazer no teu dia a dia para isso? Estás a tirar algum curso ou é mesmo por ti que queres aprender?
Estou a tentar fazê-lo por mim. Claro que vou sempre, às vezes vou a Madrid tirar cursos ou a Londres, mas estou a tentar fazer por mim, sim.
É sempre giro. E é um desafio, porque é uma coisa totalmente nova, porque isto aqui tu já fazes desde que tens 10 anos, não é?
Sim. Não sei como, mas sim.
Portanto, para ti se calhar já é fácil, não? Ou só quando tens assim um papel mais diferente é que te desafia um bocadinho mais?
Sim, é sempre um desafio. Eu gosto muito de fazer personagens que sejam completamente diferentes daquilo que eu sou, porque isso é um desafio ainda maior. Mas há muitas personagens que eu adorava fazer e que sinto que se essas oportunidades não chegarem até mim, gostava de ser eu a criar espaço para elas chegarem, ser eu a escrevê-las, a criar esse projeto, a produzir algo.
Sim, para também não estares dependente de que…
Dos outros, exatamente.
Porque quando fizeste os Morangos foi assim, se calhar a personagem mais diferente que tu fizeste. Mais diferente de ti, não é?
Sim, totalmente. Eu sou zero a Kika.
Isso foi um grande desafio na altura?
Foi, porque quando eu passei nos Morangos com Açúcar e quando eu fui a casting, só me deram a personagem da Kika para fazer no casting. E eu vi o texto da Kika e eu pensei: “Eu nunca na vida vou ficar, porque não sou eu, não tem nada a ver comigo. Nunca me vão ver a fazer a Kika.” Não sei como passei, acreditaram em mim para fazê-la e foi super divertido. Foi mesmo super divertido.
E agora já gostas mais de personagens divertidas ou ainda não?
Sim.
Porque tu gostavas mais de dramáticas, mais intensas.
Eu acho que dramática é sempre a minha zona de conforto. Eu gosto muito de personagens dramáticas, mais intensas. A Kika também era bastante dramática, só que a Kika funcionava de maneira diferente. Era uma pessoa muito peculiar.
Mais no seu mundo.
Exato.
E agora estás em que projeto? O que é que tens trabalhado?
Estou a dar uma novela que é a ” Vitória”, acabei de a gravar o ano passado. Também foi muito giro, foi lá que conheci a Vanessa Giácomo. Ela fazia de minha mãe, que é uma atriz mega conhecida no Brasil e ela é só a melhor atriz e a melhor pessoa com quem eu já trabalhei. Foi incrível. E tenho feito peças de teatro, o Black Bird.
Esta novela que estás a falar, a personagem que tu interpretas tem um distúrbio alimentar, não é?
Tem, exato.
E foi difícil de conseguires entender esta questão sem teres passado por isso?
Como é algo delicado como um distúrbio alimentar e como eu sei que há muita gente que passa por isso, eu fiz questão mesmo de estudar o assunto e de falar. Os meus tios são psicólogos e eu falei com eles sobre os comportamentos de uma pessoa que tem bulimia, os pensamentos, para ter a certeza que eu estava a representar algo certo.
Porque eu acho que é uma questão tão mental, que quem não passa por isso não consegue entender bem.
Sim, eu não estava a conseguir entender como Beatriz, nunca passei por um distúrbio alimentar desses, ainda mais a bulimia para mim era algo que eu não conseguia compreender, porque a pessoa tem vontade de comer muito e muito mal e depois vomita logo a seguir. E isso para mim parecia meio contraditório. Então eu tive que estudar sobre isso, falar com psicólogos, falar com pessoas que já passaram por isso também.
Tens tido muito feedback de pessoas que tenham passado por isso?
Por acaso, sim. Tenho recebido algumas mensagens a agradecerem por ter feito a Lia e que se sentem muito vistas naquela personagem.
Acredito.
E que é muito importante.
É um tema também que muita gente vive em silêncio.
Exato.
Portanto, por expor ali em televisão.
E as pessoas que têm, muitas vezes não sabem que têm. A minha personagem não tem consciência de que tem bulimia, de que tem algo grave. E quando lhe dizem que ela tem, ela entra em negação. Ela não acredita e também não quer ir aos médicos, não quer falar com ninguém sobre isto. Acredita que não tem nada. E tem uma visão super distorcida sobre ela mesma. Acha-se super gorda e super disforme, quando é magra.
É magríssima.
É magríssima, não tem problema absolutamente nenhum. Acho que é mesmo uma distorção do cérebro que te faz acreditar que és algo que não és mesmo e que só tu é que vês.
Tu consegues desligar dessas questões intensas que vives nas novelas?
Consigo.
Separar perfeitamente as coisas.
Tenho que saber fazer.
Desde nova conseguias?
Sim. Aliás, a minha primeira, a Daniela do “Amor Maior”, era uma personagem superexigente emocionalmente. Eu era super nova, tinha cenas mesmo terríveis. A minha madrasta, a Inês Castelo Branco, a fechar-me num jazigo, a matar o meu pai à minha frente. E sempre se preocuparam muito comigo.
Claro, uma miúda a passar por aquilo.
Mas eu nunca levei isso para casa, de todo.
As pessoas até deviam ter pena de ti. Tu, Beatriz. E ter pena ou medo que tu também te deixasses levar um bocadinho por aquilo. Era a Francisca?
Era a Francisca. Ah, viste essa novela?
Eu vi essa novela. Lembro-me perfeitamente.
Que giro!
Essa personagem foi mesmo intensa, mas também foi aquela que te marcou e que te fez dar o salto, não foi?
Foi a partir dessa personagem que eu depois consegui, felizmente, nunca mais parar.
Mas foste recebendo alguns nãos também ao longo do período, ou não?
Claro, os nãos fazem super parte. Aliás, são muito mais os nãos do que os sims, e temos que aprender a lidar com isso.
Por exemplo, se agora viesse ter contigo uma miúda que quer começar, seja da tua idade ou agora mais tarde, queira começar a entrar no mundo, seja do cinema ou da televisão, o que é que tu recomendarias? Por onde é que seriam os passos certos a fazer?
Perguntam-me muitas vezes isso e o que eu mais digo é: primeiro, eu acho que é muito importante ter a certeza de que é isto que queres fazer e que tenhas uma razão certa para o fazer, porque é tão difícil de entrar no meio e mesmo quando já estás lá dentro, é tão difícil lidar com a pressão, ouvires muitos nãos, com a competição. Por isso, tens mesmo que ter a certeza que é isto que tu queres fazer. E se tiveres, então vai com tudo e nunca desistas, que há de chegar a tua oportunidade. Para mim não foi, de todo, fácil. No início foi mesmo muito difícil. Eu sofri muito porque eu ficava sempre pré-selecionada e recebia sempre nãos. Uma altura eu fiquei pré-selecionada em três projetos, fiquei mega feliz porque pelo menos um iria fazer, tinha a certeza, e recebi os três nãos no próprio dia. E eu era super nova e desabei completamente e os meus pais megapreocupados, a dizer: “Não queremos que faças isto, não queremos que sejas atriz, vais sofrer muito. Por favor, não o faças.” E eu: “Não, eu sei que vou conseguir”. E também foi muito essa resiliência de eu posso ter recebido nãos, mas é isto que eu quero e não vou deixar que ninguém me diga que não é e que não posso fazer. Mas é porque eu tinha a certeza que era isto que queria.
Tinhas uma confiança forte.
Exato, porque se não tivesse, tinha muito mais confiança antes do que tenho agora.
É? Por quê?
Sim, não sei.
Estavas mais ingênua, não é?
Exato.
Não tinhas noção do mundo em que vivias, se calhar.
Exato.
Acreditavas mais. Mas hoje em dia as coisas também estão a acontecer.
Sim, claro.
Mas estavas a dizer que os teus pais até tiveram ali a insistir para que tu não…
Porque me viam a sofrer muito e eu era tão nova, não queriam que eu sofresse com uma coisa que não devia estar a sofrer, que eu tinha uma paixão enorme por aquilo. Ou seja, não era de todo para ser conhecida, para aparecer na televisão, era mesmo para ser atriz, para representar personagens.
Mas estavas a dizer que recomendas as pessoas então decidam se querem ou não, e se decidirem, quando tu dizes go all in é em castings? É essa a estratégia?
É na persistência, ou seja, nós não controlamos muito os castings. Entramos numa agência e normalmente é a agência que nos manda os castings. E não há muito que possamos fazer nos castings.
Mas achas que ajuda tu trabalhares a tua visibilidade, por exemplo, no digital?
Sim, hoje em dia ajuda muito. Aliás, isso tem muita influência.
Portanto, essa parte se calhar também podes controlar um bocadinho.
Essa parte eu acho que é a única parte que podes controlar.
E ir a tudo. Aquilo que te identificares.
E ir a tudo.
Achas que os contactos certos também ajudam a ires conhecendo pessoas?
Sem dúvida. E eu acho que estou aqui hoje, sobretudo porque as pessoas com quem eu trabalhei no início, são pessoas importantes, que fizeram coisas importantes e gostaram de trabalhar comigo e me chamaram para fazer outras coisas.
Pois, isso deve contar muito.
Isto conta muito, porque se fosse só castings, é muito mais difícil.
Pois é isso. Se calhar aquilo que estavas a dizer de serem sempre as mesmas pessoas a ser chamadas é porque isso vai acontecendo.
Exatamente.
É normal haverem essas ligações de: “Ah, gostei de trabalhar com aquela pessoa e penso na personagem, se calhar aquela pessoa é certa para isso.” É mais fácil saber que vai correr bem com essa pessoa com quem já trabalhaste.
Quando eu digo all in, é muito difícil nos castings, porque tu nunca sabes o que vai acontecer, nunca podes controlar. Mas dá tudo a partir que recebes o primeiro sim, que tens o teu primeiro projeto. Aí sim, dá tudo que é para provares que é mesmo isso que queres fazer, que és boa e para que te possam chamar para os próximos. Acho que tu estudaste? Não. Eu queria muito ter estudado.
Tu começaste logo com 10 anos?
Comecei com 10 anos e não parei, não tive tempo de estudar.
Então tu terminaste o 12º e foi…
E foi isso. Mas eu quero tirar uma licenciatura e vou tirar online, Psicologia.
Chico.
Que acho que também pode ajudar bastante.
Mas para a tua carreira enquanto atriz?
Sempre foi algo que eu quis estudar. Sempre tive muito interesse por psicologia, então gostava muito de conciliar as duas, mas nunca tive tempo. Encontrei uma universidade online que me dá para estar a trabalhar como atriz, como é óbvio que isso nunca quero perder, e estar a estudar também ao mesmo tempo.
Mas tu queres tirar uma licenciatura porque queres ter esse check ou porque gostas mesmo da área e achas que te vai ser muito útil? Ou os dois?
Um pouco pelos dois. Também para ter um plano de segurança, para não me sentir completamente perdida, se passar por uma fase em que não tenho caminho, não sei o que fazer a seguir, para ter essa base.
Mas achas que estudar representação não foi uma coisa que sentisses que te faltasse?
Não foi uma coisa que senti que me faltasse, porque acho que, isto é uma opinião minha, acho que se aprende muito mais estando dentro de um mercado e trabalhando do que numa escola, mas claro que quem não tem essa oportunidade, sem dúvida ir para uma escola.
Sim, porque também tu cresceste nisso, portanto, foi a tua escola.
Foi a minha escola e não podia ter sido melhor escola.
Porque vais aprendendo também com as pessoas do meio, com as pessoas que estão nos projetos contigo.
Exatamente. No mundo real.
Estamos aqui a chegar ao final e só te queria fazer mais uma pergunta, que é agora com 22 anos, tu achas que te conheces bem ou que ainda estás a descobrir quem é que tu és?
Ainda estou sem dúvida a descobrir quem é que eu sou.
O que te deixa mais entusiasmada nos próximos tempos?
Eu sou uma pessoa que gosta muito de explorar tudo. Eu gosto muito de fazer muitas coisas e estou muito entusiasmada por isso, por fazer coisas novas e diferentes, sei lá, por viajar, por conhecer pessoas novas e também descobrir mais quem é que eu sou.
E é fazer isso que vais descobrir. É viajar, é mesmo isso, é alargares o teu círculo, teres experiências novas e estás na idade para isso.
Exato.
Obrigada, Beatriz. Obrigada por teres aqui.
Eu gostei muito também. Obrigada.
Não é fácil, eu sei, mas amiga, faz parte. Encontramo-nos domingo à hora do costume?

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